O homem-queque sentiu a protuberância calórica dar sinal e olhou em volta envergonhado. A falta de roupa no mundo da pastelaria animada provocava-lhe embaraços e engulhos mas, também, há que dizê-lo com frontalidade, ainda que sem um castor debaixo do braço, proporcionava uma determinada clareza nas situações e relações que a roupa, os telemóveis, o messenger ou, mesmo, a educação judaico-cristã das personagens pouco animadas que somos nós, tende a esconder.
– O que é isso? – perguntara-lhe a madalena, sorrindo afavelmente.
O homem-queque enrubescera, baixara os olhos, dando conta do excesso de fermento entre as virilhas e respondera atrapalhado:
– Pode-se dizer que é um elogio – levantou os olhos e viu um brilhante sorriso espalhar-se na cara da apetitosa madalena. Engoliu em seco e rematou num murmúrio: – Um elogio velado…
– Velado?! – sublinhou a bem torneada madalena, sem tirar os olhos da açucarada protuberância que apontara para si mas que agora desafiava a lei da gravidade apontando o céu. – Não diria que esse fosse um elogio velado, homem-queque, gelado talvez, velado não.
O homem-queque não percebeu:
– Não percebi.
– Não é nada velado, pelo contrário… – a madalena riu e fixou-se nos olhos estarrecidos do homem-queque [outro totó para a vasta galeria de totós deste blog], passou a ponta da língua entre os lábios entreabertos e concluiu maviosa: – Tem mais ar de elogio gelado.
– Gelado?!
– Numa perspectiva calippiana da coisa – explicou a madalena, sorrindo lubricamente como uma gata no cio se as gatas no cio sorrissem.
– Perspectiva calippiana? – interrogou o homem-queque, surpreendido com a explicação.
A madalena amarfanhou o sorriso lúbrico num suspiro entediado e, aproveitando o facto bem conhecido, estudado e cientificamente comprovado dos homens-queques serem profundamente hipocondríacos, lembrou-se, para o avaliar com atenção e comprovar a sua primeira boa impressão, de disparar:
– E essas manchas?
– Manchas?! – Assustou-se o homem-queque, conferindo imediatamente a coloração da sacrossanta protuberância e, depois, do resto do corpo. – O meu Deus…
– És um queque de quê? – adiantou-se a madalena, evitando que a conversa descambasse para um elenco de padecimentos que o homem-queque certamente iria propor para o seu totalmente fantasioso estado de saúde, ou melhor, de doença, que saúde é coisa que os homem-queques hipocondríacos não imaginam sequer o que seja.
– Calippiana? – insistiu o homem-queque, satisfeito por não ver qualquer alteração à sua coloração original, evitando o delicado tema da sua extravagante composição.
– Nunca ouviste falar duns gelados fálicos chamados calippos? – suspirou a madalena, receando que o momento se perdesse.
– Fálicos?!
A madalena não se dignou responder e tornou a perguntar:
– E, afinal, és um queque de quê?
– Ah! Calippiano!... – percebeu o homem-queque com uma gargalhada envergonhada.
– Pois… – admitiu com um sorriso amarelado a madalena.
A madalena permanecia calada, expectante, enquanto o homem-queque ganhava alento na lembrança dos conselhos e prática dos hedonistas bolos de pastelaria. “Ao prazer e ao deboche” brindara o boneco de gengibre juntando-se ao devasso trio numa amálgama de açúcares, farinhas, creme de pasteleiro, chocolate e outros ingredientes que não interessa agora inventariar, pois, isto não é nenhum livro de cozinha.
“Ao prazer e ao deboche” murmurou o homem-queque fascinado pelas formas voluptuosas e pelos auspiciosos lábios da madalena e repetiu entre dentes o lema do boneco de gengibre que, apesar de não saber o que era um poço da morte, repetia incessantemente: “Audácia! Arrojo! Desprezo pela vida!”, e lançou-se de cabeça, consciente do que queria. De que a queria.
– Tens razão, madalena, não era um elogio velado, era um enorme elogio silencioso sob a forma de um calippo.
– Enorme?! – A madalena deu uma gargalhada fria como uma faca de cozinha romba que cortasse o homem-queque dolorosamente às fatias, impregnando-o de uma camada dispersa de partículas de ferrugem e sabor a legumes podres e cascas de fruta. – Desculpa – pediu docemente –, estava a brincar.
– O pasteleiro era um unhas-de-fome – respondeu o homem-queque, sorrindo e piscando o olho. – Esse artista fartou-se de cortar no fermento…
– Ninguém diria… – sorriu a madalena, animada: talvez houvesse esperança para o homem-queque. – E afinal… – aproximou-se dele e agarrou-lhe na mão – és de quê?
O homem-queque sorriu:
– Adivinha…
Ela levou suavemente a mão dele à boca e lambeu-lhe as pontas do indicador e do dedo médio. O homem-queque sentiu um arrepio frio. A madalena sem deixar de o fixar com os seus olhos brilhantes e sorridentes, envolveu-lhe os dedos entre os lábios e chupou-os languidamente, tomando-lhe o sabor. O homem-queque sorria beatificamente, ainda não estava no céu dos bolos, mas já tinha iniciado a ascensão.
A madalena tornou a lamber os dedos do homem-queque e abrindo o sorriso, disse:
– Tens um sabor estranho.
O homem-queque beijou-a.
– Estranho? – sussurrou.
Tornaram a beijar-se.
– Hummm… – a madalena fixou-o, sorriu e, enquanto se ajoelhava, murmurou: – É estranho, mas bom, homem-queque – beijou-lhe o peito, brincou com os mamilos de goma, passou a ponta da língua pelo arremedo de umbigo e, já de joelhos, avisou: – Vamos ver se descubro o que é… – beijou-o demoradamente a todo o comprimento. – Agora é que vamos ver de que massa és feito, homem-queque.