Segunda-feira

O cão

Os dias correm iguais, sempre iguais. Tu aí e eu aqui, a lamuriar-me de que os dias correm iguais. Sem coragem de os fazer diferentes. Fico sem saber se é de mim, se é do tempo, se é de ser segunda-feira, mas, o certo, é que os dias parecem-me iguais, sempre iguais. Sem coragem de os tornar diferentes. Fecha-me o sorriso, apaga-se-me a luz e escrevo. Escrevo sem saber porquê.

Sabes, quando era pequeno, tinha um vizinho que tinha um cão. Um cão medroso, que o meu vizinho ensinou a não passar a estrada. A não sair do passeio em frente ao portão. Se bem me lembro, mas disto não me lembro bem, o cão primeiro nem saía do quintal, mesmo que o portão estivesse aberto. O portão aberto, o mundo à distância de um passo, de uma corrida e o cão nem saía, não atravessava a linha que o dono lhe tinha imposto. Disto não me lembro bem, mas penso que era assim. Mas o cão saiu, se fui eu ou o cão que ganhou coragem, não sei. Não me lembro. Mas lembro-me que, uma vez na rua, o cão não atravessava a estrada. Ia para cima, ia para baixo mas não saia do seu passeio. O dono não deixava, ensinara-o assim. E eu achava que era um abuso. Uma tristeza. Uma incompreensível injustiça. Um cão livre, solto, que não conhecia o mundo para lá da estrada, porque o dono não queria.
E o cão foi atropelado e morreu. Se conheceu o mundo não sei. Nem acho, agora, que ele o quisesse conhecer se soubesse que ia morrer.
E eu puxei-o, dei-lhe coragem, ajudei-o. Libertei-o. O cão tinha pavor da estrada, não se aproximava, gania, sentava-se, mas eu ajudei-o. Com a paciência infantil de julgar estar a fazer o que está certo, ajudei-o e o cão soltou-se, perdeu o medo. Libertou-se.
Foi atropelado e morreu.
Morreu livre, pensei. Ou melhor, não sei se pensei. Morreu.

Os dias corriam iguais, mas eram dias, semanas, meses. E depois deixaram de ser.
Não me lembro do nome do cão. Era cinzento, tinha pêlo de arame e, por fim, saltava. Saltava muito e gostava de mim.
Morreu atropelado, já te disse?
Morreu atropelado na estrada que eu lhe ensinei a não temer, a passar.
Ganhou dias diferentes, mundo à frente. Nem sei se abriu um sorriso ou se ganhou um brilho no seu grave olhar canino. Se morreu feliz, não sei. Sei que morreu. E sei que não o ajudei.

E fico aqui, à beira da estrada, com medo de passar. De ser atropelado e perder os dias que correm iguais, sempre iguais, que me atropelam devagar.

Sexta-feira

tal como a vida, este folhetim está repleto de episódios menores. na verdade, tal como algumas vidas, este folhetim é uma sucessão de episódios menores. é o que se arranja. e vai continuar a arranjar-se às sextas-feiras. só às sextas, que tenho outras coisas igualmente menores para escrever.

O FOLHETIM: 35

– Queres ir jantar, Jessica?
– Jantar, doutor? – perguntou a mulher com o suplemento de simpatia que era o seu sotaque baiano.
O homem, mexendo no nó da gravata, confirmou com um sorriso e uma ligeira cabeçada na atmosfera.
Ela envolveu-o num amplexo quente, terno, amoroso e murmurou-lhe ao ouvido:
– Só jantar, doutor? – E coçou-lhe sensualmente a séria e aparada nuca europeia com a sua lasciva e espontânea mão sul-americana.
Ele deu uma sonora gargalhada teatral. Arrepiou-se com a desenvoltura e certeza no toque dos dedos dela e respondeu com ar solene:
– Quem sabe, menina Jessica, quem sabe se será só jantar…
– Sabemos nós – pestanejou ela, divertida. – Sabemos nós, doutor.
Ele forçou nova gargalhada, ela despenteou-o com brilhantes resultados epidérmicos, mas pobres resultados capilares.
– Vamos? – questionou ele, de forma definitiva..
A operária do sexo beijou-o suavemente na face escanhoada e cheirosa. Ele aproveitou para passar a mão pelo cabelo, retocando a sua composta imagem de doutor do velho mundo.
– Vamos, doutor – concordou ela, sorrindo.
O homem sentiu-lhe o perfume, tropical como ela, reteve a sorridente luminescência do seu olhar, as desarmantes rugas de expressão, as felizes sobrancelhas negras, espessas e simétricas, os húmidos lábios carnudos e sensuais, sem batom, o nariz de menina e os dentes brancos, perfeitos, que também pareciam rir. Ela não estava pintada e o cabelo, negro, farto, descendo pelos ombros, estava apenas penteado, sem ondulações plastificadas, repeniques bacocos ou cores artificiais.
António Farinha respondeu-lhe ao sorriso. Cada vez gostava mais do novo mundo, ou melhor, cada vez gostava mais das mulheres do novo mundo, principalmente das que, como Jessica, surgiam naturalmente sensuais, quentes, simpáticas. Sem artifícios, sem sorrisos de favor, nem olhares de carteirista. Farinha sabia que ela estava a trabalhar e que ele era apenas mais um cliente, mas gostava de não ter de pensar nisso, de não se sentir como tal. Apreciava principalmente um sorriso que tomasse conta da cara, que não ficasse só por um esgar de lábios para a fotografia, com olhos de onde não se podia retirar a cobiça, a vergonha ou a tristeza. “As máquinas em vez de tirarem o vermelho dos olhos, haviam era de empastar os olhos que não sorriem, as rugas que não aparecem, os dentes que não se mostram”, pensou Farinha, “As pessoas haviam de aprender a sorrir, a disponibilizar-se para sorrir, para rir, para serem felizes, em vez de aprenderem a esconder a tristeza, as dúvidas, os verdadeiros sentimentos atrás de lábios arrepanhados, de sorrisos posterizados, de caretas de arlequim”.
Naquele momento, pelo sorriso, pela disponibilidade, pela natural sexualidade e esmagadora sensualidade, Farinha amava Jessica. Amava-a. Amava-a tanto quanto um encasacado e engravatado doutor do velho mundo podia amar uma prostituta do novo mundo. E, sabiam ambos, estava disposto a pagar para materializar esse amor.
O doutor António Farinha tornou a ajeitar o nó da gravata. Hesitou, mas acabou por abrir o primeiro botão da camisa, ainda que o fizesse com cuidado, para que o nó da gravata não baixasse, deixando-o com ar de decadente e desleixado doutor do velho mundo.
Jessica pediu licença e, autorizada, ajeitou-lhe a gravata:
– Doutor, quando abrir o botão, alargue o nó da gravata um dedo ou dois…
– É?
– Sim, tem de se perceber que foi o doutor que quis abrir o colarinho – Jessica instruía com suavidade – e que não é a camisa que está apertada. O nó tem de ficar direito e perfeito, mas a gravata tem de ser alargada para acompanhar o colarinho. Tem de ficar com ar descontraído e um pouco displicente, mas aprumado.
O doutor Farinha ouvia-a enlevado.
– Assim! – Exclamou Jessica, piscando o olho. – Perfeito, doutor!
De peito feito e sorriso de orelha a orelha, Farinha olhou em volta, vaidoso, deu o braço a Jessica e perguntou:
– Podemos ir?
– Tenho de ir pedir à mãezinha – anunciou a mulher – e mudar de roupa, doutor.
– Mudar de roupa?
– Sim, vou vestir algo mais discreto – Farinha fez uma careta de desapontamento. Jessica deu uma gargalhada. – Mais discreto por fora, mas não por dentro, António. Pelo contrário. Pelo contrário…
Farinha voltou a sorrir e a querer continuar como personagem deste mal amanhado folhetim, pois, quod non est in actis non est in mundo.

Quarta-feira

trenta quattro

Isabel achou graça à careta que Caramelo fez, quando lançou o ponto de exclamação a seguir ao não, e acreditou nele, mas não o demonstrou. Afastou-se e deixou-o com a cerveja colada ao balcão e um não sem explicação.
Henrique – de quem, confesso, me havia esquecido – reapareceu e encostou-se ao desanimado Caramelo. Fernando reaproximou-se com tal cara de pau que ninguém diria que antes tinha fugido.
– Então – lançou o obnubilado Henrique, simpático, – estavas a falar com a antipática da Isabel?
Fernando abafou um risinho gozão. Caramelo fulminou-o com olhos de urtiga e virou-se ostensivamente para Henrique:
– Antipática, porquê?
– Nunca se ri – explicou o outro, de dedo em riste a pedir uma mini como a de Caramelo.
– Não? – Caramelo sorriu, tinha notado que a empregada de balcão nunca sorrira, nem com a boca, nem com os olhos, e julgara que o fizera a si, unicamente a si.
– Não – confirmou Henrique, limpando o gargalo da garrafa, enfiando-lhe o polegar e tentando, sem sucesso, fazê-lo estalar à saída. – Foda-se! – reclamou da pífia tentativa, enquanto dava dois euros a Cosme e continuou a falar de Isabel: – Nunca mostra os dentes e raramente fala com os clientes.
– O Caramelo deve pensar que é um rebuçado seleccionado – gozou Fernando. – Primeiro, quis leite com chocolate. Agora queria carne fresca. Carne que mais ninguém come.
– Vai-te lixar! – exclamou Caramelo.
– Não te aguentaste com as duas e…
– Vai-te lixar!
Fernando riu-se satisfeito, tinha conseguido enfurecer o amigo, e afastou-se para falar com uma puta de quem escusamos de saber o nome, pois, só serviu para afastar o homem da cena anterior.
Aproveitando a deixa, o sorriso beato de Caramelo contemplando Isabel e a ausência de outros ouvintes, Henrique perguntou ao amigo o que se tinha passado com as duas mulheres com quem ele tinha ido ao fim da tarde. Caramelo, renitente em contar o episódio, que bem falta me faz para apimentar a história, foi desviando a conversa e regando o silêncio com a mini. Felizmente, a conjugação de três situações condicionaram a vontade de Caramelo e acabaram por recompensar Henrique pelo paciente e nobre esforço coscuvilheiro: a conclusão da trasfega do conteúdo da mini da original garrafa de vidro para uma embalagem biológica e bio-degradável; a entrada na sala das duas putas com quem Caramelo estivera e a total indiferença de Isabel perante os olhares e sorrisos idiotas do interessado cliente.
Aborrecido, envergonhado e com sede, Caramelo cedeu às insistências de Henrique e arrancou para um longo e fastidioso monólogo catártico.

Terça-feira

Der Folhetim
33
Luísa via a proximidade entre a Patroa e Big e estranhava. Viu os ombros encostarem-se e admirou-se. Viu as mãos roçarem e assustou-se.
Nelson alheio a tudo que fosse mais do que ele próprio, pensava em recomeçar a conversa com a ajudante da patroa. O irmão tinha-o instruído a procurar Luísa, insinuar-se junto dela e cair-lhe nas boas graças para conseguir o vínculo à casa.
– Mas é verdade, D. Luísa – recomeçou Nelson, sem tacto, tentando reconquistar a atenção da mulher. – Tudo o que lhe disse sobre o senhor que está a falar com a D. Micas é verdade e há mais…
Luísa sentiu a aproximação e as palavras do homem como um insulto. Olhou-o, para confirmar os modos melífluos que esperava ver, e ouviu com asco o descarado canto de sereia que escapava do sobretudo preto de sucedâneo de porteiro. Retorceu os lábios e coçou o queixo. Suspirou incrédula em resposta aos toques adolescentes entre as mãos da Patroa e de Big, reparou na cara espantada de Floriano Perdiz sentado no seu sofá, no olhar esbugalhado de Miss Kitty que estacara na porta da cozinha e na fúria azeda do Porteiro e, sem contemplações, cortou as vazas a Nelson Rodrigues:
– Senhor Nelson, se veio para ajudar o seu irmão, faça favor – a mulher apontou para a porta da rua. – Se veio dar informações sobre os clientes… Se veio para bufo e tem alguma coisa para dizer sobre alguém, espera. Espera como os outros e fala quando eu ou a D. Micas o solicitarmos. Percebeu?
– Mas… – engasgou-se o homem.
– Nem mas, nem meio mas! – atalhou Luísa, mudando de expressão para sorrir ao dr. Farinha que lhe piscara o olho, enquanto falava, ou melhor, enquanto, praticamente, se deitava debaixo de Jessica, sorrindo como se fosse o homem mais feliz do mundo. Luísa tornou a endurecer a expressão, virou-se para o irmão do Porteiro, que a olhava com ar de cão sem dono, e concluiu: – É assim que esta casa funciona, senhor Nelson, e tem funcionado muito bem… Por isso, se quer, vá para o pé do seu irmão, se não, pode ir sentar-se lá atrás ou pode ir à sua vida.
– Lá atrás?! – embasbacou Nelson, que não reconheceu a meritíssima frase.
– É uma maneira de dizer – exasperou-se a mulher, com a falta de tacto judicial do interlocutor. – Ou vai foder, que é para isso que as senhoras cá estão, ou vai para o pé do seu irmão ou vai-se embora. Escolha!
– Mas… – o homem continuava esparvoado. – Não me vou sentar?
– Não. – O embaraço dele afligia Luísa como uma dor de dentes. – Não se vai sentar em lado nenhum. Ou vai para o pé do seu irmão ou vai-se embora.
– Vou para o pé do meu irmão – engoliu Nelson, cabisbaixo.
– Muito bem! – cuspiu Luísa. – Andamento.

Segunda-feira

(vamos avançar - quando digo avançar, não estou a falar do folhetim, estou a falar do blog -, que a nossa vida não é isto)
0 Folhetim, porque sexta-feira é um estado de espírito
TRINTAEDOIS
Big esperou que D. Micas parasse de rir.
– D. Micas, não é? – perguntou.
Ela assentiu com a cabeça.
Toni Dj avançou com Just Jack, "Starz in their eyes".
Big reparou no profundo decote em bico, nas linhas curvas que aproximavam os seios, na pele lisa, brilhante, sedosa, no pescoço fino, apetitoso, no esterno um pouco saído, criando um pequeno alto que apetecia percorrer com o dedo em carícia suave, nos ombros fortes mas femininos e na sensualidade carnal, imediata, inesperada, dos lábios que sorriam sem querer.
– Sabe, D. Micas, é nestas alturas, que eu acho que sou de uma normalidade confrangedora. Paralisante.
A mulher olhou-o, séria, fechando o meio sorriso.
Ele pousou as mãos no balcão, como se precisasse de se agarrar a algo material para falar.
– A minha normalidade não me atrapalha, esmaga-me! – declarou Big, solene, olhando as mãos e falando a meio tom, obrigando a mulher a aproximar-se e a tomar atenção para o ouvir.
Luísa reparou no movimento da Patroa, no sobrolho franzido, nos lábios fechados, na atenção com que ela o ouvia e estranhou.
Ele continuou:
– Por exemplo, não consigo vir aqui, mesmo sabendo que isto é uma casa de… de…
– Putas – ajudou ela, sem expressão. – Uma casa de putas. É o que é.
– Sim – agradeceu ele. – Não consigo vir aqui e, mesmo sabendo que as mulheres estão a trabalhar, abstrair-me disso, está a ver?
– Não, não estou – reconheceu ela, no mesmo tom íntimo que ele usava. – Disso o quê?
– De que são mulheres – Big juntou as mãos sobre o balcão. Suspirou. – Não me consigo abstrair de que a senhora é uma mulher ou de que a Kitty é uma mulher.
D. Micas afastou-se ligeiramente, tentou distanciar-se da voz quase sussurrada, do jeito meio perdido, das mãos que se entrelaçavam e separavam sublinhando o que ele ia dizendo. De forma inconsciente, parecia-lhe que já ouvira a conversa de Mr. Big dezenas de vezes, não com aquelas palavras, não com a espécie de oblíqua gravidade que ele lhes emprestava. Sentia, sem o querer, que o tom e, principalmente, a pose, eram familiares, mas, não conseguindo formar uma opinião negativa, que nem sequer se esforçou por conseguir, voltou à posição anterior, ou melhor, avançou uns centímetros e encostou-se ombro a ombro com ele. E, na verdade, ela sentiu-o, a formalidade insinuante da “senhora” desarmou-a.
– Sabe, que eu não queria vir aqui – Big sentiu o encosto no ombro. O contacto físico arrepiou-o. A Patroa pousou as mãos no balcão, paralelas às suas. Big falava ora procurando-a no espelho em frente, ora fixando as suas mãos que pareciam atraídas magneticamente pelas mãos pequenas da mulher.
– Não?
A mão direita de Big roçou na mão esquerda de Micas.
– Não.

Sábado

com um pedido de desculpas, ainda, O FOLHETIM:
XXX
Cardoso subia as escadas atrás de Palmira em direcção ao quarto. Tinha tentado libertar a mão duas ou três vezes, sempre que se lembrava de Big em apuros, mas acabou por se calar quando reparou nas seis andorinhas pregadas à parede, que pareciam voar para o cima das escadas, onde uma luz difusa emanava um forte odor a sexo e devassidão.
Palmira não parava, não o deixava largar a mão e puxava-o com um sorriso estranho, vidrado, que ele não via.
– Um quarto? – perguntou Beta burocrática, atrás da secretária no alto das escadas, ao vê-la a arrastar um homem.
Palmira anuiu em silêncio, recebeu a chave e assinou a folha de controlo do quarto.
– Faço uma para ti?
– O quê?
– Uma folha para o mapa de actividades – esclareceu Beta.
– Não – Palmira sorriu: a pergunta da outra soou-lhe como um elogio. – É só este.
Cardoso não tomou atenção a Beta ou à conversa das mulheres. Tornou a olhar para a porta fechada no fundo das escadas pensando em Big; depois concentrou-se na meia dúzia de anacrónicas andorinhas caseiras, que costumavam embelezar paredes de vivendas com nome de gente, e que agora estavam ali a saudar – Cardoso pensou nessa palavra – a saudar clientes e putas, dando um toque absurdo, quase surreal, à subida para os quartos; e, por fim, voltou ao cheiro e à luz. Vermelha, difusa, que parecia, a partir do cimo das escadas, querer esconder a bisonha e triste normalidade do local e, ao mesmo tempo – o cheiro emanava da luz, pensava Cardoso –, disfarçar, mascarar, esconder os cheiros sem graça, de produtos de limpeza, de desinfectantes íntimos, de perfumes baratos, de suor e de fumo.
– Vamos! – ordenou Palmira, com um puxão.
Cardoso seguiu-a, sem entusiamo.
Beta olhou-o pela primeira vez.
– Quim?!
Cardoso ouviu o seu nome, parou e virou-se para a secretária onde estava Beta, de olhos esbugalhados a olhar para ele. Os seus olhos imitaram os dela e Cardoso repetiu o espanto da mulher, ainda que tenha trocado o nome:
– Eduarda?!
Palmira, sem largar a mão da presa, ouviu a interjeitada troca de nominais e logo temeu o pior: “Beta era Eduarda?”, o homem a quem dava a mão era “Quim Cardoso?” e “de onde se conheciam esta duas aves?”.
– Joaquim – corrigiu Cardoso.
– E não somos aves – melindrou-se Eduarda, a quem chamavam Beta.
– Beta? – perguntou Cardoso.
– Eduarda? – replicou Palmira
– Quim! – Eduarda, mais conhecida por Beta, levantou-se e abraçou Quim Cardoso por cima da estreita secretária. – Meu querido Quim!
– Beta! – queixou-se a desesperada Palmira, temendo perder o cliente.
– Quim, meu querido – repetia ad nauseam Eduarda. – Meu querido… Tinha tantas saudades tuas!
E perante os olhares estupefactos de Palmira e do próprio Quim Cardoso
– Joaquim!
E perante os olhares estupefactos – agora menos, que já são repetidos –, de Palmira e do próprio Joaquim Cardoso, Beta pespegou-lhe um longo, húmido e intrusivo beijo de língua.
– Foda-se – queixou-se a desconsolada Palmira.
Cardoso não conseguia dizer nada, mas estava igualmente surpreendido, ainda que não tão desconsolado.
Eduarda beijava como se o mundo acabasse imediatamente para toda a gente que não tivesse a boca colada a outra boca. O seu mundo não ia acabar, mas parecia. A mulher investia com a língua, que conseguia fazer tocar na ponta do próprio nariz, e, oprimindo os lábios e manietando os maxilares, dominou e subjugou a língua de Cardoso e invadiu-lhe e tomou – quase que anexou – a abobada palatina e as amígdalas. Tudo isso, enquanto, sem interromper a desbragada troca de salivas, subia pela secretária, ficava de joelhos em cima daquela, passava as pernas para o lado onde já estava a sua língua e, sentando-se na secretária, enrolou pernas e braços em Cardoso, sob o olhar bovino de Palmira, que não esboçava reacção.
Cardoso, pelo contrário, temendo pela deslocação do maxilar, pela violenta abdução da língua ou pela perda da abobada palatina ou de alguma das amígdalas ou das duas para a língua imperialista, foi obrigado a reagir à investida de Eduarda, a quem chamavam Beta: primeiro, usou a língua, esforçando-se para dar a devida luta ao órgão oponente; depois de conseguir levar a sua língua à boca rival, Cardoso passou também a controlar, ainda que pouco, os movimentos dos maxilares que a mulher parecia querer fundir; e, por fim, só com a mão esquerda – Palmira não lhe largava a direita –, Cardoso agarrou a farta cabeleira loura de Eduarda, a quem conheciam por Beta, e, entre carícias, conseguiu descolar a face dela da sua e, assim, conseguiu respirar e emitir um inesperado pedido de ajuda ocular a Palmira.
Palmira grunhiu de satisfação: o cliente era dela!

31
– Quem é? – perguntou Caramelo, olhando para Isabel.
Fernando seguiu-lhe o olhar:
– A empregada?
Caramelo anuiu em contemplativo silêncio com um ligeiro abanar da cabeça.
– Não sei – informou Fernando, pouco interessado.
– É belíssima – apreciou Caramelo, baixinho.
– Quem?
– A empregada, pá – resmungou Caramelo, magoado com a falta de visão do amigo.
– Ah! – Fernando olhou para dentro do balcão. – Achas? – desdenhou.
– Se acho?! – Caramelo não tirava os olhos da empregada. Se pudesse, já tinha trepado ao balcão para se lançar aos pés dela. A custo desviou o olhar da mulher e lançou-o com fúria a Fernando. – Deves estar a brincar… Só podes!
– É pá… – o descrente sentiu o desagrado do amigo e concentrou-se na mulher, julgando que algo lhe estava a escapar. Mirou. Remirou. E tornou a olhar. Encolhendo os ombros, deu o seu gago veredicto: – Ah… Não… Não é… É normal. É gira, mas não é nada por aí além…
– Gira?! – Caramelo afastou-se dois passos do amigo. – Gira?! – Caramelo aproximou-se um passo do conhecido. – Gira, foda-se?! – Caramelo bateu com a mão no balcão junto ao conhecimento de ocasião. – Gira, dizes tu?! – Caramelo fitava o desconhecido que o afrontara de forma absurda e despropositada. – Aquela mulher é gira?! Gira?! – Caramelo sentia-se enxovalhado por estar no mesmo planeta que aquele alienígena. – O que gira são os carrosséis, ó seu protozoário. Aquela mulher é linda! Linda!
Fernando interpretou devidamente a rubescência facial, o olhar assassino, a espuma ao canto dos lábios, as pancadas no balcão e os saltinhos ridículos do amigo e disfarçou:
– Estás a falar de quem? – “drop de Badajoz”, rematou em silêncio.
– Dela – Caramelo ergueu o braço sobre o balcão, deu-lhe solene e vagarosa amplitude e apontou de mão estendida para Isabel. – Da voluptuosa empregada de balcão…
– Deseja alguma coisa? – interrompeu a alegada voluptuosa, farta dos olhares embeiçados de Caramelo, destrunfando-o.
– A si? – ouviu-se ele a dizer.
– Desculpe?
Fernando afastou-se, como se o amigo tivesse acabado de ganhar sarna.
– Se desejo alguma coisa? – recomeçou Caramelo.
– Sim – Isabel aproximou-se dele e pousou as mãos no balcão à sua frente.
Caramelo engoliu em seco, baixou a cabeça, adorou-lhe as mãos e subiu adorando o corpo, sorriu ao ver o contorno dos seios, imaginou-se a beijar-lhe o pescoço, o queixo, os lábios, o nariz, os olhos…
Isabel esperou que os olhares se cruzassem, ergueu as sobrancelhas, que ele adorou ver arqueadas, e só então disparou:
– Nunca viu?
– Não, nunca vi – Caramelo só se ouvia falar. A voz era a sua, o tom e as palavras não. – Nunca tinha visto uma mulher assim.
– Está a gozar?
– Não, a sério. Desculpe… – Caramelo olhou em volta, ninguém, além de Fernando, claro, que estava a ver o que coisa dava, ninguém o olhava ou ligava à sua conversa, mas a ele pareceu-lhe que estava toda a gente a olhar para si. A ouvi-lo. A julgá-lo. A gozá-lo. Um parvalhão a meter-se com a voluptuosa e lasciva empregada de balcão. Caramelo encolheu-se. Sorriu e encolheu-se. – Desculpe, não era nada. Quero só uma cerveja.
Isabel não sorriu e afastou-se para buscar a cerveja.
Voltou. Pousou a mini em frente ao cliente, debruçou-se sensualmente sobre o balcão e sussurrou sem sorrir:
– Pareceu-me ouvir dizer que me queria a mim.
Surpreendido e sem reacção, Caramelo ficou com a mão aberta junto à garrafa.
– Ouvi mal? – instigou Isabel. – Foi?
Caramelo sentiu as pálpebras afastarem-se – a de cima da de baixo, entenda-se, não as da direita das da esquerda, a cabeça do homem não alargou, foram só os olhos que se abriram mais do que o normal; ainda que, na verdade, o doloroso e descontrolado latejo que ele sentia nas têmporas pudessem indiciar que a cabeça do indivíduo se pretendia expandir, mas tal não aconteceu, nem vai acontecer. Talvez fosse engraçado, mas condicionava um bocado o resto da história. Podia até rebentar-lhe a cabeça. Explodia. Sangue e olhos e dentes, mais destes que daqueles, a voarem em todas as direcções. A língua a pender do maxilar inferior que cairia em cima do balcão, junto às mãos de Isabel. Sangue, líquidos e fluídos a escorrerem pelos ombros de Caramelo. Bocados de couro cabeludo, de crânio e de cérebro a colarem-se à roupa dos clientes, ao corpo das putas, ao cabelo de Isabel e de Luísa. Cosme a vomitar e Toni DJ a aproveitar para voltar aos 80, provavelmente com os Talking Heads ou os Dead or Alive. O corpo de Caramelo a resistir erecto, como uma galinha sem cabeça e, por fim, a desmoronar-se sem estrondo, só com um murmúrio, ante o olhar horrorizado dos frequentadores do bar da D. Micas. Hummm… Mas não, não vamos por aí.

Caramelo sentiu os olhos escancarem-se, a boca secar, as têmporas latejar, as palmas das mão humedecerem, os pés arrefecerem e as orelhas permanecerem na mesma.
– Ouviu bem – declarou Caramelo, fechando a mão com força desnecessária na garrafa. – A senhora é linda! Linda!
– Não perguntei… – os olhos de Isabel, ganharam um ligeiro brilho, mas talvez fosse reflexo do sorriso de orelha a orelha que Caramelo abriu ao ouvir a voz dela.
– O quê? – interrompeu Caramelo, para lá de entusiasmado.
– A cerveja. Era Sagres, que queria?
Caramelo murchou.
– Sagres… Era.
– Não foi o senhor que foi com a Camila e com a Laura?
– Fui?
– O senhor é que sabe! São dois euros.
– Porquê?
– A mini! A mini são dois euros!
– Ah! Fui, fui eu.
– Não tem trocado? E?
– E?
– Não ficou satisfeito?
– Não tenho.
– E mais pequeno?
– Sou capaz – Caramelo procurou nos bolsos e encontrou uma nota.
– A nota fez-lhe mal?
– A nota?!
– Já viu como a tem?
– Ah! Estava nervoso e amarrotei-a… E não, não fiquei satisfeito.
– E, então, decidiu vir-me aborrecer…
– Não!
– Dê-me antes a de dez, que a D. Luísa se visse esta nota, passava-se!
– Tome… Mas não, não foi nada disso.
– Está aqui a empregada, ninguém lhe liga… não tem a mesma escola das putas… com esta consigo gozar. Faça favor.
– Obrigado.
– Não foi?
– Não!

Sexta-feira

o folhetim - entregas 28 e 29
28
– A sério?!
– Sim. Sério.
– Mas tens a certeza?
– Tenho, D. Luísa, eu conheço-o… Andei a estudar com ele.
– Mas isso não tem nada a ver com os estudos…
– Não, isso não tem.
Luísa fixou-se em Mr. Big que falava com a Patroa. O ar dele era o mesmo com que há pouco falara com Kitty, e esse ar parecia ter, estranhamente, repassado para a Patroa, que falava com ar descontraído e sorriso aberto. Luísa acreditou um pouco mais no que Nelson lhe dizia, mais pelo ar da Patroa, que parecia estranhamente aérea e satisfeita, do que pelo ar dele, que se mantinha cândido e até envergonhado.
No entanto, mantinha profundo cepticismo e forçou a nota:
– Estás a brincar… Isso de seres homónimo do grande Nelson Rodrigues deve deixar-te um bocado baralhado…
– É verdade, D. Luísa, a sério! – repetiu o homónimo, consternado.
– Se calhar – a mulher continuou como se ele não a tivesse interrompido –, julgas que tens de fazer jus ao nome e à imaginação delirante do anjo pornográfico…
– O “tarado dos suspensórios” – acrescentou Isabel, de passagem, deixando Nelson confuso. Luísa riu.
29
– Floriano!
Perdiz desviou o olhar de Big e da Patroa e deu de caras com o sorriso gozão de António Farinha. Respondeu com um sorriso amarelo. Farinha notou a garrafa de água com gás na mesa em frente ao sofá de onde outro se levantara para o cumprimentar, procurou a transparência do copo para confirmar, e atacou com uma gargalhada:
– Água?! A beber uma aguinha, Floriano?
Perdiz largou-lhe a mão e deixou-se pesadamente cair no sofá. Farinha, antes de se sentar ao seu lado, fez sinal a Cosme para lhe trazer um gin tónico.
– Água?! – insistiu o cliente recém-chegado, já sentado, apreciando o ambiente e as mulheres.
Floriano bufou, agarrou no copo e bebeu-o de um trago.
– Estava mal disposto, doutor – ruminou o mentiroso. – Embuchado.
– E desde quando é que beber água curou fosse o que fosse?
Perdiz pousou o copo, procurou Kitty, que continuava encostada à porta que dava para a cozinha, vendo Big conversar com a Patroa, e perguntou apontando a Farinha:
– Conhece?
– Quem? – Farinha seguiu-lhe o indicador direito e viu Kitty, com ar aborrecido e triste. – A Kitty?
– Sim – Perdiz passou o mesmo dedo pelo bigode e adiantou sem subterfúgios: – Já foi com ela, doutor?
Farinha recebeu o copo que Cosme lhe estendeu e, sem responder ao amigo, questionou o empregado:
– Bombay?
– Sapphire! – Exclamou o empregado, com um sorriso de orelha a orelha.
Farinha piscou o olho e ergueu o polegar na direcção de Cosme.
– A tratares-me assim, meu caro Cosme – o empregado esperava pelo que o cliente ia dizer, Perdiz também, mas com ar enjoado –, se fosses uma gaja, comia-te todos os dias. Todos os dias.
– Por trás?
– Por trás! Pela frente – os olhos de Cosme brilharam, Perdiz suspirou e abanou a cabeça. Farinha continuou: – De lado, por cima, por baixo. Era até partir!
– Até partir! – exclamou Cosme, com ar deliciadamente assustado.
– Até ganias, Cosme – disse o doutor com ganas. – Até ganias!
– Foda-se – reclamou Perdiz. Os outros dois homens riram da sua nauseada expressão. – Porque é que não pede ao balcão, quando entra, doutor? Sempre me poupava este espectáculo diário… Este triste espectáculo
– Eu acho que tu vens cá para isto – retorquiu Farinha, piscando o olho na direcção de Cosme.
– Não o chateie, doutor – pediu Cosme, com ar inocente. – Não o chateie, que ele está de castigo.
Farinha torceu-se no sofá para olhar Perdiz de frente. Este respondeu ao olhar e baixou-o, embeiçando. Farinha tocou-lhe na perna:
– De castigo, meu caro?
– O Cosme é parvo – expirou bovinamente Perdiz.
– Está – recomeçou o empregado, que não se conseguia conter e falava como se estivesse a cantar. – Meteu-se com a Kitty e com um gajo novo… – fez uma pausa para procurar Big e apontou-o: – Aquele! Foi aquele que está a falar com a Patroa.
Os dois homens sentados olharam para as costas da Patroa e de Mr. Big. Farinha desceu o olhar até às nádegas de D. Micas e comentou:
– Continua boa, foda-se. A Micas parte-me todo…
– Não é carne para os seus dentes, doutor – gozou Perdiz.
– Ainda não perdi a esperança, meu caro – respondeu o doutor Farinha, solene.
Perdiz engoliu o riso: nunca percebia quando o amigo estava a gozar.
Farinha retomou a conversa:
– Mas diga lá, homem, o que é que aconteceu? Quem é o tipo?
Perdiz bebeu o resto da água pela garrafa e passou as costas da mão pelos lábios.
Cosme aproveitou o silêncio do cliente e, falando como se aquele não estivesse a ouvir, falou para Farinha:
– Sabe lá, doutor, o senhor Perdiz deu-lhe uma estalada que só visto…
– Uma estalada?!
– Uma senhora estalada! – emendou o empregado. Perdiz sorriu, reconhecido. – E ferraram-se à briga…
– O Perdiz?!
– Não, aquele tipo e o Rodrigues…
– Ah! Então é por isso que o gajo está com aquela cara de enterro – disse o doutor Farinha, olhando para o porteiro.
Cosme deu uma gargalhada:
– Deve estar com pena do sobretudo… – o empregado baixou-se e falou-lhes em segredo: – No outro dia, uma brasileira que esteve aí, a Priscilla…
– Ah! A Priscilla!... Tão boa! – comentou Farinha, com os olhos a brilhar.
– Uma cobra! – acrescentou Perdiz, franzindo o cenho num arrepio.
– Parecia o cavalo de cortesias do José Mestre Batista – somou Farinha, com ar sonhador, lembrando-se da puta – e lá dentro era um espectáculo. Partiu-me todo.
Perdiz acenava compreensivo.
– Ganiu, doutor? – intrometeu-se Cosme.
– Se gani? – Farinha estava sério, solene, pensativo. – Se gani, meu caro?
Cosme confirmou com a cabeça:
– Ganiu?
– Gani, ladrei, uivei – Farinha suspirou recordando-se. – Parecia um desvairado ululante, meu caro. A mulher deixou-me literalmente fora de mim. Fora de mim.
Perdiz continuava a acenar como um cãozinho de pescoço de mola.
– São mulheres destas é que nos fazem acreditar em Deus – declarou Farinha. – Sabes onde ela está, Cosme?
O empregado, suspirando com pena, acenou que não.
– Mas, afinal, o que é que ela disse do Rodrigues? – recuperou Perdiz.
– Que o gajo quis comê-la com o sobretudo vestido! – sussurrou Cosme.
– Foi?!
– Ela é que disse. – Cosme endireitou-se para se assegurar que Rodrigues continuava na porta da rua. Pôs a mão sobre o copo vazio de Perdiz, que estava na mesa, olhou para ambos os lados e continuou: – Disse que o gajo se despiu todo, tornou a vestir o sobretudo e fechou-o. Disse-lhe para o tratar por senhor porteiro e pedir “Posso penetrar?”
– Penetrar?!
– Sim, penetrar no sobretudo – Cosme riu. – E ela tinha de pedir, abrir um botão, só um botão, puxá-lo, sem tocar no sobretudo, e mamar…
– No botão? – Perdiz estava estupefacto a olhar para Rodrigues, que se mantinha com ar de cão feroz, encostado à ombreira da porta da rua.
– Não! – respondeu Cosme, olhando desconfiado para o cliente. – No sexo, senhor Perdiz, no sexo…
– E a gaja? – perguntou Farinha, interessado.
– Mamou – esclareceu Cosme. – Sem lhe tocar no sobretudo, nem com a boca, nem com as mãos… Na cabecinha e era um pau…
– Não era grande pau – gozou o doutor Farinha, virando-se para a porta da rua onde estava o sobretudo e, presumivelmente, o resto. – Se foi só na cabecinha…
Os outros riram. Rodrigues pareceu sentir o riso do grupo e lançou-lhes um espumoso olhar de pitbull. Cosme disfarçou, erguendo o polegar na direcção do Porteiro, no que foi reforçado pelo gesto de reconhecimento de Perdiz. Julgando que Perdiz lhe estava a reconhecer o esforço na resolução da situação com Big, Rodrigues sorriu de volta.
– Com um pau minúsculo – comentou Farinha, enquanto sorria na direcção do Porteiro –, que motivos tem o tarado do sobretudo para sorrir? Tarado!
– E depois?
– Depois – Cosme voltou-se para o sofá. – Depois, não só a gaja não podia tocar no sobretudo, como quando ela lhe cuspiu a cabecinha para lubrificar o gajo ficou maluco. Variou: que a gaja lhe podia sujar o sobretudo; que a gaja podia encher-lhe o sobretudo de saliva; que o sobretudo era sagrado… Sei lá… Passou-se! Passou-se e mandou-a parar. Parar, despir-se e deitar-se na cama, de barriga para cima…
– E o gajo?
– Esperou que ela se despisse, se deitasse de barriga para cima e pernas abertas, abriu o sobretudo e deitou-se em cima dela…
– Com o sobretudo?
Cosme confirmou com a cabeça:
– A gaja disse que era o sobretudo que a estava a comer, o gajo só lá estava porque era preciso e que não percebia se o gajo estava a ter mais prazer por estar em cima dela, se por estar debaixo do sobretudo.
– A gaja disse isso?!
– Disse – Cosme contava a história com indisfarçado prazer – e disse que o gajo continuou a não a deixar tocar no sobretudo. Parece que ele pouco se mexia e que ela esteve de estar quieta a gramar com ele e com o sobretudo, com os braços esticados para o lado e as palmas das mãos viradas para baixo, para o colchão.
– Que pouca sorte!
– Uma gaja daquelas, vejam bem – o doutor não se conformava. – Uma profissional… Uma senhora profissional e ter de passar por uma situação dessas. A gaja era um portento. Era ou não era, meu caro?
– Se era, doutor, se era.
– Mas ela não se ficou.
Cosme estava siderado a ver as caras de parvo do doutor e de Perdiz. Pareciam rapazitos a falar de uma colega de escola, por quem estavam apaixonados. Havia admiração e saudade adolescente na cara daqueles homens feitos. “Haviam de saber o que a gaja disse de vocês,” pensou, “que logo vos passava a água na boca e o olhar canino”.
– A Priscilla não se ficou – reforçou Cosme.
Pavlovianamente e como Cosme esperava, os clientes abriram e fecharam os olhos e a boca ao som de “Priscilla”. “Que básicos!”
– E depois, Cosme, e depois?
– A Priscilla foi-se queixar à Mãezinha: que para foder mal já bastavam os clientes – Cosme esperou uma reacção: nada; e continuou: –, se fodia por fora tinha de querer e gostar e obrigou-o a pagar. Por ele e pelo sobretudo!
Os clientes riram. Cosme pegou no copo e na garrafa, virou-se, baixou o olhar quando o cruzou com o de Luísa, e desandou em passo acelerado para trás do balcão.

Farinha engoliu o riso e perguntou ao amigo:
– Deste uma estalada ao gajo?
Perdiz confirmou com a cabeça.
– Porquê?
Perdiz olhou para Kitty, agora virada para dentro, para a cozinha, mas ainda parada.
– Parvoíces, doutor – suspirou. – Parvoíces.
– Quais parvoíces, quais carapuça! – exclamou Farinha a rir. – Gajas, meu caro, gajas!
Perdiz esboçou um sorriso de acordo, fechou-o como se o céu lhe tivesse caído em cima nesse momento e falou, lembrando-se de Abracourcix sem saber porquê:
– Somos sempre uns “gandas” meninos, não somos, doutor?
Farinha olhou-o, viu-lhe o rosto fechado, os olhos baços procurando Kitty, os ombros caídos, as orelhas de espanador, o cabelo ralo e o bigode fora de moda, o nariz adunco, as olheiras de irmão metralha, as sobrancelhas de fauno, a respiração bovina, as pálpebras a meia haste de carneiro mal morto, as bochechas flácidas, a pele macilenta, as unhas roídas até ao sabugo, a espuma de bulldog a escorrer dos canto da boca, a falta de um dedo…

Desculpe lá! O doutor fala comigo. Eu não vi nada disso.
Está furioso.
Diga?! As minhas personagens aborrecem-me, chateiam-me. Não podem estar quietas, caladas? Não podem ser obedientes? Mas que mal fiz eu?
Oiça lá, o doutor puxa uma aguçada cigarrilha. Impaciente, corrige. E com pouca vontade de o aturar, adianta. Acende a cigarrilha e diz-me: Oiça lá, quando narra sem inventar ninguém lhe diz nada ou diz?
Aceno que não.
Então, continue, e deixe-se de entusiasmos literários absurdos. Não tem razões para isso!
Amocho: O doutor tem razão e o Perdiz não é assim. Continuamos?
Agora não, o doutor lança uma baforada decidida. Decisiva. Passe à frente, nós já estamos aqui há muito tempo e eu ainda não estou feito a isto.
Percebo-o.
Aliás, ainda nem sei se quero continuar… Isto é engraçado e tal, mas parece-me que…, o doutor rola as mão uma sobre a outra, hesita, parece que fico muito preso, está a ver? A vida não é só isto, meu caro, e não sei se é só isto que eu quero…
Um sentimento tipicamente masculino.
Ora essa. Porquê?
Faço que não ouvi: E o Perdiz?
Deixe-o a sofrer um pouco. Isso passa-lhe. O doutor bebe um gole de gin. Sabe, meu caro, às vezes, parece-me que as pessoas são viciadas no seu próprio sofrimento, no seu próprio miserabilismo. Não querem ser felizes. Têm medo de ser felizes e, depois, arranjam situações para sofrer, para terem pena de si próprias. Para se enredarem em complicações e em mal entendidos. O doutor continuava a beberricar o gin, enquanto discursava. Decidem que o mundo está contra elas e depois têm de viver assim. E se o mundo não está, porque o mundo nem liga a ninguém a bem dizer, eles criam as situações. Eles inventam-nas. Semeiam-nas, regam-nas, cuidam delas como se cuidassem da própria vida. Enquanto, por outro lado, deixam as suas vidas murchar, perecer, sumir-se… Eles querem sentir, eles querem viver e é mais fácil fazê-lo como se fossem uns heróis, como se fossem alguma coisa de jeito e alguém lhes ligasse… Inventam uma navalha e querem andar no seu fio, está a ver, meu caro? Querem sentir…
Doutor?, interrompo-lhe o monólogo.
O que foi?, pergunta ele nada satisfeito.
Ficamos por aqui, está bem? Acho que o senhor não é personagem para esta história.
Acha, meu caro? O doutor leva o copo à boca, não bebe. Sou capaz de concordar consigo… E agora? Bebe.
Olhe.

Farinha olhou para Perdiz e viu-lhe o desalento, mas viu mais. O doutor Farinha via sempre mais.
– Jessica! – gritou, entusiasmado. Perdiz acompanhou-lhe o olhar. Uma brutal morena lançava beijos molhados, encharcados, diluvianos ao doutor. A morena ergueu as sobrancelhas cariocas e o doutor seguiu-as: – Até um dia destes, Perdiz. Até um dia destes. Não espere por mim, meu caro. Não espere por mim.

Quinta-feira

Céu limpo, mas muito nublado

Faço a chamada e desligo. Faço a chamada e desligo. Faço a chamada e desligo.
Ela liga e pergunta-me “Tens estado a ligar-me?”
Penso no que quero responder e decido-me pela verdade. “Sim, tenho.”
“Queres falar comigo?”
“Queria perguntar se te podia ligar.”
“Se me podias ligar?”
“Sim.”
“Querias ligar-me para me perguntar se me podias ligar?”
“Sim. É um bocado parvo, não é?”
Ela hesita, um milésimo de segundo, mas hesita. Acho graça à hesitação e dou-lhe um valor qualquer, mas não sei qual. A hesitação quer dizer alguma coisa, convenço-me, não sei é o quê.
“É, é um bocado parvo” ela ri-se. “E se eu dissesse que não?”
“Não te ligava mais.”
“Assim?”
“Assim.”
Ela cala-se. Eu pergunto:
“Posso ligar-te?”
Ela responde sem hesitar, peremptória, decidida, sem subterfúgios:
“Não, continua só a escrever-me.”
Despeço-me e desligo.
“Escreve-me tu!”