com um pedido de desculpas, ainda, O FOLHETIM:
XXX
Cardoso subia as escadas atrás de Palmira em direcção ao quarto. Tinha tentado libertar a mão duas ou três vezes, sempre que se lembrava de Big em apuros, mas acabou por se calar quando reparou nas seis andorinhas pregadas à parede, que pareciam voar para o cima das escadas, onde uma luz difusa emanava um forte odor a sexo e devassidão.
Palmira não parava, não o deixava largar a mão e puxava-o com um sorriso estranho, vidrado, que ele não via.
– Um quarto? – perguntou Beta burocrática, atrás da secretária no alto das escadas, ao vê-la a arrastar um homem.
Palmira anuiu em silêncio, recebeu a chave e assinou a folha de controlo do quarto.
– Faço uma para ti?
– O quê?
– Uma folha para o mapa de actividades – esclareceu Beta.
– Não – Palmira sorriu: a pergunta da outra soou-lhe como um elogio. – É só este.
Cardoso não tomou atenção a Beta ou à conversa das mulheres. Tornou a olhar para a porta fechada no fundo das escadas pensando em Big; depois concentrou-se na meia dúzia de anacrónicas andorinhas caseiras, que costumavam embelezar paredes de vivendas com nome de gente, e que agora estavam ali a saudar – Cardoso pensou nessa palavra – a saudar clientes e putas, dando um toque absurdo, quase surreal, à subida para os quartos; e, por fim, voltou ao cheiro e à luz. Vermelha, difusa, que parecia, a partir do cimo das escadas, querer esconder a bisonha e triste normalidade do local e, ao mesmo tempo – o cheiro emanava da luz, pensava Cardoso –, disfarçar, mascarar, esconder os cheiros sem graça, de produtos de limpeza, de desinfectantes íntimos, de perfumes baratos, de suor e de fumo.
– Vamos! – ordenou Palmira, com um puxão.
Cardoso seguiu-a, sem entusiamo.
Beta olhou-o pela primeira vez.
– Quim?!
Cardoso ouviu o seu nome, parou e virou-se para a secretária onde estava Beta, de olhos esbugalhados a olhar para ele. Os seus olhos imitaram os dela e Cardoso repetiu o espanto da mulher, ainda que tenha trocado o nome:
– Eduarda?!
Palmira, sem largar a mão da presa, ouviu a interjeitada troca de nominais e logo temeu o pior: “Beta era Eduarda?”, o homem a quem dava a mão era “Quim Cardoso?” e “de onde se conheciam esta duas aves?”.
– Joaquim – corrigiu Cardoso.
– E não somos aves – melindrou-se Eduarda, a quem chamavam Beta.
– Beta? – perguntou Cardoso.
– Eduarda? – replicou Palmira
– Quim! – Eduarda, mais conhecida por Beta, levantou-se e abraçou Quim Cardoso por cima da estreita secretária. – Meu querido Quim!
– Beta! – queixou-se a desesperada Palmira, temendo perder o cliente.
– Quim, meu querido – repetia ad nauseam Eduarda. – Meu querido… Tinha tantas saudades tuas!
E perante os olhares estupefactos de Palmira e do próprio Quim Cardoso
– Joaquim!
E perante os olhares estupefactos – agora menos, que já são repetidos –, de Palmira e do próprio Joaquim Cardoso, Beta pespegou-lhe um longo, húmido e intrusivo beijo de língua.
– Foda-se – queixou-se a desconsolada Palmira.
Cardoso não conseguia dizer nada, mas estava igualmente surpreendido, ainda que não tão desconsolado.
Eduarda beijava como se o mundo acabasse imediatamente para toda a gente que não tivesse a boca colada a outra boca. O seu mundo não ia acabar, mas parecia. A mulher investia com a língua, que conseguia fazer tocar na ponta do próprio nariz, e, oprimindo os lábios e manietando os maxilares, dominou e subjugou a língua de Cardoso e invadiu-lhe e tomou – quase que anexou – a abobada palatina e as amígdalas. Tudo isso, enquanto, sem interromper a desbragada troca de salivas, subia pela secretária, ficava de joelhos em cima daquela, passava as pernas para o lado onde já estava a sua língua e, sentando-se na secretária, enrolou pernas e braços em Cardoso, sob o olhar bovino de Palmira, que não esboçava reacção.
Cardoso, pelo contrário, temendo pela deslocação do maxilar, pela violenta abdução da língua ou pela perda da abobada palatina ou de alguma das amígdalas ou das duas para a língua imperialista, foi obrigado a reagir à investida de Eduarda, a quem chamavam Beta: primeiro, usou a língua, esforçando-se para dar a devida luta ao órgão oponente; depois de conseguir levar a sua língua à boca rival, Cardoso passou também a controlar, ainda que pouco, os movimentos dos maxilares que a mulher parecia querer fundir; e, por fim, só com a mão esquerda – Palmira não lhe largava a direita –, Cardoso agarrou a farta cabeleira loura de Eduarda, a quem conheciam por Beta, e, entre carícias, conseguiu descolar a face dela da sua e, assim, conseguiu respirar e emitir um inesperado pedido de ajuda ocular a Palmira.
Palmira grunhiu de satisfação: o cliente era dela!
31
– Quem é? – perguntou Caramelo, olhando para Isabel.
Fernando seguiu-lhe o olhar:
– A empregada?
Caramelo anuiu em contemplativo silêncio com um ligeiro abanar da cabeça.
– Não sei – informou Fernando, pouco interessado.
– É belíssima – apreciou Caramelo, baixinho.
– Quem?
– A empregada, pá – resmungou Caramelo, magoado com a falta de visão do amigo.
– Ah! – Fernando olhou para dentro do balcão. – Achas? – desdenhou.
– Se acho?! – Caramelo não tirava os olhos da empregada. Se pudesse, já tinha trepado ao balcão para se lançar aos pés dela. A custo desviou o olhar da mulher e lançou-o com fúria a Fernando. – Deves estar a brincar… Só podes!
– É pá… – o descrente sentiu o desagrado do amigo e concentrou-se na mulher, julgando que algo lhe estava a escapar. Mirou. Remirou. E tornou a olhar. Encolhendo os ombros, deu o seu gago veredicto: – Ah… Não… Não é… É normal. É gira, mas não é nada por aí além…
– Gira?! – Caramelo afastou-se dois passos do amigo. – Gira?! – Caramelo aproximou-se um passo do conhecido. – Gira, foda-se?! – Caramelo bateu com a mão no balcão junto ao conhecimento de ocasião. – Gira, dizes tu?! – Caramelo fitava o desconhecido que o afrontara de forma absurda e despropositada. – Aquela mulher é gira?! Gira?! – Caramelo sentia-se enxovalhado por estar no mesmo planeta que aquele alienígena. – O que gira são os carrosséis, ó seu protozoário. Aquela mulher é linda! Linda!
Fernando interpretou devidamente a rubescência facial, o olhar assassino, a espuma ao canto dos lábios, as pancadas no balcão e os saltinhos ridículos do amigo e disfarçou:
– Estás a falar de quem? – “drop de Badajoz”, rematou em silêncio.
– Dela – Caramelo ergueu o braço sobre o balcão, deu-lhe solene e vagarosa amplitude e apontou de mão estendida para Isabel. – Da voluptuosa empregada de balcão…
– Deseja alguma coisa? – interrompeu a alegada voluptuosa, farta dos olhares embeiçados de Caramelo, destrunfando-o.
– A si? – ouviu-se ele a dizer.
– Desculpe?
Fernando afastou-se, como se o amigo tivesse acabado de ganhar sarna.
– Se desejo alguma coisa? – recomeçou Caramelo.
– Sim – Isabel aproximou-se dele e pousou as mãos no balcão à sua frente.
Caramelo engoliu em seco, baixou a cabeça, adorou-lhe as mãos e subiu adorando o corpo, sorriu ao ver o contorno dos seios, imaginou-se a beijar-lhe o pescoço, o queixo, os lábios, o nariz, os olhos…
Isabel esperou que os olhares se cruzassem, ergueu as sobrancelhas, que ele adorou ver arqueadas, e só então disparou:
– Nunca viu?
– Não, nunca vi – Caramelo só se ouvia falar. A voz era a sua, o tom e as palavras não. – Nunca tinha visto uma mulher assim.
– Está a gozar?
– Não, a sério. Desculpe… – Caramelo olhou em volta, ninguém, além de Fernando, claro, que estava a ver o que coisa dava, ninguém o olhava ou ligava à sua conversa, mas a ele pareceu-lhe que estava toda a gente a olhar para si. A ouvi-lo. A julgá-lo. A gozá-lo. Um parvalhão a meter-se com a voluptuosa e lasciva empregada de balcão. Caramelo encolheu-se. Sorriu e encolheu-se. – Desculpe, não era nada. Quero só uma cerveja.
Isabel não sorriu e afastou-se para buscar a cerveja.
Voltou. Pousou a mini em frente ao cliente, debruçou-se sensualmente sobre o balcão e sussurrou sem sorrir:
– Pareceu-me ouvir dizer que me queria a mim.
Surpreendido e sem reacção, Caramelo ficou com a mão aberta junto à garrafa.
– Ouvi mal? – instigou Isabel. – Foi?
Caramelo sentiu as pálpebras afastarem-se – a de cima da de baixo, entenda-se, não as da direita das da esquerda, a cabeça do homem não alargou, foram só os olhos que se abriram mais do que o normal; ainda que, na verdade, o doloroso e descontrolado latejo que ele sentia nas têmporas pudessem indiciar que a cabeça do indivíduo se pretendia expandir, mas tal não aconteceu, nem vai acontecer. Talvez fosse engraçado, mas condicionava um bocado o resto da história. Podia até rebentar-lhe a cabeça. Explodia. Sangue e olhos e dentes, mais destes que daqueles, a voarem em todas as direcções. A língua a pender do maxilar inferior que cairia em cima do balcão, junto às mãos de Isabel. Sangue, líquidos e fluídos a escorrerem pelos ombros de Caramelo. Bocados de couro cabeludo, de crânio e de cérebro a colarem-se à roupa dos clientes, ao corpo das putas, ao cabelo de Isabel e de Luísa. Cosme a vomitar e Toni DJ a aproveitar para voltar aos 80, provavelmente com os Talking Heads ou os Dead or Alive. O corpo de Caramelo a resistir erecto, como uma galinha sem cabeça e, por fim, a desmoronar-se sem estrondo, só com um murmúrio, ante o olhar horrorizado dos frequentadores do bar da D. Micas. Hummm… Mas não, não vamos por aí.
Caramelo sentiu os olhos escancarem-se, a boca secar, as têmporas latejar, as palmas das mão humedecerem, os pés arrefecerem e as orelhas permanecerem na mesma.
– Ouviu bem – declarou Caramelo, fechando a mão com força desnecessária na garrafa. – A senhora é linda! Linda!
– Não perguntei… – os olhos de Isabel, ganharam um ligeiro brilho, mas talvez fosse reflexo do sorriso de orelha a orelha que Caramelo abriu ao ouvir a voz dela.
– O quê? – interrompeu Caramelo, para lá de entusiasmado.
– A cerveja. Era Sagres, que queria?
Caramelo murchou.
– Sagres… Era.
– Não foi o senhor que foi com a Camila e com a Laura?
– Fui?
– O senhor é que sabe! São dois euros.
– Porquê?
– A mini! A mini são dois euros!
– Ah! Fui, fui eu.
– Não tem trocado? E?
– E?
– Não ficou satisfeito?
– Não tenho.
– E mais pequeno?
– Sou capaz – Caramelo procurou nos bolsos e encontrou uma nota.
– A nota fez-lhe mal?
– A nota?!
– Já viu como a tem?
– Ah! Estava nervoso e amarrotei-a… E não, não fiquei satisfeito.
– E, então, decidiu vir-me aborrecer…
– Não!
– Dê-me antes a de dez, que a D. Luísa se visse esta nota, passava-se!
– Tome… Mas não, não foi nada disso.
– Está aqui a empregada, ninguém lhe liga… não tem a mesma escola das putas… com esta consigo gozar. Faça favor.
– Obrigado.
– Não foi?
– Não!