Garfiar

Sexta-feira

As Mãos

As mãos aproximaram-se como se tivessem vontade própria. Tocaram-se. Roçaram primeiro levemente, costas com costas. Os indicadores saíram ligeiramente da formação e encontraram-se um com o outro, como corajosos batedores ao serviço dos restantes dedos ainda expectantes. Por um instante apenas eles se tocaram, indicador contra indicador, cruzando-se, sentindo-se, tacteando o desejo do outro, a vontade do outro. Sem parar, ele e ela continuavam a andar, a falar sobre uma coisa qualquer, como se as mãos que se tocavam, os dedos que se roçavam e entrelaçavam fossem sorrisos etéreos, sem corpo, sem passado nem futuro, sem justificações nem expectativas e não lhes pertencessem nem os vinculassem. Os toques leves, o roçagar ainda acidental que se podia explicar pela lenta caminhada lado a lado, entre sorrisos, risos e conversa sem conteúdo, deu lugar, espontaneamente, a um encadeamento perfeito, como se os dedos se vissem, soubessem o que fazer, como se as mãos se conhecessem, como se a pele se atraísse, e atraía. Mais do que mãos dadas, eles sentiam-no ainda que o evitassem pensar, era um abraço, eram dois corpos unidos por duas mãos; uma estranha união, que eles, perplexos, cada um por si, cada um com as suas razões, com as suas incertezas, sentia como completa, como estranhamente correcta, certa. As mãos juntas, sem que qualquer um deles o mencionasse sequer, para não quebrar o momento, o encantamento, representavam o que as bocas queriam, o que os olhos desejavam, o que os corpos esperavam sem que os cérebros o quisessem reconhecer.
A compasso, sem uma palavra, pararam e viraram-se um para o outro, unidos só pelas mãos, depois pelos olhos, pela boca, pelos braços. Beijaram e abraçaram na fúria contida da primeira vez, na contenção furiosa do tempo que esperaram para o fazer.
Depois, um beijo rápido, lábios que quase não se chegaram a tocar, e retomaram a caminhada, sem sorrisos, sem palavras, no pavor de chegar
, unidos de novo só pelas mãos como se estas tivessem vontade própria.
Aproximaram-se dos dois carros lado a lado, que haviam estacionado antes de se encontrarem para lanchar, e despediram-se com o formalismo da amizade e partiram sem mais, de mãos dadas.
– O teu carro fica ali?
– Fica – e beijou-lhe levemente as costas da mão que continuava unida à sua.

Segunda-feira

Um Curto Reencontro

Encontraram-se, por acaso, num bar. Cumprimentaram-se. Ela olhou-o, ganhou balanço e avançou sem rodeios mas com um sorriso torcido a preparar a fuga se necessário fosse:
– Nunca mais me disseste nada. – declarou. – Desapareceste.
– Desapareci? – perguntou ele, apenas para ganhar tempo, sorrindo só com a boca.
– Foi – afirmou ela, abrindo o sorriso defensivo. – Nunca mais disseste nada.
– Pois não – reconheceu ele, esboçando um ténue sorriso comprometido, procurando-lhe os olhos para perceber o terreno que pisava. Não compreendeu, o sorriso voltara à primeira forma, torcido mas sem qualquer ressentimento, o que ele preferiria. – Tens razão, nunca mais te disse nada.
O sorriso dela fechou-se por um instante, a franqueza dele desarmava-a sempre, ela sabia-o e, ainda por cima, nunca percebia se ele fazia de propósito ou se era mesmo assim.
– Porquê? – retorquiu ela, encolhendo os ombros, recuperando o sorriso e baixando propositadamente a pouca carga dramática do diálogo. Com eles não havia dramas, nunca houvera. – Porque é que nunca mais me disseste nada? – e gracejou, ante o desconforto dele: – Estavas com medo de mim?
Ele olhou em volta, pensativo, pôs os cotovelos nos braços da cadeira, entrelaçou as mãos em cima da mesa, mostrou-se pouco à vontade, separou as mãos e procurou o copo com a mão direita, segurou-o, aproximou-o de si sem o levantar da mesa e, sem a olhar, respondeu:
– Não sei – bebeu um gole, molhando os lábios, tornou a beber e despejou meio copo. – Achei que estavas à espera de algo meu que eu não te podia dar...
– O quê?! – interrompeu ela, surpreendida, furiosa. – Eu nunca te pedi nada!
– Ah! – Ele tentou sorrir, achou que havia ali um mal entendido qualquer, não estava à espera daquela reacção. – Não é isso – e, nervoso, não conseguiu deixar de rir, principalmente porque não sabia do que estava a falar, nem fazia ideia do que ela estava a pensar.
– Não é isso, o quê?! – inquiriu ela, o riso nervoso dele enfurecera-a ainda mais.
– Espera – pediu ele, sério –, deixa-me explicar.
Mas ela, espantada com o seu olhar saltitante e com a sua cara de vítima, já não quis saber.

Quinta-feira

Nunca tinha comido um "fortune cookie" ou bolinho da sorte, daqueles que se vêem nos filmes e séries americanas com um papelinho lá dentro contendo uma mensagem mais ou menos críptica, mais ou menos engraçada e com mais ou menos relevo para o desenrolar do filme ou série em questão.
Nunca tinha comido mas agora já comi - ofereceram-me um - e, se o bolo, na verdade uma espécie de bolacha, não é bom nem é mau, o papelinho fez-me voltar aqui, ainda que, provavelmente, contrariando o seu propósito, ora leiam:

You should respect the power of words and choose them with caution.

E é isso que tenho feito, talvez com cautela a mais, pois, não escrever não é respeitar as palavras nem, muito menos, escolhê-las com cuidado; não escrever é apenas a ausência de escrita, de palavras, é não só não as escolher como, realmente, acaba por ser um desrespeito ao poder das mesmas. Vou pensar nisso.

Quarta-feira

Tocou-se. Sentada no bidé olhando a parede forrada a azulejos, tocou-se, com raiva, com ódio, como se o que estava a fazer o pudesse magoar.
– sim gostava que entrasses agora

cuspiu nos dedos
– sim gostava que me visses
roçou-os espalmados, friccionou, acariciou

– sim gostava que me perguntasses porquê

afastou os grandes lábios
– sim gostava de ver a tua expressão de repulsa, de horror
introduziu o indicador e o médio
– sim gostava de me rir e perguntar-te e tu?
chorou, entre espasmos, prazer e um vazio que não conseguia preencher.

– e nós?
– sim e nós?

Pois...

– Gostava de ir a tua casa, conhecer os teus espaços, a tua luz, os teus objectos, sentir o cheiro e o ar da tua casa, ver os livros que tens, perceber a forma como a decoraste, como te instalas, como estás. Gostava de te ver no teu espaço, no teu mundo.
– Gostavas de me comer no sofá!
– Pois, isso também.

Terça-feira

Novas de Alegria no desconhecido nesta morada

Quinta-feira

(alguém se lembra do Pereira da repartição? É ele!)

– Está muito cheio, doutor? – Pergunta-me a lasciva empregada de balcão, que, até hoje, não me deu abébias, "ou comia-me e mais qualquer coisa?" parece perguntar-me, surpreendendo-me.
Olhámos para a chávena de café, está quase a transbordar. Os nossos quatro olhos – três, virei a saber depois – encontram-se uns centímetros acima do café, ela sorri e eu retribuo.
– Ainda cabia mais qualquer coisa... – digo, tentando apresentar uma expressão facial sorridente e dúbia que pudesse corresponder ao pensamento entre aspas que acabam de ler e que eu acho que ela estava a ter.
A pastelaria está quase deserta, tirando umas doze ou quatorze pessoas sentadas e outras sete ou oito em pé, isto, claro, se formos generosos e tivermos a malha pouco apertada quanto à definição de pessoas. Ela ignora olimpicamente pedidos e chamadas de atenção e mantém-me no centro das suas atenções. Eu estou excitadamente nervoso ou nervosamente excitado, nem sei, mas estou a gostar. Ela encolhe o sorriso, mas não se afasta, põe ar de menina travessa e pergunta:
– Acha, doutor? – carregando sensualmente no doutor. – Conseguia e... – ronrona – comia?
"Se conseguia?! Se conseguia?!", eu já vou a duzentos à hora, pronto para me estampar ao mínimo deslize. Hesito na resposta, ela deixa crescer o meio sorriso ante a minha evidente atrapalhação, a expressão facial sorridente e dúbia já era. Devo acrescentar, sem jurar, que ouvi um "me" no fim do ronronado "comia" mas por essa altura, após a pausa que antecedeu o miado, já pouco ouvia, confesso, provavelmente terei imaginado, ela não me disse "comia-me?", ainda que a expressão do Oliveira que se colou a mim me fizesse crer exactamente o contrário, ele ouviu, conseguirá ainda em choque dizer-me umas horas depois, mas também não acreditou.
Respiro fundo, faço que estudo o tampo do balcão e torno a respirar, parece-me que se não me capacitar que o tenho de fazer o meu corpo não o faz por mim. Inspiro. Expiro. Inspiro.
– Quando é bom, cabe sempre mais qualquer coisa – respondo por fim, ignorando a última pergunta. Inspiro. Expiro. – Como se costuma dizer, quem come por gosto...
– Não é corre, doutor?
– Mas quem come com gosto também não se cansa, não acha?
– Lá isso é verdade – ela abre o sorriso. Eu mexo o café e entorno para o pires, mas faço-me despercebido, como se fosse de propósito. Ela continua: – E gostava de... – baixa e torna a levantar os olhos, encontrando-os com os meus. – Quero dizer, gostava... O doutor gosta de comer?
Decido dar um passo em frente, que se lixe, não sou doutor.
– Gostava – faço uma pausa para sublinhar o gostava e concluo como se estivesse seguro do que estou a dizer: – Gostava, gostava muito de... comer – o "a" é que não tive coragem de incluir, não saiu ainda que eu não pensasse noutra coisa. – Quero dizer, gosto, gosto muito de comer.
A frase soou-me mal, muito rasteira, ou melhor, o acrescento soou-me mal, mal metido, muito evidente, sem graça e temi o pior. Ela enigmatizou o sorriso e o olhar e atendeu displicentemente aquele a quem já se tem chamado Borrego, mas que não entra nesta história.
Bebi o café.
Ela não me olhou.
Tirei as moedas do bolso e coloquei uma de 50 cêntimos em cima do balcão. Olhei para dentro da chávena, confirmando que bebera tudo e, na certeza, de que a responsabilidade do insucesso era minha, preparava-me para sair.
– Já vai, doutor? – perguntou com uma ponta de tristeza. – Afinal, não come nada?
"Mau" penso, tentando esfriar o entusiasmo, quando a esmola é muita o pobre desconfia ou, pelo menos, devia desconfiar.
– O que eu queria – fixo-me nos seus olhos, – não posso comer agora! – com ponto de exclamação e tudo. Agora agarra, vamos lá ver se te desenrascas desta, venho aqui há dois anos e hoje, de repente, passas do oito para o oito mil sem justificação, nem preparação prévia. Eu sei que sou giro, mas isto é demais.
Ela abre o sorriso que se estende a toda a face, não!, a todo o corpo.
– É? – Agarra na minha chávena e pires. – E o que é que o doutor queria comer que não pode comer agora?
– Ah!...
E, felizmente, o Oliveira e o Borrego em coro, como duas meninas, começaram a tossir, a agitar-se, quase a desfalecer e ela com uma careta safou-me:
– É melhor ajudar os seus amigos, doutor, que eles não me parecem nada bem – piscou o olho direito e murmurou: – Amanhã à mesma hora e não se esqueça de me dar a resposta!

Segunda-feira

(iv)

Já sob a imensa e legal exaustão atmosférica, Sónia e Carla ainda riam quando encostaram a porta de vidro que dava acesso à varanda do vício, como todos lhe chamavam. Carla acendeu prontamente o seu cigarro, entrincheirou o isqueiro em mão protectora, estendeu-o na direcção da ponta do cigarro de Sónia e, ainda o fumo não chegara aos pulmões da amiga, avançou sem rodeios:
– Vão?
Sónia sabia que a “água”, a mesma água que as trouxera ali, havia de trazê-los à tona e que o cigarro era apenas uma desculpa da amiga para saber dela e dele, mas não esperava que os corpos – pensou assim, “os corpos” – dessem à costa logo na primeira onda. Engoliu o sorriso com a segunda passa no cigarro e fez-se despercebida:
– Vamos?... Quem?
– Tu e ele. Vão?
Sónia lembrou-se das magníficas unhas pintadas a baterem no tampo da secretária, revelando a impaciente curiosidade da amiga, e sorriu com a sua transparência, sem subterfúgios nem rodriguinhos. Era directa. Carla era sempre directa. Sónia levou o cigarro à boca, deu uma passa especialmente demorada, exalou o fumo com lentidão e, no fim, tentou:
– Sabes que ando para te perguntar uma coisa…
– É?! O quê?
– Estás a fumar mais?
– O quê?
– Estás a fumar mais?
– E o que é que isso tem a haver? – Carla olhava-a fixamente, propositadamente, sem definir a expressão.
– Com quê?
– Com vocês – o tom era ríspido, ainda que amaciado por um meio sorriso compreensivo. – Tu e ele.
– Nada – reconheceu Sónia, arqueando ligeiramente as sobrancelhas.
– Ah!... – Carla não se importou com a tentativa fracassada da amiga de desviar a conversa, encolheu os ombros e persistiu como se nada fosse: – Mas vão?
– Vamos.
– Ah!... É?... Onde?
– Estás a fumar mais, não estás? – insistiu Sónia.
– Vão onde? – Carla, como sempre, tinha a sua própria agenda, o seu próprio ritmo e escolhia em função disso as respostas que dava ou omitia e as perguntas que fazia.
Sónia, que a conhecia bem e sabia quando devia desistir de engodar a conversa em seu favor, deu outra longa passa, olhando distraidamente para outros homens e mulheres que fumavam noutras varandas e acabou por responder directamente e com sinceridade:
– Não sei – disse e, sem se virar, acrescentou: – Ele estava esquisito…
– É segunda-feira – sentenciou Carla e, tocando no ombro da amiga, apontou disfarçadamente para uma varanda à esquerda: – Olha!
– E depois?
– É o António.
Sónia seguiu-lhe o subtil movimento, a varanda não era longe, e os gestos eram perceptíveis à distância. O homem acenava.
– Não é isso – esclareceu, ainda que procurasse perceber quem era o António. – O que têm as segundas-feiras?
– Ah! – Carla sorriu e decretou a meio-tom: – As segundas-feiras são dias estranhos em casos extraconjugais.
– Desculpa?! – Sónia engasgou-se e tossiu mas Carla não lhe ligou, ainda olhava para a varanda do 3.º esquerdo das traseiras de um prédio do quarteirão, onde estava António e outro indivíduo. Sónia espantada, tanto com a forma como com a matéria da sintética mas definitiva tese da amiga, repetiu-lhe a frase: – As segundas-feiras são dias estranhos em casos extraconjugais – e questionou, de sobrancelha direita a sublinhar a estranheza: – Que merda de conversa é essa?!
Carla riu, acenou para António que lhe acenava com insistência e comentou displicentemente:
– Era um bom minete mas um chato do pior.
Sónia tornou a engasgar-se mas não tossiu. A sobrancelha direita, que por acaso era a esquerda, sinalizou a mudança de humor da dona e arqueou ligeiramente, para um trejeito cómico.
Carla, acenando para António, repetiu para amiga:
– Tinha uma língua brutal, fazia coisas… brutais mas de resto, era quadrado. Um chato do pior.
Sónia não se conteve e deu uma gargalhada:
– Um bom minete?
– Era, era um bom mineteiro – confirmou Carla, de polegar em riste, perguntando à distância se estava tudo bem com o mineteiro fumador que, percebia-se, inchara e sorria com quantos dentes tinha na boca ante os coloridos cumprimentos da mulher.
– António? – perguntou Sónia.
– Sim – respondeu Carla entre gestos e acenos excessivamente simpáticos, teatrais. – Achas que estou a exagerar? – perguntou a meia voz.
– Em quê?
– Nisto, nestes cumprimentos, nestes acenos – explicou Carla, ainda a gesticular. – É certo que ninguém me fez um minete como ele fazia…
– Era assim tão bom?
– Era de ir ao céu e… – Carla olhou a amiga directamente, suspirou e de sorriso beato e olhar ditoso completou: – E ir ao céu e ir ao céu e ir ao céu.
– Bolas! – pasmou Sónia, fixando-se em António, que continuava a gesticular e a sorrir com ar de parvo.
Carla esticou o polegar e o mindinho encolhendo os restantes dedos da mão direita que encostou à face enquanto acenava com a esquerda uma fria despedida e disse à amiga virando-se definitivamente para a porta envidraçada:
– Um bom minete mas pouco mais, de resto era muito mole. Acho que pensava que tinha uma língua de ouro e que isso bastava, o panhonha. E está na mesma, com o seu ar convencido e meio apalermado.
– Estavas a dizer-lhe para te ligar…
– Pois estava – Carla riu – e, se ele me ligar, vai falar com o Antunes.
– Qual Antunes? O Antunes, o teu ex?
– Sim – Carla não conseguia parar de rir –, ele é que ficou com o telemóvel que o António tem.
– O teu ex-marido ficou com o teu telemóvel?
– Ficou com um, disse que era da empresa – Carla falava despreocupadamente com um sorriso malicioso. – Quando me pagou metade da quota nas partilhas, quis ficar com tudo o que era da empresa e eu dei-lhe o telemóvel…
– Podias ter ficado com o cartão.
– Não – o sorriso cresceu e alastrou, a expressão facial e corporal de Carla era todo um tratado de satisfeita malícia. – O cartão é que interessava, eu só lhe disse que, se fosse a ele, não dava aquele telemóvel a ninguém e ele ficou com ele, o parvo, e não o desligou!
Carla deu uma gargalhada.
– Mas, afinal, o que tinha esse telemóvel?
– Tu não o tinhas – Carla não parava de rir. – O António tinha. O Fernando tinha. O Dr. Paulo tinha. O…
– Ah! E tu deste-lhe esse telemóvel?! – interrompeu Sónia, quase escandalizada.
– Dei – confirmou Carla a rir. Fez uma pausa, parou de rir e declarou séria: – Foi para ele perceber que enquanto andava a dar na secretária, aquela mamalhuda de merda, eu não estive propriamente a chorar pelos cantos, parvalhão! – Carla deu uma passa no cigarro, olhou pelo canto do olho confirmando o desaparecimento de António e virou-se de novo para a rua. – Não sei que raio de fixação é que os homens têm por mosquinhas mortas com mamas grandes…

Quinta-feira

o chato

Havia um chato que me chateava, o chato.
Era chato, o chato, que não me falava, nem me dirigia palavra.
Às vezes, olhava-me, o chato, e chateava-me. Ele sabia e disfarçava o sorriso de forma a que eu visse que ele sorria e disfarçava, o chato.
Era daqueles chatos que não se confrontam, nem se questionam.
O chato se pudesse chateava-me mais, chateava-me sempre.
Era chato, o chato que me confundia, aborrecia, só de o olhar, só de o ver e não o conseguia ignorar, nem ultrapassar.
Do chato podia fugir, mas não me conseguia esconder. Se estivesse dias sem o ver, havia de aparecer e era como sempre lá estivesse, a censurar-me, a condenar-me com um olhar, com um gesto sabido, estudado.
Acho que o chato ensaiava para o ser, porque o era de forma tão natural, tão absoluta, tão insidiosamente brutal.
Era chato, o chato que não me largava, mas que fugia ao contacto e não me via se eu lhe falava, o chato!
E, afinal, o chato era eu, disse-me que se chamava consciência por parte da mãe e escrúpulo por parte do pai.Vai-te lixar, pá, lancei-lhe eu, e ele, encolhendo os ombros deixou-se ficar e, sem mágoa, falou-me nos irmãos, o remorso e o arrependimento, que haviam de me vir visitar, mas que o problema não era dele e que, se ele era chato, havia de conhecer os outros.

Quarta-feira

É?

«Daqui ninguém sai na mesma», declarou nas suas brilhantes letras coloridas mas sem qualquer boneco amarelo no fim da frase que aliviasse a seriedade da declaração.
«Não sei», duvidei lacónico, armado em sofista de trazer por casa, escrevendo em letras negras, formais, de folha de vinte cinco linhas. Gosto de ser do contra mas, na verdade, estava de acordo. «Porquê?», perguntei, sem denunciar a minha opinião.
«X. está a escrever uma mensagem», li em letras pequenas por baixo da caixa de diálogo e esperei.
“Ter um blog, muda-nos?”, fiquei a pensar, “Vir ao messenger, muda-nos?”
Puxei um cigarro que não acendi e deixei-o ficar ao canto da boca, enquanto brincava com o isqueiro.
“Mudei porque tinha de mudar, porque o tempo passou. A simples passagem do tempo muda-nos”, tentei agarrar-me a uma verdade irrecusável e mais confortável, parece-me, tentando diminuir a importância do blog ou do msn.
«X. está a escrever uma mensagem» desapareceu e a mensagem não apareceu. Franzi o sobrolho, mas ela, naturalmente, não viu. Sorri, por pensar com tantas vírgulas.
«X. está a escrever uma mensagem», reapareceu, como o gargalo de uma garrafa entre as ondas. Qual solitário Robinson no meio do nada esperei que a garrafa, que não me iria salvar, contivesse algo para ler, nem que fosse apenas uma mensagem de outro náufrago como eu. Sentei-me na areia quente da praia que conhecia centímetro a centímetro à espera que a garrafa rolhada desse à costa. O mar encrespou-se e o gargalo da garrafa e a sua rolha apareciam e desapareciam entre a espuma e as massas de água ondulantes. Ansioso, acendi o cigarro.
“Daqui ninguém sai na mesma” reli, entre o fumo que toldava o monitor.
A falta de contacto visual, a ausência da leitura das expressões, dos olhos que brilham, das sobrancelhas que arqueiam, que sobem ou se contraem, de um sorriso que se abre ou que se esconde, as mãos que falam, as mãos que passam pelo cabelo, pelo nariz, pelo queixo, enquanto se fala, quando se hesita, quando se ouve, é um filtro enorme, uma barreira quase intransponível, que as palavras, os bonecos amarelos ou outros não conseguem transpor. Aqui somos outros ou, se calhar, somos nós, mais autênticos, escondendo-nos dos outros mas revelando-nos como somos, como queríamos ser, como podíamos ser.
– Tinhas razão – acabei por escrever à falta de mensagem do outro lado, na minha letra sem cor, sem brilho, como se me lançasse ao mar para apanhar a garrafa, vazia?
X. premiu simultaneamente no seu teclado as teclas shift e "‘" e no meu monitor surgiu um colorido e espinhoso “?”
Tornei a franzir o sobrolho, que acompanhei com o cerrar dos lábios, já que ninguém via, e expliquei, com a infeliz certeza que a garrafa já se havia perdido. A maré mudara e a mensagem passara ao largo.
«Não nos vermos, permite-nos uma facilidade de expressão que não temos quando falamos uns com os outros», escrevi, contrariado.
«ah isso», X. reconheceu a sua ideia, sem se dar ao trabalho de convocar maiúsculas ou pontuação.
E eu insisti, num esforço spitziano, ainda que me faltasse o bigode:
«daqui ninguém sai na mesma?»

Segunda-feira

outras coisas, que não cabiam aqui; as mesmas coisas com, pelo menos, uma revisão; e outras mesmas coisas que aqui nunca foram acabadas.

Quinta-feira

O PRIMEIRO POST (escrito tanto tempo depois)

Já sei.
Já?
Já. Está decidido.
Então?
Vou escrever um diário.
Um diário?! Um diário de quê?
Da minha vida.
Da tua vida?
Sim, estás a rir-te porquê?
Da tua vida?!
Sim, da minha vida! Podes parar?! Qual é a graça?
Não é nenhuma...
Então, cala-te!
Mas, é por isso mesmo que me estou a rir: a tua vida não tem graça nenhuma!
Invento!
Ah! Só se for...
O diário da minha vida depois do divórcio...
Do divórcio?!
Sim e...
Do divórcio?!
Sim, já te disse que é a minha vida depois do divórcio...
De quem?!
De quem, o quê?
O divórcio! A tua vida depois do divórcio de quem?!
Meu, de quem é que havia de ser?
Ah!... Claro, teu. Do teu divórcio!
Sim, se é a minha vida, é o meu divórcio.
O teu divórcio!
Sim, o meu divórcio! Que parte é que não percebeste?
Vais-te casar?
Não, porquê?
Então, onde é que arranjas um divórcio?
É a fingir, é um diário inventado, é o meu diário, mas eu sou outro.
Vais escrever um diário de outro gajo?
Não! Vou inventar um gajo e escrever-lhe o diário...
Depois dele se divorciar?
Sim.
Porquê?
Porquê o quê?
Porque é que se divorciaram?
Quem?
O gajo e a mulher!
Quem?!
Tu, ou melhor, o gajo do teu diário!
Ah!
Divorciou-se porquê?
Divorciou-se?
Bolas! O diário não é depois do gajo se ter divorciado?
É.
Então, tens de ter uma razão para os gajos se divorciarem!
Pois tenho.
Qual foi? Qual foi a razão?
Sei lá, ainda não comecei a escrever!
E o que é isto?
É o princípio.
De quê?
Do blog.
Qual blog?
O diário...
Do gajo que se divorciou?
Sim.
Então já começaste! O gajo divorciou-se porquê?
És chato! Sei lá, ainda não cheguei a essa parte.
Mas o diário não começa depois dele se divorciar?
Começa.
Quer dizer que o tipo já está divorciado.
Sim...
Então, tens de saber! Isso é antes do início! Isso é prévio ao próprio diário!
É, mas como sou eu que escrevo, eu é que sei.
Sabes?
Sei, mas isso ainda não.
E isto? Isto é exactamente o quê?
Uma preparação.
De quê?
Dos leitores.
Quais leitores?
Do blog.
Isto é um blog?
É.
E eu?
Tu?! Tu o quê?
Quem é que eu sou?
Sei lá! Estás-me a ajudar a preparar os leitores.
Para quê?
Para o que se vai seguir.
Precisam de preparação, é?
É.
É assim tão mau?
É um bocadinho, isto é um exemplo, estás a ver?
Se lerem isto conseguem ler o resto?
Sim, basicamente é essa a ideia.
E eu?
Tu o quê?
Quando é que recebo?
Recebes?!
Sim, por prepará-los!
Quando começar a dar qualquer coisa...
Isto?
Sim.
Então, vou andando que aqui não me safo!
Já vais?
Já, a minha vida não é isto...
Ah...
Olha! Mas de qualquer maneira: Boa sorte, que bem precisas.
Obrigado. Lês?
Achas?! Isto!?
É original.
O quê?
Nunca ninguém começou um blog assim.
E achas que foi porquê?
O quê?
Que ninguém começou um blog assim!
Nunca ninguém se lembrou?
É capaz, ninguém no seu perfeito juízo se lembraria...
Estás a chamar-me maluco?!
Eu?!
Sim, estavas a dizer que ninguém no seu perfeito juízo...
Claro! Desde quando é que se começa um blog assim?!
Desde hoje!
Está bem, por mim... desde que não me identifiques!
Não queres?!
Nem pensar.
Mas és o autor!
Autor?! Autor de quê?
Do blog, ora essa.
E tu?
Eu sou o narrador.
Qual narrador?
Do blog, de alguns posts.
E eu sou o autor?
Sim, és.
Não pode ser.
Pode e és, meu amigo.
Eu não sou teu amigo!
És o meu criador...
Mas isso não quer dizer que seja teu amigo! Sou o autor deste blog?
Está pior! És, não sabias?
Não! Não disseste que eu só estava a preparar os leitores?
Narrei, mas quem realmente escreveu foste tu.
Estou a ver... fui eu...
Foste. Continuas a não querer ser identificado?
Claro! Agora ainda menos. Vamos é começar isto, para eu me ir embora. Tu és o narrador, não é?
Sou, queres mudar?
Mudar?! Mudar o quê?
De narrador ou passares tu a ser o narrador...
Nem pensar! Eu vou-me já embora!
Não escreves?
É preciso?! Não és capaz de narrar sozinho? Isto não é o teu diário?
Hum... É o meu diário, de facto.
E o teu divórcio.
Sim, és capaz de ter razão. Se calhar, posso narrar sozinho.
E era mais genuíno!
Pois era! Não havia cá interferências exteriores!
Nem mais! Nem autores, nem bodegas. Um narrador e pronto!
Estou a ver...
Posso ir?
Podes! Eu acho que me desenrasco!
Adeus.
Depois dizes qualquer coisa? Escreves qualquer coisa?
Não, não é preciso, tu desenrascas-te.
Mas tu és o autor, tens de cá vir de vez em quando!
Tu és um bom narrador, narra à vontade!
Se tu o dizes!
Eu?! Eu não digo nada!
Não?
Não!
Ai é?! Eu também já não narro!
Não?
Não! "Pósto" só isto e pronto!
Então, posta, para veres os nomes que te chamam!
Vão-me chamar nomes?
Se alguém ler até ao fim e der-se ao trabalho, o que não acredito, só podem injuriar-te, ofender-te, qualificar a tua mãe...
Que se lixe, eu também não tenho mãe!
Não?
Não, eu sou só um narrador.
E os narradores não têm mãe?
Alguns podem ter, eu não.
Então, posta "p'raí"!
Só este.
Por mim...

Segunda-feira

(i) e (ii) estão aí para baixo, se quiserem ler, o que muito me admira - já vos disse que muito admirado fico sempre que vejo que alguém me lê? é verdade, fico mesmo e acho espantoso. olhem, obrigado. e desculpem lá qualquer coisinha de que gostem menos.

(iii)
– Já vais? – perguntou o metediço Óscar.
– Já, Alho – respondeu Paulo, conferindo o relógio de pulso. – Já chega, não achas?
O outro encolheu os ombros e acenou a cabeça com ar resignado.
– Tu ficas? – perguntou Paulo.
– E tu?
Paulo já o conhecia há mais de cinco anos, todavia, não conseguia atinar com as despedidas circulares do outro.
– Eu o quê? – inquiriu, a medo.
– Ficas ou vais?
Paulo suspirou, passou a mão pela face e, como se pedisse desculpa, respondeu quase em surdina:
– Vou.
– Ah!... Pois… – Óscar, a quem todos chamavam Alho, parecia reflectir no sentido da vida ou imaginar algo completamente diferente enquanto se fixava num pormenor qualquer do casaco de Paulo, que permanecia de pé, imóvel, hesitando entre acabar o arremedo de conversa com normalidade ou com uma espectacular fuga a correr, gritando palavrões e esbracejando como um louco.
– Vou andando, Alho. – Contrariado, Paulo decidira-se pela normalidade, apesar de preferir a corrida ou, pelo menos, um passo acelerado para fugir do colega, que durante o dia era absolutamente normal, mas que, ao fim da tarde, era acometido de uma absurda quase surreal incapacidade para se despedir. – Até amanhã.
– Ah… – soltou Óscar de olhos muito abertos. Paulo olhava-o à espera de uma continuação do “Ah” que parecia ter-lhe caído da boca. Óscar olhou para o relógio de pulso que mantinha pousado em cima da secretária, segurou-o e agitou-o. – Que horas são?
– Seis e vinte.
– Ah… – suspirou Óscar, colocando, sem mais, o relógio no pulso, com ar de quem sabia que não eram, nem nunca foram seis e vinte, nem nunca seriam, o ar era tão estupidamente absurdo, que quem o visse podia realmente convencer-se que nunca seriam seis e vinte.
– Porquê, que horas tens? – “Bolas!” censurou-se Paulo, quando ouviu a pergunta que havia feito.
Óscar Alho inchou, ruborizou e sorriu. Paulo não o acompanhou, pelo contrário, murchou, perdeu cor e cerrou os lábios.
– Eu não tenho horas, Paulo – expeliu Óscar entre despropositadas golfadas de riso –, mas o meu relógio regista dezoito horas e vinte e dois minutos…

Quinta-feira

All you need is me

– Sabes o que eu acho? – perguntou recostando-se no sofá de três lugares que ocupava a parede em frente à televisão.

Ela levantou os olhos do livro que lia, no sofá individual que se encontrava ao lado do móvel da televisão, e acenou que não.

– Que, provavelmente, seríamos mais felizes se alguém nos explicasse em pequenos que íamos passar o resto da vida sozinhos – declarou, sério.

Ela olhou-o com atenção.

– O quê? – inquiriu, enquanto, de relance, tentava perceber o que estava ele a ver na televisão sem som.

– Quando éramos pequenos nunca ninguém nos disse que íamos viver sozinhos – explicou. – Toda a nossa preparação tem a ver com a sociabilização, com a vida em sociedade, com a vida com os outros e, no fim…

– Estamos sempre sozinhos – concluiu ela, pousando o livro no colo, marcando-o com um dedo que mantinha entre as páginas.

– Sim – anuiu ele com um breve sorriso e, recostando-se mais no sofá, manteve-se uns segundos calado, de comando em riste mas sem iniciar o zapping que lhe fazia cócegas no polegar e perguntou: – Acabamos por estar sempre sozinhos, não é?

Ela mexeu-se o mínimo essencial para ele perceber que ia responder, estudou-lhe o semblante carregado e, preocupada, constatou a ausência de movimentos no polegar zappinante e disse:

– Se calhar não nos damos o suficiente para podermos deixar de estar sozinhos – levantou o livro, que não abriu, e segurou-o na vertical. – Se calhar, tentamos não depender de ninguém e isso obriga-nos a que, de alguma forma, estejamos sempre sozinhos.

As sobrancelhas dele ergueram-se concordantes, os lábios contraíram-se num leve sorriso oblíquo satisfeito, encolheu os ombros conclusivos e acenou com a cabeça agradecido pelo acordo dela, que só percebeu o fim da conversa pelos ligeiros movimentos de pressão do polegar no botão do comando que mudava sequencialmente os canais da televisão.

Olhou-o, concentrado nas imagens em movimento, abriu o livro e continuou a ler.

Sexta-feira

jantar

– Está cheio, isto...
– Pois está, é sempre assim. As pessoas em vez de se comerem vêm comer, como se não o pudessem fazer nos outros dias.
– É um negócio, bem vistas as coisas deve ser o Natal dos restaurantes...
– É, é um dia fortíssimo. Está tudo cheio!
– Vêm comer e vêem comer!
– Pois.
– E quantos destes casais estarão a comer e a ver comer daqui a um ano?
– Isso interessa?
– Não... Quero dizer,… não sei.
– Isso é um pensamento retrógrado, antiquado, próprio dos teus avós ou, quanto muito, dos teus pais. Hoje vive-se o momento e o amor é eterno enquanto dura.
– Achas?
– Façam favor. Podem escolher mas estamos com um tempo de espera de uma hora. As bebidas é que posso trazer já. E entradas, vão desejar?
– Bebes vinho?
– Quê?
– Tinto.
– Ainda não sei o que vou comer.
– Um gin?
– Sim, pode ser.
– São dois gins tónicos e pode trazer as entradas, enquanto escolhemos.
– Sim, senhor, com licença.
– E nós?
– Nós, o quê?
– Estamos a comer porquê?
– Porque são horas de jantar.
– Sim, mas estamos a jantar os dois no dia dos namorados porquê?
– Queres a verdade?
– Sim, claro.
– Não me apetecia estar em casa sozinha.
– E sabias que eu vinha jantar contigo?
– Calculava, tu fugiste sempre... nunca jantámos fora no dia dos namorados, pois não?
– Acho que não.
– Dizias sempre, "porque é que havemos de cometer esse erro", lembras-te?
– E tinha razão.
– Pois, parece que sim. E depois de nós?
– Depois de nós, o quê?
– Jantaste?
– Claro, como é que achas que ganhei este corpo? Se não jantasse havia de estar muito mais magro!
– Não é isso, parvo...
– Ah! Voltámos aos velhos tempos.
– Desculpa?
– Ao tempo em que me chamavas parvo por tudo e por nada.
– Não te chamei parvo... ou melhor, chamei mas não te estava a chamar parvo, era uma forma carinhosa de dizer que...
– Nunca gostei desse tipo de carinho.
– Eu sei... Desculpa… mas, é engraçado, tu brincas com tudo mas quando brincam contigo...
– Não, sabes bem que não é isso.
– Sim, tens razão, não é quando brincam contigo, pode-se brincar contigo, o que não gostas é de certas brincadeiras, como te chamarem parvo ou usar palavrões... Não suportas que te mandem à merda, pois não?
– Não.
– Mas eu não te estava a chamar parvo, era uma forma carinhosa de dizer que tinha percebido a tua piada e que sabia que tu sabias que estavas a fazer uma piada.
– Que confusão para uma coisa tão simples!
– Parecem mesmo os velhos tempos. Sabes que só tu é que me fazes isto?
– O quê?
– Isto, estas conversas, estas confusões para explicar coisas simples, estas conversas sem fim.
– Não é uma conversa sem fim...
– Com licença, aqui estão os ginzinhos. As entradas trago já, está bem?
– E se não estiver?
– Não trago. Já escolheram?
– Ah... Já escolheste?
– Eu?
– Não, não escolhemos.
– Estejam à vontade, hoje é preciso muita calma, estejam à vontade. Eu já volto para tirar o pedido.
– Hum...
– Não diga, por favor. Não pergunte a quem é que eu vou tirar o pedido...
– Não ia perguntar.
– Ah… pensava que ia. É que hoje os homens acham-se particularmente inspirados, absolutamente engraçados, como se tivessem de ter resposta para tudo. Quer-me parecer que os homens estão sob grande pressão... É engraçado, não tinha pensado nisso, mas cada ano que passa estes jantares estão cada vez mais estranhos, mais... com hei-de dizer,… mais competitivos, como se fossem uma prova, como se fossem um exame... Os senhores desculpem-me este desabafo...
– Está desculpado…
– Não tem nada a ver convosco mas, realmente, isto parece-se cada vez mais como uma obrigação… não digam a ninguém, mas nem é bem uma obrigação é mais um tormento que os casais têm de superar, que isto, de jantar no dia dos namorados, não é fácil, nada fácil. Volto já, não se vão embora!
– Vamos ver…
– O quê?
– Se nos vamos embora.
– Ah! Boa! Essa foi boa mas está como os outros, está visto! Com licença.
– Era o que faltava.
– O quê?
– Um empregado com ideias…
– Certas.
– Sim, ainda por cima.
– Comemos o polvo à lagareiro?
– Queres?
– Tu não? Gostavas tanto de polvo.
– Sim, eu quero, tu é que dantes nunca querias…
– As pessoas mudam.
– Parece que sim. E, afinal, ainda não me respondeste.
– A quê?
– Estamos a jantar, porquê?... Além de não quereres estar sozinha e eu estar disponível?
– É preciso mais?
– Sim, acho que sim. Com certeza que jantas sozinha muitas vezes… ou algumas vezes, desculpa…
– Não era preciso emendares!
– Estava a brincar.
– Eu sei.
– E, além de jantares sozinha de vez em quando, eu não estou disponível só hoje…
– Não?... Hummm… Isso é alguma indirecta, algum dos teus convites enviesados?
– Desculpa?
– Estava a brincar.
– Ah!
– Mas, na verdade, não sabia se ias aceitar. Se queres saber, havia uma parte de mim que nem queria que aceitasses.
– Porquê?
– Sei lá… Porque, se calhar, passava o odioso para ti, ainda que não fosse o odioso, não havia nada de odioso se não quisesses jantar comigo, ainda por cima hoje… acho que era completamente compreensível… Aliás, se pensarmos bem, era o mais normal…
– Eu não aceitar?
– Tu não aceitares e eu não te convidar, isso é que era normal. Mas como eu te convidei e a normalidade já era, tu aceitares não é anormal, de facto, é apenas a sequência lógica da coisa, da anormalidade que eu iniciei quando te liguei… Estou a falar muito, desculpa.
– Não tens nada de pedir desculpa e não estás a falar…
– E tu, porque aceitaste?
– … demais. Porque queria jantar contigo, porque gostei de ser convidado, porque achei que, se me estavas a convidar, era por alguma razão, afinal já não nos falamos há mais de um ano…
– Eu liguei-te nos teus anos…
– E eu nos teus mas isso não é falar.

...

Segunda-feira

12:55

Ajeitou o nó da gravata, passou a língua entre os lábios, remirou-se ao espelho, conferindo a esquadria do risco do cabelo e o rigor da barba aparada e experimentou o seu melhor sorriso, que tentou perceber se se transmitia ao olhar ou se ficava pela boca. Queria sorrir completamente. Desejava do mais fundo do seu ser que toda a sua expressão sorrisse, que todo o seu corpo lhe desse a entender a alegria com que a via.
Satisfeito, voltou ao quarto e vestiu as calças, engomadas e vincadas com minuciosos cuidados, que tirou de um nobre cabide de pé em madeira, que lhe guardava com formalismos de velho mordomo as calças, o casaco e, sobre um estrado de cinco finas ripas, os seus lustrosos e brilhantes sapatos, tão formais como o cabide.
Enfiou a camisa nas calças e vaidoso constatou a certeza com que fizera o nó da gravata, cuja ponta tocava ligeiramente no cinto. “A medida perfeita” vangloriou-se, alisando suavemente as pernas das calças junto aos bolsos que verificou, cautelosamente, estarem completamente estendidos não deixando quaisquer inestéticas rugas visíveis.
Baixou-se para pegar nos brilhantes sapatos, procurando o seu negro reflexo, que conseguiu ver, e sentou-se no sofá junto à cama para se calçar. Ajeitou-se, prevenindo a formação de vincos, pegou na calçadeira de prata que se encontrava sobre a mesa-de-cabeceira e dobrou-se para iniciar a operação.
Em pé, tornou a conferir o perfeito alinhamento e bem posta rigidez das calças, da camisa e da gravata. Não sorriu mas esfregou as mãos, animado.
– Boa tarde – disse, para ouvir a sua própria voz, para a modular, para lhe ajustar o volume. – Boa tarde – repetiu, fazendo uma pequena vénia com a cabeça. – Boa tarde – voltou a dizer, enquanto desmiolava o casaco, separando-o do elegante cabide de ombros largos, bisando a vénia a que acrescentou o sorriso que treinara ao espelho. – Boa tarde.
Vestiu o casaco, fechou o primeiro e segundo botões, deixando o terceiro propositadamente fora da sua casa, e encaminhou-se, com passo seguro mas lento, ao guarda-vestidos que abriu para se mirar ao espelho, numa última análise do seu cuidado reflexo.
– Boa tarde – cumprimentou, sorrindo, com uma subtil e delicada vénia.
Fechou a porta do guarda-vestidos com um suspiro, apesar de tudo receoso, e caminhou batendo os pés, tanto para os aquecer, como para afastar o sentimento incómodo de desânimo, de dúvida que lhe embaciava o olhar, condicionava a postura e lhe toldaria a voz se permanecesse.
Olhou para o relógio, 12:55. “Está na hora” pensou, ajeitando a franja. Passou a mão pela barba como se a conseguisse alisar, aprimorou o nó da gravata e, confiante, dirigiu-se à cozinha, em passos seguros, repetidamente cronometrados e sem parar, encostou-se à porta da rua, que não abriu, à espera.
Ouviu-a. Conheceu-lhe os passos, rápidos, atarefados, lindos e abriu a porta.
Olharam-se, ela sorria radiosamente, tal como ele antevira e ele abriu o seu sorriso, já não o ensaiado, mas o espontâneo, que lhe rejuvenescia a face, a expressão, o corpo. Compenetrado, fez a sua ligeira vénia enquanto a cumprimentava com o seu mais caloroso tom de voz:
– Boa tarde.
– Boa tarde, senhor Faria – respondeu ela, genuinamente simpática. – Não sei como é que arranja isso mas o senhor está cada dia mais bonito.
Ele sorriu como um menino tímido, agradeceu com nova vénia e passou-lhe o estojo com as três marmitas vazias recebendo em troca as cheias com a sopa, o almoço e o jantar.
– Até amanhã, senhor Faria – a funcionária que distribuía as refeições ao domicílio piscou-lhe o olho. – Amanhã à mesma hora, não se esqueça.
– Doze e cinquenta e cinco!
– Nem mais. Até amanhã!
– Até amanhã, menina.

Quinta-feira

(ii)

Carla atravessou a sala comprida sorridente e provocadora, estabelecendo, em cada passo e em cada troar dos seus saltos no encerado soalho do escritório, a sua posição de domínio perante os colegas que a olhavam ora com gulosa lascívia, os homens, ora com disfarçada inveja, as mulheres. Sónia, que lhe conhecia os passos que, aliás, eram únicos, inconfundíveis, uma mistura de determinação em câmara lenta e sensualidade ritmada, ouviu-a aproximar-se mas não a olhou. Carla ultrapassou a porta aberta do gabinete de Sónia como atravessara o corredor entre as secretárias e espaços dos subalternos, como ela lhes chamava, sem uma palavra, um aviso, ou sequer um olhar. Entrou e postou-se em frente à secretária de Sónia que, esforçando-se para não sorrir ou fazer qualquer movimento que denunciasse o facto de saber que a outra estava ali, como se isso fosse possível, continuou a teclar com eficaz rapidez sem levantar os olhos do monitor. Carla, entrando no jogo, aguardou um momento pela atenção da outra, dois segundos, suficientes, em sua opinião, para ambas perceberem que estavam a jogar e a empatar. Carla gostava de Sónia, gostava genuinamente dela; na verdade, ainda que não fossem muito chegadas fora do trabalho, considerava-a uma amiga, uma verdadeira amiga. Mas, isso, não lhe concedia paciência suplementar para joguinhos de meninas. Ela estava ali, a outra sabia-o, que brincasse fazendo-se despercebida, tudo bem, mas aqueles dois, agora já quatro ou cinco, segundos eram suficientes. Impaciente, como todas as mulheres que se sabem bonitas, mordeu o lábio inferior, num trejeito bem disposto e, cuidadosamente para não danificar as extensões das unhas, tamborilou no tampo da secretária com a mão esquerda, enquanto, com a direita, exibia um maço de tabaco como um livre-trânsito. Sónia deslizou o olhar do monitor para as unhas tamborilantes, depois para o maço e, por fim, para o encadeante sorriso vermelho vivo de Carla.
– Vens? – moveram-se os lábios, impecavelmente pintados, completando o convite que o maço participava e que o contínuo tamborilar suave mas inapelável no tampo da secretária das unhas perfeitas, conjunto faíscante com os lábios, tornava absolutamente irresistível.
Sónia admirou-lhe as longas e cuidadas unhas, olhou-lhe os dedos curiosos e adivinhou-lhe as intenções: o cigarro a fumar na varanda do escritório trazia água no bico. Tanta água. E a água trazia pessoas, e entre as pessoas estavam ela e ele. Ela e ele.
– ‘Bora – insistiu a colega com o seu sorriso mais inocente, desmascarado pelo seu olhar atrevido.
– Estou a acabar uma coisa, Carla, já vou…
A colega escondeu os dentes atrás dos lábios, fixou-a e não desistiu:
– Deixa lá isso, ainda não fumaste hoje – argumentou.
– Já tu… – retorquiu Sónia, tentando manter-se séria.
Os olhos azuis bebé de Carla sorriam contrariando o falso semblante ressentido que a insinuação de Sónia fizera aparecer. Entreabriu os lábios, mostrou-lhe a ponta da língua e respondeu fugindo propositadamente com o olhar, como uma menina apanhada a dizer uma pequena mentira:
– É o segundo, minha cara, só o segundo.
Riram.
– Se é o segundo… – Sónia rendeu-se sem dar muita luta: o irritante tamborilar na secretária das espantosas unhas vermelhas da colega, o brilho inquiridor nos seus olhos e a falta de smiley no ok de Paulo no google talk decidiram por ela. – Tens lume? – perguntou, enquanto tirava um maço da gaveta da secretária.
– Lume? – Carla uniu os lábios até a boca ficar apenas um redondo ponto vermelho, os olhos azuis bebé pediram desculpa e as mãos uniram-se em prece junto ao generoso e bem recheado decote. – Lume? – repetiu, baixinho. – Se tenho lume? – Deu uma gargalhada abafada e, piscando o olho, que reabriu lentamente para as suas longas pestanas fazerem o devido efeito, ronronou: – Para dar e vender, menina, para dar e vender. Precisas de aquecer… – fez uma pausa, para somar um trejeito delicioso nos lábios à sua expressão e concluiu ronronando: – Não me digas que precisas de aquecer… ou acender alguém?
Sónia riu da interpretação teatral de Carla e levantou-se com o maço na mão.
– Hummm… Ainda bem que me avisas… – disse, compenetrada como se fosse mesmo importante.
– É?
– Não – retorquiu Sónia, sorridentemente séria – mas se precisar, já sei a quem pedir.
– Posso dispensar-te… – Carla parou para deixar passar Sónia. – Posso dispensar-te aí umas duas colheres disso, estás à vontade.

Terça-feira

Zombie

Agarrou a garrafa, que não chegou a tocar-lhe os lábios. Parou e olhou para sítio nenhum, com olhos vítreos, movimentos desconexos, lentos, quase infantis e pousou-a com raiva. Num instante de coragem inconsciente bateu-lhe com as costas da mão, afastando-a, fazendo-a cair. Partir-se. Ouviu o barulho do vidro a estilhaçar-se, dos vidros que deslizavam e da bebida que se perdia. Arrependido, bateu furiosamente na perna sem conseguir olhar para o chão e, assustado, pensou se podia ainda recuperar algum do líquido que se espalhara. Levantou-se. Tentou levantar-se rapidamente para afastar o pensamento de bêbado, o pensamento de fim, mas, depois de se erguer ligeiramente, tombou na cadeira e só a custo se conseguiu equilibrar. Viu-a. Ela sorria-lhe e ele sentiu que os seus lábios procuravam responder-lhe. Os lábios permaneceram imóveis, anestesiados. Tocou-lhes com a ponta dos dedos, como se os quisesse desentorpecer, como se os pudesse obrigar a sorrir. Não os sentia, nem os lábios, nem a ponta dos dedos e a mão caiu-lhe pesadamente para a perna, sem que a conseguisse mover. Grunhiu no que devia ser um lamento mas não se ouviu, olhava fixamente para o chão, para os cacos da garrafa e para o líquido brilhante que o chamava. Queria. Queria beber. Pensou nos vidros. E se cortasse a língua? E se cortasse os lábios? Se ela aparecesse e o quisesse beijar? E as mãos? Onde iria pôr as mãos sem se cortar? Tinha pavor de sangue. Do seu sangue. Do sangue dos outros. A boca seca puxava-o para o chão. O cérebro árido, vazio, procurava com fingido cuidado um local seco e seguro para as mãos aterrarem, como se precisasse de lhes assegurar essa mentira, um falso sentido de segurança. Olhou o tampo da mesa vazio, as cadeiras vazias, a cozinha vazia e a sua vida vazia e lançou-se para o chão, esperando, sem saber porquê, que alguém lhe amparasse a queda. As mãos fugiram, recusaram o risco, e os braços abriram-se fazendo-o cair como um Cristo cruxificado. Um lampejo de ironia tocou-lhe num ponto qualquer e viu-se a si próprio de braços abertos a voar direito ao desastre. A cara bateu no chão, violenta e dolorosamente. A camisa empapou o líquido ardente. Sentiu o ardor do whisky barato no olho esquerdo e nuns pequenos cortes na face e no corpo mas sentiu-lhe o doce e esperado sabor nos lábios, na língua, na boca, e começou a beber, antes que tivesse de ir torcer a camisa. O gargalo da garrafa surgiu-lhe no campo de visão e ele assentou num caderno sem folhas com uma caneta sem tinta que teria de beber para a sua direita para evitar os vidros. O líquido ligeiramente dourado ganhava estranhos e bizarros veios de vermelho que ele não se preocupou em procurar perceber, nem estranhava enquanto sorvia, lambia, inspirava o whisky do chão. Tornou a vê-la e lembrou-se do sorriso que então, orgulhosamente, conseguiu refazer e mostrar a uma das pernas da mesa. Via-a mas perdia-a imediatamente e a culpa não era dela. Agora sentia-o, sabia-o. No chão bebendo whisky de uma garrafa que partira, com os lábios e a língua a sangrar, com a camisa empapada de whisky e sangue, sabia que a culpa não era dela, mas dele. Só dele que a perdera. Olhou demoradamente para o gargalo da garrafa e para os pés da mesa e das cadeiras, a sua única audiência, e julgando que as palavras se estavam a formar e que iriam ser ditas, pôs o seu mais ar mais condoído e suplicante e, em silêncio, sem sequer um sussurro, confessou formal “a culpa foi minha, sempre minha, que nunca te tive, que nunca te soube ter” e continuou a lamber, a sorver, a beber sangue, vidros e whisky do chão da sua cozinha deserta, do fundo da sua vida vazia, satisfeito com o mar raso de álcool que via até perder de vista.

Segunda-feira

(i)

“Lanchamos?”
A pergunta simples, normal, recorrente em quase todos os dias das últimas semanas, caiu-lhe mal. Já a esperava mas, ainda que julgasse o contrário, não estava preparado para ela. Cerrou os punhos com força sobre o teclado e respirou fundo, viu os : e o ) aparecerem, rodarem e formarem um mais completo e amistoso
enquanto os olhos davam um breve mas custoso passeio entre os punhos cerrados, o “Lanchamos?” e o S do teclado, primeira letra da palavra que ia escrever.
“Sim” escreveu, sem mais, apenas com a ponta do indicador direito, lentamente como se cada letra fosse uma palavra, uma frase, um parágrafo.
“18.15 à porta?”
Leu a resposta que prontamente lhe apareceu na pequena janela no canto inferior direito do monitor e anuiu telegraficamente “Ok”.
Olhou o relógio de pulso, 17:45, e sentiu a agonia dos trintas minutos que lhe faltavam formar-se numa bola ácida na boca do estômago que, sabia, lhe ia subir até à garganta e que, depois, alastraria à boca e, na verdade, ao corpo todo. “Daqui a meia-hora, eu sou esta acidez e esta acidez sou eu”, pensou num tom trágico, quase retemperador, que, no entanto, não o convenceu a não tomar um anti-ácido com resultados garantidos, “Talvez se isto não me fizesse mau hálito” justificou-se. “Sempre era mais uma coisa em que pensar, além dela, além das palavras que lhe vou dizer….” Sorriu: “Talvez a própria dor me desse um ar sofredor, uma cor mais pálida, qualquer coisa que a distraísse. Na verdade, qualquer coisa que desse corpo à minha dor, aos meus sentimentos…” Soltou um risinho abafado, sarcástico: “Que ideias de merda, que ideias de puto. Para isso, podia flagelar-me e aparecer lá em baixo a escorrer sangue. E ela:
– O que é isso? – embasbacada, completamente estupefacta.
– Foi por ti, Sónia. Foi por ti.
E havia de se me agarrar ao pescoço e beijar-me, lamber-me as ferid… Não isso, não, era nojento. Beijava-me só e evitava o sangue que, de qualquer maneira, não era preciso ser muito. Uma coisinha ligeira só para a impressionar.”
Conferiu os mails, leu alguns, deu uma volta por meia dúzia de blogs e páginas de noticias e, sem conseguir decidir onde se havia de flagelar, desligou o computador, fechou a agenda aberta em cima da secretária, vestiu o casaco e saiu do gabinete.

Terça-feira

… mas ele não o fez.


Durante horas, com a espingarda carregada pronta a disparar, ouviu-lhe todas as histórias, todas as conversas, todos os episódios pelos quais não nutria o menor interesse: da mulher, da sogra, do patrão, dos irmãos, do rafeiro que trazia e da arma do avô que carregava como um brinquedo. E nunca, em qualquer minuto de todas as horas em que o ouviu, disfarçou o enfado, o aborrecimento, o desconforto e o incómodo que a ininterrupta arenga lhe causavam.
Durante quilómetros, sem disparar um único tiro, aturou-lhe as infantis pantominices, as corridas sem nexo, os saltos por cima de arbustos, sebes, árvores caídas e pequenas barreiras, anunciados, todos eles, com gritos, braços no ar ou sorrisos abertos como se de grandes feitos se tratassem. Como se ele não fosse um homem mas um gaiato.
Durante o frio da manhã e o calor da tarde aturou-lhe os maiores disparates, os comentários mais estapafúrdios, os mais bizarros nomes ou as indescritíveis historietas sem graça que lhe ocorriam por causa de uma árvore, de uma planta, de algum pássaro, insecto ou réptil que, certamente surdos, não os evitavam.
Durante um dia inteiro de caça, que mais valia aos gambozinos, viu-o brincar com os cães como uma criança; distrai-los, corrompê-los, enganá-los às gargalhadas, aos gritos, aos pinotes como se tivesse alguma graça, como se aquilo fosse um jogo, uma brincadeira.
Pela primeira vez em muitos anos de caça não disparou um único tiro, não avistou uma peça, não vislumbrou sequer a mais pequena possibilidade de, em silêncio, em sossego, em vigilante cuidado, levantar a espingarda, apontá-la e desistir num último momento por se ter enganado. Nem sequer se enganou entre um coelho e uma lebre, entre uma perdiz ou uma codorniz, uma avestruz e um canário, não viu nada. Nada!
– Ouve lá – perguntou, estafado, farto de ver os cães correrem para nada, de andar para nada, de nada apontar para nada –, tu vieste à caça ou vieste entreter os animais?
Ele riu-se, com um riso sincero mas alarve, numa gargalhada franca mas despropositada e gritou:
– Essa é boa!... Entretê-los! Essa é muito boa!
Sentiu o volume e o peso da arma e pareceu-lhe – e nunca antes ou depois lhe parecera isso – que a arma lhe sussurrava uma solução instantânea para resolver o seu estado de espírito, o seu cansaço e o seu desespero. Espantado, estacou, engoliu em seco e suspirou.
O imbecil ria-se e repetia “entretê-los, entretê-los” como se acabassem de lhe contar uma irresistível anedota.
O caçador, pois só ele o era, baixou os olhos para o chão, fechou a arma e sopesou-a como se hesitasse no seu uso.
– Viste alguma coisa? – gritou o outro, estridente, olhando em volta com ar alucinado e estúpido.
Subitamente imóveis, os cães pareciam fitá-lo e pedir-lhe que se decidisse de uma vez, trocando olhares cúmplices e compreensivos, garantindo, com os seus olhos límpidos e leais, eterno silêncio e apoio.
Tornou a engolir em seco e evitou os olhares dos cães, tal como tentara esquecer a arma que tinha na mão.
– Viste alguma coisa? – matraquilhava o outro. – O que é que viste?
O caçador ainda o ouvia, mas a voz dele sumia-se como se se estivessem a afastar e a imagem dele desvanecia-se rapidamente, tornando-o numa voz sumida de um ser sem rosto, sem personalidade e, no momento seguinte, sem que sequer o estranhasse, já só ouvia um ruído de fundo sibilante nada parecido com uma voz humana e apenas via um vulto em movimento que ora se aproximava de si, sibilante, ameaçador, ora se afastava, temeroso, esquivo. Um alvo exótico, esquisito, com uma cabeça ridiculamente opada a esvoaçar desordenadamente como “um balão numa barraca de feira engaiolado e impulsionado por uma ventoinha para ser rebentado por uma pressão de ar. A merda de um balão amarelo” pensou.
– Viste alguma coisa? – repetia o imbecil saltitante, virando-se em todas as direcções, procurando para todos os lados.
“Como um balão-alvo” suspirou, a medo.
E, sem perceber o que se estava realmente a passar, ouviu:
– Já vi! Já vi! – e depois a ordem: – Dispara! Dispara!