Sem se conter, Langdon
saiu do carro com um sorriso de orelha a orelha, a mostrar os dentes
imaculadamente brancos e alinhados. Não era para menos: as suas últimas
descobertas iam revolucionar tudo o que se conhecia sobre o mundo. “Enoch”,
pensou Langdon, referindo-se à personagem bíblica e não ao cão do seu vizinho –
nunca percebera porque raio o parvo do vizinho chamara Enoch ao cão e aquele
também nunca lhe explicara (provavelmente porque ele nunca lho pedira). – “Enoch”
recomeçou o arreganhado Langdon, carregando no botão do fecho electrónico do
carro, “vai ser finalmente conhecido e reconhecido. Não ficará
pedra sobre pedra no nosso conhecimento, nas nossas infladas certezas.”
Langdon olhou para o
carro mal estacionado e, despreocupado, encolheu os ombros: nos livros não há
polícias de trânsito, nem funcionários da EMEL lá do sítio e, ainda para mais,
depois do que ele iria anunciar na conferência de imprensa que tinha convocado
para apresentação do novo livro onde entrava, o colapso dos dogmas vigentes e
da civilização que neles se funda há-de de ser imediato e absoluto.
Langdon ajeitou o
cabelo, tornou a olhar para o carro que ocupava o passeio e hesitou. Duvidou: “E se
ninguém quiser saber?”; “E se me bloquearem a roda?”; “E se o autor quiser ser
realista para variar?” Incomodado, olhou para o relógio: ainda tinha tempo.
Reentrou no carro decidido a dar a volta ao quarteirão e a estacionar
correctamente o veículo, para não arriscar. “Havia de parecer mal, eu estar a
pôr em causa os fundamentos da civilização, das religiões monoteístas, do mundo
em geral e, de repente, ter de sair a correr para ir mudar o carro por estar em
cima do passeio”, cogitou, pondo o veículo a funcionar.
“Isto é que um
inferno. Um verdadeiro inferno, bolas!” – Langdon deu uma palmada no volante a
meio da infrutífera volta. – “Qual Enoch, qual carapuça, um lugar para
estacionar quando se quer é que mostra o inferno da nossa existência e prova a
inépcia de Deus e o primado do Mefistófeles sobre as nossas miseráveis vidas.”
Na berma, sorrindo
sonsamente com o seu ar estranho e alucinado, o indivíduo com o desgrenhado cabelo
de beterraba ripada e a pele cor de sandes de torresmo com nome grego (o individuo não
o torresmo), que fala sobre como os extraterrestres fizeram tudo e mais alguma
coisa no Canal História, acenou-lhe com a mão esquerda e o respectivo dedo
médio erguido, enquanto que, com a mão direita, lhe mostrava um cartaz, onde se
lia: “Enoch é a prova! Os ET’s estiveram connosco!”
“O que é que este gajo
está aqui a fazer?”, perguntou-se Langdon com a mesma sensação de impreenchível
vazio com que fica alguém que oiça o Seguro por mais de trinta segundos.
– E é provável que
ainda estejam no meio do teu cabelo, ó palerma! – gritou, rindo, Langdon, mesmo
sabendo que o outro não o podia ouvir, ao mesmo tempo que se virava para trás
para lhe mostrar o dedo médio da mão direita em estado de rigorosa
verticalidade.
Voltando à busca por
um lugar para estacionar de forma contratual ou legalmente permitida mas sem
perder de vista o dedo que não encolheu, pois, pelo caminho que a sua demanda
levava ia tornar a passar pelo adorador dos estranhamente esquivos mas
laboriosos extraterrestres, Langdon olhou em frente e foi surpreendido pela
traseira de uma camioneta carregada de bigornas onde se foi enfaixar com
catastrófico estrondo.
Do acidente resultaram ferimentos graves e uma selectiva amnésia em Langdon, a
destruição do manuscrito e das provas recolhidas para o mesmo e, pior, várias bigornas riscadas e ligeiramente amolgadas, obrigando o autor a recomeçar
o livro, pondo-o, ao Langdon, numa cama de hospital em Florença e, depois, à procura do
significado dos círculos concêntricos do inferno de Dante para despachar a
coisa, que os editores não estavam para esperar mais três ou quatro anos por um
livro de que, no fim, espremido não sai nada.