15 de Maio de 2013

Inferno

Sem se conter, Langdon saiu do carro com um sorriso de orelha a orelha, a mostrar os dentes imaculadamente brancos e alinhados. Não era para menos: as suas últimas descobertas iam revolucionar tudo o que se conhecia sobre o mundo. “Enoch”, pensou Langdon, referindo-se à personagem bíblica e não ao cão do seu vizinho – nunca percebera porque raio o parvo do vizinho chamara Enoch ao cão e aquele também nunca lhe explicara (provavelmente porque ele nunca lho pedira). – “Enoch” recomeçou o arreganhado Langdon, carregando no botão do fecho electrónico do carro, “vai ser finalmente conhecido e reconhecido. Não ficará pedra sobre pedra no nosso conhecimento, nas nossas infladas certezas.”
Langdon olhou para o carro mal estacionado e, despreocupado, encolheu os ombros: nos livros não há polícias de trânsito, nem funcionários da EMEL lá do sítio e, ainda para mais, depois do que ele iria anunciar na conferência de imprensa que tinha convocado para apresentação do novo livro onde entrava, o colapso dos dogmas vigentes e da civilização que neles se funda há-de de ser imediato e absoluto.
Langdon ajeitou o cabelo, tornou a olhar para o carro que ocupava o passeio e hesitou. Duvidou: “E se ninguém quiser saber?”; “E se me bloquearem a roda?”; “E se o autor quiser ser realista para variar?” Incomodado, olhou para o relógio: ainda tinha tempo. Reentrou no carro decidido a dar a volta ao quarteirão e a estacionar correctamente o veículo, para não arriscar. “Havia de parecer mal, eu estar a pôr em causa os fundamentos da civilização, das religiões monoteístas, do mundo em geral e, de repente, ter de sair a correr para ir mudar o carro por estar em cima do passeio”, cogitou, pondo o veículo a funcionar.
“Isto é que um inferno. Um verdadeiro inferno, bolas!” – Langdon deu uma palmada no volante a meio da infrutífera volta. – “Qual Enoch, qual carapuça, um lugar para estacionar quando se quer é que mostra o inferno da nossa existência e prova a inépcia de Deus e o primado do Mefistófeles sobre as nossas miseráveis vidas.”
Na berma, sorrindo sonsamente com o seu ar estranho e alucinado, o indivíduo com o desgrenhado cabelo de beterraba ripada e a pele cor de sandes de torresmo com nome grego (o individuo não o torresmo), que fala sobre como os extraterrestres fizeram tudo e mais alguma coisa no Canal História, acenou-lhe com a mão esquerda e o respectivo dedo médio erguido, enquanto que, com a mão direita, lhe mostrava um cartaz, onde se lia: “Enoch é a prova! Os ET’s estiveram connosco!”
“O que é que este gajo está aqui a fazer?”, perguntou-se Langdon com a mesma sensação de impreenchível vazio com que fica alguém que oiça o Seguro por mais de trinta segundos.
– E é provável que ainda estejam no meio do teu cabelo, ó palerma! – gritou, rindo, Langdon, mesmo sabendo que o outro não o podia ouvir, ao mesmo tempo que se virava para trás para lhe mostrar o dedo médio da mão direita em estado de rigorosa verticalidade.
Voltando à busca por um lugar para estacionar de forma contratual ou legalmente permitida mas sem perder de vista o dedo que não encolheu, pois, pelo caminho que a sua demanda levava ia tornar a passar pelo adorador dos estranhamente esquivos mas laboriosos extraterrestres, Langdon olhou em frente e foi surpreendido pela traseira de uma camioneta carregada de bigornas onde se foi enfaixar com catastrófico estrondo.
Do acidente resultaram ferimentos graves e uma selectiva amnésia em Langdon, a destruição do manuscrito e das provas recolhidas para o mesmo e, pior, várias bigornas riscadas e ligeiramente amolgadas, obrigando o autor a recomeçar o livro, pondo-o, ao Langdon, numa cama de hospital em Florença e, depois, à procura do significado dos círculos concêntricos do inferno de Dante para despachar a coisa, que os editores não estavam para esperar mais três ou quatro anos por um livro de que, no fim, espremido não sai nada.

8 de Maio de 2013

Noite sem sonho

Beijavam-se em câmara lenta quando ela o olhou, sorrindo mais com olhos do que com a boca, e disse:
– É tão bom que não tenha de sonhar contigo para te ter.
Ele, sem saber porquê – pensou nisso depois e não conseguiu perceber a razão –, não sorriu, nem falou, apenas abriu muito os olhos e ficou à espera que ela dissesse mais qualquer coisa.
Ela repetiu num sussurro:
É tão bom que não tenha de sonhar contigo para te ter.  Fê-lo para si, para se ouvir, para apreender a frase e a ideia em todo o seu esplendor (a palavra é dele, que pensou nisso, assim, quando a ouviu repetir-se).
– É mesmo o que estou a sentir – disse ela, sorrindo com todos os elementos do rosto. – Houve alturas em que achava que te tinha só nos sonhos… – A expressão turvou-se-lhe, perdeu o brilho e a alegria, e recomeçou num tom mais resignado que triste: – Houve muitas alturas em que achava que só te tinha todo em sonhos, apesar de dormirmos sempre lado a lado.
– Sonhavas comigo?
– Ainda sonho – respondeu ela, prontamente. – Só que agora sinto que não o tenho de fazer para te ter todo comigo.
– Eu estive sempre cá – disse ele.
– Eu sei. Eu estava cá e via-te – concordou ela, irónica. – Mas não era da tua presença física que estava a falar.
Ele engoliu em seco e procurou com os seus lábios os lábios dela, beijando-os com suavidade.
– Amote muito – murmurou ele, entre beijos.
– Sem hífen?
– Sim, sem nada.
Sorrindo com ar trocista, ela levantou o lençol e, com a mão livre, agarrou-lhe numa ponta dos boxers velhos e largos que ele usava e perguntou teatralmente enfadada:
– E isto, é o quê?

22 de Fevereiro de 2013

Alcácer


– E a mim? – queixou-se o ministro.
– A si? – perguntou o motorista, pondo o carro em andamento.
– Sim, a mim! A mim ninguém canta o Grândola? – lamentou-se o ministro. – Cantam ao Relvas, ao Gaspar, ao Primeiro… E eu?! Eu não mereço a merda de uma cantoria…
– Desafinada e irritante?
– Seja o que for, bolas! – carpiu o ministro, enfático. – Das duas uma: ou gostam de mim ou acham-me irrelevante.
O motorista hesitou antes de olhar pelo espelho retrovisor.
– Gostam de si, senhor ministro – disse o motorista ao fim de uns segundos, olhando pelo espelho como se estivesse a falar a sério.
O ministro desapertou o colarinho e alargou a gravata um dedo no pescoço, meditou um instante e concordou com ar sério e grave: – Deve ser isso, Arnaldo. Gostam de mim.
O motorista anuiu com a cabeça enquanto metia a quinta velocidade e fazia o automóvel entrar no acesso ao auto-estrada, acenando em despedida aos batedores motorizados da GNR que encostavam à berma.
O ministro imitou o motorista e ergueu o braço, ainda que sem saber para quê, e, enquanto acenava com empenho, repetiu: – Gostam de mim, Arnaldo. De certeza!
O motorista concentrado em acertar entre os separadores da portagem, agarrou o volante e não respondeu.
Então, após transporem a faixa da Via Verde, quando os olhares do motorista e do ministro se tornaram a cruzar no espelho retrovisor, nenhum aguentou e desataram os dois a rir à gargalhada.

A mão



Há que reconhecê-lo: o homem esforçou-se com todo o empenho possível e imaginário, muito para além dos seus próprios limites. Evitou enquanto pôde: procurou distrair-se, embrenhar-se nos números e numa árida e longa explicação sobre as dificuldades da empresa, atacou as finanças e o governo, alargou-se no estado e no estado das coisas, queixou-se das dificuldades da profissão e do mundo actual, falou sem saber de quê a olhar sem saber para onde mas, no fim, não aguentou e tornou a olhar e a engasgar-se e a duvidar da sua sanidade mental e da realidade que os olhos lhe transmitiam. Lembrou-se do Dynamo, o mágico, e das impossibilidades que o homem fazia à frente de espectadores de olhos esbugalhados, enganados pelos seus próprios olhos, pelas suas próprias sensações; talvez ali estivesse a acontecer o mesmo e o engano fosse seu, a realidade não era a que lhe parecia estar a ver mas outra, pensou nisso sem convicção mas pensou que era o melhor que podia fazer. Engoliu em seco e esboçou um sorriso patético de quem não sabe mais o que fazer. A doutora respondeu-lhe ao sorriso com outro sorriso, um sorriso diferente, um sorriso quase encantador se não fosse tão claramente predatório. O homem, que ainda se forçava a agir como o bonus pater famílias que tentava ser, concluiu que estava a ver bem: o sorriso não mentia e a mão dela que ele deixara de ver debaixo da mini-saia estava a acariciar a perna, o interior da coxa, a virilha e sabe-se lá que mais. Ele falava e ela ouvia. Ele seguia-lhe o movimento do braço e da mão que não via e ela sorria. Ele fazia que não percebia, ela insistia. Até que se cansou.
– O que nós temos aqui é uma falha de comunicação – lançou a doutora, ácida e impaciente, a pensar na frase e na voz no original: “What we've got here is failure to communicate. Some men you just can't reach.” O homem permaneceu calado à espera da continuação. Ela fez-lhe a vontade: – Uma falha na comunicação que se concretiza na mais terrível e completa ausência de percepção e compreensão dos sinais que são transmitidos. – A mulher baixou os olhos para a mão. – É certo que os contabilistas, pessoas ligadas aos números e às contas, não são muito dados à leitura e interpretação dos desejos e vontades dos seus semelhantes mas, parece-me – a mulher fez uma pausa e fixou os seus olhos nos dele –, que há limites para tudo.
Ele engoliu em seco, com a certeza de que já se devia ter ido embora.
– Às vezes, as coisas não são o que parecem – justificou ele, titubeante – e deve-se evitar ao máximo os passos em falso. Os actos incertos. As escolhas inseguras.
O sorriso da doutora murchou até se tornar num esgar de fúria:
– Eu estou a masturbar-me à sua frente há 10 minutos – declarou a mulher, cerrando os dentes para se controlar. – O que é que aqui não é o que parece?! O que é que lhe parece incerto?! O que é inseguro?!
O contabilista engoliu novamente em seco e imaginou-se a folhear o Código do Processo e do Procedimento Tributário, ainda que sem saber porquê ou para quê.
– Não me pareceu que se estivesse a masturbar…
– Não? – A doutora riu-se nervosamente e levantou parte da saia para lhe mostrar que não tinha roupa interior.
– Pensei que estivesse com alguma comichão – disse ele. A mulher parou de rir e recompôs a mini-saia, ele continuou: – Pensei que pudesse estar com alguma infecção vaginal. Agora anda aí muito disso.
As pálpebras da mulher fecharam-se e abriram-se várias vezes sem que houvesse qualquer outro movimento no rosto ou indício de expressão.
O contabilista pensou no Plano Oficial de Contabilidade todas as vezes que lhe viu as pálpebras em vez dos olhos.
A doutora pôs-se de pé, ajeitou a saia e, sem uma palavra, estendeu-lhe a mão para se despedir.
O contabilista levantou-se com um salto, colocou os papéis rapidamente na pasta e agarrou-lhe a mão, que ela agitou num passou bem formal.
A doutora largou-lhe a mão e abriu-lhe a porta do gabinete. Estava firme e hirta como uma barra de ferro mas, quando ele ia a sair, não se conteve e sussurrou-lhe:
– Pode sempre cheirar.
O contabilista estacou, colocou a palma da mão em concha em frente ao nariz e inspirou, os olhos brilharam-lhe e as sobrancelhas subiram, baixou a mão e, no meio de um sorriso deliciado, fixou-a e disse-lhe:
– “I wish you'd stop being so good to me.”
Apanhada de surpresa, a doutora soltou uma sonora gargalhada.
– Eu estava a pensar nesse filme – disse quando conseguiu falar. O contabilista assentiu com a cabeça, sem alterar o anterior sorriso. – Sendo assim, sabe que essa fala é anterior à da falha de comunicação. – O contabilista confirmou com novo aceno. A doutora acompanhou-lhe o aceno com igual movimento e concluiu, enquanto retornavam para o gabinete e ele fechava a porta: – E sabe, certamente, o que acontece a seguir a ele dizer isso…
O contabilista largou a pasta para o chão, baixou a cabeça submisso e disse em tom que lhe saiu exageradamente sério, quase litúrgico de mártir a caminho da arena:
– Sei e mereço-o.

31 de Janeiro de 2013

A Promessa


Mafalda pousou os cotovelos na mesa, entrelaçou os dedos com as mãos quase à altura da cara e esboçou um ligeiro sorriso:
– A verdade é um caminho sem fim, António. Queres mesmo ir por aí?
António José pensou na frase e, depois, com um ligeiro mal-estar, na ameaça que a pergunta insinuava.
Mafalda tinha os longos cabelos apanhados num impecável rabo-de-cavalo. Os cabelos estavam coloridos com um preto forte, uma cor artificial mas que lhe sublinhava com naturalidade os traços do rosto, as sobrancelhas bem delineadas, as pestanas esticadas, uma ligeira linha nas pálpebras e o negro dos olhos que o avaliavam com risonha sobranceria.
António rendera-se há muito aos encantos selvagens da agora ex-mulher e caía sempre sob o seu domínio, ainda que tivesse adquirido, ao longo dos anos, estratégias para disfarçar essa situação.
– Era um caminho nov0 que podias trilhar – disse António, escolhendo as palavras e tentando propositadamente não responder.
Sem alterar a expressão, Mafalda passou a mão pela testa e pelo cabelo para ganhar um instante e, ao mesmo, a atenção do ex-marido.
– Mas queres a verdade ou não? – Perguntou, arqueando as sobrancelhas.
– Vou pensar no teu caso – respondeu António, encolhendo os ombros e fazendo um trejeito de desinteresse com a boca.
Mafalda riu: um riso contido, cheio de ar expirado e malícia.
– Esse foi sempre o teu mal: pensares de mais, fazeres de menos. – Mafalda esmagou o riso com o tom e ar duro com que o censurava. – Queres a verdade, dizes! Não aguentas ou não queres saber a verdade, dizes! Não inventas, não rodeias.
António não piou – mas custou-lhe.
– De qualquer maneira posso-te dizer… – Mafalda passou o indicador direito pela sobrancelha do mesmo lado, num tique nervoso. – Quer queiras ou não queiras saber. Perguntaste, eu respondo-te: sim. Quatro vezes.
António perdeu a cor: ficou pálido, branco, translúcido. Tossiu. Coçou a testa com força com a ponta dos dedos, escondendo os olhos fechados atrás da palma da mão, e cerrou os dentes e depois os lábios.
– Mais alguma coisa? – perguntou Mafalda, impaciente, desejando sair dali, ao mesmo tempo que ali queria estar quando ele berrasse, quando ele fizesse uma cena, quando ele explodisse, quando ele…
“Não”, pensou Mafalda. “Não vai fazer nada.”
E ela só queria sair dali: ele ia fazer umas caretas como se estivesse num filme dos primórdios do mudo, pôr um ar de cão sem dono ou uma carranca do tamanho dum comboio e vitimizar-se em silêncio, de forma educada e contida.
“Um mártir. Este homem é um mártir.”
– Mais alguma pergunta, Tozé? – Insistiu Mafalda, farta do ar sonso do ex-marido, da sua posse estudada e dos seus tiques e arremedos teatrais.
– Eu era o chefe de família, Mafalda – suspirou António num sofredor fio de voz.
– E o outro era o rei mago escurinho – gozou Mafalda.
– O que é que isso tem que ver connosco?
– Nada – reconheceu Mafalda, que, de imediato, corrigiu: – Ou melhor, tem tanto como tu seres o chefe de família, seja lá o que isso for, e sendo tu o alegado cabecilha da família isso ter alguma importância para o que eu te disse.
– E se eu chegar lá?
– Passa a cinco – declarou pronta e secamente Mafalda. – Cinco vezes que eu não voto em ti, António. Fica prometido.

23 de Janeiro de 2013

Discos Riscados



– Acho que foi uma pergunta banal – esclareceu Sara, encolhendo os ombros.
Renata pousou a chávena de café vazia, sem deixar de olhar para a amiga, e perguntou:
– Achas que a razão de acabarem foi uma pergunta banal?
Sara acenou com a cabeça para confirmar e fez-lhe uma careta de “parece estranho mas foi isso”.
– Uma pergunta banal?! – Insistiu Renata.
– Uma pergunta banal – repetiu Sara, repetindo também a careta. Renata ficou à espera de mais. Sara esticou o silêncio até onde pôde mas o olhar inquisidor da amiga acabou por vencer e explicou: – Não foi o fim. A pergunta em si não foi o fim, foi o princípio do fim. Foi o ponto de não retorno. Foi um momento. Uma epifania. “Porque estou eu a insistir neste gajo? A seguir a esta pergunta banal…” Não pensei assim, pensei: “A seguir a esta estúpida pergunta banal vão-se repetir milhares de perguntas estupidamente banais ou banalmente estúpidas”.
– Pode-se dizer banalmente?
– Acho que sim. Eu não disse mas pensei. – Sara olhou para a chávena de café vazia e continuou como se falasse para si: – Ainda não estou preparada para isso. Ainda não tenho capacidade para aguentar um encadeamento incessante de perguntas banais. Provavelmente, sou imatura e tenho de crescer e saber aguentar porque o que os homens mais fazem são perguntas banais. – Renata concordou com um suspiro resignado. Sara continuou: – Quando as coisas chegam a um certo ponto numa relação eles continuam a esquecer-se das perguntas que deviam fazer mas não fazem, nunca as fazem!, e, no entanto, tornam-se imparáveis debitadores de perguntas banais. Parecem cães de Pavlov: qualquer coisa uma pergunta. Perguntas sem jeito nenhum. Sem necessidade nenhuma. Parecem que têm cinco anos! Vão-se lixar! Não quero mais. Ainda não tenho pachorra para isso.
Renata abafou o riso atrás da mão.
– Não te rias que eu estou farta disto – reclamou Sara, sorrindo e abanando a cabeça de um lado para o outro. – Estou farta de vê-los regredir. De vê-los começarem como homens e acabarem em rapazitos.
– Mas… – Renata fez um esforço para parar de sorrir de forma tão ostensiva pois o sorriso da amiga tinha descolorido até se tornar num sorriso amarelo, muito mais triste do que irónico, ainda que ela não se tivesse apercebido disso. – Mas que pergunta foi essa, afinal?
– Não me lembro. Não me lembro mesmo – reforçou Sara, alegrando o sorriso. – Lembro-me do momento. Lembro-me de pensar “Já está!”. Lembro-me de fazer ainda um esforço para evitar conclusões precipitadas. De tentar qualificar a pergunta como apenas desinteressante e desinteressada em vez de banal e de, depois, pensar que uma pergunta que não é interessante e não se interessa pela resposta é, definitivamente, uma pergunta banal e que aquela, ainda que eu a pudesse tentar embrulhar para ficar mais bonita, era uma miserável pergunta banal. Não me lembro… – Sara fez uma pausa. Renata não sorria. – Mas isso não interessa nada. Não é relevante. Não é essencial. O momento é que conta, a minha percepção do momento é que é relevante. – Sara riu e acabou: – Isso e a sucessão sucessiva de perguntas banais que sucederam aquela e que sinalizaram e confirmaram a acentuada e galopante infantilização do sujeito.

18 de Janeiro de 2013

O acessório



Ana pousou a sua mão sobre a dele. Bento sorriu; ele não: fez uma cara ainda mais séria e olhou Ana com gravidade. Bento piscou o olho a Clara e desviou os olhos para as mãos de Ana e Dinis pousadas em cima da mesa, uma sobre a outra. Clara sorriu e Ana retribuiu-lhe o sorriso. Dinis continuava sério, compenetrado, mas os seus olhos brilhavam e riam.
– Arranjem um quarto – gozou Bento, batendo com o cotovelo no braço de Dinis. – Não percam mais tempo!
Dinis corou, Ana não, esmoreceu só o sorriso como se lhe ficasse bem ficar ligeiramente envergonhada.
– Oh Bento… – recriminou Clara, divertida com o ar de Dinis.
– Vão-se embora – continuou Bento, com o mesmo tom galhofeiro. – Deixem lá isto que eu pago. – Bento piscou o olho a Clara. Dinis, no meio da sua composta seriedade, percebeu que esperava com impaciência um sinal de Ana. – Podem ir descansados – murmurou Bento, cúmplice.
Ana olhou para Dinis, que olhava para ela como se estivesse prestes a ser fulminado por uma revelação. Ana ergueu as sobrancelhas e Dinis foi fulminado pela revelação que esperava, levantando-se como se a cadeira tivesse molas no assento. Ana levantou-se atrás dele e nenhum deles ouviu o que Clara lhes disse, enquanto seguiam de mãos dadas para o átrio.
Bento abanou a cabeça trocista: – Não te ouviram, Clara. Eles já não ouvem nada.
Clara assentiu com a cabeça de sorriso aberto: – Deixá-los! De qualquer maneira o andarilho só ia estorvá-los!

15 de Janeiro de 2013

"Tomei a liberdade de pensar nisso, senhora."



– Uma Conspiração de Estúpidos.
– Uma conspiração de estúpidos.
– Não, Uma Conspiração de Estúpidos.
– Qual é a diferença?
– É um título. É com maiúsculas.
– Como é que sabes que eu não estava a dizer com maiúsculas?
– Estavas?
Ela encolhe os ombros e reconhece: – Não.
Ele faz a cabeça descair ligeiramente para a direita e faz uma careta de “estás-a-ver?”.
Ela solta um “Ah!” sonoro seguido de uma gargalhada.
Ele responde com um “Pois” professoral.
– Não estava a perceber – diz ela, a sorrir.
– Eu percebi – diz ele, sem mostrar os dentes.
Calam-se. Ela olha para ele. Ele pensa que se tivesse um espelho também podia olhar para si. O narrador gostava disso.
– E? – Pergunta ela, a quem o silêncio faz cócegas.
– E? – Repete ele, sem fazer ideia do que quer ela dizer com o “E?”.
– Vais-me emprestar esse livro porquê?
Ele hesita. Ela não gosta de homens hesitantes: fazem-lhe febre. Ele olha para ela a calcular o impacto da sua resposta. Ela não gosta disso: os homens calculistas causam-lhe náuseas. Ele pensa em duas ou três coisas que pode dizer para justificar a escolha do livro mas não as diz. Ela, sentindo ligeiramente febril e agoniada, lembra-se, sem saber porquê, de Ferreros Rocher. Em vez do livro ele podia emprestar-lhe uma caixa de Ferreros Rocher. Ela sente-se de imediato melhor e imagina-se a devolver-lhe a caixa plástica transparente vazia.
– Sexo oral – declara ele de repente.
Ela engasga-se num Ferrero Rocher imaginário e tosse. Inspira pelo nariz para recuperar. Ele olha-a a conferir o impacto da resposta. Podia ter dito que o personagem principal tem um boné com umas coisas para lhe tapar as orelhas ou que as primeiras cento e tal páginas foram do melhor e mais divertido que leu ou contar-lhe a história do autor, que se suicidou porque ninguém lhe quis publicar o livro que, depois, acabou por ganhar um Pulitzer ou, simplesmente, que a história de Ignatius J. Reilly merece muito ser lida, mas decidiu-se pela verdade. Recomposta, ela espera uma explicação para o par de palavras que ele proferiu com súbita e inesperada convicção. Ele mantém-se impassível e silencioso. Ela questiona-o para quebrar o impasse, fá-lo com palavras que não se podem reproduzir, palavras como broche e minete. Ele que não esperava ser questionado sobre o tipo de sexo oral que pretendia alcançar por emprestar o livro, patinou. Sabia o que queria mas a alternativa não era desprezível, pelo contrário. E não se consegue decidir. Ela abomina tipos indecisos e decide que mesmo que ele lhe empreste o livro e ela goste muito nunca lhe fará um broche. Ele escolhe o minete e di-lo, trocando-lhe as voltas sem saber. Ela gosta disso e sorri.
– Antes ou depois? – Pergunta ela, para estabelecer um compromisso. Ela gosta das coisas bem definidas; não aprecia trapalhadas e odeia que lhe prometam coisas que não cumprem mas que, por não estarem devidamente estabelecidas, não podem ser reclamadas.
– Antes ou depois de quê?
Ela pergunta-lhe com todas as letras se lhe faz aquilo que não se pode nomear antes ou depois de ela ler o livro.
Ele abana a cabeça para dentro, censurando o narrador que o escreveu mas que não tem coragem de pôr as personagens a dizê-lo. É um recurso estilístico, justifica-se o narrador, que inicia uma longa e estéril explicação que claramente não está habilitado para fazer, pelo que não se reproduz aqui.
Ele pensa no tamanho do livro e como o achou desigual e responde à cautela: – Quando quiseres.
Ela lança-lhe um olhar lúbrico, que ele interpreta erradamente como uma reprovação à sua resposta. Ela levanta-se mas é a ele que falta o chão debaixo dos pés.
– Se é assim… – Ela fala pausadamente e olha-o nos olhos. Ele agarra-se aos braços da cadeira. Ele não percebe nada. Ela despreza os homens que não percebem nada, no entanto, quando o percebe já é tarde demais. Ele continua à espera do fim da frase, sem saber o que pensar. Ela julga que o ar apalermado dele é de subjugação à sua sensualidade e conclui num murmúrio lascivo: – Vou-me lavar.

19 de Dezembro de 2012

01:34


Helena acordou, olhou em volta e não viu ninguém. Demorou um instante a perceber onde estava e, só depois, já sabendo que estava no Lar, levantou-se ligeiramente, erguendo-se a custo nos braços do sofá, para olhar para trás de si e confirmar que a tinham deixado sozinha na sala da televisão. “Provavelmente esquecida”, resmungou resignada, deixando-se cair na posição original, sem força nem vontade para sair dali. Olhou para o relógio sem ver as horas e depois para a televisão, onde uns tipos muito mal achados, com ar de mortos levantados das campas, marchavam, como se não tivessem elasticidade nas articulações, atrás de outro que fugia, enquanto tentava desajeitadamente carregar uma espingarda. Helena abanou a cabeça, suspirou e fechou os olhos; não gostava de ver mortos na televisão mas, sabia-o, mal adormecia, via-os. De olhos bem fechados, enquanto esperava tornar a adormecer, sorria, pois os seus mortos apareciam-lhe sempre em sonhos, nunca em pesadelos.

13 de Dezembro de 2012

Everybody Knows (Except You)*



O nome no visor do telemóvel surpreendeu-a. Os seus sentimentos seguintes chocaram-na. Sem querer, numa fracção de segundo e sem que o conseguisse impedir, pôs em causa uma série de decisões e escolhas que, até aí, sempre lhe pareceram certas, definitivas e bem resolvidas.
Fixou o ecrã e, apreensiva, sentiu que não estava preparada para voltar a ouvi-lo, não naquele momento, não assim de surpresa.
Emudeceu o telemóvel e pousou-o de lado na secretária, de forma a não ver a luminosidade do ecrã.
“Provavelmente, só que me quer desejar bom Natal”, pensou, procurando dar uma nova e mais leve perspectiva ao turbilhão de sentimentos que a atropelaram.
– Que parva – censurou-se num murmúrio sentido. “Eu também lhe ia ligar… Que raio de parvoíce!”
Deitou o telemóvel, já apagado, conforme constatou com desconfortável alívio, e hesitou entre apagar a referência à chamada não atendida ou deixá-lo assim.
– Bolas, é demais… – queixou-se alto, quando se apercebeu que nos altifalantes natalícios da rua se repetia pela milionésima vez a sequência: Last Christmas, Do They Now It’s Christmas, I Wish It Could Be Christmas Everyday, Let It Snow Let It Snow Let It Snow.
– O que foi? – perguntou a colega da secretária ao lado.
– Estou farta desta música! Estou farta do Natal!
– Quem era?
– Quem era, o quê?
– Quem é que te ligou e tu não quiseste atender?
– Isso não tem nada que ver com o caso! A música irrita-me.
O telefone pousado sobre a secretária da colega tocou com o som das chamadas internas e aquela atendeu prontamente, dirigindo-lhe, ainda assim, um olhar trocista de quem sabia – e queria sublinhar esse conhecimento – que a fúria contra o Natal provinha de factores externos à época e que, no caso, se deviam tão só à proveniência do telefonema não atendido.
– Sim, doutor, está aqui. Eu digo-lhe – disse a colega ao interlocutor interno e desligou. – O chefe quer falar contigo – transmitiu, olhando propositadamente para o telemóvel ainda deitado na secretária dela.
– Agora? – perguntou, irritada.
– Já.
– Porque é que ele não ligou para mim?
– Sei lá. – A colega riu com ar trocista. – Se calhar teve medo que não o atendesses.
 (2009-2012)
*The Divine Comedy

7 de Dezembro de 2012

é fixe!


Mário acordou, levantou a cabeça com ar arremelgado e ainda ligeiramente sonhador e, com um sorrisinho expectante, perguntou à mulher que via as notícias da manhã:
– Já caiu?
– Não. – Maria, a mulher, suspirou e disse: – Bom dia para ti também.
– O tipo não se demitiu?
– Não.
– Mas já deve ter lido a carta, não achas?
– Já, claro que já leu – respondeu Maria com um suspiro.
– E não se demitiu?
– Não.
– E queres que eu te deseje bom dia?!
– Eu agora quero é que me deixes ouvir a meteorologia.
Mário resmungou e olhou para o televisor. O meteorologista anunciava frio.
– Já falaram em mim?
– Já.
As sobrancelhas de Mário sinalizaram a sua felicidade.
– E?
– A carta já é da semana passada, homem.
– Não é isso... Já falaram do artigo?
– Ah! Já.
– O que é que destacaram?
– O teres ameaçado o homem.
– Eu não o ameacei. – Mário esboçou um ligeiro sorriso trocista. – Eu avisei-o. – Mário não se conteve, abriu um sorriso como se fosse dono do mundo e disse com ar galhofeiro: – E, como se costuma dizer, quem te avisa teu amigo é.
– Pois… Isso é o que tu és mais.
– E da coincidência do dia, ninguém disse nada?
– Não.
– Estás a ver: eu bem te disse.
– Mas é de mau gosto, Mário, tens de convir. – Maria levantou-se. – Eu continuo a achar que não fica bem fazeres uma ameaça daquelas…
– Aviso!
– Que seja… – Maria vestiu o robe, que se encontrava pousado num cadeirão Luís XV ao lado da cama e concluiu: – Não te fica bem fazeres um aviso daqueles no dia em que o Sá Carneiro morreu.
– É para ver se o tipo abre os olhos – respondeu prontamente Mário, satisfeito e cheio de si, agarrando o comando do televisor.
Maria encolheu os ombros, sorriu-lhe com resignada ternura e saiu do quarto, abanando lentamente a cabeça.

29 de Novembro de 2012

50 Flexões!

A doutora, de brilhantes cabelos compridos muito escorridos, entrou pela secção adentro como se levasse asas presas às costas e estivesse a desfilar em lingerie. Caminhava com a segurança e leveza de uma top-model mas com a determinação e certeza de rumo de uma chanceler alemã. Atravessou a secção sem desviar o olhar do objectivo e, ainda que os visse pelo canto do olho, não respondeu aos sorrisos, nem se importunou com os ostensivos olhares gulosos ou invejosos que a acompanhavam. A doutora dirigiu-se rapidamente ao posto dele, que, espantado, a viu aproximar, pôr a mão esquerda sobre a sua secretária de forma suave, quase sensual, e, mostrando-lhe bem o conteúdo do decote a que ele nunca teria acesso, disse-lhe num sussurro:
– Quando receber o papel para o jantar de Natal, o Zé Manel vai dizer que não pode ir, ouviu?
Ele, com esforço e sem vontade, levantou os olhos do mítico decote que nunca lhe surgira tão perto nem tão real e acenou que sim com a cabeça, com ar absolutamente aparvalhado.
A doutora sentiu-se ligeiramente enjoada com o seu olhar de basbaque, “O que é demais enjoa”, pensou, mas, fosse como fosse, apreciou-o e sentiu-se lisonjeada e recompensada pelo trabalho que lhe dava ser e andar assim.
– Percebeu? – Perguntou, levantando a mão da secretária e cruzando, propositadamente, os braços.
Ele tornou a acenar com a cabeça e repetiu, monocórdico:
– Quando receber o papel para o jantar de Natal o Zé Manel vai dizer que não pode ir.
A doutora suspirou com ar enfadado. – É isso mesmo. – Descruzou os braços, deixando-os cair ao longo do corpo. – Alguma questão?
A ele passaram-lhe duas ou três questões que queria mesmo colocar mas calou-as: o mercado de trabalho não está para brincadeiras e a resposta a qualquer uma das perguntas não ia ser, de certeza, do seu agrado. Além do mais, provavelmente, as perguntas eram demasiado íntimas ou precipitadas e talvez não fossem bem compreendidas.
– Não, doutora – disse ele.
A doutora lançou-lhe um sorriso de circunstância cheio de dentes muito alinhados e brancos e, já sem sorriso, despediu-se com um aceno de cabeça de cariz fortemente militarizado.
– Ah! – A doutora parou e voltou-se para trás. Aproximou-se da secretária, baixou-se ligeiramente e disse-lhe num doce sussurro: – A nossa conversa não existiu. Ninguém pode saber.
Ele, entre as mamas da doutora e os mortíferos olhares que lhe lançavam da secção, não sabia para onde se virar ou onde se meter, mas ganhou coragem e perguntou num murmúrio angustiado:
– Ninguém?
– Ninguém. – A doutora levantou-se e passou a mão pelo liso cabelo brilhante, pondo fim ao debate.
Ele engoliu em seco, já sabia (na verdade, sempre soubera) para onde se virar e onde se queria meter mas isso não lhe dava mais ânimo ou determinação, pelo contrário. A custo, concentrou-se e insistiu:
– A doutora desculpe, mas se eu não posso dizer a ninguém, é a doutora que vai dizer isso ao Zé Manel?
A doutora lançou-lhe um olhar fulminante, agravado pelas longas pestanas arranjadas e pela cor de avelã dos seus olhos que brilhavam com matizes homicidas. O silêncio de que subitamente se apercebeu, fê-la perceber que estava toda a secção a olhar para si, sem que, no entanto, todos os olhares estivessem colados ao seu longo cabelo ou às suas costas, e isso enfureceu-a. Enfureceu-a muito: ninguém tinha o direito de lhe olhar para o cu naquele momento!
A doutora mostrou-lhe um esgar que fazia as vezes de um sorriso brincalhão. Por um momento, ele pensou que ela lhe fosse passar a mão pelo rosto, que lhe fosse fazer uma festa cordial na bochecha. Algo deslocado e estranho, inapropriado, mesmo, mas foi o que esperou durante um momento.
– A ele diz-lhe, tontinho – ciciou ela, como se lhe passasse a mão pelo rosto; as duas mãos pelo rosto e o beijasse na boca e lhe despenteasse o cabelo. – Só a ele.
Ele acenou que sim: que dizia; que o convencia; que ela estivesse descansada; que ele não ia falhar. Que o Zé Manel não vai ao jantar de Natal nem que ele o tenha de amarrar, espancar, atropelar. Matar!
A doutora percebeu e sorriu-lhe um outro sorriso. Um sorriso diferente de tudo quanto ele vira: ela acreditava nele. Ele tinha morrido e ido para o céu!
– O Dias ou o Santos, doutora? – A doutora franziu a sobrancelha direita e ele, só quando viu aquele movimento e uma ruga na até aí luzidia testa da doutora, é que se apercebeu que tinha feito a pergunta. Antes que ela franzisse a esquerda, ele justificou-se atabalhoadamente: – É que há dois Zés Maneis na secção, doutora. O Dias e o Santos. O Dias e o Santos são Zé Manel. Um é o Zé Manel Dias e o outro é o Zé…
– Já percebi – cortou a doutora com rispidez. Já não havia sorrisos, nem mortos, nem céu, nem festinhas na bochecha, nem nada que se parecesse. Ele encolheu-se e ela perguntou com a certeza de que a resposta dele seria a certa que ela não fazia a mínima ideia: – Oiça lá, acha que eu estou a falar de qual?
Ele pousou cotovelos e os antebraços na secretária, com as mãos encima uma da outra e chegou-se para a frente. Olhou para o lado, cruzando o olhar com mais de meia secção e, voltando a olhar para a doutora, disse, sem levantar a voz:
– Eu acho que a doutora pensava que o Zé Manel era eu. – Ele fez uma pausa para lhe dar oportunidade de o contrariar, o que ela não fez. Sem se mexer ele continuou: – E eu sei qual é o Zé Manel que o chefe não quer que vá ao jantar de Natal mas, se não se importar, vai ter ou de dizer aos dois ou de perguntar ao chefe qual deles é que não é para ir, porque para mim esta conversa não existiu. – Ele olhou uma última vez para o decote, o mais disfarçadamente que conseguiu e concluiu: – Agora, diga-me qualquer coisa alto, doutora, senão estou tramado com o resto do pessoal. Tramadíssimo. Tem de me mandar fazer qualquer coisa.

27 de Novembro de 2012

Keep It Real*



– Não é fácil ser invisível, pois não?
– Ser invisível?
– Sim. Não é fácil, pois não?
– Dá trabalho…
– Mas tu gostas.
– De ser invisível? – A mulher anuiu com um aceno. Ele confirmou: – Sim… Normalmente, gosto.
– Mas a minha pergunta não era essa. – Ele olhou para ela. Pensativa, ela hesitou mas concluiu: – Mas também me respondeste ao que te estava a perguntar. Eu não sabia se tu querias, se era propositado, e pensava que podia não ser fácil suportares ser invisível. Foi nesse sentido que perguntei.
Ele sorriu: – Queres dizer que consigo?
– Sim – concordou ela, com ar contrariado. – Durante um tempo isso chateava-me imenso. Ainda por cima parecia que te anulavas e isso enraivecia-me.
– Anulo-me?
– Não. Eu estava enganada. Demorei a perceber isso mas hoje tenho a certeza que não te anulas. És quando tens de ser mas depois desapareces. Não te impões… – Ela calou-se e esclareceu de pronto: – Não te impões no sentido de impores a tua presença… Desvaneces. – Ela gostou da palavra e sorriu. – Começas a desvanecer e depois desapareces. É isso. Já te vi fazer isso não sei quantas vezes. – Fechou o sorriso e disse: – Não chego a perceber é se as pessoas se esquecem de ti.
– E isso é importante?
Ela olhou-o como se a pergunta lhe fosse feita por um peixe.
– Por um peixe assado no forno – acrescentou ela. – Um peixe assado no forno rodeado de batatas assadas que o olham com ar estupefacto e o enxotam da travessa e ele…
– O peixe?
– Sim, o peixe. Levanta-se, põe uma cartola na cabeça, que aparece sabe-se lá de onde, e vai-se embora com ar pedante e superior.
– Só lhe falta uma bengala – diz ele.
– Não lhe falta nada – declarou ela, cortante. – O peixe é meu – remediou com um sorriso. Ele levantou as mãos como se o não quisesse. Sorriram os dois. Ela parou de sorrir e retomou a conversa: Não é importante? Claro que é importante!
– Eu não penso nisso.
– No peixe?
– Não, se as pessoas se lembram de mim. – O homem virou-se de lado, pousou o cotovelo na almofada, suportando a cabeça com a mão direita e, olhando directamente para ela, disse depois de pensar um pouco: – Ou melhor, às vezes penso mas…
– Estamos na cama? – Interrompeu a mulher.
– Não queres?
Ela olhou para ele, lançou-lhe um sorriso enigmático, levantou ligeiramente o lençol que os cobria e viu-lhe o corpo nu, baixou o lençol e tentou, mas não conseguiu, manter a expressão enigmática no sorriso.
– Não és invisível – gracejou ela.
Ele riu e respondeu: – E não vou desvanecer.
Ela preparava-se para responder quando se lhe nublou o sorriso e o olhar. – E eu? – deixou escapar em tom grave, preocupada.
– Tu também não.
– Eu também não, o quê?
– Não vais desvanecer.
– Ah! Espero que não – replicou ela, em tom mais ligeiro. – Era uma grande pouca sorte. – Os olhos dele brilharam. Ela deixou-o saborear o momento e, depois, esclareceu: – Eu estava a pensar em mim… Em como é que eu sou.
O homem pegou na dobra do lençol com a mão esquerda, junto ao ombro dela, tocando-lhe na pele nua com as costas da mão. Ela sentiu um ligeiro arrepio, “de expectativa?, de desejo?, de ansiedade?”, pensou para si, num instante, sem conseguir esclarecer. Esqueceu-se da dúvida quando ele começou a puxar lentamente o lençol para trás, descobrindo-lhe o corpo com requintado vagar.
Ambos gostavam do que viam e sorriram.
– Sorrimos muito, não é? – Perguntou ela, sem abandonar o sorriso.
– Sim – respondeu ele, sem perceber o alcance da pergunta. – Quando se justifica.
Ela riu-se: – Não éramos nós ou… não éramos especialmente nós. Éramos nós enquanto personagens.
O homem percebeu e concordou. – Mas o narrador ainda está aí? – Perguntou olhando em volta. – Eu agora preferia que ficássemos sozinhos. Tu não?
Ela ergueu-se esticando os braços e rolou para o homem, dobrou os joelhos, pôs os pés para trás e sentou-se assim, em cima dele. – Claro que sim – disse, beijando-o. – Ele vai-se embora agora. Vai tornar-se invisível, outra vez. Já teve o seu momento de visibilidade. – A mulher puxou o lençol atrás de si e tapou-os, fazendo-os desaparecer.

*Tanita Tikaram, do excelente "Can't Go Back"

9 de Novembro de 2012

Conselhos Escolares



Na sala de aula do meu filho, que anda na 4ª classe, quarto ano pelos “novos” termos, e enquanto espero pela professora para me falar da criança, vou-me entretendo a olhar para as paredes e para o que aí colaram. A dado passo, num pequeno quadro de cortiça, meio escondido e provavelmente esquecido atrás de uma estante, vejo um conjunto de conselhos ilustrados:

“Fazer sempre os exercícios concentrado e em silêncio” 
Na imagem um aluno muito composto, com ar concentrado e com os lábios visivelmente cerrados, para lhe percebermos o empenho e o silêncio, espanca um colega que está deitado no chão. Em baixo, à direita, há um polegar levantado. O colega, percebe-se, a figura é realística e pormenorizada, também está concentrado e em silêncio a levar porrada.

 “Ajudar os colegas que precisam de ajuda”
Por baixo da frase escreveram “mesmo quando não precisam” que riscaram, para depois escrever: “principalmente, se não precisam!”
Na imagem, continuação da anterior, estão mais meninos e meninas a pontapear o colega no chão, este e o que começou a bater-lhe têm agora lustrosos sorrisos de reconhecimento e gratidão. Um colega aproxima-se carregando acima da cabeça um peso de 16 toneladas. 

“Não sair do lugar sem autorização”
Vê-se uma carteira vazia, uma carteira de escola (cadeira e mesa, não das outras, que, aliás, dispensavam o adjectivo). Em baixo, lê-se: “As autorizações são emitidas às segundas e quartas-feiras, entre as 9:00 e as 9:15 h., na secretaria, mediante apresentação do impresso aprovado (Mod. 3455) devidamente preenchido”. Afinal, vejo agora porque foi apagado, há um esqueleto sentado na cadeira e uma poça seca de urina no chão por baixo da cadeira.   

 “Aguardar a sua vez na fila”
As mesmas personagens da primeira imagem, o menino que espancava e o que era espancado vêem-se de pé, lado a lado, afastando-se ordeiramente, há outro no chão e outros dois a baterem-lhe, todos com ar composto e irrepreensível, ao lado uma fila de colegas sorridentes e compenetrados aguardam a sua vez. Dá gosto ver que não há qualquer tipo de descriminação, pois, não se consegue perceber quem vai bater e quem vai ser batido. É uma imagem bonita. 

 “Ouvir a professora”
Há uma senhora sentada na secretária, pisca o olho esquerdo e sorri com ar ligeiramente malévolo que não procura disfarçar, por trás um quadro negro, onde está escrito: “Principalmente quando está calada”. Em baixo, no chão, está uma mulher totalmente amarrada com uma corda e com a boca tapada com um lenço e fita-cola, tem uma pasta em cima da barriga para nos indicar que é a professora. Pela porta entreaberta da sala, à direita na imagem, vê-se o mesmo aluno da imagem 2 a trazer um peso de 16 toneladas, vem composto e concentrado, e traz no bolso um papel enrolado onde se consegue ler “Modelo 3455” e parte de um carimbo “Aprov”. 

“Respeitar os colegas”
Há dois meninos de frente para nós, têm as mãos dadas, ar afectado e sorrisos doentiamente devassos. As mãos livres estão nos bolsos dos calções e nota-se que os sorrisos têm qualquer coisa que ver com isso – o artista é bom. Por baixo dos meninos escreveram: “mesmo que eles sejam onanistas compulsivos”. Em letras mais pequenas lê-se:  "Evitar os passou-bem não é falta de cortesia, é uma questão higiénica!"

“Ser amigo de todos” 
Há quatro meninos numa roda, ainda que um seja menina (ou, pelo menos, veste-se como tal), dos três que vemos, as caras são tristes, as expressões contrariadas, a postura cabisbaixa e resignada, a alegada menina, que está de costas, é visivelmente maior do que os outros, tem uma pose militar e uma catana e uma espingarda cruzadas nas costas, não vemos mas sentimos que se está a rir de felicidade por ter amigos. Um dos meninos é da imagem anterior, o que lhe agarra na mão que estava no bolso apresenta um compreensível ar de inqualificável nojo. 

“Não correr na sala, nos corredores e nas escadas” 
Uma cara de homem com ar ameaçador, por baixo lê-se: “Não vale a pena! Podes fugir mas não te podes esconder! – Mensagem do amado senhor Director do Agrupamento.” Ao fundo, num plano secundário, vê-se um peso de 16 toneladas debaixo do qual saem umas sapatilhas dum aluno, só se vê as solas e os calcanhares estão para cima, ao lado um outro aluno deitado de barriga para baixo com a uma catana espetada no meio das costas.  

“Guardar os materiais depois das aulas” 
Um aluno fecha a porta de um armário, tem a mochila às costas e todo o ar de missão cumprida. Pela frecha da porta a fechar-se vê-se a professora amarrada mas devidamente acondicionada. A professora tem um olhar feliz e aprovador.    

“Ser assíduo, pontual e trazer sempre o material necessário” 
Na imagem, o menino que espancava o colega no primeiro quadro dirige-se sorridente para a escola, numa mão um estojo com um conjunto de facas, serras e cutelos e na outra um balde com uma esfregona. A sair da mochila vê-se um livro: “Dexter – Manual Prático de Corte e Desmanche”.