Sábado

O homem-queque sentiu a protuberância calórica dar sinal e olhou em volta envergonhado. A falta de roupa no mundo da pastelaria animada provocava-lhe embaraços e engulhos mas, também, há que dizê-lo com frontalidade, ainda que sem um castor debaixo do braço, proporcionava uma determinada clareza nas situações e relações que a roupa, os telemóveis, o messenger ou, mesmo, a educação judaico-cristã das personagens pouco animadas que somos nós, tende a esconder.
– O que é isso? – perguntara-lhe a madalena, sorrindo afavelmente.
O homem-queque enrubescera, baixara os olhos, dando conta do excesso de fermento entre as virilhas e respondera atrapalhado:
– Pode-se dizer que é um elogio – levantou os olhos e viu um brilhante sorriso espalhar-se na cara da apetitosa madalena. Engoliu em seco e rematou num murmúrio: – Um elogio velado…
– Velado?! – sublinhou a bem torneada madalena, sem tirar os olhos da açucarada protuberância que apontara para si mas que agora desafiava a lei da gravidade apontando o céu. – Não diria que esse fosse um elogio velado, homem-queque, gelado talvez, velado não.
O homem-queque não percebeu:
– Não percebi.
– Não é nada velado, pelo contrário… – a madalena riu e fixou-se nos olhos estarrecidos do homem-queque [outro totó para a vasta galeria de totós deste blog], passou a ponta da língua entre os lábios entreabertos e concluiu maviosa: – Tem mais ar de elogio gelado.
– Gelado?!
– Numa perspectiva calippiana da coisa – explicou a madalena, sorrindo lubricamente como uma gata no cio se as gatas no cio sorrissem.
– Perspectiva calippiana? – interrogou o homem-queque, surpreendido com a explicação.
A madalena amarfanhou o sorriso lúbrico num suspiro entediado e, aproveitando o facto bem conhecido, estudado e cientificamente comprovado dos homens-queques serem profundamente hipocondríacos, lembrou-se, para o avaliar com atenção e comprovar a sua primeira boa impressão, de disparar:
– E essas manchas?
– Manchas?! – Assustou-se o homem-queque, conferindo imediatamente a coloração da sacrossanta protuberância e, depois, do resto do corpo. – O meu Deus…
– És um queque de quê? – adiantou-se a madalena, evitando que a conversa descambasse para um elenco de padecimentos que o homem-queque certamente iria propor para o seu totalmente fantasioso estado de saúde, ou melhor, de doença, que saúde é coisa que os homem-queques hipocondríacos não imaginam sequer o que seja.
– Calippiana? – insistiu o homem-queque, satisfeito por não ver qualquer alteração à sua coloração original, evitando o delicado tema da sua extravagante composição.
– Nunca ouviste falar duns gelados fálicos chamados calippos? – suspirou a madalena, receando que o momento se perdesse.
– Fálicos?!
A madalena não se dignou responder e tornou a perguntar:
– E, afinal, és um queque de quê?
– Ah! Calippiano!... – percebeu o homem-queque com uma gargalhada envergonhada.
– Pois… – admitiu com um sorriso amarelado a madalena.

O homem-queque leu o desalento no tom do “pois…” e no trejeito dos consistentes lábios da madalena e lembrou-se do conselho do boneco de gengibre: “Aproveita, homem-queque, que nós, os bolos de pastelaria, deterioramo-nos depressa. Temos de viver como se não houvesse amanhã! E acredita que, quando menos esperares e estiveres a gostar disto, acabou-se. Já éramos.” No que foi apoiado por um debochado croissant de chocolate que, satisfeito, lambia os beiços do creme de duas bolas de Berlim que acabara de comer. “Aproveita, homem-queque” disseram em coro as saciadas bolas de Berlim, gémeas, altas e espadaúdas, com sotaque baiano, “Aproveita que amanhã não há!”
A madalena permanecia calada, expectante, enquanto o homem-queque ganhava alento na lembrança dos conselhos e prática dos hedonistas bolos de pastelaria. “Ao prazer e ao deboche” brindara o boneco de gengibre juntando-se ao devasso trio numa amálgama de açúcares, farinhas, creme de pasteleiro, chocolate e outros ingredientes que não interessa agora inventariar, pois, isto não é nenhum livro de cozinha.
“Ao prazer e ao deboche” murmurou o homem-queque fascinado pelas formas voluptuosas e pelos auspiciosos lábios da madalena e repetiu entre dentes o lema do boneco de gengibre que, apesar de não saber o que era um poço da morte, repetia incessantemente: “Audácia! Arrojo! Desprezo pela vida!”, e lançou-se de cabeça, consciente do que queria. De que a queria.
– Tens razão, madalena, não era um elogio velado, era um enorme elogio silencioso sob a forma de um calippo.
– Enorme?! – A madalena deu uma gargalhada fria como uma faca de cozinha romba que cortasse o homem-queque dolorosamente às fatias, impregnando-o de uma camada dispersa de partículas de ferrugem e sabor a legumes podres e cascas de fruta. – Desculpa – pediu docemente –, estava a brincar.
– O pasteleiro era um unhas-de-fome – respondeu o homem-queque, sorrindo e piscando o olho. – Esse artista fartou-se de cortar no fermento…
– Ninguém diria… – sorriu a madalena, animada: talvez houvesse esperança para o homem-queque. – E afinal… – aproximou-se dele e agarrou-lhe na mão – és de quê?
O homem-queque sorriu:
– Adivinha…
Ela levou suavemente a mão dele à boca e lambeu-lhe as pontas do indicador e do dedo médio. O homem-queque sentiu um arrepio frio. A madalena sem deixar de o fixar com os seus olhos brilhantes e sorridentes, envolveu-lhe os dedos entre os lábios e chupou-os languidamente, tomando-lhe o sabor. O homem-queque sorria beatificamente, ainda não estava no céu dos bolos, mas já tinha iniciado a ascensão.
A madalena tornou a lamber os dedos do homem-queque e abrindo o sorriso, disse:
– Tens um sabor estranho.
O homem-queque beijou-a.
– Estranho? – sussurrou.
Tornaram a beijar-se.
– Hummm… – a madalena fixou-o, sorriu e, enquanto se ajoelhava, murmurou: – É estranho, mas bom, homem-queque – beijou-lhe o peito, brincou com os mamilos de goma, passou a ponta da língua pelo arremedo de umbigo e, já de joelhos, avisou: – Vamos ver se descubro o que é… – beijou-o demoradamente a todo o comprimento. – Agora é que vamos ver de que massa és feito, homem-queque.

Terça-feira

O homem queque cumprimentou o mil-folhas e sentou-se ao seu lado ao balcão. Levantou um dedo para fazer o pedido mas permaneceu em silêncio, evitando os olhares interrogativos do mil-folhas fixando-se no empregado que lhe enchia uma imperial. O mil-folhas percebeu o desalento do homem queque pela forma comprometida como este o evitava e pelo modo triste com que cravara os cotovelos no balcão segurando o rosto.
– No outro dia – começou o mil-folhas, tentando animar o amigo –, ouvi uma boa na bola.
O homem queque recebeu a imperial e, sem falar, fez sinal ao mil-folhas que queria ouvir a história. O mil-folhas continuou:
– Um pastel de nata estava a chamar nomes ao árbitro, aos gritos: filho da puta! Filho da puta! – O mil-folhas pousou o copo vazio da imperial e gesticulou acompanhando os impropérios que abafava, presumivelmente, imitando o pastel de nata. – Dedica-te mas é ao piano, filho da puta!
– Ao piano? – perguntou o homem queque, ainda de lábios descaídos e olhar baço.
– O árbitro era pianista e alemão – explicou o mil-folhas.
– Ah…
– E o gajo continuava aos gritos: filho da puta! Filho da puta! Vai roubar para o teu país, filho da puta! – o mil-folhas baixou o tom e suspendeu os gestos para narrar: – Então, houve um gajo ao lado, um pastel de feijão ou lá o que era, que lhe perguntou: “O gajo é de onde?”; o pastel de nata ficou a olhar para ele aparvalhado e respondeu: “De onde o quê?”; “De que país? De que país é o árbitro?” esclareceu o pastel de feijão. – O mil-folhas rodou o banco e olhou directamente para o homem queque: – E sabes o que o tipo disse?
O homem queque acenou que não, não sabia.
– O pastel de nata virou-se para pastel de feijão e disse muito sério: “O filho da puta? Aquele filho da puta? Aquilo não tem país, pá! Filho da puta é filho da puta e pronto, não tem nacionalidade: é filho da puta!”
– E o pastel de feijão?
O mil-folhas olhou-o espantado, esperava um comentário, uma gargalhada ou, pelo menos, um sorriso e não uma pergunta.
– O pastel de feijão?! – O homem queque confirmou com um aceno. – O pastel de feijão calou-se, pá, calou-se. O que é que querias que ele dissesse mais?! O pastel de nata foi peremptório, não admitia resposta: Filho da puta é filho da puta e pronto!
– Ah… estou a ver – disse o homem queque, sem entusiasmo. – E a história gira que ouviste na bola?
– Ahn?!... Foi… – o mil-folhas engasgou-se, tossiu, olhou para o homem queque, que ainda tinha os lábios descaídos mas o olhar menos baço, e respondeu encolhendo os ombros: – Vai-te lixar!

Quinta-feira

– Não, não o cuspas – pediu a custo o homem-queque, num fio de voz vindo do diafragma. – Por favor...
Sem o tirar da boca, a madalena revirou os olhos para cima e expressou a sua dúvida e inquietação com um curioso movimento das sobrancelhas.
– Não o molhes – adiantou o homem-queque entre suspiros provocados pela irrequieta língua da mulher bolo.
A madalena recuou a cabeça até ficar com a boca vazia e perguntou, desconsolada:
– A seco, homem-queque?... Queres que o faça a seco?
Abatido com a resposta que ia dar, o homem-queque fixou-se na sua protuberância calórica que apontava o céu e suspirou:
– A seco, madalena, tem de ser a seco se não queres ficar com a boca cheia de migalhas…

– Oh… meu querido – ronronou a madalena, agarrando suavemente a protuberância calórica do homem-queque com as pontas dos dedos e apontando-a à boca. Fez círculos com a ponta da língua na extremidade da rija protuberância do homem-queque e ronronou docemente: – A tua massa está deliciosa, homem-queque. – Abocanhou a protuberância até à base e balbuciou com a boca cheia: – Deliciosa.

Quarta-feira

O homem-queque

– Pum!
O homem-queque bateu com a esponjosa mão no tampo da secretária do administrador do estúdio soltando migalhas e, sincronizadamente, deu um grito rouco imitando o som de uma mão verdadeira a esmurrar a mesa. A composição da receita que fizera do homem-queque um ser silencioso, levara-o a desenvolver competências ao nível da sonoplastia vocal, tendo-se tornado, nas duas semanas que levava fora do forno, num perito em imitar os sons que o seu corpo não conseguia fazer e em sincronizá-los de forma teatral com os seus gestos. O homem-queque gostava de si e do seu corpo, mas não se conseguia conformar com a sua silente maciez e adocicada fragilidade, que o obrigavam a ser a sua própria banda sonora e a evitar fellatios prolongados, que lhe podiam dissolver o órgão de soberania e torná-lo um homem-queque assexuado ou, pior, um queque indiferenciado.
– Pum – repetiu orgulhoso o homem-queque, para reforçar a sua irritação com o administrador do estúdio que o mantinha a contrato mas o excluía de qualquer desenho animado.
O administrador riu-se e desviou ostensiva e provocadoramente os olhos para uma fotografia do boneco de gengibre abraçado ao gato das botas.
O homem queque seguiu-lhe o olhar e rosnou (gostava de imitar animais, principalmente durante o acto sexual, ainda que o seu maior pavor fosse o de vir a conhecer (ainda que, provavelmente, só o viesse a saber tarde de mais e apenas durante breves instantes) uma mulher bolo com os mesmos gostos e que imitasse os rituais de acasalamento de uma louva-a-deus).
– Uma louva-a-deus não é um animal – censurou o administrador.
O homem queque fulminou-o com o olhar mas não lhe respondeu.
“Isso não interessa nada” pensou o homem queque, engolindo em seco, “se ela me engolir a cabeça, quero lá saber se é um insecto ou um animal.”
“Visto por esse prisma” anuiu o administrador, imaginando o homem-queque sem cabeça.
– Oiça lá – barafustou o homem queque, olhando na minha direcção mas falando com o administrador do estúdio –, é mesmo preciso este narrador?
O administrador encolheu os ombros, fazendo desaparecer as orelhas. Aparvalhado, o homem queque bolsou um nasalado “oh”.
– Não – afirmou o administrador dirigindo-se ao homem-queque, despedindo-me verbalmente, mas fazendo sub-reptício sinal para me manter na sala. O homem-queque sorriu e o administrador perguntou: – Fellatios prolongados, homem-queque?
– Molhados, principalmente – disse o homem-queque, coçando a virilha num acto reflexo. – Para mim são um perigo, desfazem-me.

Quinta-feira

PUM!

– Matou-o?
– Matei.
– Matou-o mesmo?
– Matei.
– E agora?
– Agora o quê?
– Matou-o…
– Pois.
– E agora?
– Agora? Agora está morto.
– Sim, isso estou eu a ver, mas o que é que fazemos?
– Nada, já está morto, o que é quer que façamos?
– Façamos?!
– Sim, o que é quer fazer?
– Façamos?! Fazer?! O que é que EU quero fazer?!
– Sim. O que é que fazemos?
– Não fui eu que o matei!
– Ninguém disse que foi.
– Pois não, nem podia. Você é que o matou!
– Eu?
– Diga?
– Eu?
– Eu, o quê?
– Fui eu que o matei?
– A mim?
– Diga?
– Espere aí, acho que estamos a ficar baralhados…
– Baralhados? Não. Eu não.
– O que é que você perguntou?
– Quando?
– Ainda agora.
– Mesmo agora?
– Sim.
– Quando?
– Quando o quê?
– A última pergunta que fiz foi “Quando?”.
– Não é isso.
– Não? Então é o quê?
– Não perguntou se foi você que o matou?
– Perguntei.
– Porquê?
– Porque é que perguntei?
– Sim.
– Já não me lembro…
– Já não se lembra?! Já não se lembra?! Já não se lembra que o matou?
– Disso lembro, já não me lembro é porque perguntei.
– Ah! Mas lembra-se que o matou?
– Claro que sim, foi agora mesmo.
– Ao menos isso…
– O quê?
– Que se lembre que o matou.
– Eu nunca disse que me esqueci.
– Pois não… E agora?
– Agora?
– Sim.
– Agora, o quê?
– O que pensa fazer?
– Esfolamo-lo?
– Esfolá-lo?
– Sim, e assamo-lo.
– Assamo-lo?
– Sim, assamos e comemo-lo.
– Comemo-lo?
– Sim.
– Está a brincar?!
– Não, de maneira nenhuma.
– Esfolamo-lo?!
– Sim e assamos.
– Para o comer?
– Para que haveria de ser?
– Esfolamos, assamos e comemos…
– Sim, qual é dúvida?
– Comemos o gato?
– Qual gato?
– O gato que você matou!
– Um gato?
– Sim, um gato.
– Matei um gato?
– Foi.
– Um gato, tem a certeza?
– Absoluta.
– Não era um coelho?
– Era um gato.
– Bolas! Pensava que era um coelho!
– Um coelho?! O bicho não tinha orelhas!
– Então, como é que sabe que é um gato?
– Não tinha orelhas de coelho! Tinha orelhas de gato!
– Tinha?
– Ainda deve ter.
– O coelho tinha orelhas de gato?
– Qual coelho?
– O que eu matei.
– Você matou um gato!
– Foi?
– Foi.
– Conhecia-o?
– A quem?
– Ora, ao gato.
– Não.
– Então como é que sabe que não era um coelho?
– Oiça lá, um gato é um gato e um coelho é um coelho! Não há confusão possível!
– Não, tem a certeza?
– Enquanto não forem esfolados, tenho a certeza!
– Não seja por isso: esfolamo-lo!
– Ao gato?
– Matou mais alguma coisa?
– Não.
– Eu também não.
– Esfolamos o gato?
– Sim, esfolamos.
– E depois?
– Depois, depois deixamos de ter a certeza.
– De quê?
– Se é um gato ou um coelho.
– E arranjamo-lo?
– Sim, com certeza.
– E comemo-lo?
– Sim, mas já não pode é ser assado.
– Não?
– Não, a carne de gato é mais adocicada, precisa de temperos.
– Mas aí nós já não sabemos se é um gato ou um coelho.
– Sim, mas… um gato é um gato, e mesmo que nós não soubéssemos que o coelho era um gato, ele não deixava de ser um gato.
– Mas se é assim, escusamos de fingir que é um coelho.
– E quem é que está a fingir?
– Ah! Você é que disse que era um coelho!
– Mas eu não estava a fingir, eu pensava que era um coelho!
– Mesmo?
– Sim, mesmo!
– E agora?
– Agora o quê?
– Já não acha?
– Você é que disse que era um gato!
– Mas você é que o matou.
– Fui?
– Eu é que não fui!
– Nem eu, calha bem!
– Não?!
– Eu não matei um gato, eu matei um coelho!
– Era um gato!
– Um coelho!
– Era um gato, estou a dizer-lhe!
– Pode dizer o que quiser, eu matei um coelho!
– Ah! Vamos mas é buscá-lo!
– A quem?
– Ao gato.
– Qual gato?
– Ao coelho, pronto!
– Ah! Ah! Sempre matei um coelho!
– Não matou nada…
– Você é que disse! Não disse “Vamos buscar o coelho?”
– Não!
– Disse!
– Não disse!
– Você disse: “Ah! Vamos mas é buscá-lo!” e eu perguntei “A quem?” e você primeiro respondeu, pouco convicto, “ao gato” e eu, desconfiado, porque matei um coelho, inquiri “Qual gato?” e você respondeu “Ao coelho, pronto!” com ponto de exclamação e tudo! Foi ou não foi?! Foi ou não foi?!
– Foi, mas isso não quer dizer que o gato se tenha transformado num coelho…
– Lá está você a tergiversar…
– A quê?
– A tergiversar, a inventar, a confundir…
– A confundir, eu?!
– Sim, você… Cá para mim estava a ver se me convencia que eu tinha morto um gato e, depois, fugia-me com o coelho.
– Qual coelho?
– O que eu matei.
– Você matou um gato.
– Isso diz você.
– Não digo. Não digo nada. Vamos lá e vimos.
– Onde?
– Ao sitio onde está o… o animal que matou.
– Matei?
– Sim.
– Como sabe que fui eu?
– Eu é que não fui.
– Eu também não. Eu nem vi gato nenhum.
– O gato estava em cima do muro…
– Tem a certeza?
– Eu?! Você é lhe acertou!
– Sim, mas tem a certeza que não era um coelho que estava em cima do muro?
– Um coelho!? Em cima do muro?! Era um gato!
– E agora?
– Agora o quê?
– Onde é que ele está?
– Deve estar do lado de lá do muro.
– Caiu?
– Com certeza, se foi atingido.
– O quê?
– O quê o quê?
– O que é que foi atingido?
– Um gato!...
– Meu Deus.
– Meu Deus, o quê?
– Atingirem um gato…
– Atingirem não, atingir! Atingiu. Você atingiu um gato!
– Ao que isto chegou…

Segunda-feira

A Varanda

Farta de o ouvir, encaminhou-se para a porta da rua, abriu-a em silêncio e assim ficou, agarrada à maçaneta, olhando-o fixamente, tentando manter-se sem expressão, ordenando-lhe que saísse.
Ele que não parara de falar, de si, dela, de tudo e de nada, alimentando uma discussão que parecia ser a única coisa que os ligava, calou-se espantado. Olhou-a. Olhou o longo corredor escuro que dava acesso ao elevador e aos restantes apartamentos naquele piso e perguntou:
– O que é isso?
– Uma porta.
– Queres que me vá embora?
Ela ergueu as sobrancelhas:
– O que é que te parece?
– Assim?!
Ela baixou ostensivamente os olhos até aos sapatos dele e subiu lentamente até os olhos de ambos se tornarem a encontrar:
– Se foi assim que vieste, qual é a dúvida?
– Não estava a falar da roupa – disse ele, incomodado com a frieza e rigidez dela junto à porta.
Ela manteve-se calada.
– Queres que me vá embora? – repetiu ele, sem se mexer.
Ela acenou positivamente.
– Porquê? – inquiriu ele, iniciando a lenta caminhada até ela.
– Porque não?
Ele parou e olhou-a interrogativo, mas não recebeu qualquer sinal em resposta.
– É isso que queres? – e recomeçou a andar.
– Sim.
Ele aproximou-se dela e estendeu a cara na sua direcção, apontando a sua boca à boca dela. Ela hesitou, mas acabou por não dar o passo atrás, como o primeiro impulso quase a levara a fazer, e apenas virou a cara, dando a face para ser beijada.
Ele beijou-a e suspirou ruidosamente.
– Eu depois ligo-te – disse, saindo para o corredor.
– Escusas de ligar – informou-o. – Com licença – e fechou a porta suavemente ante a incomodada perplexidade dele.

Deixou-se ficar encostada à porta e ouviu-lhe os passos no corredor a afastarem-se, percebeu duas paragens mas nunca olhou pelo óculo da porta. Ouviu a porta do elevador fechar-se, desencostou-se da porta, deu cinco passos e encarou a sala vazia, mais vazia.
“E agora?” pensou. Sorriu com a pergunta, achou graça a que no fim de uma discussão, provavelmente, sem retorno, a primeira coisa que conscientemente pensasse fosse exactamente “E agora?” como se tivesse queimado o jantar e fosse imperioso arranjar uma solução imediata. Suspirou “Que estupidez”, mas não fechou o sorriso.
Procurou o maço de tabaco e encaminhou-se para a varanda, sentindo-se estranhamente satisfeita, absurdamente limpa e leve. Ouviu o telemóvel tocar mas decidiu não atender, nem sequer ver quem era. Encostou a porta da varanda, sentou-se na cadeira plástica e fumou olhando as janelas do prédio em frente.
“Quantas pessoas estarão agora a fazer amor? Quantas estarão a discutir? Quantas estarão a vegetar em frente ao televisor?”, conjecturou contemplando demoradamente os apartamentos que entrevia através das janelas. “Estou a ficar velha”, acendeu outro cigarro, “ou, se calhar, mais esperta”, olhou para o relógio com satisfação e, ainda que não o pensasse de forma consciente (não precisava), decidiu sair, ir às compras, ver montras, ver pessoas e caminhar.
Apagou o cigarro, ainda a meio, e reentrou em casa. O telemóvel tocava. Respirou fundo e, contrariada, dirigiu-se, de sobrolho franzido, ao braço do sofá, onde o tinha abandonado. Olhou o mostrador, “Provavelmente, isto já não se chama um mostrador”, pensou e leu o nome dele. Atendeu.
– O que foi?! – disparou.
Ele hesitou (as hesitações dele enfureciam-na), começou três frases, que ela não percebeu e, por fim, pediu:
– Desculpa.
– Porquê? – perguntou ela, furiosa. Desculpas era a última coisa que queria ouvir. – Por seres quem és?!
– O quê?
– Está a pedir-me desculpa, porquê? – insistiu com maus modos. – Partiste alguma coisa, foi?
Surpreendido, ele não respondeu.
– Partiste alguma coisa?! – repetiu ela.
– Não – disse ele.
– Fizeste chichi no elevador? – perguntou ela.
Ficaram ambos estupefactos quando ouviram a pergunta mas só ele verbalizou a surpresa:
– O quê?!
Ela, ainda espantada com o que perguntara, imaginou-o de olhos esbugalhados e olhar perdido, boca aberta e sobrancelhas em meia lua quase a tocarem a franja e abafou um risinho de gozo. Gostara da frase, ainda que não compreendesse porque a dissera.
– Estás pedir desculpa, porquê? – retomou a conversa antes do chichi, mas imaginava-o agora a abrir a braguilha, a parar o elevador e a urinar furtivamente com um sorriso demoníaco.
– Porquê? – repetiu ele.
– Sim, estás a pedir desculpa porquê?
Ele sentiu o porquê como um monte de entulho impossível de ultrapassar sem se magoar, sem se sujar, sem se comprometer. Na verdade, ele por mais que se esforçasse, e estava a esforçar-se muito, não sabia porque tinha pedido desculpa, ou melhor, sabia, mas não o podia dizer. Não pedira desculpa por nada, julgara apenas que fosse uma boa forma de iniciar a conversa. Normalmente resultava.
– Porque é que havia de fazer chichi no elevador? – disfarçou.
– Sei lá – ela não conteve uma gargalhada. – Podias ter vontade.
– E achas que ia mijar – ambos estranharam que ele usasse esta palavra – no elevador?
– Podia ser uma afirmação!
– Urinar no elevador…
– No meu elevador.
– Urinar no teu elevador era uma afirmação?
Ela olhou-se ao espelho. Sorria e os olhos brilhavam-lhe. “E agora?” lembrou-se, sem mudar de semblante.
– Urinar, não – declarou. – Mijar, sim. Dava a ideia que te tinhas descontrolado, que tinhas sido realmente afectado pela nossa discussão… que tinhas sido abalado por eu te pôr na rua – corrigiu.
– Estou a ligar-te, não estou?
– E depois? – A imagem do espelho tinha perdido o sorriso e os olhos já não brilhavam. – Estás a ligar-me, pois estás, mas ainda não me disseste nada – o tom endureceu e ela afastou-se do espelho quando se apercebeu da ruga vincada que lhe dividia a testa. Tornou a olhar para os prédios em frente. “Quantas pessoas estarão a fazer amor neste momento?” – Há quanto tempo não fazemos amor? – perguntou de chofre.
– Há…
– Não digas – interrompeu ela, arrependida de ter feito a pergunta –, não interessa. Não interessa nada – concluiu em voz sumida.
– Fizemos ontem – disse ele em tom informativo, neutro. “No mesmo tom com que fizemos amor”, foi abalado por este pensamento e calou-se, evitando o risco de descobrir mais qualquer coisa se continuasse a falar.
Ela voltara a pegar no maço de tabaco e regressara, ainda com o telemóvel junto ao ouvido, à varanda. Inconscientemente procurou descobrir o automóvel dele e viu-o, encostado ao carro, de cabeça baixa, olhando para o telemóvel.
– Está – disse para perceber se ele ainda a estava a ouvir.
– Sim, estou – ouviu-o dizer entre os barulhos da rua. Tinha o telemóvel no altifalante.
– O que foi? – ouviu-se perguntar em tom genuinamente curioso.
– Posso subir?
– Subir?
– Sim, posso ir aí?
Ela viu-o levantar os olhos para a varanda e levar o telemóvel até ao ouvido. Hesitou. Olhou as janelas do prédio em frente e apagou o cigarro, onde dera apenas duas passas, informando-o, lacónica:
– A porta está aberta.
Desligou o telemóvel, viu-o descolar-se do carro e foi abrir o trinco da porta do prédio e a porta de casa, que deixou encostada. Olhou para o sofá, mas decidiu retornar à varanda, onde se sentou de costas para a sala observando as janelas do prédio em frente.