Segunda-feira

(i)

“Lanchamos?”
A pergunta simples, normal, recorrente em quase todos os dias das últimas semanas, caiu-lhe mal. Já a esperava mas, ainda que julgasse o contrário, não estava preparado para ela. Cerrou os punhos com força sobre o teclado e respirou fundo, viu os : e o ) aparecerem, rodarem e formarem um mais completo e amistoso
enquanto os olhos davam um breve mas custoso passeio entre os punhos cerrados, o “Lanchamos?” e o S do teclado, primeira letra da palavra que ia escrever.
“Sim” escreveu, sem mais, apenas com a ponta do indicador direito, lentamente como se cada letra fosse uma palavra, uma frase, um parágrafo.
“18.15 à porta?”
Leu a resposta que prontamente lhe apareceu na pequena janela no canto inferior direito do monitor e anuiu telegraficamente “Ok”.
Olhou o relógio de pulso, 17:45, e sentiu a agonia dos trintas minutos que lhe faltavam formar-se numa bola ácida na boca do estômago que, sabia, lhe ia subir até à garganta e que, depois, alastraria à boca e, na verdade, ao corpo todo. “Daqui a meia-hora, eu sou esta acidez e esta acidez sou eu”, pensou num tom trágico, quase retemperador, que, no entanto, não o convenceu a não tomar um anti-ácido com resultados garantidos, “Talvez se isto não me fizesse mau hálito” justificou-se. “Sempre era mais uma coisa em que pensar, além dela, além das palavras que lhe vou dizer….” Sorriu: “Talvez a própria dor me desse um ar sofredor, uma cor mais pálida, qualquer coisa que a distraísse. Na verdade, qualquer coisa que desse corpo à minha dor, aos meus sentimentos…” Soltou um risinho abafado, sarcástico: “Que ideias de merda, que ideias de puto. Para isso, podia flagelar-me e aparecer lá em baixo a escorrer sangue. E ela:
– O que é isso? – embasbacada, completamente estupefacta.
– Foi por ti, Sónia. Foi por ti.
E havia de se me agarrar ao pescoço e beijar-me, lamber-me as ferid… Não isso, não, era nojento. Beijava-me só e evitava o sangue que, de qualquer maneira, não era preciso ser muito. Uma coisinha ligeira só para a impressionar.”
Conferiu os mails, leu alguns, deu uma volta por meia dúzia de blogs e páginas de noticias e, sem conseguir decidir onde se havia de flagelar, desligou o computador, fechou a agenda aberta em cima da secretária, vestiu o casaco e saiu do gabinete.

Terça-feira

… mas ele não o fez.


Durante horas, com a espingarda carregada pronta a disparar, ouviu-lhe todas as histórias, todas as conversas, todos os episódios pelos quais não nutria o menor interesse: da mulher, da sogra, do patrão, dos irmãos, do rafeiro que trazia e da arma do avô que carregava como um brinquedo. E nunca, em qualquer minuto de todas as horas em que o ouviu, disfarçou o enfado, o aborrecimento, o desconforto e o incómodo que a ininterrupta arenga lhe causavam.
Durante quilómetros, sem disparar um único tiro, aturou-lhe as infantis pantominices, as corridas sem nexo, os saltos por cima de arbustos, sebes, árvores caídas e pequenas barreiras, anunciados, todos eles, com gritos, braços no ar ou sorrisos abertos como se de grandes feitos se tratassem. Como se ele não fosse um homem mas um gaiato.
Durante o frio da manhã e o calor da tarde aturou-lhe os maiores disparates, os comentários mais estapafúrdios, os mais bizarros nomes ou as indescritíveis historietas sem graça que lhe ocorriam por causa de uma árvore, de uma planta, de algum pássaro, insecto ou réptil que, certamente surdos, não os evitavam.
Durante um dia inteiro de caça, que mais valia aos gambozinos, viu-o brincar com os cães como uma criança; distrai-los, corrompê-los, enganá-los às gargalhadas, aos gritos, aos pinotes como se tivesse alguma graça, como se aquilo fosse um jogo, uma brincadeira.
Pela primeira vez em muitos anos de caça não disparou um único tiro, não avistou uma peça, não vislumbrou sequer a mais pequena possibilidade de, em silêncio, em sossego, em vigilante cuidado, levantar a espingarda, apontá-la e desistir num último momento por se ter enganado. Nem sequer se enganou entre um coelho e uma lebre, entre uma perdiz ou uma codorniz, uma avestruz e um canário, não viu nada. Nada!
– Ouve lá – perguntou, estafado, farto de ver os cães correrem para nada, de andar para nada, de nada apontar para nada –, tu vieste à caça ou vieste entreter os animais?
Ele riu-se, com um riso sincero mas alarve, numa gargalhada franca mas despropositada e gritou:
– Essa é boa!... Entretê-los! Essa é muito boa!
Sentiu o volume e o peso da arma e pareceu-lhe – e nunca antes ou depois lhe parecera isso – que a arma lhe sussurrava uma solução instantânea para resolver o seu estado de espírito, o seu cansaço e o seu desespero. Espantado, estacou, engoliu em seco e suspirou.
O imbecil ria-se e repetia “entretê-los, entretê-los” como se acabassem de lhe contar uma irresistível anedota.
O caçador, pois só ele o era, baixou os olhos para o chão, fechou a arma e sopesou-a como se hesitasse no seu uso.
– Viste alguma coisa? – gritou o outro, estridente, olhando em volta com ar alucinado e estúpido.
Subitamente imóveis, os cães pareciam fitá-lo e pedir-lhe que se decidisse de uma vez, trocando olhares cúmplices e compreensivos, garantindo, com os seus olhos límpidos e leais, eterno silêncio e apoio.
Tornou a engolir em seco e evitou os olhares dos cães, tal como tentara esquecer a arma que tinha na mão.
– Viste alguma coisa? – matraquilhava o outro. – O que é que viste?
O caçador ainda o ouvia, mas a voz dele sumia-se como se se estivessem a afastar e a imagem dele desvanecia-se rapidamente, tornando-o numa voz sumida de um ser sem rosto, sem personalidade e, no momento seguinte, sem que sequer o estranhasse, já só ouvia um ruído de fundo sibilante nada parecido com uma voz humana e apenas via um vulto em movimento que ora se aproximava de si, sibilante, ameaçador, ora se afastava, temeroso, esquivo. Um alvo exótico, esquisito, com uma cabeça ridiculamente opada a esvoaçar desordenadamente como “um balão numa barraca de feira engaiolado e impulsionado por uma ventoinha para ser rebentado por uma pressão de ar. A merda de um balão amarelo” pensou.
– Viste alguma coisa? – repetia o imbecil saltitante, virando-se em todas as direcções, procurando para todos os lados.
“Como um balão-alvo” suspirou, a medo.
E, sem perceber o que se estava realmente a passar, ouviu:
– Já vi! Já vi! – e depois a ordem: – Dispara! Dispara!

Sexta-feira

!!!

desculpa
não peças desculpa, fode-me e cala-te!

é o que estou a fazer

então,
cala-te!
foda-se

o que foi agora?!
não sei se fechei o carro
desculpa?!

não sei se fechei o carro
pára! sai!

o que estás a fazer?
sai!

porquê?

porquê?!

não
querias que eu te fodesse e me calasse?
calaste-te?!
calei
essa é para rir, não é?!
não. eu calei-me, só disse que não sabia se tinha fechado o carro

só?!

não sei se fechei

vai ver!

agora?

sim e podes seguir viagem!

estás a mandar-me embora?

o que é que te parece?!

mas eu não ia lá abaixo
não?!
não, ia à janela com o comando
ah! grande diferença!
o que estás a fazer?

estou à procura das cuecas!
porquê?
para as vestir!
vest… tens de falar sempre com ponto de exclamação?
o quê?!
até nas perguntas
até nas perguntas, o quê?!
tens pontos de exclamação
é melhor do que tu!
do que eu, porquê?
as tuas frases são amorfas, uns pãezinhos sem sal, nem ponto final merecem!
vai-te lixar
"vai-te lixar!"... não é “vai-te lixar” como se me estivesses a pedir por favor!
não quero ser mal-educado
isso é ser mal-educado, fica sabendo!
porquê?
tens de ser afirmativo, foda-se!, não podes ser sempre um choninhas!
o que queres que eu faça?
que me fodas!
agora?
não, amanhã!... claro que é agora!
pensava que já não querias
deixa de pensar! e diz: foda-se! não sei se fechei o carro!
isso foi o que eu disse
com pontos de exclamação?!
não
então, agora dizes com pontos de exclamação! e podes dar-me umas palmadas nas nádegas!
posso?
porra, é preciso fazer um desenho?!
quando?
o desenho?!
não, as palmadas. quando é que te dou as palmadas?
foda-se! quando exclamares, enquanto me possuis por detrás, foda-se! não sei se fechei o carro!
ah... queres?
quero!
então, espera só um minuto que eu vou à janela ver se fechei...
foda-se, vai-te lixar!!!

Quinta-feira

A Tropa

O alferes estendeu o braço e sorriu.
O general corou, deu-lhe a mão e voou.
Ratazanas!, gritou o coronel, desconsolado e cruel.
Que vergonha, comentou o tenente.
Um general a voar?, inquiriu o sargento.
Não, um coronel a chorar e um general a corar.

Quarta-feira

A estrada

– Nunca quis passar a estrada.
– Qual estrada?
– Uma estrada… Uma estrada que eu tinha inventado para mim próprio.
– Uma estrada mas…
– ela hesitou e perguntou: Uma estrada mesmo?
– Não, a estrada é uma metáfora. A estrada é por causa de um cão.
– Um cão?!... Uma estrada?! Um cão?! Que raio de conversa é essa?
– Nada, isso era outra conversa.
– E esta é só sobre tu nunca teres querido passar uma estrada, que não é uma estrada mas uma metáfora…
Ele acenou com a cabeça, concordando, enquanto apertava os lábios e erguia ligeiramente as sobrancelhas, percebendo e aceitando a imagem absurda que ela procurava transmitir do que ele acabara de dizer.
Ela continuou:
– Uma metáfora causada por um cão que… – fez uma pausa e olhou-o apenas de relance.
Ele esperou a pergunta, ela não o desapontou:
– E o cão, era um cão mesmo ou uma metáfora?
– Um cão – disse ele, com um sorriso.
– Uma estrada que é uma metáfora para um cão que é mesmo um cão?
Ele suspirou mas não deixou de sorrir.
– Na verdade, para o cão a estrada foi uma estrada – esclareceu ele – e não uma metáfora.
– Foi?
– Ainda que mais valesse ter sido uma metáfora.
– Porquê?
– O cão morreu atropelado nessa estrada.
– Que o cão também não queria passar?
– Tinha sido ensinado assim.
– Assim, como?
– A não passar, a não atravessar a estrada…
– Mas atravessou?
– Atravessou.
– E foi atropelado?
– Foi.
– E tu?
– Eu, o quê?
– Não querias atravessar a estrada, que para ti é uma metáfora, porque não querias ser atropelado?
– Pois.
– Mas, pelos vistos, atravessaste!
– Pois.
– E continuas com medo de ser atropelado?
– É um risco.
– E tem valido a pena?
– O quê, o risco?
– Sim, tem valido?
Ele fixou os seus olhos nos dela, fechou o sorriso, para recomeçá-lo de novo só para ela, só por causa dela, e respondeu:

– Completamente!

Terça-feira

o garfiar recomeça aqui.