<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219</id><updated>2012-01-30T00:24:32.343Z</updated><category term='dnm1'/><category term='BZL'/><category term='lanchamos'/><category term='nomes'/><category term='socrates'/><category term='a sopa'/><title type='text'>garfiar</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>653</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-3757546918535262294</id><published>2012-01-27T08:45:00.003Z</published><updated>2012-01-27T11:23:57.848Z</updated><title type='text'>Exuberante</title><content type='html'>– Desculpe – pediu o homem dando a volta à secretaria e abeirando-se da doutora, que em passo rápido e sincopado atravessava o átrio em direcção às portas das salas de conferências.&lt;br /&gt;– Vou para a sessão – disse a doutora, que parou a meio do átrio olhando para as quatro portas sem identificação que tinha à sua frente.&lt;br /&gt;– Sim, senhora – apreciou o homem, com ar desconfiado, mirando sem pudor o ar demasiado preparado mas deslumbrante da mulher que tinha à sua frente.&lt;br /&gt;– Em que sala é? – perguntou a mulher, fazendo de conta que não via o ar esgazeado do homem que a comia com olhos.&lt;br /&gt;– A senhora vem para acompanhar algum dos engenheiros? – perguntou o homem, disfarçando um pouco o seu apetite.&lt;br /&gt;A doutora arremelgou-lhe os olhos sem, no entanto, pensar realmente na pergunta.&lt;br /&gt;– Que sala é? – repetiu, impaciente.&lt;br /&gt;– A senhora é a acompanhante do Eng. Pimenta? – Tacteou o homem, olhando para o relógio, pois, o engenheiro tinha-lhe dito em segredo que viria uma senhora – aqui rira-se e piscara-lhe o olho – por volta das seis da tarde, e ainda eram só três e faltava a oradora da sessão de esclarecimento. A “senhora” estava muito adiantada.&lt;br /&gt;A doutora respondeu-lhe com uma careta e um eloquente e sonoro:&lt;br /&gt;– Pimenta, sim, é isso. Engenheiro Pimenta. Em que sala é?&lt;br /&gt;– As acompanhantes dos senhores engenheiros não podem entrar – anunciou o homem. – Terá de aguardar pelo fim da sessão de esclarecimento. – E indicou com um gesto a porta de vidro que dava acesso ao bar do hotel. – Se fizer favor…&lt;br /&gt;A doutora susteve a respiração para não desatar à gargalhada. Mordeu o lábio inferior e olhou para os sapatos do homem que, de pé, continuava à sua frente. Sem conseguir evitar as várias caretas com que ia suportando a paciente mas inquisitiva imobilidade e impassibilidade do homem, a doutora levantou a cabeça e olhou-o nos olhos, ou melhor, nas sobrancelhas, que era um truque que aprendera com o seu irmão mais velho que lhe ganhava sempre ao jogo do sério. O homem esboçou um ligeiro sorriso. A doutora não aguentou e abriu um sorriso de orelha a orelha que, esforçadamente, conteve para não rebentar a rir.&lt;br /&gt;– Mas o senhor está à espera que eu vá para ali?&lt;br /&gt;O homem encolheu-se ligeiramente e anuiu com a cabeça.&lt;br /&gt;Fulminada com outra perspectiva da situação – que julgou ser a do homem que estava à sua frente –, a doutora enfureceu-se e sentiu a face enrubescer, o que a enfureceu ainda mais.&lt;br /&gt;– O senhor não estava a brincar? – disparou.&lt;br /&gt;O homem olhou para ela, olhou em volta mexendo apenas os olhos e fez um trejeito como se sentisse embaraçado com a pergunta. Não, definitivamente, não estava a brincar.&lt;br /&gt;– Ah… – O homem sentiu a sua integridade física em risco e tentou emendar a mão, acompanhando o golpe de rins com um arremedo de riso que não medrou. – Estava, estava a brincar. Claro que estava – mentiu sem convicção.&lt;br /&gt;– Eu… eu… – As palavras enrolavam-se na boca da doutora. – Mas quem é que o senhor julga que eu sou? – Acabou por conseguir perguntar.&lt;br /&gt;O homem fechou-se num silêncio prudente e receoso que se viu obrigado, pelo olhar mortífero que doutora lhe lançava, a interromper, para deixar escapar um sumido e lamentoso:&lt;br /&gt;– A oradora?&lt;br /&gt;– Mas porque é que eu tinha de aguardar pelo fim da sessão de esclarecimento?&lt;br /&gt;– É?&lt;br /&gt;– O quê?&lt;br /&gt;– A oradora?&lt;br /&gt;– Isso não interessa. – A doutora riu-se: apesar de tudo continuava bem disposta. – Isso não lhe interessa, palhaço – murmurou com o sotaque apropriado.&lt;br /&gt;O homem empinou-se como o garrano da estalagem de Bree e mudou a expressão para uma com que se propunha impor respeito e temor.&lt;br /&gt;– Interessa – replicou o homem, aborrecido por perceber que a mulher à sua frente não o estava a respeitar nem a temer e o narrador o estava a comparar a um cavalo. – Eu tenho o direito de saber! – Exclamou melodramático.&lt;br /&gt;– A Loretta também tinha o direito de ter direito a ter filhos e, no entanto…&lt;br /&gt;O homem tornou a mudar a expressão, ainda que agora o fizesse involuntariamente e fosse ele a expressar o temor que antes queria incutir.&lt;br /&gt;– Não os podia ter – sussurrou o homem completando a frase que a doutora deixara incompleta.&lt;br /&gt;– Porque? – Perguntou a mulher, surpreendida e subitamente enlevada pela identidade de referências que a aproximavam do homem que estava à sua frente e lhe barrara o caminho.&lt;br /&gt;– Porque era um homem – disse o ser do mesmo género de Loretta.&lt;br /&gt;A doutora aproximou-se do homem e perguntou em tom conspirativo:&lt;br /&gt;– Nunca pensou na coincidência da mulher do John Bobbit se chamar Loretta?&lt;br /&gt;– Não… – respondeu o homem, sem levantar a voz, com ar pensativo e meneando a cabeça em contemplativa admiração.&lt;br /&gt;– Toda a gente analisou o facto do homem se chamar John Wayne e, de alguma forma, o gesto da mulher ser uma metáfora do que estava a acontecer à América – dissertou a doutora junto ao ouvido do homem. – Ao cortá-lo ao John Wayne, ao John Wayne – reforçou – Loretta estava a capar a América. Não havia outra leitura. Deus estava a brincar com a América e estava-lhe a mostrar com um humor retorcido e gore o que lhe ia acontecer. O facto de se cortar o membro de alguém que se chamava John Wayne era um sinal. Não há coincidências, diziam os fanáticos – O homem meneava a cabeça cada vez mais entusiasmado, a doutora continuou: – E, no entanto, a referência era outra, o nome que contava era outro: Loretta. “From now on, I want you all to call me 'Loretta'” e a Loretta deu ao marido a possibilidade usar o seu direito de ser mulher, de ter filhos…&lt;br /&gt;– Mas não lhe deu um útero – opôs-se o homem, lembrando-se das dúvidas fundadas de Reg.&lt;br /&gt;– Isso não interessa – contrapôs a Doutora. – Loretta impunha o que a Loretta propôs: o direito a ter o direito de ter filhos.&lt;br /&gt;O homem parou de oscilar a cabeça, deu um passo atrás para poder rodar a cabeça sem acabar a dar um chocho à doutora e comunicou:&lt;br /&gt;– Se é a oradora pode entrar mas se não é – o homem olhou ostensivamente para as pernas quase nuas da doutora, para o decote cavado e para o longo colar de pérolas que dava duas voltas ao pescoço da mulher com a intenção de sublinhar os seus generosos e apetecíveis dotes mamários – tem de esperar pelo fim da palestra. Se vem para acompanhar algum dos senhores tem de esperar.&lt;br /&gt;A doutora esticou o braço e afastou o homem da frente.&lt;br /&gt;– Eu sou a oradora – anunciou. – E o senhor é um mal-educado. Um grosseirão!&lt;br /&gt;– Estou a fazer o meu trabalho, doutora – justificou o homem. – Sala 3 – apontou.&lt;br /&gt;– Qual é o seu nome? – Questionou a doutora em tom de ameaça, dirigindo-se à porta da sala onde era esperada.&lt;br /&gt;– João Benvindo.&lt;br /&gt;– Alguém falará consigo, senhor João Benvindo – disse a doutora, olhando-o com desprezo e más intenções, enquanto rodava a maçaneta da porta.&lt;br /&gt;– Só uma coisa, doutora – rosnou Benvindo, fazendo com que a mulher parasse e o olhasse ainda com mais desprezo e ódio. – A mulher não se chamava Loretta, era Lorena.&lt;br /&gt;A doutora mostrou-lhe a língua e desapareceu para dentro da sala.&lt;br /&gt;O homem esticou o dedo médio para a porta fechada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-3757546918535262294?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/3757546918535262294/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=3757546918535262294&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/3757546918535262294'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/3757546918535262294'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2012/01/exuberante.html' title='Exuberante'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-1925060241831067444</id><published>2012-01-23T12:34:00.002Z</published><updated>2012-01-23T12:34:40.227Z</updated><title type='text'>duche em cabine</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sandra fechou a água do chuveiro, passou as mãos pelo cabelo que esticou para trás para tirar o excesso de água, deixou cair os braços ao longo do corpo e ficou, por um instante, a olhar para a cabine de duche fechada, que era uma das poucas coisas que o seu ex-marido tinha feito e deixado em casa. “Mas queria arrancá-la, o estúpido!”, reprovou, abanando a cabeça, recordando-se da fita que ele tinha feito em volta daquele pedaço de vidro e alumínio. “A única coisa que fez bem feita em três anos de casamento e, no fim, queria levá-la e deixar os azulejos cheios de buracos e o poliban cheio de cola ou lá o que é aquilo branco...” Sandra encolheu os ombros, empurrou as portas deslizantes para longe uma da outra – mas não muito que a abertura era pequena – e saiu. Pôs os pés no tapete dobrado, olhou para o roupão de banho pendurado no cabide da porta, sem perceber agora como o tinha usado tantas vezes para se secar, agarrou no toalhão que estava ao lado e embrulhou-se. Limpou-se com satisfação, gostava do corpo que limpava. Gostava da mulher que era. “Se fosse hoje” pensou, “tinha-o deixado levar a cabine. Até o ajudava a tirá-la. Não ficava cá nada que ele tivesse feito!” Sorriu com uma careta: a filha não entrava nessas contas.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-1925060241831067444?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/1925060241831067444/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=1925060241831067444&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/1925060241831067444'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/1925060241831067444'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2012/01/duche-em-cabine.html' title='duche em cabine'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-1082673196280265193</id><published>2012-01-16T19:15:00.002Z</published><updated>2012-01-16T19:17:28.471Z</updated><title type='text'>O Avental</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O homem pousou o avental, que antes embrulhara cuidadosamente, vestiu o casaco e saiu para a rua. Não falou com ninguém. Não ia falar com mais ninguém. Para ele havia coisas que tinham de mudar. Uma mudança séria e efectiva. Real e não mera aparência. Não havia justificação para que tudo permanecesse na mesma. E não compreendia quem não percebia isso, quem se opunha tão veementemente a qualquer mudança.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;“A loja não pode continuar a funcionar assim. É impossível. Os tempos mudaram, as pessoas mudaram. A sociedade mudou.”&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O homem entrou em casa, encarou a mulher e anunciou, lacónico:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Não aguento mais, Matilde, vou sair da loja.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A mulher olhou-o apavorada e estacou no meio do hall de entrada, deixou cair os braços com que o ia abraçar e fugiu com a boca quando ele lhe tentou dar o habitual beijo de boas-vindas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Eu sei que não gostas – continuou o homem – mas eu não consigo estar num sítio, numa organização, em que já não acredito. Não posso.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– E o André, Luís? – Esganiçou-se a mulher, com as mãos na cabeça. – E a Tatiana?!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– E eu, Matilde? – O homem deixou-se cair na cadeira da entrada que nunca era usada, enfiando os cotovelos nas pernas e as mãos no cabelo. – Eu já não aguento aquele avental! Já não o consigo vestir com alegria, com empenho, com vontade… Aquilo já não me diz nada. E o Pires com o seu ar superior e modos melífluos…&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Modos quê?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Melífluos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Ah!... E o meu pai, Luís? – A mulher encostou-se à parede como se evitasse tombar para o chão. – O que dirá o meu pai, depois de tudo o que fez por ti?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Ele está a ser ultrapassado, Matilde. – O homem levantou a face e encarou a mulher. – As coisas estão a mudar na loja. Os equilíbrios de poder estão a alterar-se muito rapidamente, o Pires não vai descansar enquanto não substituir o teu pai. Ele tem estado a manobrar tudo e todos. E vai conseguir, Matilde. – O homem levantou-se e deu um passo na direcção da mulher, pôs-lhe a mão no antebraço para a confortar e repetiu, acenando com a cabeça, derrotado: – Ele vai conseguir!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– E nós?! – Os olhos da mulher encheram-se de lágrimas. – O que vai ser de nós e dos nossos filhos, Luís?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– A loja não é tudo, Matilde – murmurou o homem, como se tivesse medo de o dizer alto.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A mulher desencostou-se da parede e enfrentou-o com a fúria desesperada do animal acossado.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Não é tudo… A loja não é tudo. Não é tudo mas sabes que tudo passa por lá. Vamos ser proscritos, Luís, proscritos! – As lágrimas caíam-lhe pela face. – Se sais da loja é como se saísses do mundo. – Emocionado, o homem não conseguia responder. A mulher continuou, entre soluços e fungadelas: – Se tiras o avental é como se deixássemos de existir. Vamos sofrer represálias… Vamos… Vamos… Vai ser como se tivéssemos lepra. Lepra, Luís! É isso que queres eu e os teus filhos tenhamos?!... Lepra?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Mas eu não posso continuar a compactuar com o que lá se faz, Matilde – choramingou o homem. – Não aguento. Não aguento mais!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Deixa-te de lamúrias – disse a mulher, limpando o rosto. – Ninguém te obrigou a ir para lá, pois não? Foste porque quiseste, também querias comer da malga que os outros fizeram. – Os olhares cruzaram-se: ela com um olhar duro, vermelho e húmido mas duro; ele com um olhar frouxo, fugidio, pronto a desfazer-se em água. Então, ela lançou, com azedume e rancor na voz e na expressão: – Aproveitaste e, agora, que os tempos estão mais difíceis, queres dar o fora como um cobarde. Um reles cobarde. Afinal, és um homem ou és um rato?!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Luís encheu-se de brios e de ar com uma profunda e ruidosa inspiração e respondeu:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Sou um homem, Matilde, um homem. – Ela sorriu desafiadora, ele endureceu: – E sou um homem que vale mais do que o avental que o teu pai me deu! Muito mais!... Acabou-se, a loja para mim morreu! Aventais são para meninas, Matilde, para meninas! – “Ou para mulheres que queiram passar um bom bocado”, pensou, lembrando-se da tarde em que a amante o esperava só com um pequeno avental branco. Luís não conseguiu evitar um sorriso e concluiu, em tom conciliatório: – Os homens não devem precisar de avental para viver, Matilde.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Mas… – a mulher abanava a cabeça balbuciando sons imperceptíveis que seguiam aos mas que repetia. – Mas…&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Ah! – Luís segurou-a pelos dois braços e abriu um sorriso cheio de promessas. Ela suspendeu os mas e olhou-o intrigada. Ele anunciou com pompa: – E, além do mais, vou assinar amanhã um contrato para ir para gerente da loja do Pingo Doce que vai abrir ao pé da escola. O Pires, o teu rico cunhadinho, pode ficar com a mercearia toda para ele, Matilde, toda para ele que, quando der por isso – Luís passou o dedo indicador em frente ao pescoço –, já era!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A mulher lançou-se ao seu pescoço e beijou-o furiosamente como se lhe quisesse arrancar a língua ou extrair-lhe as amígdalas:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Faz-me um filho, Luís, faz-me um filho e vamos chamar-lhe Elísio Alexandre!&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-1082673196280265193?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/1082673196280265193/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=1082673196280265193&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/1082673196280265193'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/1082673196280265193'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2012/01/o-avental.html' title='O Avental'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-4105142968577118371</id><published>2012-01-12T16:22:00.002Z</published><updated>2012-01-12T17:41:48.588Z</updated><title type='text'>A Fisioterapia</title><content type='html'>– Hum… Já não nos encontrávamos desde o ano passado, David.&lt;br /&gt;– Pois não. Bom ano, Lucília!&lt;br /&gt;– Obrigado, bom ano para ti também.&lt;br /&gt;– Ah!... Muito obrigado.&lt;br /&gt;– Estás bom?&lt;br /&gt;– Bom?! Bom?! Tu estás a gozar comigo, não estás?... Só podes!&lt;br /&gt;– Não… eu…&lt;br /&gt;– Como é que queres que eu esteja bom, Lucília? Como?... Eu não posso estar bom!...&lt;br /&gt;– Não sabia… Desculpa.&lt;br /&gt;– A gaja não te disse nada?&lt;br /&gt;– Quem, a Cristina?&lt;br /&gt;– Sim, essa gaja cujo o nome eu não vou repetir, não te disse nada?&lt;br /&gt;– Não, acho que não.&lt;br /&gt;– A gaja não te contou nada?!... &lt;br /&gt;– Não. O quê?&lt;br /&gt;– A gaja pôs-me fora de casa…&lt;br /&gt;– Não posso… Quando?&lt;br /&gt;– Na semana passada…&lt;br /&gt;– A Cristina pôs-te fora de casa na semana passada?!&lt;br /&gt;– Foi. A seguir à passagem de ano.&lt;br /&gt;– Porquê?&lt;br /&gt;– Sei lá porquê!... Porque é doida!&lt;br /&gt;– Hum… Alguma coisa deves ter feito.&lt;br /&gt;– Qual feito, qual carapuça. A gaja é doida. Não estás bem a ver…&lt;br /&gt;– Doida?&lt;br /&gt;– Sim, completamente doidinha.&lt;br /&gt;– E pôs-te fora de casa?&lt;br /&gt;– Foi mas eu voltei.&lt;br /&gt;– Voltaste?&lt;br /&gt;– Sim, dois dias depois.&lt;br /&gt;– E não me disseste nada?&lt;br /&gt;– Achei melhor não. E tu tinhas ido com o Leandro à terra. &lt;br /&gt;– Pois foi, e ela?&lt;br /&gt;– Ela não.&lt;br /&gt;– Ela não, o quê?&lt;br /&gt;– Não foi à terra contigo e com o Leandro.&lt;br /&gt;– Isso sei eu, parvo!... O que é que ela fez?&lt;br /&gt;– Não fez nada. É doida!&lt;br /&gt;– Mas ela acusou-te de alguma coisa?&lt;br /&gt;– A mim?&lt;br /&gt;– Não, a mim!...Ó David, toda a gente sabe que tu não és nenhum santo…&lt;br /&gt;– Eu nunca disse que sou!&lt;br /&gt;– E até te digo mais, se eu fosse a ela já te tinha posto na alheta ao tempo.&lt;br /&gt;– Mas eu não fiz nada, foi tudo um mal-entendido!&lt;br /&gt;– Ah!... Sempre houve alguma coisa.&lt;br /&gt;– Houve que a gaja é doida.&lt;br /&gt;– E que mal-entendido foi esse?&lt;br /&gt;– O mal-entendido é que a gaja é doida!&lt;br /&gt;– Isso não é um mal-entendido, ou é ou não é.&lt;br /&gt;– É!&lt;br /&gt;– É a tua opinião e olha que eu trabalho com ela quase todos os dias e não me parece.&lt;br /&gt;– Ela disfarça.&lt;br /&gt;– E, afinal, do que é que ela te acusou?&lt;br /&gt;– Que eu andava metido com uma gaja na fisioterapia.&lt;br /&gt;– Tu andas na fisioterapia?!&lt;br /&gt;– Não te disse?&lt;br /&gt;– Não.&lt;br /&gt;– Ando.&lt;br /&gt;– Andas?&lt;br /&gt;– Ando.&lt;br /&gt;– A fazer o quê?&lt;br /&gt;– Ando lá.&lt;br /&gt;– Sim, isso já me disseste, mas andas lá exactamente para quê?&lt;br /&gt;– Por causa da baixa. O seguro mandou-me e eu ando lá.&lt;br /&gt;– E a gaja?&lt;br /&gt;– Qual gaja?&lt;br /&gt;– A gaja que a Cristina diz que tu andas metido.&lt;br /&gt;– Deslocou um ombro.&lt;br /&gt;– Um ombro?&lt;br /&gt;– Sim, teve um acidente e deslocou um ombro, uma coisa simples mas depois imobilizaram-na como se tivesse partido e a seguir tiveram de partir para que ficasse deslocado e se pudesse curar. E agora tem de andar na fisioterapia…&lt;br /&gt;– Coitadinha… Olha que, para quem não anda metido com ela, tu sabes muito sobre a gaja com quem não andas metido.&lt;br /&gt;– A fisioterapeuta é a mesma.&lt;br /&gt;– Sim, claro e foi ela que te contou.&lt;br /&gt;– Foi.&lt;br /&gt;– Porque tu não andas metido com ela.&lt;br /&gt;– Eu não ando metido com ninguém, Lucília! Também tu, bolas?!&lt;br /&gt;– Andas metido comigo.&lt;br /&gt;– Mas tu não andas na fisioterapia.&lt;br /&gt;– Pois não.&lt;br /&gt;– E a Cris... E a gaja não sabe, nem desconfia.&lt;br /&gt;– Esperemos que não. E a da fisioterapia sabe que tu andas comigo?&lt;br /&gt;– Bolas, Lucília! Não há ninguém na fisioterapia! A gaja é doida, já te disse.&lt;br /&gt;– Deixa lá, eu depois esclareço isso com a Cristina. Agora chega aqui, para eu ver se a fisioterapia te tem feito bem.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-4105142968577118371?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/4105142968577118371/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=4105142968577118371&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/4105142968577118371'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/4105142968577118371'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2012/01/fisioterapia.html' title='A Fisioterapia'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-5592533535531351715</id><published>2012-01-03T16:48:00.001Z</published><updated>2012-01-03T17:00:02.663Z</updated><title type='text'>Um mero acontecimento</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;O movimento foi involuntário mas quando Justina sentiu no seio o braço de Cesário foi invadida por uma súbita e irreprimível vontade de ir para a borga. Riu-se do trocadilho ainda que, na verdade, não soubesse se o homem se chamava assim. “Tem cara de Cesário” justificou-se, observando a barbicha que emoldurava o rosto bolachudo do homem a quem se encostara quando a composição do metropolitano balançou.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;Cesário sorriu embaraçado mas sem mover o braço. Por ele, podiam ficar assim o resto da vida, um seio encostado ao seu braço era coisa que lhe acontecia pouco. “Muito pouco”, pensou, algo frustrado e com a ligeira impressão que todo o episódio que, na realidade, nem um episódio chegava a ser – era um mero acontecimento –, podia provavelmente indiciar que qualquer coisa não ia bem na sua vida sexual – se a tivesse –, na sua vida social e afectiva – que também sabia não ter – e na sua sanidade mental – sentia-se um pervertido mas não conseguia afastar o braço da mama da mulher.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;Justina não se sentia mal e, tão furtivamente quanto lhe permitia a proximidade dos rostos e dos corpos, apreciava o dono do braço que lhe amparava a mama. Cesário tirando a barba mal semeada mas impecavelmente aparada e cirurgicamente delineada, os olhos ligeiramente esbugalhados com ar de eterno espanto, que ora se fixavam num ponto longínquo ora se dispersavam descontrolados por tudo o que os rodeavam, o sorriso desequilibrado que tanto parecia ir explodir numa gargalhada demente como no instante seguinte se resumia a um quase imperceptível movimento ascendente das comissuras dos lábios, a falta de gosto na roupa e no penteado e o ar geral de tarado não estava mal de todo e cheirava bem, o que agradou a Justina.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Isto é uma chatice – reclamou baixinho Justina, dirigindo-se a Cesário, que, nas suas rápidas e confusas deambulações oculares, parecia fixá-la por mero acaso. Sem perceber se ele a ouvira, Justina acrescentou: – Os transportes públicos estão cada vez pior. Este país é um caos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Uma chatice – repetiu Cesário, como se tentasse apreender o sentido das palavras e sem lhes dar qualquer entoação. – É um caos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;Justina olhou-o perplexa. “Este homem não podia trabalhar na televisão”, julgou, definitiva: “Está verde.”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;Cesário que também se tinha ouvido com a mesma perplexidade – “Pareces um tontinho, McFly”, censurou-se –, decidiu aproveitar a energia que o seio que se mantinha aninhado no seu braço lhe dava e procurou rectificar a impressão que causara na proprietária da mama.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– É verdade – ponderou Cesário, falando pausadamente –, a ausência de uma politica realística de transportes, que deveria assentar nas necessidades dos utentes e não somente em directrizes economicistas, tem causado uma degradação acentuada da qualidade dos nossos transportes colectivos urbanos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;Justina assentiu com a cabeça satisfeita, tinha a mama no braço de um intelectual bem-cheiroso ainda que mal apessoado.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Rodriga – apresentou-se Justina.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Ah! – Cesário olhou para a mama no braço e depois para a outra: – E esta?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Eu é que sou Rodriga – disse a mulher, surpreendida por uma memória recalcada de uma imagem de musgo verde num presépio da sua infância de que se lembrou quando se ouviu. Pasmada, perguntou sem querer: – Já não se fazem presépios, pois não?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;Cesário olhou-a como se pretendesse decifrar o verdadeiro sentido da pergunta.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Presépios? – questionou ele para ganhar tempo, a primeira carruagem estava a chegar a Arroios.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Sim, com musgo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;Sem saber porquê, Cesário pensou em virilhas mas não nas suas nem nas da mulher cuja mama continuava emprateleirada no seu braço.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Eu chamo-me Fausto e faço presépios no tempo deles – mentiu Cesário, que, na verdade, foi baptizado como Mauro.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Com musgo?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Não, o musgo lembra-me virilhas – confessou Cesário, repugnado.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Virilhas com musgo?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Não – respondeu Cesário, abanando a cabeça –, só virilhas. O musgo lembra-me virilhas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;A composição parou com um solavanco provocando com malícia que Justina enfiasse o nariz no cabelo de Cesário.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– O teu cabelo cheira bem, Fausto &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– apreciou a mulher&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;“Arroios” avisou, atrasada, a carruagem.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Eu vou para Roma – informou Cesário, julgando que a carruagem falava para ele. – Obrigado, é um shampoo – disse, respondendo a Justina.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Passar o natal?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Não, Pantene – esclareceu Cesário.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;Justina viu a porta fechar e sentiu uma mão na nádega esquerda. Olhou em volta e só viu Cesário. O homem sorria deliciado.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Azul? – perguntou Justina.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– O quê?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– O Pantene.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Não, branco.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– O frasco?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– De plástico.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– E Roma?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Não sei, nunca lá fui.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;Justina e Cesário entreolharam-se cúmplices. Sentiam uma afinidade crescente – mais ele que ela na parte do crescente. Justina tirou a mão do bolso de trás das calças de ganga e agarrou o varão com ambas as mãos. Cesário ponderou seriamente em afastar-se para lhe dar espaço mas, apavorado com o facto de poder perder a mama, deixou-se ficar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– É uma pouca vergonha – referiu Cesário só para continuarem a falar mas com ar sério e ligeiramente ofendido.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;Justina ainda procurou perceber do que estava ele a falar seguindo-lhe o olhar errante mas não só não conseguiu como se sentiu enjoada. Era velocidade a mais para olhos que não estivessem habituados.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– O quê? – perguntou, engolindo em seco.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Isto.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;Justina tornou a seguir-lhe o olhar e voltou a sentir-se agoniada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– O quê? – repetiu, baixando a cabeça e respirando fundo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Colocarem varões nos transportes públicos – criticou Cesário.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Ah! – Justina riu-se. – É só um objecto, Cesário, e os objectos são amorais. É o uso que se lhes dá que é ou não contrário à moral vigente em cada momento. O varão por si só não…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Cesário?! – interrompeu o homem, melindrado e afastando o seu braço da mama da mulher.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Quando te vi achei que te chamavas Cesário – explicou a mulher, inclinando-se para voltar a pousar a mama no braço dele.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;“Alameda” avisou a tempo a carruagem.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;Para atestar que compreendia que Justina lhe chamasse Cesário e lhe perdoava essa fantasia e para demonstrar a sua alegria por voltar a ter uma mama no braço, ainda que agora fosse a outra, Cesário avançou com as sobrancelhas até meio da testa, que recuou temerosa até à esbarrar na franja, que se espetou de imediato numa coesa e intransponível linha defensiva. Cesário sentiu o cabelo levantar como se pusesse a mão num gerador de Van der Graaff mas não ligou, isso acontecia-lhe muito.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;Receosa, Justina deu um passo atrás: não gostava de rock progressivo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;Na Alameda, a composição voltou a parar e as portas a abrirem-se escancaradas e sem vergonha. Justina olhou-as com inesperado e mal disfarçado interesse. Assustado com a perspectiva de a perder, Cesário rojou-se aos seus pés. Figurativamente, na verdade, por agora, o homem só pediu:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Desculpa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;Justina olhou para a porta aberta ainda com olhos de fuga mas hesitou.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Podes chamar-me Cesário – segredou Mauro, fixando-a, o que, para ele, era como se rojasse aos pés dela.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Vais para Roma? – perguntou Justina, sorrindo complacente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Sim – confirmou Cesário. – E tu?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Não sei. – Justina encolheu os ombros. – Ia sair aqui.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;As portas fecharam-se com inusitado estrondo, impedindo Justina de sair. Mais do que sorrir, Cesário brilhou e cresceu. As portas tornaram a abrir-se. Cesário empalideceu. Justina largou o objecto metálico e cilíndrico que não iremos nomear e deu um passo na direcção de Cesário, que ganhou cor. A mulher, sem parar, piscou-lhe o olho esquerdo e continuou até à porta. Cesário ficou branco, sem pinga de sangue, sem força nas pernas, nem vontade de viver. Então, ela voltou-se para trás e perguntou:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Vens?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;Sem hesitar, ele foi.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-5592533535531351715?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/5592533535531351715/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=5592533535531351715&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/5592533535531351715'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/5592533535531351715'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2012/01/um-mero-acontecimento.html' title='Um mero acontecimento'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-6270446645255421471</id><published>2011-12-30T08:27:00.001Z</published><updated>2011-12-30T08:27:00.082Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='nomes'/><title type='text'>Nomes (cont.)</title><content type='html'>&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:WordDocument&gt;   &lt;w:View&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:Zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:HyphenationZone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:Compatibility&gt;    &lt;w:BreakWrappedTables/&gt;    &lt;w:SnapToGridInCell/&gt;    &lt;w:WrapTextWithPunct/&gt;    &lt;w:UseAsianBreakRules/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:BrowserLevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt; /* Style Definitions */ table.MsoNormalTable {mso-style-name:"Tabela normal"; mso-tstyle-rowband-size:0; mso-tstyle-colband-size:0; mso-style-noshow:yes; mso-style-parent:""; mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt; mso-para-margin:0cm; mso-para-margin-bottom:.0001pt; mso-pagination:widow-orphan; font-size:10.0pt; font-family:"Times New Roman";}&lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;o:shapedefaults v:ext="edit" spidmax="1026"/&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;o:shapelayout v:ext="edit"&gt;   &lt;o:idmap v:ext="edit" data="1"/&gt;  &lt;/o:shapelayout&gt;&lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;  &lt;br /&gt;&lt;div align="right" class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: right;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;15&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Com movimentos erráticos e descoordenados que o obrigaram a voltar duas vezes atrás, João Marcelo foi buscar o telemóvel, a carteira e as chaves do automóvel à sua sala, despediu-se com um até amanhã de fugida à funcionária, que mostrou o tempo todo um sorriso sobranceiro e condescendente ao patrão, meteu-se no elevador e desceu até à cave do prédio.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;João Marcelo caminhava com passos rápidos mas pouco firmes, ainda que tentasse manter uma certa compostura no andar, pois, não conseguia afastar a preocupação que, desde o primeiro momento em que Maria lhe dissera que o amante dos nomes estava à sua espera à porta de casa, o tinha envolvido totalmente como película aderente que lhe dificultava os movimentos, a respiração e, finalmente, o raciocínio. João Marcelo ia preocupado, muito preocupado. Aliás, o psicólogo ia mais do que preocupado, ia quase em pânico, sem conseguir principalmente perceber porque Maria se tinha lembrado dele e o que esperaria ela que ele fizesse quando se confrontasse com o amante dos nomes.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;“Dou-lhe uma cabeçada no nariz” decidiu o psicólogo quando quase chocou com um poste. “Chego lá e dou-lhe uma valente cabeçada no nariz!”, repetiu animado e a imaginar toda a cena:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;ele, decidido e viril a sair do automóvel;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;ele a dirigir-se, com ar destemido, ao homem que, de dedo em riste junto ao nariz de Maria, a ameaça;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;ele a tocar, com intrépida elegância, no ombro do outro;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;o outro a virar-se para ele com cara de parvo e, depois, ao encará-lo, a ficar apavorado;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Maria a olhá-lo com deleitosa admiração – João Marcelo gostou particularmente da deleitosa admiração de Maria;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;o outro a semi-cerrar as pálpebras com ar demente;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;ele impassível a olhá-lo nos olhos e a mandá-lo desaparecer sem levantar a voz;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;o outro, enxovalhado e desesperado, a pôr a mão no bolso das calças;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;ele, calmo, a ver aparecer um cabo preto enorme de uma navalha de ponta e mola que o outro tira do bolso e que, pelo mero facto de a deter, lhe altera as feições, passando da expressão de um cobarde que tinha até aí para a de um cobarde com uma faca na mão;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;o olhar suplicante mas tranquilo de Maria, certa da vitória do seu defensor;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;ele a dizer qualquer coisa ao outro em tom harmonioso e descontraído;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;o outro, surdo à razão, à harmonia e à descontracção, a erguer a navalha na sua direcção e a soltar a lâmina;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;e, por fim,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;ele, após um prévio e galante pedido de desculpas e uma justificação ponderada de que era o outro que o obrigava a agir, a colocar a cabeça para trás e a lançar, num gesto perfeito, a testa contra o nariz do meliante que cai a sangrar e que fica no chão a chorar como um menino. Um garoto. Um bebé.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Ah!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Seguro de que nada se passaria assim mas satisfeito com a cena imaginada, João Marcelo dirigiu-se ao automóvel que avistou ao fundo d0 corredor com novo alento e ânimo. As luzes dos piscas do automóvel piscaram quando ele carregou na chave, desarmando o alarme e abrindo as portas, “E se ele for mais alto do que eu?”, pensou, continuando a carregar na chave para baixar os vidros. “Salto!”, resolveu com um sorriso confiante, feliz com a eficaz simplicidade, até esteticamente mais vistosa, da solução encontrada. “Dou um salto e uma cabeçada! Com certeza que o homem não é jogador de basquete.”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-6270446645255421471?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/6270446645255421471/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=6270446645255421471&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/6270446645255421471'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/6270446645255421471'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/12/nomes-cont_30.html' title='Nomes (cont.)'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-5584121599894027978</id><published>2011-12-20T10:25:00.001Z</published><updated>2011-12-21T11:09:55.259Z</updated><title type='text'>Hidromassagem</title><content type='html'>&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;–&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt; Sexo.&lt;/span&gt;  &lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Sexo?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Sim, sexo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Sexo, o quê?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Uma das coisas que agora são melhores.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Desculpa?!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Não me perguntaste o que é melhor, agora que estamos separados?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Perguntei.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– É isso.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– O sexo é melhor?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– É. Não achas?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Se eu acho que o sexo que tu tens, agora que estamos separados, é melhor?!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Sim, não achas?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Tu estás a perguntar-me se eu acho que…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Sim. Estou. Não achas?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Sei lá… O que eu acho é que tu devias ter vergonha.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– De quê?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– De me estares a dizer isso e a perguntar se eu não acho.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Tu é que me perguntaste!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Sim mas não foi agora.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Mas eu estou a responder-te agora.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Porque é que tu nunca respondes às coisas quando eu te pergunto?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Boa pergunta.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Típico!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– O quê?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Não respondeste.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Nisso não melhorámos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Tu não melhoraste! Tu!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Mas no sexo melhorámos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Eu melhorei.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Melhoraste?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Sim, agora tenho melhor sexo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Temos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Tenho.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Apesar de estarmos separados, se temos os dois: temos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Sim mas nem sempre ao mesmo tempo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Hã?!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Ah!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Ah?!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Agora é que eu percebi.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Agora é que percebeste o quê?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– O sexo e o facto de me estares a dizer assim.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– A dizer assim, como?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– A anunciares com esse ar…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Que ar?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Como se fosse uma coisa boa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– E é.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Sim, agora já percebi isso mas, ao princípio, não estava a perceber.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Eu é que não estou a perceber.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Ao princípio pensava que estavas a gozar comigo, por isso é que te disse que achava mal estares a dizer-me e a perguntar se eu não achava.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Porque é que havia de estar a gozar contigo?... Tem sido realmente melhor, não achas?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Sim, claro. Tem sido realmente melhor.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– O que é?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– O meu soutien?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Vais-te já embora?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Tenho de ir… Ah! Está aqui! Queres as tuas cuecas?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Importaste que eu fique?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Aqui?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Sim.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Não. Fica. Eu é que tenho de me ir mesmo embora.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Vou aproveitar a banheira de hidromassagem. Não te importas?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Não, Paulo. Fica… É uma das coisas boas de estarmos separados.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– O quê?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Fazermos o que nos apetece.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Isso é verdade.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Beijos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Falamos amanhã?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Provavelmente… Boa hidromassagem.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Obrigado… Olha, Ana!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Diz?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Só não percebi uma coisa: nem sempre ao mesmo tempo, o quê?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Myriad Web Pro&amp;quot;;"&gt;– Nada, depois falamos. Não adormeças na banheira.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-5584121599894027978?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/5584121599894027978/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=5584121599894027978&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/5584121599894027978'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/5584121599894027978'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/12/hidromassagem.html' title='Hidromassagem'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-6414447799763832222</id><published>2011-12-16T08:03:00.001Z</published><updated>2011-12-16T08:03:00.215Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='nomes'/><title type='text'>Nomes (cont.)</title><content type='html'>&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:WordDocument&gt;   &lt;w:View&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:Zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:HyphenationZone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:Compatibility&gt;    &lt;w:BreakWrappedTables/&gt;    &lt;w:SnapToGridInCell/&gt;    &lt;w:WrapTextWithPunct/&gt;    &lt;w:UseAsianBreakRules/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:BrowserLevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt; /* Style Definitions */ table.MsoNormalTable {mso-style-name:"Tabela normal"; mso-tstyle-rowband-size:0; mso-tstyle-colband-size:0; mso-style-noshow:yes; mso-style-parent:""; mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt; mso-para-margin:0cm; mso-para-margin-bottom:.0001pt; mso-pagination:widow-orphan; font-size:10.0pt; font-family:"Times New Roman";}&lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;  &lt;br /&gt;&lt;div align="right" class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: right; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;14&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Para quem o visse de longe e não o ouvisse falar, Saul Caldeira não parecia um tipo complicado.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Alto, espadaúdo e sempre bem composto, Saul Caldeira é um desses choninhas anónimos e apagados que passam despercebidos grande parte da vida até que, chegando a meio dos trinta, ganham compostura e importância e se descobrem cheios de si, opiniosos e surpreendentemente emproados, procurando disfarçar o seu ar embaciado e desinteressante de sempre com o porte que as gravatas e as roupas de marca lhe podem dar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Calado, introvertido, engraxador e obtuso, ainda que as três primeiras características escondam a quarta, Saul subiu sem dificuldade na hierarquia do serviço distrital do instituto público onde trabalha até chegar ao patamar de uma posição de chefia, que não ambiciona e que consegue evitar, mas que lhe permite, ainda assim ou por isso mesmo, ser a eminência parda do serviço, com a fama – mítica – de ser técnica e humanamente muito bom.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Não é, nem uma coisa nem outra. Saul é um tipo ressabiado, sem paciência e sem qualquer tipo de tolerância a contrariedades ou rejeições e, tecnicamente, não é uma nódoa porque é demasiado cuidadoso e vaidoso para assumir um erro ou falha, que consegue sempre, por portas e travessas, às vezes, como se fizesse um favor, assacar a outrem.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Maria tinha-o conhecido profissionalmente e, sem perceber muito bem como, tinha acabado enrolada com ele ou, para ser mais preciso, com ele enrolado nela quatro vezes; cada uma delas pior que a anterior.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Maria percebeu no terceiro encontro, ainda que não conseguisse identificar a razão concreta, que Saul vinha com intenção de ficar, de se estabelecer, de não só se enrolar nela amiúde como de se enrolar à sua vida. E, percebeu igualmente nesse terceiro encontro – um jantar, com copos, dança e ele em casa dela –, que Saul não era o que aparentava ser ou, se calhar era, ela é que não tinha percebido a vacuidade e vulgaridade do seu estilo e aparência que, depois de decifrado, era o perfeito reflexo do homem vaidoso e oco que ele era.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Provavelmente por isso ou então por estar entediada, Maria, no quarto encontro, enquanto suportava os movimentos gelatinosos de Saul a embater-lhe nas nádegas e sentia as suas palmas das mãos suadas e frias nas ancas, ouviu-se a pedir para que ele dissesse palavrões e lhe chamasse nomes, que ela, naquele momento, achava que merecia para ver se ganhava juízo e se distraía dos ridículos movimentos pélvicos do amante e das suas mãos que lhe lembravam peixes mortos a descongelaram sobre a sua pele.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Força! Força! Dá-me com força! Força! Chama-me nomes! Bate-me!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Surpreendido e contrariado, Saul bateu-lhe desajeitadamente nas nádegas, aumentou a cadência e reforçou o movimento das ancas por alguns segundos mas continuou em silêncio e Maria insistiu no que ele não fez:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Chama-me nomes! Chama-me nomes, foda-se!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Saul grunhiu qualquer coisa ininteligível, tornou a bater-lhe molemente nas nádegas e voltou a pousar as solhas descongeladas nas ancas da mulher.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Agarra-me, foda-se! – gritou Maria, furiosa consigo própria por estar ali. – Agarra-me e chama-me nomes!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Saul obedeceu novamente só ao primeiro pedido e apertou as mãos de encontro às ancas dela como se a agarrasse, como se pretendesse colar-lhe mais peixes mortos ao corpo, depois, como as mãos suadas lhe escorregassem, cruzou os braços em cima dela e agarrou-a, a mão esquerda na anca direita e a direita na anca esquerda, fazendo força para as mãos não escaparem e, por isso, puxando-a involuntariamente para si sempre que ia para a frente. Enraivecida com o silêncio dele, Maria lançava-se de encontro a ele cada vez com mais força, cada vez mais depressa e berrava como uma possessa:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Chama-me nomes, foda-se! Chama-me nomes, parvalhão!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-6414447799763832222?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/6414447799763832222/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=6414447799763832222&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/6414447799763832222'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/6414447799763832222'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/12/nomes-cont_16.html' title='Nomes (cont.)'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-3605108694874257246</id><published>2011-12-14T08:26:00.005Z</published><updated>2011-12-14T08:26:00.814Z</updated><title type='text'>O doutor</title><content type='html'>&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:WordDocument&gt;   &lt;w:View&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:Zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:HyphenationZone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:Compatibility&gt;    &lt;w:BreakWrappedTables/&gt;    &lt;w:SnapToGridInCell/&gt;    &lt;w:WrapTextWithPunct/&gt;    &lt;w:UseAsianBreakRules/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:BrowserLevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt; /* Style Definitions */ table.MsoNormalTable {mso-style-name:"Tabela normal"; mso-tstyle-rowband-size:0; mso-tstyle-colband-size:0; mso-style-noshow:yes; mso-style-parent:""; mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt; mso-para-margin:0cm; mso-para-margin-bottom:.0001pt; mso-pagination:widow-orphan; font-size:10.0pt; font-family:"Times New Roman";}&lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;  &lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; mso-bidi-font-family: Garamond;"&gt;O doutor ensaiou um sorriso que não chegou a estrear, percebendo, na frase curta e no olhar duro da cliente, que esta tinha captado a expressão de entediado desinteresse que deixara escapar enquanto ela falava. Censurou-se por ter sido apanhado e isso poder influir nos honorários a pedir, e decidiu remediar a situação:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; mso-bidi-font-family: Garamond;"&gt;– A nossa vida, para nós que estamos dentro dela, é sempre importante. Muito importante. – O doutor gostou do som cheio com que dissera uma frase tão vazia e continuou: – Todavia, por vezes, temos de tomar decisões… – Lembrou-se a tempo das dúvidas que assaltavam a mulher para quem falava e acrescentou: – De fazer ou não fazer. Decisões que podem parecer exactamente como se não decidíssemos quando, na verdade, é isso que fazemos…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; mso-bidi-font-family: Garamond;"&gt;E o doutor continuou, com empáfia e presunção, a martelar frases como se as fizesse ressoar num bombo, frases com tanto conteúdo como o instrumento. Deixara a lei, a doutrina e a jurisprudência e seguia deleitado a ouvir-se falar sobre a vida e o seu sentido. A mulher ouvia-o apenas por cortesia, decidida não só a não lhe dizer mais nada, como em deixá-lo masturbar-se à vontade à sua frente com o seu longo e oco monólogo – quanto mais o ouvia e via mais lhe parecia que ele estava a ter prazer físico em ouvir-se falar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; mso-bidi-font-family: Garamond;"&gt;Dormente, a cliente esperava apenas que ele concluísse as redondas e ocas “alegações finais” e não lhe cobrasse o tempo extra que estas estavam a demorar, no entanto, não se conseguiu conter quando, depois de arengar mais uns minutos, o advogado repetiu:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; mso-bidi-font-family: Garamond;"&gt;– E é isso, há decisões que podem parecer exactamente como se não decidíssemos quando, na realidade, é isso que fazemos. São decisões difíceis, quantas vezes incompreendidas…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; mso-bidi-font-family: Garamond;"&gt;– Se é isso que realmente fazemos – interrompeu a mulher, ácida –, então não estamos a decidir nada. – O advogado olhou para ela, incomodado pela interrupção. A mulher pensou que ele não tinha percebido mas que a estava a ouvir e explicou: – Se as decisões se parecem com a ausência de decisões e, na realidade, como o doutor disse, foi isso mesmo que fizemos, então o que fizemos foi não decidir e a aparência e a realidade são uma e a mesma coisa, apesar de nós próprios podermos depois imaginar a não decisão como uma decisão por uma razão qualquer, de conforto ou de auto-ilusão, ou outra, e, provavelmente, sem termos sequer a noção disso. Não decidimos ponto final mas como a vida não espera pelas nossas decisões…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; mso-bidi-font-family: Garamond;"&gt;– Ah! – O doutor olhou para o relógio que lhe ocupava o pulso todo e ainda sobrava. A mulher achou o relógio apalhaçado mas não disse nada. – A nossa conversa… – o advogado riu-se – sim, porque isto já não é uma consulta, nem sequer uma reunião, é uma conversa – o doutor tornou a olhar para o relógio, que fez questão de mostrar explicitamente de forma sub-reptícia em todo o seu esplendor. – A nossa conversa alongou-se e eu tinha uma outra reunião às seis e já são seis e catorze. Não sei se ainda a posso ajudar em mais algum assunto.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; mso-bidi-font-family: Garamond;"&gt;– Não, estou esclarecida, doutor.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; mso-bidi-font-family: Garamond;"&gt;O advogado levantou-se e ficou em pé a olhar para o decote da cliente que, ainda sentada, guardava o telemóvel e a carteira na mala.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; mso-bidi-font-family: Garamond;"&gt;– Muito bem, muito bem – apreciou o doutor. A mulher olhou-o e ele completou, subindo um palmo o alvo do seu olhar: – É sempre importante que as pessoas tomem decisões esclarecidas. Sempre importante. E pode contar com os meus serviços para o que entender… Para o que entender.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; mso-bidi-font-family: Garamond;"&gt;A mulher levantou-se, abanando a cabeça para cima e para baixo. O doutor sorriu e deu-lhe passagem, procurando vê-la de outros ângulos, o que fez com milimétrico cuidado. Satisfeito, passou-lhe à frente, roçando-se descaradamente no seu braço e, agarrado à maçaneta da porta que não abriu, chilreou:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; mso-bidi-font-family: Garamond;"&gt;– A sua situação não é nada fácil: há questões pessoais, claro que há, mas também há questões legais de fulcral e decisiva importância; por essa razão parece-me que há uma manifesta e aguda necessidade de ponderação e de um acompanhamento abrangente que permita enquadrar, a todo o tempo, as várias vertentes em conflito. A precipitação é um erro trágico e, muitas vezes, irremediavelmente caro mas que se pode prevenir com um mero telefonema ou um mero encontro… Mesmo fora de horas. – O doutor largou a maçaneta e tirou um cartão e uma caneta do bolso do casaco. – Vou-lhe dar o meu número pessoal e a senhora não hesite em contactar-me. – O doutor escreveu no cartão e entregou-o à cliente, com um sorriso oleoso, peganhento. – Podemos encontrar-nos quando quiser. Quando quiser.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; mso-bidi-font-family: Garamond;"&gt;A mulher recebeu o cartão e o sorriso com o mesmo asco. Agradeceu como se realmente agradecesse e estendeu a mão para se despedir.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; mso-bidi-font-family: Garamond;"&gt;– Liga-me? – insistiu o doutor, sem lhe largar a mão, enquanto abria a porta. – Eu gostava muito… – A mulher não conseguiu esconder uma careta de espanto e reprovação. O doutor, com o sorriso mais angelical que conseguiu, completou: – De a ajudar, claro… Eu gostava muito de a ajudar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-3605108694874257246?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/3605108694874257246/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=3605108694874257246&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/3605108694874257246'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/3605108694874257246'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/12/o-doutor.html' title='O doutor'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-5503901792724601400</id><published>2011-12-02T19:56:00.001Z</published><updated>2011-12-02T20:03:06.523Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='nomes'/><title type='text'>Nomes (cont.)</title><content type='html'>&lt;div align="right" class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: right;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;13&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;A engenheira, remoendo injúrias, ofensas à honra e maldições ao psicólogo, descia no elevador a resmungar e a imaginar o que podia fazer para o aborrecer – a mulher procurava ideias de vingança maléficas e grandiosas mas, na realidade, ela só o queria aborrecer e isso aborrecia-a. Sentia-se mal, queria mais, queria ser pior. Sentia como imperdoável que ele não só lhe tivesse resistido como, no fim, ainda a deixasse pendurada entre a porta do consultório e o riso escarninho e mal intencionado da funcionária que lhe cobrara a consulta e se despedira de si com insultuosa normalidade. “A puta! O Tapioca havia de ter gonorreia e pegar-lhe!” Mas, se pensava isso de Patrícia, com quem acabara por ter uma conversa minimamente civilizada antes de entrar para a terapia, não conseguia estender esses sentimentos ao psicólogo, a quem – “foda-se!” – só queria aborrecer. “É triste.”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;O elevador abriu-se e a engenheira saiu na cave ainda sem ideias, encaminhando-se em passo propositadamente lento para o estacionamento privado da Clínica, onde deixara o automóvel. Seguia pesarosa mas inconformada quando, com a mão enfiada dentro da pequena mala de marca à procura do comando do seu automóvel, reconheceu o do psicólogo. Parou a olhar para ele à espera de uma epifania ou, pelo menos, de uma ideiazinha exequível de vingança, quando sentiu na ponta dos dedos o pedaço de tecido que guardara na mala. E teve-a. Era brilhante! Riu-se e depois ponderou as consequências da sua ideia e concluiu com um sonoro:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Que se lixe! – A que contrapôs em silêncio um “No pior dos casos são mais umas horas de terapia ou…” A engenheira hesitou quanto a pensar conscientemente o que já intuía poder acontecer mas decidida, sorriu, agarrou na tanga preta, tirou-a da mala, cheirou-a e concluiu: “Ou tem de me analisar as taras ou renuncia e indica-me outro psicólogo. Que se lixe, assim é que não pode continuar.”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;De tanga preta na palma da mão, a engenheira olhou em volta, verificou que ninguém a via, encostou-se ao automóvel do psicólogo para ficar mais resguardada e pôs a tanga amarrotada por baixo da saia entre as virilhas. Ria-se enquanto humedecia e impregnava a tanga de fluidos e aromas. Tudo a excitava e ria-se cada vez mais, acabando por se encostar ao automóvel quando sentiu um pequeno arrepio que a fez vacilar. Cerrou os dentes, parou e cheirou a peça de lingerie com uma forte inspiração pelo nariz, ficando satisfeita com o odor fesco e perfumado “a prazer e deboche”. Então, embrulhou-a o melhor que conseguiu e segurou-a com a ponta dos dedos frios e trémulos, beijou-a e prendeu-a no manípulo da porta do automóvel do psicólogo, escondendo-a o mais possível de forma a só ser percebida por quem estivesse a abrir a porta.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Delirante a engenheira deu três passos na direcção da mala do automóvel e tornou a aproximar-se como se fosse abrir a porta. Riu-se: a tanga mal se via. Era quase certo que o homem só daria por ela quando a tivesse na mão. “Não tem hipóteses!” e imaginou a surpresa do psicólogo quando lançasse a mão para abrir a porta e se deparasse com tal prenda. “Eu não tinha. Agora tens tu!”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Sem pensar, ou melhor, sem sequer dar por isso, a engenheira lambeu o vidro da porta do condutor, puxou a mini-saia para baixo, ganhando dois ou três centímetros de recato, e afastou-se sem conseguir parar de rir.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-5503901792724601400?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/5503901792724601400/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=5503901792724601400&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/5503901792724601400'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/5503901792724601400'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/12/nomes-cont.html' title='Nomes (cont.)'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-5108675835642601750</id><published>2011-11-29T10:08:00.003Z</published><updated>2011-11-29T12:24:34.115Z</updated><title type='text'>O doutor</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;O doutor repetiu, simplificando:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– Se são casados em separação de bens, caso se divorciem, os bens dele são dele e os seus são seus.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– Mesmo os que tivermos comprado durante o casamento?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– Sim, desde que efectivamente se comprove quem os comprou…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– Bonito serviço!... Eu não posso ter nada em meu nome, nem tenho conta nem nada. Está tudo em nome dele. Foi tudo comprado em nome dele, com cartão ou cheques em nome dele, por isso é tudo dele, é isso?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– Em principio…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– Em principio e no fim!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– Provavelmente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– E se ele morrer?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– Tem de o enterrar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– Ah! Não é isso! – A mulher deu uma gargalhada nervosa. – O doutor está a brincar mas até nisso ele é do contra: o homem não quer ser enterrado. Diz que quer ser cremado e que as cinzas têm de ser lançadas no jardim da casa dos pais.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– Da casa dos pais? Qual é a casa dos pais?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– Não é dele! – A mulher abanou a cabeça com veemência, desesperada por antecipação. – Calhou em partilhas a um tio com quem ele não se fala há mais de trinta anos. Não fala com ninguém dessa parte da família!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– E quer as cinzas lá?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– Mesmo por isso! – A mulher riu-se. – Ele é um retorcido do pior, doutor, até já me disse que quer que eles saibam que ele está lá. E acho que também já disse ao filho. – A mulher recolocou a expressão séria e formal do início da reunião e, pousando as mãos na mesa, fixou o advogado com um olhar vítreo, concentrado, e disse: – Mas isso agora não interessa nada, doutor, o que eu preciso de saber é se ele morrer quais são os meus direitos. Tenho direito a alguma coisa ou, como estamos casados em separação de bens, não vejo nada?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– Se ele morrer é herdeira dele…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– De todos os bens?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– Sim.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;As pálpebras afastaram-se e os olhos da mulher brilharam mas o rosto continuou tão formalmente impassível como antes.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– Mas se me divorciar não? – perguntou, com a voz ligeiramente trémula de comoção.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– Se se divorciar deixa de ser herdeira.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– Sim e não apanho nada. – Os olhos da mulher continuavam a brilhar e os dedos entrelaçavam-se e separavam-se em movimentos nervosos, calculistas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– Para usar a sua expressão, sim, não apanha nada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– Mas se ele morrer, herdo tudo! – A mulher não conseguiu disfarçar um sorriso, que camuflou com um providencial ataque de tosse e consequente movimento da mão a tapar a boca.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– Tudo não. O seu marido tem um filho, não é?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– É, tem um.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– Então são os dois herdeiros.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– Eu e ele…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– Sim.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– Quer dizer que o doutor é da opinião de eu não me divorciar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– Eu não sou de opinião nenhuma. Isso é uma decisão pessoal e, parece-me, nem deve ser uma decisão exclusivamente económica.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;A mulher soltou uma gargalhada genuinamente divertida.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– Desculpe mas essa foi boa!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– É o que eu penso.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– E se o casamento tiver sido uma decisão económica? – A mulher lançou a pergunta ainda acompanhada do anterior ar de riso e satisfação que, no entanto, se começou a esbater logo que se ouviu fazê-la e, ainda a sorrir, acrescentou: – Dos dois.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– Sendo assim…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond;"&gt;– Foi assim – interrompeu a mulher, concludente, enquanto lhe passava uma sombra pela expressão que lhe levou o sorriso e o brilho no olhar. Depois de uma pausa, ela disse como se se confessasse: – Eu queria mudar de vida e ele queria ter-me com exclusividade. Achámos os dois que ficávamos a ganhar. E… – A mulher falava para as mãos, entrelaçadas pelos dedos e pousadas em cima da mesa. – E, na realidade, naquela altura, eu gostava dele e ele de mim. – A mulher levantou a cabeça e cruzou o olhar com o do advogado, procurando aferir da expressão dele o que dizer e o que calar. Calou-se: – Mas isso não é importante.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-5108675835642601750?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/5108675835642601750/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=5108675835642601750&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/5108675835642601750'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/5108675835642601750'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/11/o-doutor_29.html' title='O doutor'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-3735720299541550389</id><published>2011-11-25T17:17:00.001Z</published><updated>2011-11-25T17:17:00.080Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='nomes'/><title type='text'>Nomes (continuação)</title><content type='html'>&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:WordDocument&gt;   &lt;w:View&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:Zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:HyphenationZone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:Compatibility&gt;    &lt;w:BreakWrappedTables/&gt;    &lt;w:SnapToGridInCell/&gt;    &lt;w:WrapTextWithPunct/&gt;    &lt;w:UseAsianBreakRules/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:BrowserLevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt; /* Style Definitions */ table.MsoNormalTable {mso-style-name:"Tabela normal"; mso-tstyle-rowband-size:0; mso-tstyle-colband-size:0; mso-style-noshow:yes; mso-style-parent:""; mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt; mso-para-margin:0cm; mso-para-margin-bottom:.0001pt; mso-pagination:widow-orphan; font-size:10.0pt; font-family:"Times New Roman";}&lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;  &lt;br /&gt;&lt;div align="right" class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: right; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;12&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;O psicólogo, a patinar na resposta da engenheira à pergunta que ele não chegara a fazer, ficou a olhar ora para a porta que ela fechara ao sair, ora para o telemóvel que tocava e mostrava um número que ele não conhecia, amargamente arrependido da precipitada decisão de atender a chamada em detrimento da conclusão da conversa com a engenheira. E, apesar de se fixar nos dois objectos à espera de mudanças, nada aconteceu: a porta continuou fechada e o telemóvel continuou a tocar. Resignado, concluiu que já não podia mudar nada, a engenheira fora-se e não voltaria a abrir a porta até à próxima consulta e, ainda que não conseguisse esquecer ou decifrar o “Não, não tenho”, a única coisa que agora podia fazer era atender o telemóvel. Fê-lo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Doutor?! – disse-lhe uma voz feminina.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Sim. – O psicólogo reconheceu a voz mas não a identificou.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Ele está aqui.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;João Marcelo registou e pensou na frase ligando-a à voz que a dissera, sem que, no entanto, conseguisse concluir fosse o que fosse. Na realidade, parte do seu cérebro já deixara de patinar no “Não, não tenho”, pois, já estava aí completamente atolada sem conseguir ultrapassar a dúvida quanto ao que ela não, não tinha, nem quanto à pergunta que ela pensava que ele lhe ia fazer mas não fez. “Não, não tenho”, ruminava, enquanto distraidamente pensava na voz que lhe falava ao telemóvel. “Eu ia-lhe perguntar se o sofá se colara a ela. Não, não tenho, não é resposta… Não tem o quê?”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Ele está aqui, doutor – repetiu a voz conhecida mas ainda anónima.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Quem? – perguntou João Marcelo, decidido a tentar perceber, sem perguntar, quem lhe ligava.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Ele, doutor… – A voz exprimia algum desapontamento e exasperação pela pergunta. – O tipo dos nomes.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Ah… – O psicólogo compreendeu o desapontamento da paciente, devia ter percebido logo que era ela que lhe estava a ligar. – Maria!... Ah!... Não estou a perceber. Ele está aí? Onde?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Ele está à minha espera, doutor, à porta do meu prédio.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;“A senhora tem um prédio?”, pensou perguntar em tom de graça mas retraiu-se e só perguntou: – Acha que vai haver problemas, é? – e, pensou mas não disse: “E liga-me a mim?!”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Não sei… Ele esteve a mandar-me mensagens todo o tempo que eu estive consigo e eu só as vi quando saí. – Maria falava rapidamente mas sem levantar a voz – E, a partir da terceira ou da quarta, as mensagens tornaram-se ofensivas e eu não as vi todas… E agora ele está ali, à minha espera. – A mulher suspirou e viu o amante descontinuado de braço no ar a acenar-lhe.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Mas quer que eu vá aí? – O psicólogo rodeando a secretária, saiu do gabinete e, tapando o telemóvel com a mão, sussurrou à funcionária: – Dê-me aí ficha da Maria S.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– De quem? – Perguntou a funcionária pois o psicólogo dissera mesmo Maria S., como se estivesse num livro de um autor russo do fim do século XIX.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Ele já me viu, doutor, tenho de ir ter com ele – informou Maria, recomeçando a andar, ainda que o psicólogo não o soubesse.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Da paciente das 17 – concretizou o psicólogo, ainda com a mão a tapar o telefone, que tirou para gritar novamente: – Mas quer que eu vá aí?! – Patrícia com cara de caso estendeu-lhe a ficha solicitada. Ele agarrou-a, sem a ver, e sussurrou: – Tem a morada dela? – A funcionária confirmou com a cabeça e o psicólogo perguntou: – Há mais alguém?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Não, está só ele… Que eu veja, está só ele – respondeu a paciente, caminhando lentamente. – Porquê, o doutor acha…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Ah! Não, não era consigo, Maria – Interrompeu o psicólogo, percebendo a informalidade com que estava a tratar a paciente mas sem o conseguir evitar, e decidido informou: – Eu vou já para aí! – Regressando ao gabinete para ir buscar a carteira e as chaves, já sem tomar atenção ao telemóvel.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Não é preciso, eu só gostava que o doutor ouvisse a conversa – disse a mulher, sem que o psicólogo a ouvisse. – Eu vou pôr o telemóvel na mala mas não desligo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Não há mais ninguém, Patrícia? – repetiu o psicólogo, afogueado. A funcionária confirmou que não com um aceno.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Aconteceu alguma coisa, doutor? – Perguntou Patrícia, descontente com a falta de informação que podia pôr em causa o seu encontro com o segurança. – Há algum problema?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Não – respondeu o psicólogo, encaminhando-se em passo acelerado para a porta. – Acho que não.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– E ainda volta, doutor?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Não. Acho que não. A ficha tem a morada certa?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Patrícia fez uma careta e gritou para a porta que se fechava:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Tem! – Abanou a cabeça e falou baixinho, para si: – Tem a morada de Maria S., na Rua I., na região de L.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-3735720299541550389?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/3735720299541550389/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=3735720299541550389&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/3735720299541550389'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/3735720299541550389'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/11/nomes-continuacao_25.html' title='Nomes (continuação)'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-9044022506929160821</id><published>2011-11-23T17:29:00.000Z</published><updated>2011-11-23T17:29:37.843Z</updated><title type='text'>Peixe-espada</title><content type='html'>nada?&lt;br /&gt;nada.&lt;br /&gt;nem uma mísera historieta?&lt;br /&gt;nem isso.&lt;br /&gt;só isto?&lt;br /&gt;só.&lt;br /&gt;podia ser pior...&lt;br /&gt;podia?! como?&lt;br /&gt;podia ser isto mas em comprido.&lt;br /&gt;ah! chato e comprido.&lt;br /&gt;pois, como o peixe-espada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-9044022506929160821?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/9044022506929160821/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=9044022506929160821&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/9044022506929160821'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/9044022506929160821'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/11/peixe-espada.html' title='Peixe-espada'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-8924359250412681195</id><published>2011-11-18T08:51:00.001Z</published><updated>2011-11-18T08:51:00.705Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='nomes'/><title type='text'>Nomes (continuação)</title><content type='html'>&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:WordDocument&gt;   &lt;w:View&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:Zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:HyphenationZone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:Compatibility&gt;    &lt;w:BreakWrappedTables/&gt;    &lt;w:SnapToGridInCell/&gt;    &lt;w:WrapTextWithPunct/&gt;    &lt;w:UseAsianBreakRules/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:BrowserLevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt; /* Style Definitions */ table.MsoNormalTable {mso-style-name:"Tabela normal"; mso-tstyle-rowband-size:0; mso-tstyle-colband-size:0; mso-style-noshow:yes; mso-style-parent:""; mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt; mso-para-margin:0cm; mso-para-margin-bottom:.0001pt; mso-pagination:widow-orphan; font-size:10.0pt; font-family:"Times New Roman";}&lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;  &lt;br /&gt;&lt;div align="right" class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: right; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;10&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Maria viu-o ao longe e não gostou: Saúl, o amante descontinuado, estava à porta do seu prédio; obviamente à sua espera; certamente para pedir explicações pela falta de resposta às suas 17 mensagens; e, eventualmente, se ainda se lembrasse, para esclarecer o que se tinha passado no último encontro.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;A mulher, a quem só apetecia chegar a casa, despir-se e deitar-se no sofá, aproveitando os primeiros segundos de frescura que a pele contra pele proporcionava e, depois, com a intenção de ficar aí presa como velcro – ela achava que era os ganchos e o sofá as voltas, o que lhe dava um estranho e injustificado conforto –, pensou rápido e estacou. Não queria falar com Saúl ou, pelo menos, não queria falar com ele sem uma qualquer rede de segurança ou – foi disso que se lembrou – um gancho preso a um helicóptero para a levar a voar no momento em que quisesse acabar a conversa. Não havia gancho, nem helicóptero mas havia um telemóvel. Maria procurou na mala e tirou-o. Hesitou no sujeito passivo da chamada mas, quase de imediato, decidiu-se. Queria ser salva pelo dr. João Marcelo. E queria salvá-lo das saias demasiado curtas da paciente seguinte. Confirmou as horas: a consulta ainda não devia ter terminado. E queria…, quando pensou nisso percebeu que se estava marimbando para Saúl e que, na realidade, não precisava de ser salva por ninguém, nem de nenhum helicóptero que a puxasse. “Beam me up, Scottie.” Riu-se mas não largou o telemóvel. O que queria era tirar o psicólogo da sua zona de conforto, do seu consultório. Queria-lhe mostrar o sofá gémeo. Queria…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Saúl acenou-lhe, interrompendo-lhe a linha do pensamento.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Maria não se moveu mas sinalizou com a cabeça que o vira e que já ia ter com ele; não queria que ele se aproximasse. Ligou ao psicólogo, ainda que – declarou-o para si de forma expressa, contrariando o que estava no visor do telemóvel – estivesse a ligar a João Marcelo e não ao psicólogo, dr. João Marcelo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right" class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: right; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right" class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: right; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;11&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Apesar das expectativas de João Marcelo a consulta com a engenheira decorreu quase com normalidade e ele não viu virilhas – ainda que, tenho de ser franco, em determinados momentos em que a sentia mais envolvida nos seus próprios monólogos e a mulher se mexia com aparente despreocupação no sofá, o homem tentasse, mas sem demasiado afinco, reconheça-se, vislumbrar mais do que o decoro e a ética lhe autorizavam.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;A engenheira jogou o seu jogo, que havia ganho logo nos primeiros instantes quando o vira a apanhar o queixo do chão sem largar a porta, e, a partir daí, decidiu inverter a estratégia e torná-la dúbia, suave, sub-reptícia e, por isso, manteve-se muito composta e recatada, cuidando sempre de não mostrar mais do que era inevitável. A engenheira Fátima foi mostrando o sorriso voluptuoso a espaços, olhando-o de esguelha para ser apanhada e acompanhou tudo com um tom profundo e pausado de dizer as coisas que mantiveram o homem interessado e atento mas continuamente na dúvida.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;No fim, a engenheira levantou-se e o psicólogo também; e este, ao ver as marcas das pernas suadas da mulher no sofá, lembrou-se da conversa com Maria e, sério, cruzou o seu olhar com o dela e afirmou:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– A engenheira desculpe mas não posso deixá-la ir sem lhe perguntar uma coisa… Não me leve a mal…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Não – incentivou a engenheira com um murmúrio.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Não pense que eu estou louco… mas é uma pergunta um bocadinho estranha.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;A engenheira riu-se, um riso afectado de quem pensa controlar a situação. O psicólogo sorriu.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Não há perguntas estranhas, há perguntas. E, se pensar que está louco, tenho de mudar de &lt;i&gt;shrink&lt;/i&gt;… – A engenheira fez uma pausa e concluiu, com deslocada sensualidade: – E eu não quero fazer isso, doutor… Eu gosto que o doutor me veja, me acompanhe… Gosto que me analise e conheça o mais fundo de mim. – Entusiasmada a engenheira esqueceu a anterior estratégia e ciciou: – Que me conheça toda.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;João Marcelo fechou o sorriso. A Engenheira Fátima suplicava-lhe pela pergunta e ele teve medo da pergunta que ela pensava que ele lhe ia fazer, medo da pergunta que não lhe ia fazer e medo da pergunta que lhe ia fazer. Fosse como fosse não havia solução e a culpa era sua. “Burro”, censurou-se. “Já devias saber!”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;A engenheira continuava à espera. O psicólogo ganhou alento pensando na sua profissão, reavivou um fraco sorriso e começou a dizer:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– O que eu lhe queria perguntar não é nada…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Um telemóvel vibrou em cima da secretária, fazendo com que o psicólogo se interrompesse e com que a engenheira percebesse no olhar furtivo dele que a pergunta, a pergunta verdadeira, já não viria a ser feita.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Desculpe…– pediu o psicólogo, satisfeito pela interrupção, dando dois passos para a secretária.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;A engenheira fez uma careta, meteu a viola no saco e dirigiu-se à porta. Abriu-a, olhou para trás, aceitou as desculpas do psicólogo que lhe dizia com ar aflito e lamentoso que tinha mesmo de atender e, encostada ao umbral, piscou-lhe o olho e respondeu à pergunta que não foi feita:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Não, não tenho. – Desencostou-se, virou costas, fechou a porta e sorriu para a funcionária: – Ainda não foi hoje… Pena. – Patrícia respondeu ao sorriso e a engenheira, mudando o tom, perguntou autoritária: – E o Tapioca já subiu?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Ainda não.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Mas vem?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Quem?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– O Tapioca!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Vem ele… – Patrícia não conteve o riso. – Vem ele e eu também espero vir.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;A engenheira achou graça e riu-se.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Haja alguém que se safe nesta história!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-8924359250412681195?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/8924359250412681195/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=8924359250412681195&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/8924359250412681195'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/8924359250412681195'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/11/nomes-continuacao.html' title='Nomes (continuação)'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-7725838485953957013</id><published>2011-11-11T11:11:00.006Z</published><updated>2011-11-11T12:06:19.662Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='nomes'/><title type='text'>Nomes (cont.)</title><content type='html'>&lt;div align="right" class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: right; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;9&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Sentado, João Marcelo sentiu as nádegas reagirem quase instantaneamente ao revestimento do sofá, não se colaram de imediato, é certo, mas o psicólogo percebeu que a paciente tinha razão, bastar-lhe-ia permanecer sentado mais uns instantes para que o calor do corpo e a falta de respiração entre a sua pele e o sofá os colasse e que, a partir daí, qualquer movimento fosse desagradável e se transformasse numa ligeira provação. Pensou, sem saber porquê, que o inventor do velcro, que diz ter-se inspirado em passeios campestres com o seu cão, provavelmente também passou muito tempo sentado num sofá de napa ou de pele, nu, a colar-se e a descolar-se, à procura de aperfeiçoar a sua invenção. “Aqui não há ganchos nem voltas, é tudo direito, liso e, no entanto, cola e descola e faz barulho.” O psicólogo riu-se, ainda que não achasse graça. “Se calhar, o homem tirou o efeito sonoro do velcro das suas sessões de sofá. Além de inventar o velcro, que não conseguiu aperfeiçoar ao nível da nádega e do sofá, ainda teve o cuidado de providenciar a sonoplastia para a coisa. Uma espécie de brinde sonoro para quem usasse a sua invenção. Aliás,” ponderou desviando o olhar para as calças no chão, “nem podia ser de outra maneira se queria fazer frente ao fecho de correr. O velcro tinha de ter um som.” Mexeu-se e ouviu o som rugoso das nádegas no sofá. “Não é bem a mesma coisa” deu por si a analisar. “O som do velcro é mais… Mas…”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;O psicólogo tomou súbita e dramática consciência de si, da sua situação e dos seus pensamentos. Envergonhado e à procura de uma rápida explicação para o que denominou com grandiloquência de "nu num sofá em absoluto e injustificável desligamento da realidade", o psicólogo procurou na causa para estar ali a razão do seu estado e situação e concluiu rapidamente que "a causa foi uma mulher", o que aos seus olhos praticamente o ilibou: "Nós somos assim, é da nossa natureza."&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;&amp;nbsp;Então, enquanto se levantava, vestia as cuecas e as calças e compunha a camisa, lembrou-se do comentário de Maria e resmungou, “E quer que eu faça o quê?”, a olhar para o sofá e a reclamar com a mulher que longe dali lia a mensagem das 17:17. “Para a próxima venha de calças!”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;O psicólogo continuou a resmungar até abrir a porta e, espantado deu por si novamente desligado da realidade, esquecido do resto do mundo e a olhar longa e fixamente para as pernas da engenheira que se levantara a compasso com o movimento da porta, dera um primeiro passo e estacara surpreendida pela inusitada e descarada atenção do psicólogo às suas pernas quase integralmente nuas. A engenheira queria mas não estava à espera de tanta e tão pronta e demorada atenção.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Patrícia tossiu e escondeu um sorriso atrás da mão mas não censurou o patrão, havia muito para ver, não era preciso era ser tão ostensivo. Tornou a tossir, agora mais alto, e só parou quando ele desviou os olhos das pernas da engenheira para a mão que ela mantinha em frente&amp;nbsp; à boca.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;O psicólogo recompôs-se e pôs um ar grave e profissional, evitando, cruzar o olhar com o resto do corpo da paciente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Faça favor, senhora engenheira – disse-lhe, acompanhando o convite com um gesto largo do braço direito a indicar-lhe que entrasse, enquanto ele, por sua vez, se afastava da porta e se aproximava da funcionária. – Pode-se sentar, engenheira, é só um momento que eu vou já.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;A mulher entrou lançando-lhe um sorriso enigmaticamente delicado e ele, com um pedido de desculpas, fechou a porta mantendo-se, sem nada que realmente o justificasse, do lado de fora.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;A secretária olhava-o como se o visse pela primeira vez e ele próprio, se lhe trouxessem um espelho, havia de fazer o mesmo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– O que é isto, Patrícia?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– O quê, doutor?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Isto… – O médico juntou as mãos à altura do peito e, acto contínuo, estendeu e abriu os braços. – O mundo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Patrícia apertava os dedos uns nos outros concentrando-se com empenho para não desatar a rir à gargalhada e, certa de que não conseguia falar sem se desconcentrar, manteve-se calada, erguendo e baixando os ombros em resposta.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;O psicólogo negaceando com a cabeça, deixou cair os braços, bateu com as mãos nas ancas como se não houvesse esperança para a humanidade e perguntou:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Ó Patrícia, diga-me a verdade, acha que esta mulher se vai conseguir sentar sem me mostrar as virilhas?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;A funcionária abriu um sorriso em que mostrava os dentes todos, mordeu o lábio inferior para se controlar e encolheu os ombros:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Acho pouco provável, doutor.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Acha?! – ironizou o psicólogo, com uma careta. Encolheu os ombros e abriu a porta e entrou no seu gabinete com a expressão grave e profissional que usara antes, tentando alhear-se das virtudes físicas da mulher que lhe sorria voluptuosamente do sofá.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-7725838485953957013?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/7725838485953957013/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=7725838485953957013&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/7725838485953957013'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/7725838485953957013'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/11/nomes-cont_11.html' title='Nomes (cont.)'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-6616715805821071757</id><published>2011-11-09T09:19:00.008Z</published><updated>2011-11-09T09:19:00.723Z</updated><title type='text'>Tó</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Márcia, farta dos silêncios dos últimos dias, sentou-se no sofá ao lado de António e interpelou-o mais uma vez, agora directamente sem rodeios nem meias palavras, fê-lo numa difícil conjugação de sentimentos com modos ásperos e ar aborrecido mas num tom compreensivo e disponível:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Mas afinal o que se passa contigo, Tó?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;António olhou-a de relance, engoliu em seco, encolheu os ombros e sussurrou apático: – Nada – voltando a fixar-se na televisão na esperança que a conversa não chegasse a arrancar.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Nada?! – O semblante de Márcia endureceu mas, após o “nada” dito num tom mais consentâneo com as faíscas no olhar, a voz voltou a ser macia e agradável: – Tu não falas, não dizes nada. Andas a cair pelos cantos com cara de enterro. – A mulher ajeitou-se no sofá, virando-se mais para ele, e pousou a mão na sua perna esquerda, levando a que ele tornasse a olhá-la e que os olhares se cruzassem. Ela aproveitou: – O que se passa, António? É comigo?... É connosco?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Ele apreciou-lhe os olhos que chispavam dando ao castanho-amendoado ainda mais fogo e cor, reparou no ligeiro arquear das sobrancelhas que lhe dava um ar tristonho mas suplicante e nas pequenas rugas nas comissuras dos lábios que só surgiam quando ela estava tensa e séria. António parecia inocentemente embevecido quando se fixou nos lábios carnudos sem serem grossos e esqueceu as comissuras ou o arquear das sobrancelhas. Ela sentiu o olhar e sorriu. António, que adorava sentir-lhe os lábios e o que ela lhe fazia com eles, temeu que ela percebesse a volúpia no seu olhar e baixou os olhos que, “ó martírio!”, ficaram presos no decote dela. Adorava o que ela lhe fazia com as mamas. “Grisolete”, pensou António, sem saber como se escrevia ou sequer se o termo realmente existia e engoliu um sorriso por suspeitar que, se o mostrasse, o teria de explicar.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Não, Márcia, não é nada contigo – disse António a meia voz, olhando para a janela da sala. – Nem connosco.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Márcia gostou do tom contido da resposta e do olhar esgazeado que ele lançou para a rua, apertou-lhe a perna com os dedos como se lhe quisesse transmitir força e depois acariciou-lhe o joelho.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;António esperava que a mão lhe subisse pela perna. Adorava o que ela lhe fazia com as mãos. Esqueceu o decote, as mamas e a grisolete que, concluíra com mágoa, estava fora de questão e, até, os lábios, mas, sentindo a mão no joelho, pensou em tirar imediatamente as calças, que era o que lhe apetecia; só não o fez por julgar que era prematuro e, provavelmente, contraproducente. “Tenho de ter paciência,” pensou. “O joelho é um mero apeadeiro”, e riu para si.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Mas, então, o que se passa? – insistiu Márcia, sem afastar a mão do joelho, sentindo que ele não ia continuar a falar.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– No outro dia percebi uma coisa – disse António, sério e compenetrado, ainda que não conseguisse deixar de pensar porque é que ela não lhe largava o joelho e não lhe subia pela perna acima. – Uma coisa em que nunca tinha pensado antes e de que só me apercebi há dias – continuou ele lentamente, fixando-se na mão dela que tentava puxar telepaticamente mais para cima, sem sucesso. Frustrado, esqueceu-se do que estava a dizer e calou-se.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Márcia suportou o silêncio enquanto conseguiu; percebeu que o estava a fazer muito para além do habitual mas quis respeitar-lhe o ritmo. Não o queria apressar ou pressionar. Esperava uma confissão dorida ou a exposição de qualquer coisa séria que o atormentava e, sabia-o por experiência própria, era necessário que a pessoa que se expõe possa fazê-lo nas suas condições, nos seus termos, seguindo os seus próprios ritmos e sentimentos.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Continuaram calados: ele a olhar para a mão, ela a olhar para ele.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– E? – Lançou Márcia num murmúrio respeitoso, na dúvida entre o temor de que o momento tivesse passado e o medo de estar a ser precipitada.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Alheio às dúvidas de Márcia, António dividido entre a decepção dos seus malogrados esforços telepáticos e a enumeração fantasiosa das virtualidades que um poder desses podia ter para melhorar a sua vida sexual que o “E?” subitamente interrompeu, respondeu sem pensar, num tom ressentido e com expressão naturalmente aparvalhada: – E, o quê?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Márcia tomou o tom e o ar de António como a resposta à sua precipitação: ele precisava de mais tempo. “Os homens são assim”, pensou. “Precisam sempre de mais tempo.”&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– E… – Márcia falava com ar compungido como se pedisse desculpa. “Coitados!” – O que é que percebeste no outro dia?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Ah! – António esquecera-se mas relembrou-se e anunciou tristemente: – No outro dia é que percebi que já ninguém me pergunta o que quero ser quando for grande.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-6616715805821071757?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/6616715805821071757/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=6616715805821071757&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/6616715805821071757'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/6616715805821071757'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/11/to.html' title='Tó'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-6563117577694352442</id><published>2011-11-04T09:26:00.002Z</published><updated>2011-11-04T09:26:01.032Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='nomes'/><title type='text'>Nomes (cont.)</title><content type='html'>&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:WordDocument&gt;   &lt;w:View&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:Zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:HyphenationZone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:Compatibility&gt;    &lt;w:BreakWrappedTables/&gt;    &lt;w:SnapToGridInCell/&gt;    &lt;w:WrapTextWithPunct/&gt;    &lt;w:UseAsianBreakRules/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:BrowserLevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt; /* Style Definitions */ table.MsoNormalTable {mso-style-name:"Tabela normal"; mso-tstyle-rowband-size:0; mso-tstyle-colband-size:0; mso-style-noshow:yes; mso-style-parent:""; mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt; mso-para-margin:0cm; mso-para-margin-bottom:.0001pt; mso-pagination:widow-orphan; font-size:10.0pt; font-family:"Times New Roman";}&lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;  &lt;br /&gt;&lt;div align="right" class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: right; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;8&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Na rua, Maria procurou o telemóvel dentro da mala para mudar o perfil de silencioso para geral e foi surpreendida pelo anúncio no ecrã da existência de 17 mensagens não lidas. Dezassete. Confirmou que não havia chamadas não atendidas e decidiu não ler nenhum dos sms. Todos recebidos na última hora. Não arrumou o telemóvel e dirigiu-se à pastelaria mais próxima. As sessões com o psicólogo davam-lhe sempre fome.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Entrou, sentou-se, pediu e, enquanto esperava pela bica e pelo pão de sementes com fiambre de peru, começou a abrir as mensagens, tendo o cuidado de começar pela primeira que havia sido recebida. Eram todas de Saul.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;[Não percebi. Não percebi nada do que se passou ontem. Precisamos falar.]&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;“Precisas tu”, pensou, ácida.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;[Preciso de falar contigo. Temos de conversar!]&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Maria franziu o sobrolho com a insistência absurda que uma e outra mensagem emanavam e temeu, pela primeira vez, que as 17 mensagens fossem todas no mesmo registo. “Não vai ser um espectáculo nada bonito.”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;[Não me queres ver? Não me respondes? Não dizes nada?!]&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Carla sorriu para o empregado que lhe trazia o café e o pão e, sem lhes tocar, conferiu os detalhes das mensagens: a primeira havia sido recebida às 17:03; a segunda às 17:09 e a terceira às 17:12.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;“Nove minutos para decidir que eu não lhe queria responder”, censurou com uma careta olhando para o pão. “Nove minutos!”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;[Diz-me alguma coisa… please]&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Carla mexeu o café sem açúcar e trincou o pão, sem largar o telemóvel. Saiu das mensagens para confirmar novamente que não tinha chamadas não atendidas. Não tinha. Parecia-lhe estranho, pelo menos, que uma pessoa se desse ao trabalho de escrever 17 mensagens sem nunca tentar fazer uma chamada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Regressou à mensagem anterior. 17:17.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;[Pensei que eras outra pessoa. Enganei-me. O teu silêncio ensurdecedor és tu, é o que tu és. Enganaste-me.] 17:20.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Bebeu o café de um trago e deu uma dentada grande na sandes. Queria despachar-se e sair dali depressa. Mais do que o texto das mensagens, o que a estava a incomodar era a rápida sequência das mesmas, o encurtamento do intervalo entre elas e o facto de ainda ter para ler mais 12, a última das quais enviada às 17:41. Maria precisava de ar, de sol, de movimento à sua volta e, principalmente, precisava de escapar ao olhar incomodamente inquiridor do empregado que, com a atenção pouco disfarçada que lhe devotava, parecia querer fazer um relatório sobre as suas reacções. Pediu a conta.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;[Puta!]&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Engasgou-se.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Quer um copo de água? – perguntou o empregado, colocando a conta na mesa e o olhar no telemóvel.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Ela acenou que não e deu-lhe cinco euros.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;17:22.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Levantou-se, pegou no pires com metade da sandes e pediu ao empregado que a embrulhasse enquanto recebia o troco.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Está tudo bem? – perguntou o empregado, com ar condoído, passando-lhe a sandes embrulhada por cima do balcão.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Diga? – Carla arregalou-lhe as sobrancelhas e estendeu a mão, agarrando e retirando-lhe o pão embrulhado com rudeza.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Se está tudo bem com a senhora – completou o homem, em tom neutro, quase desinteressado –, é que ficou sem cor quando leu as mensagens no telemóvel.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Apeteceu-lhe mandar o homenzinho à merda e dizer-lhe para se meter na sua, certamente, triste e bisonha vida mas controlou-se a tempo. “O homem pode estar a ser genuinamente simpático” reflectiu, com pouca fé.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Está – respondeu, lacónica, começando a afastar-se mas, quando pôs o pão embrulhado na mala, arrependeu-se da forma brusca como lho tinha tirado e parando antes de chegar à porta da rua concluiu: – Chatices no trabalho… – Recomeçou a andar e a dizer de forma propositadamente mais sumida: – Parvoíces que só servem para nos aborrecer… – E só levantou a voz para dizer: – Obrigado, boa tarde – decidida, naquele momento, a nunca mais voltar ali.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Pensou em Saul, no seu ar limpo e seco, sério. Uma espécie de Clint Eastwood em novo, “Uns cinquenta anos mais novo” contabilizou, sem ter a certeza dos anos do velho actor e realizador. “Mas com o charme de há vinte anos e não com o que ele tinha quando andava por Itália com o Leone ou quando andava aos tiros e a pedir que lhe melhorassem os dias.” Sorriu sem prazer, o telemóvel não a deixava esquecer as mensagens. “Devia deixar de beber bebidas gaseificadas como o velho” brincou, referindo-se ainda a ele e ao Clint Eastwood. “Se calhar, é o gás carbónico que lhe dá cabo dos neurónios.”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;[PUTA!!!!!]&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;“Não é preciso gritar”, pensou em voz alta, enfurecendo-se quando se ouviu.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;17:23.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Sem ver mais nenhuma, Maria apagou as mensagens por abrir e as que já abrira. Todas. Limpou mais duas que ele lhe tinha mandado há dois dias, lançou o telemóvel para o fundo da mala e lançou-se a si própria para as profundezas da terra à procura de transporte para casa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-6563117577694352442?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/6563117577694352442/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=6563117577694352442&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/6563117577694352442'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/6563117577694352442'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/11/nomes-cont.html' title='Nomes (cont.)'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-7432325985840023469</id><published>2011-11-03T13:08:00.001Z</published><updated>2011-11-03T13:13:44.455Z</updated><title type='text'>O triste galgo raiado</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;O palhaço corria pela praia junto à linha de maré, chapinhando graciosamente com os sapatões nas ondas que morriam na areia – chapinhava graciosamente porque não cobrava nada a ninguém por esse triste e deselegante espectáculo pois corria como se calçasse barbatanas, levantando muito os pés para não tropeçar na biqueira dos sapatos. Sem se deter, ainda que os movimentos lhe saíssem ainda mais atabalhoados, o palhaço tocou uma buzina que trazia num dos bolsos do largo e coçado sobretudo verde à Freitas/86 que vestia sem elegância por cima de três camadas de camisolas de que só se viam as golas puídas e descoloridas – pelo menos pôs a mão esquerda no bolso direito antes de se ouvir o sobretudo buzinar – e, depois, levando a que a sua figura ganhasse contornos ainda mais bizarros, abriu os braços como se fosse abraçar alguém. No entanto e por mais que olhasse – e olhei muito – não vi ninguém que o palhaço pudesse vir a abraçar nos próximos segundos. Para ser exacto tenho de dizer que era possível que o palhaço viesse a abraçar um vulto que se via muito ao longe mas, vendo o andamento do palhaço e do vulto, isso só aconteceria dali a muitos minutos, pelo que era no mínimo prematuro estabelecer uma relação entre o gesto do palhaço e o vulto que se via ao longe. Provavelmente, o palhaço abriu os braços num momento de fervor religioso pois havia nos seus braços rigidamente erguidos perpendicularmente ao tronco uma nítida conotação cristã – se uma pessoa acabada de descrucificar começasse a correr na praia com sapatos de palhaço e um velho sobretudo de campanha eleitoral seria certamente assim que o faria. Ou foi isso ou o palhaço queria voar ou tinha excesso de suor nos sovacos.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– É suor – gritou o palhaço, com voz de mulher.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Uma palhaça.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;E caiu.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Quem é que caiu?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– A palhaça.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– A palhaça deu uma palhaça, é isso?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– É.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– E era para ter graça?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Um bocadinho.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– E levanta-se?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Quem?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– A palhaça, quem é que havia de ser?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Se quer que lhe diga…&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Quero.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Nem sei.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Mas sei eu.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– O quê?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Que quero que me diga.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Quer que lhe diga o quê?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Se a palhaça se levanta.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Se a palhaça se levanta.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Sim, levanta-se?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Nem sei.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– E eu?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Você?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Sim, eu. Como é que eu fico?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Sei lá. Quem é você?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– O vulto.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– O vulto?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– O vulto.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Ah… E como é que fica de quê?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Eu venho a andar, o palhaço…&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Palhaça.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Ou isso. A palhaça cai… Porque é que não é um palhaço?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Porque tinha voz de mulher.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Podia estar a fingir.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Porque é que um palhaço havia de fazer isso?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Sei lá!... Eu sou só um vulto, não tenho nada que ver com esta história.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– E porque é que me está a perguntar a mim?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Você não é o narrador?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Não. Eu estava aqui só a ler e quando li que o palhaço gritou com voz de mulher, fiquei espantado, não me contive e disse “Uma palhaça” e depois apareceu você e perguntou-me “Quem é que caiu?”…&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Isso está ali escrito.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Pois está, foi você que perguntou.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Não é isso, o que está escrito é que caiu. Ali, está a ver?... A seguir a você ter dito “Uma palhaça” está: “E caiu.”&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Mas não fui eu que disse.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Eu não estou a dizer que foi.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Nem podia, eu não disse nada.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Disse… Espere lá!&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Eu espero, assim como assim só tenho comboio às sete.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Faltam cinco minutos.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Se vier a horas.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Então, e o que está aqui a fazer na praia?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Isto não é a praia. Eu estou na estação a ler.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– E eu?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Já deve ter saído.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Saído?! Saído de onde?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Sei lá… Do seu papel de vulto. Não era uma personagem?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Era.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Então, já são cinco para as sete, por isso, provavelmente, já despegou.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Mas estou aqui a falar consigo.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– O que é que quer dizer com isso?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Sei lá, eu não estou a perceber nada disto. E o palhaço?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Palhaça.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Sim, e a palhaça, onde é que se meteu?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Caiu.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Ah! Está a ver! Foi você!&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Fui o quê?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Que disse que ela caiu!&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Não fui nada, eu só li.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Mas agora disse!&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Disse porque li. Você perguntou e eu disse.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Porque leu.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Porque li.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Mas… Há uma coisa que eu não estou a perceber…&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Só uma?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Não, mas há uma que me está a deixar ainda mais intrigado. O que está você a ler?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Eu?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Sim. Quem é que nos está a ler, não é você?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Eu?!&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Sim!&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Eu não, eu estou a falar consigo… Ou melhor, estava.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Estava?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Está ali o comboio. Vou-me embora.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Embora?!&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Sim! Tem de ser. A minha vida não é isto.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– E a minha?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– A sua?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– A minha vida.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Sei lá eu da sua vida.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Você estava a ler.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Mas já não estou. Já lhe tinha dito!&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Se você não está a ler…&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Ó homem, deixe lá isso!&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Mas… deixo isso como?! Eu sou um vulto numa história que alguém está a ler… Sou só isso.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Estou a ver mas eu é que não posso ficar aqui. Tenho de apanhar o comboio. Adeus.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Adeus – murmurou cabisbaixo o vulto, dirigindo-se lentamente para o comboio das sete e vinte que havia de partir às sete e trinta e oito para parte incerta, só reparando nos sapatos desmesuradamente grandes e encharcados do homem que estivera a falar consigo quando este lhe acenou com eles da janela do comboio das sete em andamento com ar apalhaçado.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-7432325985840023469?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/7432325985840023469/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=7432325985840023469&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/7432325985840023469'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/7432325985840023469'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/11/o-triste-galgo-raiado.html' title='O triste galgo raiado'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-126983129311938142</id><published>2011-10-28T10:35:00.011+01:00</published><updated>2011-10-28T11:32:37.586+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='nomes'/><title type='text'>Nomes (cont.)</title><content type='html'>&lt;div align="right" class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: right;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;7&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;O psicólogo&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;, rodando nervosamente a maçaneta da porta, &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;ouviu o comentário de Maria acerca do sofá mas não se conseguiu decidir por uma resposta satisfatória e permaneceu calado. Maria sorriu, aproximou-se dele e, meneando a cabeça, pediu passagem enquanto se despedia. O psicólogo abriu a porta e respondeu com um sumido “Até para semana”, acompanhado de uma ligeira vénia. Então, sorriu para a engenheira Fátima sem verdadeiramente a ver, e pediu, dirigindo-se também a Patrícia, que igualmente não viu, que lhe dessem dois minutos. Em silêncio, as mulheres baixaram ligeiramente a cabeça, anuindo; o que ele, naturalmente, também não viu.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Maria pagou e saiu, praticamente sem falar, sentindo-se observada, medida e analisada pela paciente seguinte.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Marcelo fechou a porta do seu gabinete e parou a olhar o sofá impróprio para peles nuas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Insatisfeito com a mera apreciação visual, virou-se para trás e trancou a porta com cuidado para não fazer barulho. Voltou-se de novo para o sofá, aproximando-se lentamente, de forma quase furtiva, ao mesmo tempo que, sem saber porquê, pensava em como cato era absurdo. Tinha lido a palavra já não sabia onde e havia ficado preciosos segundos a tentar decifrar o que queria dizer cato. “Cato?! Quem é que quer escrever cato?! Que estupidez!”.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Encostou-se ao sofá.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Em pé, pousou a palma da mão direita na almofada do meio e moveu a mão lentamente procurando detectar alguma réstea do calor do corpo de Maria, sem resultados. Então levou a mão até à costura da almofada onde estiveram as pernas da mulher e procurou sentir algum resquício da sua presença, o que também não conseguiu, apesar de cheirar a palma da mão com insistência. Resignado, pousou as mãos no sofá e ajoelhou-se, acomodando primeiro os antebraços no sofá e depois a cabeça, que pousou de lado, colando o ouvido à almofada como um índio aos carris. Não sabia o que esperava ouvir ou sentir e, na realidade, apesar de um esforço de imaginação, não ouviu nem sentiu nada. Levantou a cabeça e moveu as mãos sobre o revestimento do sofá mas não sentiu qualquer atrito ou fricção. Cheirou a almofada e suspirou, desanimado. Levantou-se. Deu então três passos na direcção da porta e parou. Coçou a cabeça e encolheu os ombros. Enfiou as mãos nos bolsos das calças.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;“Abandonado pelos seus companheiros a uma morte lenta e horrível sob o sol inclemente do deserto de Sonora, Josh cambaleava entre os catos que pareciam observar curiosos a sua agonia terminal… Entre os catos! A pessoa está a ler isto e pensa logo que há aqui uma gralha e o desgraçado do Josh anda no deserto a cambalear no meio de gatos. Gatos sentados, impávidos e serenos, a vê-lo cambalear, à espera que ele morra para lhe saltarem para cima e arranhá-lo e comê-lo com pequenas dentadas de catos… Mas isso não tem lógica! E há um momento em que o cato parece que nos ocupa todo o cérebro, que não há possibilidade de explicação para os catos no deserto. O que nos deixa prostrados e cambaleantes como o Josh mas sem os catos, seja lá o que isso for. Aproxima-se uma depressão. Há o sério risco de um irremediável desligamento da realidade… E, de repente, faz-se luz. Primeiro, uma luz ténue como um pirilampo sifilítico a dar as últimas. Mas depois acendem-se as luzes de milhões de pirilampos atafulhados de esteróides, como uma praga bíblica que nos cega de vergonha e embaraço: catos são cactos. Catos são cactos! Josh cambaleia no meio de cactos! Mas já não conseguimos ver. Há gatos atrás dos cactos e a morte horrível de Josh no meio do deserto de Sonora (ou um bocadinho para a direita) já não tem impacto. Josh morre para nada, é um triste. Catos! Que pouca sorte…”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Marcelo encolheu os ombros mais uma vez, ainda que sem convicção, rodou sobre os calcanhares, tirou as mãos dos bolsos e fez uma careta ao sofá. Deu os três passos que o separavam do sofá, desapertou o cinto, desabotoou as calças e empurrou-as para baixo, deixando-as amarfanhadas junto aos sapatos. Indeciso quanto a tirar as cuecas, permaneceu um pouco de pé, com as mãos nas ancas. Virou-se para se sentar. Tornou a encolher os ombros, baixou as cuecas e sentou-se.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-126983129311938142?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/126983129311938142/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=126983129311938142&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/126983129311938142'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/126983129311938142'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/10/nomes-cont_28.html' title='Nomes (cont.)'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-5875386154717266191</id><published>2011-10-25T08:25:00.002+01:00</published><updated>2011-10-25T08:25:00.176+01:00</updated><title type='text'>Transparente</title><content type='html'>&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;…  &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Se me soubesses ver eu não precisava de estar aqui.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Se eu te soubesse ver?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Sim. Se tu visses quem eu realmente sou, eu não estava aqui.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Tu estás aí porque eu não te vejo como tu realmente és?!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Sim.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Estás a brincar!?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Não.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Estás a falar a sério?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Estou.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Estás a dizer que a culpa é minha por estares aí?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Eu não disse isso. A culpa é minha.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Mas se eu te visse como realmente és não estavas aí.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Sim. Acho que sim. Não estava.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Mas eu vejo-te, Diogo. Aliás, se queres saber, eu vejo-te como realmente és e, ao estares aí, só dás razão ao que eu vejo que és… Não!... Desculpa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Não?!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Não, não é por estares aí que me dás razão…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Não?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Não, não é. O que me dá razão é a essa conversa. O facto de estares a fazê-la aí é indiferente; podias fazê-la noutro sítio, noutra circunstância. O que interessa e o que me dá razão é a conversa. A tua conversa. E a pessoa que eu vejo é a pessoa que tem essa conversa, que faz essa conversa e não há outra pessoa para ver. Só essa. Só tu.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Mas eu não estava a dizer que a culpa é tua.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Eu sei, já me tinhas dito… Já te chamaram?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Já.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Do Ministério Público ou do Juízo?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Dos dois. O julgamento é às 11:30.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– São 20 para o meio-dia. Não devias estar a falar com o teu advogado?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Advogada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Não devias falar com ela?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Eu queria era falar contigo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Já falaste. Acho que agora devias ir falar com a advogada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– É feia. Eu não quero falar com ela. Quero falar contigo, não queres cá vir?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Não, obrigada. Dispenso.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Podias ser minha testemunha.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Acho que não ias querer isso. Parece-me bem que não te ia favorecer.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Contavas a nossa história e como me deixaste de rastos…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Quanto foi?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– O quê?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– O grau. Quanto é que acusou?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Dois e vinte sete gramas por litro.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Bom!... A que horas?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Às 5:20… (Sou eu!)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Estão-te a chamar?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;(– Sim, está bem.)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Diogo!... Diogo!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;  (– Não, não falei. É aquela?... Posso falar.)&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-5875386154717266191?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/5875386154717266191/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=5875386154717266191&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/5875386154717266191'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/5875386154717266191'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/10/transparente.html' title='Transparente'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-9010532430921820750</id><published>2011-10-21T08:49:00.002+01:00</published><updated>2011-10-21T08:49:00.265+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='nomes'/><title type='text'>Nomes (cont.)</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: right; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;&lt;b&gt;6&lt;/b&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;A engenheira Fátima viu a maçaneta da porta do consultório do psicólogo rodar e tornar a rodar em sentido contrário e repetir o primeiro movimento, sem que, todavia, alguma vez se mexesse. “Está aberta”, pensou a engenheira com um sorriso porque não se apercebeu de que a maçaneta tornara a rodar ficando imóvel na primeira posição.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Patrícia ouviu o estalido da fechadura e olhou para a porta e, depois, para a engenheira, que sorria com ar… com “ar oferecido”, censurou a funcionária.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Impaciente, a engenheira não conseguia tirar os olhos da maçaneta que esperava ver desaparecer para dentro da sala. Cruzou as pernas, fazendo praticamente desaparecer a saia e, apesar da impaciência que lhe corroía a boa disposição, manteve o mesmo sorriso sedutor que queria oferecer como primeira imagem ao psicólogo logo que este abrisse a porta.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Patrícia confirmou na agenda que não havia mais ninguém depois da engenheira, pegou no telemóvel e escreveu um sms a António, o segurança:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;“Queres cá vir?”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Um minuto depois, ou menos, o telemóvel lançou um sinal sonoro e vibrou:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;“Hummm… isso é um convite? ;-)”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Patrícia enfrentou o olhar da engenheira com ar impassível e escreveu:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;“Dooois… não, é uma armadilha!”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;O telemóvel tornou a apitar:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;“Uma armadilha?! Pq queres apanhar-me?”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Patrícia não conseguiu disfarçar um sorriso e respondeu de pronto:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;“Quero apanhar! E tu?”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Mais um toque, a que a engenheira parecia ter-se tornado imune, e duas perguntas:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;“tás sozinha? Já tiraste o aparelho?”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Patrícia entusiasmada com a troca de sms e com surpreendente calma da engenheira, replicou:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;“:-p Ainda não e não, hoje é com ferros!”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;“Uh :-) O sofá já tá livre?”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;“Ainda não, o doutor está agarrado à porta a tentar comer a das 5 com a sua conversa mole e a das 6, a engenheira (viste-a?), está à espera para o comer. Hj é com ferros no wc!”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;“Vi. Era impossível não ver. Quando puder manda-me subir (mais! ;-p)”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;“ok”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Patrícia largou o telemóvel, verificou que a porta continuava na mesma e recomeçou a escrever no computador.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Sabe… – disse a engenheira, em tom cortês, farta de olhar para a porta fechada, conseguindo a pronta atenção de Patrícia. – Sabe que as mensagens se podem receber em silêncio?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Surpreendida pelo tom cordial da pergunta, Patrícia anuiu com a cabeça:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Desculpe, senhora engenheira.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Eu desculpo, Patrícia. Aliás, a mim não me faz diferença nenhuma. O doutor é que pode não gostar de estar a ouvir beeps contínuos… – A engenheira fez uma pausa, aproveitada para ajeitar a saia. – Mas… ele também não sabe se o telemóvel é o seu ou o meu – pensou alto.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Eu ponho-o no silêncio, senhora engenheira.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Agora? – A engenheira sorriu, divertida. – Agora já não é preciso, a coisa não está já combinada?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Qual coisa?!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;A engenheira deu uma gargalhada que abafou com a mão.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Não estava a combinar um encontro furtivo com o Coronel Tapioca?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Coronel Tapioca?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Com o segurança lá de baixo, mulher. – A engenheira mantinha o tom animado e agradável. – Ou pensa que eu ando aqui só a ver passar os comboios?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Patrícia olhava-a boquiaberta, sem saber se devia estranhar mais o tom e ar normal e até simpático da engenheira ou as informações que ela lhe estava a transmitir e que, pensava, eram um segredo absolutamente bem guardado.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Como é que a senhora engenheira soube?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Só o seu patrão, que parece viver num mundo à parte, é que não deve saber, Patrícia. – A engenheira ria, abanando a cabeça. – Mas esteja descansada que não vou ser eu que lhe vou dizer que você tem uma tara por fardas, afinal ele é que psicólogo!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-9010532430921820750?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/9010532430921820750/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=9010532430921820750&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/9010532430921820750'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/9010532430921820750'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/10/nomes-cont_21.html' title='Nomes (cont.)'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-5946408722983687762</id><published>2011-10-18T08:21:00.006+01:00</published><updated>2011-11-10T11:24:21.784Z</updated><title type='text'>O Cometa</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Vera entrou em casa, viu as chaves de Manuel dentro do cinzeiro em cima do móvel da entrada e gritou enquanto caminhava à procura dele:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Um planeta. Um planeta!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Manuel, sentado em frente ao portátil pousado na mesa da cozinha, viu Vera entrar, lançar a mala para cima da mesa e, em silêncio, ouviu-a repetir num sussurro sentido:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Um planeta!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;O homem coçou a sobrancelha esquerda num tique nervoso e permaneceu sentado e calado à espera da explicação para os três planetas que Vera lançara desde que entrara em casa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Vera abriu a mala e procurou, no meio do caos e da matéria negra que se concentrava aí dentro, o seu telemóvel.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Manuel passou as pontas dos dedos da mão direita pelo queixo, suspeitava saber do que estava ela à procura e de onde lhe provinha a fúria mas permaneceu calado e expectante, tendo confirmado as suas suspeitas quando ela lhe mostrou o telemóvel como se o objecto fosse, só por si, uma acusação incontestável. Manuel só não conseguia perceber de onde vinham os planetas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Sabes o que é isto? – Perguntou Vera agitando o telemóvel. Manuel anuiu com a cabeça. Vera continuou: – E para que serve? – Manuel repetiu o gesto. Vera acrescentou com desprezo: – Bem me parecia que era só por não me quereres ligar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Manuel juntou as mãos em cima da mesa e entrelaçou os dedos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Nem uma mensagem, foda-se! – Recriminou Vera, largando o telemóvel em cima da mesa ao lado da mala. – Nem um miserável sms…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Manuel pensava numa desculpa que, na realidade, nem lhe apetecia dar. “Não me apetecia falar e sms é para meninas.” Manuel riu para dentro: “Ou para enviar a meninas.”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Não dizes nada?! – Vera esperara por uma das desculpas esfarrapadas com que o companheiro a costumava brindar e que a enfureciam mas, ao mesmo tempo, a divertiam; a ausência de desculpa era uma novidade para a qual não estava preparada. Puxou uma cadeira e sentou-se, olhando-o fixamente como se, assim, lhe conseguisse arrancar uma resposta.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Manuel esperou, olhou para os dedos que movia sem separar as mãos, e esperou que ela voltasse a mexer no telemóvel. Nervosa, Vera desviou o olhar e tocou no telemóvel, fazendo-o girar. Deixou-o parar por si e agarrou-o. Sem levantar os olhos das mãos, Manuel sorriu. Fechou o sorriso e perguntou:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– E o planeta? O que era o planeta?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Vera uniu as mãos com o telemóvel lá dentro. Sérgio dava-lhe valor, mimava-a. Ligava-lhe para lhe dizer que se lembrara de si por coisas insignificantes e mandava-lhe mensagens dúbias com segundos e terceiros sentidos que a faziam corar e rir como uma adolescente. “E, no entanto, é este parvo que me tem. Que me come.” Sérgio era um satélite. Uma lua que girava em torno de si. “Um planeta. Eu sou um planeta…”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– E tu pensas que és o sol – concluiu Vera, sem mais explicações.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Eu penso que sou o sol?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Sim, pensas – concordou Vera – mas não és.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– E o planeta, és tu?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Sou.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– E eu sou o sol – Manuel sorriu luminosamente; sentia-se assim.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Não – atalhou Vera, com cortante secura –, não és. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;O sorriso de Manuel extinguiu-se. Vera estudou-lhe o rosto, invulgarmente tenso, e sentiu uma estranha leveza, um bizarro e surpreendente bem-estar. O telemóvel vibrava-lhe nas mãos sinalizando a recepção de um sms.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– És um cometa – disse Vera a sorrir. – Um cometa brilhante, que nos alegra as noites e nos assombra os dias… – Vera sentia cócegas nas palmas das mãos e sorria – mas que se vai. – Manuel olhava-a em silêncio com ar estranho, algo alucinado. O telemóvel parou de vibrar. Vera concluiu, sem contemplações mas ainda tranquila: – Um cometa que brilha como o sol e que nos engana e que depois nos maravilha…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Que nos alegra as noites e assombra os dias – repetiu Manuel que gostara da frase.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Sim mas que se vai e no fim deixa apenas um rasto que se vê durante algum tempo mas depois se perde e se esquece…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Até que volta.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;– Tu não és dos que volta.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-5946408722983687762?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/5946408722983687762/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=5946408722983687762&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/5946408722983687762'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/5946408722983687762'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/10/o-cometa.html' title='O Cometa'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-2424100222596339493</id><published>2011-10-14T08:28:00.002+01:00</published><updated>2011-10-27T19:45:47.975+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='nomes'/><title type='text'>Nomes (cont.)</title><content type='html'>&lt;div align="right" class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: right; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;5&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Embaciando o sorriso, o doutor Marcelo consultou o relógio de pulso mais uma vez, fê-lo agora de forma ostensiva, procurando a atenção da paciente. Tendo-a, constatou:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– E, com isto tudo, são horas e não acabou a história dos nomes que queria que lhe chamassem.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Não é uma história – reclamou Maria. – E eu não queria que me chamassem nomes: queria que ele me chamasse!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;O psicólogo mostrou-lhe um sorriso complacente, enfurecendo-a.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Eu não ando para aí a querer que me chamem nomes, doutor!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Eu não disse que andava – defendeu-se o psicólogo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Pareceu…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Eu emendo – disse o psicólogo. – E, com isto tudo, são horas e não terminou de relatar a situação em que queria o seu namorado…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Ele não é meu namorado – reagiu Maria.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Não terminou de relatar a situação em que queria que o… – o psicólogo fez uma pausa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Saul – completou, contrariada, Maria.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– O Saul lhe chamasse nomes durante a relação sexual – concluiu o psicólogo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Pois não – admitiu Maria.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Foi uma fantasia que ele não lhe proporcionou – disse o psicólogo, procurando alterar o tom e teor do diálogo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Entre outras.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Mas essa é a que actualmente nos interessa – precisou Marcelo, temendo nova dispersão. – E o que importa esclarecer é porque é que a realização dessa fantasia era assim tão essencial para si, para a sua satisfação sexual, que a sua omissão tivesse provocado, sem mais, a ruptura da vossa relação.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Maria fixou o psicólogo, levantando as sobrancelhas em sinal de divertida admiração e respondeu:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Para me manter no mesmo registo que o senhor doutor, devo dizer-lhe que essa pergunta é altamente capciosa e padece de vários vícios resultantes de uma análise precipitada, preconceituosa, não estruturada e, até, parece-me, um tanto contrária à ética que o senhor devia e deve respeitar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Ora essa – insurgiu-se o psicólogo, sério e melindrado, ainda que estivesse interiormente a sorrir deliciado com a resposta e o ar da paciente. – Porquê?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Primeiro, porque eu não disse que o facto de ele não me chamar nomes fosse a razão para a conclusão de nada; segundo, porque, na verdade, o doutor não sabe se ele me fez a vontade ou não, ainda não cheguei lá; terceiro, porque não havia uma relação, houve uma his… ou melhor, houve uma situação que me incluiu a mim e a ele mas não houve uma relação, pelo que não houve uma ruptura, houve uma situação que foi resolvida pelo afastamento dos intervenientes; quarto, porque o doutor na sua pergunta não só concluiu tudo o que eu agora rebati, e o senhor sabe que é assim, como ainda fez, pelo menos, dois juízos de valor sobre a minha pessoa, com a agravante de serem preconceituosos, um, que eu não possa ter, ou melhor, que a realização das minhas fantasias sexuais não possa ser uma justificação válida e suficiente para tomar uma decisão nas minhas relações ou, melhor, em situações em que me veja envolvida; dois, que a não realização de uma fantasia sexual seja uma coisa isolada, estanque; três…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;O psicólogo interrompeu:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Não eram só dois juízos de valor?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Eram mas, agora que estava a falar nisso, apercebi-me que eram mais.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– E, afinal, ele chamou-lhe nomes ou não?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Maria sorriu, piscou o olho, levantou-se, sentindo a pele da perna a descolar do sofá, e disse:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Temos de acabar a nossa conversa para a semana, doutor. Já viu as horas?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Resignado, Marcelo olhou para o relógio de pulso, acenou com a cabeça e levantou-se para acompanhar a mulher à porta.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Maria ajeitou a saia, que lhe ficava um pouco acima do joelho e disse:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Ah! E este sofá… – Maria hesitou quando se apercebeu da súbita atenção do psicólogo que, &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;agarrado à maçaneta da porta sem a rodar,&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt; olhava para ela como se esperasse a revelação do sentido da vida (ou do paradeiro do cálice sagrado ou o relato da vida de Brian), mas, sem pensar, ouviu-se concluir: – Acho que devia fazer qualquer coisa, doutor, é que este sofá não é nada agradável para peles nuas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-2424100222596339493?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/2424100222596339493/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=2424100222596339493&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/2424100222596339493'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/2424100222596339493'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/10/nomes-cont_14.html' title='Nomes (cont.)'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-8797558822937953561</id><published>2011-10-11T08:22:00.001+01:00</published><updated>2011-10-11T08:22:00.083+01:00</updated><title type='text'>A Campainha</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: &amp;quot;Courier New&amp;quot;,Courier,monospace; text-align: justify;"&gt;- E agora?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Courier New&amp;quot;,Courier,monospace; text-align: justify;"&gt;- Agora?!... - ri-se o Costa, a tirar o dedo da campainha. - Agora fugimos.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Courier New&amp;quot;,Courier,monospace; text-align: justify;"&gt;- Fugimos?! Eu não fiz nada - queixa-se o Luís.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Courier New&amp;quot;,Courier,monospace; text-align: justify;"&gt;-  Fiquem aí - grita o engraçadinho do Costa a correr como um louco  furioso, deixando, visto de costas e a afastar-se a grande velocidade,  de ter graça.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Courier New&amp;quot;,Courier,monospace; text-align: justify;"&gt;Eu olho para o Luís, com o seu ar enfezado e  expressão de eterna vítima, o Calimero, como lhe chamamos. Ele olha para  a porta ainda fechada, ri-se como se, por uma vez, fosse conseguir  escapar e, sem tirar o sorriso confiante dos lábios, equilibra-se com  dificuldade nas muletas e afasta-se como um estranho insecto.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Courier New&amp;quot;,Courier,monospace; text-align: justify;"&gt;-  Não vens?! - grita ele, todo sorrisos e dentes tortos, quando se  aproxima da esquina onde já está o Costa, esse parvo, a rir à gargalhada  como um demente.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Courier New&amp;quot;,Courier,monospace;"&gt;- Vou para onde? - pergunto, sem necessitar de levantar muito a voz. - Eu moro aqui.&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-8797558822937953561?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/8797558822937953561/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=8797558822937953561&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/8797558822937953561'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/8797558822937953561'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/10/campainha.html' title='A Campainha'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-7310982078355146109</id><published>2011-10-07T14:02:00.000+01:00</published><updated>2011-10-07T14:02:00.581+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='nomes'/><title type='text'>Nomes (cont.)</title><content type='html'>&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:WordDocument&gt;   &lt;w:View&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:Zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:HyphenationZone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:Compatibility&gt;    &lt;w:BreakWrappedTables/&gt;    &lt;w:SnapToGridInCell/&gt;    &lt;w:WrapTextWithPunct/&gt;    &lt;w:UseAsianBreakRules/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:BrowserLevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt; /* Style Definitions */ table.MsoNormalTable {mso-style-name:"Tabela normal"; mso-tstyle-rowband-size:0; mso-tstyle-colband-size:0; mso-style-noshow:yes; mso-style-parent:""; mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt; mso-para-margin:0cm; mso-para-margin-bottom:.0001pt; mso-pagination:widow-orphan; font-size:10.0pt; font-family:"Times New Roman";}&lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;  &lt;br /&gt;&lt;div align="right" class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: right;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;4&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Está ali uma mosca morta – apontou a engenheira Fátima, com ar enojado.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Patrícia, que apagara as putas plantadas no relatório que transcrevia para o computador e que procurava, nesse trabalho feito com ganas e absoluta concentração, alguma paz, não ouviu a engenheira.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Está ali o cadáver de uma mosca – reafirmou a engenheira, no mesmo tom esganiçadamente informativo e reforçando o ar enojado.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Diga? – Patrícia levantou a cabeça e olhou para a engenheira. – Desculpe, não ouvi.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Estava a dizer que estão ali os restos mortais de uma mosca.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Uma mosca?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;A engenheira anuiu com a cabeça, com ar enjoado.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt; Patrícia perguntou:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Está morta?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;A engenheira semicerrou os olhos e fez um trejeito com os lábios, sem perceber se a funcionária a estava a gozar ou se era só parva. Sem se decidir, disse:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Não sei… ou está a fingir que está morta ou então dorme de patas para cima.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– As moscas dormem?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;A engenheira demorou a processar mentalmente a pergunta.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Está a brincar comigo? – Acabou por inquirir, enquanto estudava à distância o cadáver do insecto.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Não. – Patrícia procurou seguir o olhar da engenheira, tendo de se levantar da cadeira para descobrir a mosca morta junto à porta do gabinete do doutor. – Está mesmo morta – constatou com pesar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Isso já eu tinha dito – rosnou a engenheira. – É uma mosca morta.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Eu não estava a brincar – disse Patrícia, sentando-se. – A sério que não sei se as moscas dormem. A senhora engenheira sabe?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Volvo – murmurou a engenheira, controlando os seus impulsos violentos. – Sei – declarou mais calma e, movendo os olhos, só os olhos, entre a mosca e a funcionária, a pensar que eram duas e não uma, perguntou: – E fica assim?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Não… – A funcionária hesitou e rectificou: – Quero dizer, se me disser não fico assim, fico a saber.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;A engenheira fechou os olhos e contou até dez. Contou mesmo. Um dois três quatro cinco seis sete oito nove dez. E só depois tornou a abri-los. A funcionária olhava-a com cara de caso.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Não é isso – a engenheira mastigou um “foda-se” que bem queria dizer. "Não é isso, foda-se!", disse para si.&amp;nbsp; – É se vai deixar ali a... – a engenheira mastigou a “merda da mosca” que bem queria dizer e que bem lhe custou engolir, sem conseguir esconder ou disfarçar. – Vai deixar ali a mosca morta? Vai?!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Mais do que sorrir, Patrícia rejubilava, crescia, voava. Vingava-se. Mas continuava impassível, com ar sereno e até um pouco imbecil. Calou, no último momento, um “Vou, a mosca não foge”, que havia de acompanhar com um, só um, ombro a subir e a descer mas não o disse, nem o fez, pois tinha a certeza que a engenheira não ia aguentar e que explodiria de uma maneira qualquer e que se havia de queixar ao doutor. Calada, fingiu-se surpreendida e levantou-se.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Ah!... Não, não, ia já apanhá-la. – Patrícia pegou numa folha branca, que pôs por baixo da mosca e, levantado a folha e a mosca quase à altura dos olhos, repetiu-se, com ar solene: – Está morta.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Que grande novidade – resfolgou a engenheira, levantando as sobrancelhas, acenando lentamente a cabeça de um lado para o outro e suspirando ruidosamente. “Que mulher tão parva!”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-7310982078355146109?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/7310982078355146109/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=7310982078355146109&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/7310982078355146109'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/7310982078355146109'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/10/nomes-cont.html' title='Nomes (cont.)'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-5962500877092210329</id><published>2011-10-03T17:14:00.003+01:00</published><updated>2011-10-06T16:54:46.318+01:00</updated><title type='text'>Um Munícipe Descansado</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;O presidente olhou em volta sem olhar para nada e respondeu ao munícipe, interrompendo-o:&lt;br /&gt;– Claro que sim, meu caro, claro que sim! Nem podia ser de outra maneira. – O presidente bateu no ombro do homem e estendeu-lhe a mão, pronto para se despedir: – Mas ponha isso por escrito, meu caro, não se esqueça. Apresente o pedido por escrito…&lt;br /&gt;– Mas posso estar descansado, senhor presidente? – insistiu o munícipe, perturbado com o frouxo e furtivo aperto de mão do eleito.&lt;br /&gt;– Descansadíssimo – declarou o presidente com o ar sério e empenhado de quem não faz a mínima ideia do que está a falar. – Descansadíssimo.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-5962500877092210329?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/5962500877092210329/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=5962500877092210329&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/5962500877092210329'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/5962500877092210329'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/10/um-munipe-descansado.html' title='Um Munícipe Descansado'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-2024252719162616386</id><published>2011-09-30T12:55:00.000+01:00</published><updated>2011-09-30T12:55:02.580+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='nomes'/><title type='text'>Nomes</title><content type='html'>&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:WordDocument&gt;   &lt;w:View&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:Zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:HyphenationZone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:Compatibility&gt;    &lt;w:BreakWrappedTables/&gt;    &lt;w:SnapToGridInCell/&gt;    &lt;w:WrapTextWithPunct/&gt;    &lt;w:UseAsianBreakRules/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:BrowserLevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt; /* Style Definitions */ table.MsoNormalTable {mso-style-name:"Tabela normal"; mso-tstyle-rowband-size:0; mso-tstyle-colband-size:0; mso-style-noshow:yes; mso-style-parent:""; mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt; mso-para-margin:0cm; mso-para-margin-bottom:.0001pt; mso-pagination:widow-orphan; font-size:10.0pt; font-family:"Times New Roman";}&lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;  &lt;br /&gt;&lt;div align="right" class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: right; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;3&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Ainda acha que fui demasiado radical? – perguntou Maria, de chofre, num tom involuntariamente esganiçado e inseguro, depois da pausa em que, sem o conseguir, tentara decidir se continuava ou não o seu relato.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;O psicólogo, surpreendido pela pergunta e pelo tom, descolou o queixo dos polegares.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Eu não disse que foi demasiado radical – lançou o doutor Marcelo, sem saber do que estavam a falar, enquanto cruzava os polegares e esticava os restantes dedos sem os separar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Não, claro que não. – A mulher suspirou. – Isso era exprimir uma opinião e isso, nós sabemos, o doutor não faz.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Não é essa a minha função – justificou-se o psicólogo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Maria levantou-se. Marcelo separou as mãos e olhou para o relógio de pulso com ar espantado.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Ainda não me vou embora, doutor – informou ela, sorrindo trocista, enquanto esticava a saia. Tornou a sentar-se e disse, mantendo o sorriso: – Às vezes, esqueço-me que tenho de vir de calças ou de saias compridas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;O psicólogo fez uma careta de melindrada reprovação mas aproveitou para lhe apreciar as pernas ao mesmo tempo que reclamava:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Ora essa… Mas… Não pode vir… Não pode vir com saias curtas?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Não.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Porquê!?... – O psicólogo gaguejava e não sabia para onde olhar, ou melhor, sabia que não devia olhar para as pernas da paciente mas era exactamente para aí que os seus olhos fugiam logo que não estava absolutamente concentrado no seu sentido da visão. Falar distraía-o e os olhos aproveitavam para descaírem para as pernas da mulher. – Eu… Ora essa… Eu… – Concentrou-se: – O que têm as saias curtas?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Menos tecido.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Isso é evidente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;A mulher riu, o homem não.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– O seu sofá faz-me suar a parte interior da perna – explicou ela.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Há quem se deite… – disse o médico, que, quando se ouviu, se calou.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Acredito – sorriu a mulher, colocando as palmas das mãos no sofá e fazendo-se subir e descer como se lhe estivesse a experimentar o conforto e ergonomia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Deitam-se para falar, para estarem mais à vontade – replicou o homem, com ar sério, censurando-lhe os movimentos. – Acho que vêem isso nos filmes.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Claro. Claro que sim. Nos filmes. E viram-se para onde?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Para cima – respondeu prontamente o psicólogo com ar inocente e feliz.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Maria deu uma gargalhada:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Não é isso!... Põem a cabeça para que lado?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Ligeiramente corado, o psicólogo não respondeu logo. Olhou para o sofá, depois para a posição da sua cadeira e acabou por dizer, apontando para o braço do sofá junto de si:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Acho que toda a gente se deita com a cabeça para aqui.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Eu tenho um sofá igual a este – declarou a mulher, fixando o psicólogo para lhe perceber a reacção. – Igualzinho.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;O homem hesitou, descartando várias perguntas que lhe ocorreram; esperou que ela dissesse mais qualquer coisa e, por fim, inquiriu, lacónico:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– E?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Nada – respondeu a mulher, contrariada, pois, sem saber porquê, esperava outra reacção. – Era só isso.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Não devia ser – lançou o psicólogo, sem forçar –, se fosse não me tinha dito. – Maria fez uma careta comprometida mas não falou. O psicólogo, mantendo o mesmo registo pouco interessado, perguntou: – E tem-no há quanto tempo?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Seis meses – disse Maria, encolhendo os ombros displicentemente. – Mais ou menos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Já o comprou depois de…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Foi – interrompeu Maria, com ar de quem não quer falar no assunto.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Mas nós não estamos aqui para falar de sofás – observou, atento, o psicólogo, abrindo um sorriso conciliador.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-2024252719162616386?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/2024252719162616386/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=2024252719162616386&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/2024252719162616386'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/2024252719162616386'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/09/nomes_30.html' title='Nomes'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-886655474748924294</id><published>2011-09-27T08:30:00.003+01:00</published><updated>2011-09-27T08:30:00.452+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='nomes'/><title type='text'>Nomes (cont.)</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;b&gt;2&lt;/b&gt; &lt;/div&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:WordDocument&gt;   &lt;w:View&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:Zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:HyphenationZone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:Compatibility&gt;    &lt;w:BreakWrappedTables/&gt;    &lt;w:SnapToGridInCell/&gt;    &lt;w:WrapTextWithPunct/&gt;    &lt;w:UseAsianBreakRules/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:BrowserLevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt; /* Style Definitions */ table.MsoNormalTable {mso-style-name:"Tabela normal"; mso-tstyle-rowband-size:0; mso-tstyle-colband-size:0; mso-style-noshow:yes; mso-style-parent:""; mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt; mso-para-margin:0cm; mso-para-margin-bottom:.0001pt; mso-pagination:widow-orphan; font-size:10.0pt; font-family:"Times New Roman";}&lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;  &lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Boa tarde, engenheira Fátima – cumprimentou, com especial correcção sintáxica e vigor quase militar, Patrícia, a funcionária do doutor Marcelo logo que viu um sapato, um pé e a perna nua da engenheira a introduzir-se na sala de espera do consultório do psicólogo. Por um momento, Patrícia ficou suspensa na perna que entrava na sala e, por um instante, quando entreviu o joelho e depois mais perna e mais perna e ainda mais perna, assustou-se, sem conseguir imaginar o que outra traria vestido.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;A engenheira Fátima esperou ter as duas pernas e o resto do corpo na mesma divisão, parou um segundo como um enorme, vistoso e quase nu ponto de exclamação, sorriu e fulminou a, na sua opinião, obtusa e maléfica Patrícia com um olhar de gélida superioridade.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Boa tarde, Patrícia – cumprimentou. – Como é que está?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Bem.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– É uma opinião – resmungou entre dentes a engenheira.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Diga?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Nada. – A engenheira exibiu o seu sorriso mais condescendente e depreciador, no entanto, explicou-se docemente: – Estava a pensar que o mais importante é, por vezes apesar de si próprias – deu uma entoação especial ao aparte –, que as pessoas se sintam bem com elas mesmas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Patrícia engoliu em seco enquanto mantinha a muito custo um sorriso profissional; não gostava de várias pacientes do doutor mas a engenheira era um caso especial e, ambas o sabiam, o ódio era recíproco.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Sorridente e cheia de si, a engenheira recomeçou a andar, fazendo com que cada passo soasse como uma provocação, ainda que, realmente, os quisesse fazer soar como uma ofensa a Patrícia e não como uma mera e inócua provocação. A engenheira rodeou a mesa baixa que se encontrava no centro da sala, passou pelos dois cadeirões vazios do seu lado direito, deitou um olhar lânguido à porta fechada do gabinete do doutor Marcelo, seguiu pela frente da secretária da funcionária e, conforme fazia sempre que trazia saias para a consulta, sentou-se na cadeira que estava exactamente em frente à porta do gabinete. Então, traçou a perna, olhou para as capas das revistas em cima da mesa, verificou a disposição e limpeza dos objectos em toda a sala e, por fim, fixou-se em Patrícia, que escrevia no computador e lhe mostrava periodicamente um sorriso plástico com que esperava manter a engenheira à distância.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;A engenheira, entretida com o telemóvel, suportou o silêncio durante uns minutos mas, depois de o arrumar, ficou rapidamente entediada e farta do sorriso da outra. Esperou por um sorriso, sorriu de volta e perguntou, já sem sorrir e com a displicência cruel dum velho e cansado magarefe farto do seu trabalho e da carne que tem de cortar e desmanchar:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– A Patrícia sente-se bem consigo?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Sinto. – Respondeu de pronto a funcionária, satisfeita por poder desembaraçar-se pelo sarcasmo de algum do seu ódio: – Apesar de mim própria sinto-me bem comigo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Isso é bom – replicou a engenheira, imaginando-se a manusear um cutelo pesado com o gume quase rombo, que deixava cair com força na carne vermelha e sanguínea, fazendo um doloroso corte imperfeito que moía a carne e estraçalhava o osso. A engenheira passou a mão direita pela franja, sorriu benevolente e disse muito devagar como se falasse com uma criança: – Na verdade, em determinados casos a conformação é uma virtude. Parece-me que é mesmo a única forma de certas pessoas conseguirem viver consigo e com as suas tristes e aborrecidas vidas. – A engenheira fez uma pausa para saborear o sorriso artificial da funcionária e o seu genuíno olhar de ódio e concluiu em tom meloso: – Não é o seu caso, claro, Patrícia. Eu estava a falar de uma forma genérica. De pessoas… Já a Patrícia está muito bem.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;Furiosa mas sem o poder demonstrar, Patrícia escreveu “puta puta puta puta puta puta” no relatório psiquiátrico que estava a passar e levantou os olhos para ver o ar triunfante da engenheira que, entretanto, já pegara numa revista que fingia ler. À beira da apoplexia, Patrícia apagou as seis putas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Está com alguém? – perguntou a engenheira, com ar sinceramente simpático, apontando com a cabeça para a porta do gabinete.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara; mso-bidi-font-family: Candara;"&gt;– Está – afirmou Patrícia, enquanto escrevia “puta de merda puta de merda puta de merda mas que grande puta de merda!”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-886655474748924294?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/886655474748924294/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=886655474748924294&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/886655474748924294'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/886655474748924294'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/09/nomes-cont.html' title='Nomes (cont.)'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-5927340015097689509</id><published>2011-09-23T09:42:00.001+01:00</published><updated>2011-09-26T15:46:17.830+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='nomes'/><title type='text'>Nomes</title><content type='html'>&lt;div align="right" class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: right; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;1&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Maria calou-se e desceu a ponta do indicador pela cana do nariz enquanto aferia o interesse e atenção do seu interlocutor ao que lhe ia dizendo. Coçou a sobrancelha direita para esconder o sorriso de satisfação que não conseguiu evitar ao ver a atitude quase devota do homem à espera da continuação do seu relato e recostou-se no sofá ajeitando a saia e a blusa para ganhar mais uns segundos. Por fim, com ar compenetrado e alterando o tom e o registo conforme narrava ou repetia diálogos, retomou a história:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Então, eu disse-lhe: “Força! Força! Dá-me com força! Força! Chama-me nomes! Bate-me!”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;E ele bateu-me nas nádegas, aumentou a cadência e reforçou o movimento das ancas mas continuou em silêncio e eu insisti no que ele não fazia: “Chama-me nomes! Chama-me nomes!”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Isto dos nomes é estranho. Não é uma coisa linear. Outras vezes, chamam-me nomes ou querem chamar-me nomes e sou eu que não quero ou não gosto mas, naquele momento, eu queria. Queria mesmo. Não sei porquê mas apetecia-me que ele falasse. Queria ouvir-lhe a voz para não ouvir só a minha e os meus gemidos. E queria que ele dissesse palavrões.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;“Agarra-me! Agarra-me e chama-me nomes!”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;E ele agarrou-me. Primeiro agarrou-me na cintura e depois cruzou os braços encima de mim e agarrou-me, a mão esquerda no lado direito e a direita no lado esquerdo, como uma tenaz, com força e puxava-me para si sempre que entrava em mim. Conseguiu ainda aumentar mais a cadência e a força das suas estocadas, eu estava quase a chegar ao céu mas ele continuava calado e ordenei, foi uma ordem, já não foi um pedido: “Chama-me nomes, caralho!”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Não sei porquê mas estava mesmo fixada naquilo e enquanto ele não dissesse nada, enquanto ele não me insultasse eu não me conseguia vir, apesar de já estar muito para lá de Bagdad.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Maria calou-se e passou a ponta dos dedos pelas sobrancelhas, não gostou da sua última frase. Soou-lhe demasiado vulgar. Olhou para o homem que a fitava com ar agora displicente e, aborrecida, emudeceu definitivamente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– E ele continuou em silêncio? – perguntou o homem, de pronto, quando percebeu a impressão que causara.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Não – respondeu Maria, abanando lentamente a cabeça.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;O homem levantou os cotovelos das pernas e recostou-se na cadeira. Fitou a mulher com ar interessado mas esforçadamente neutro e esperou que ela continuasse, o que não aconteceu.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Maria permaneceu calada, pensativa, de expressão fechada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;O homem olhou disfarçadamente para o relógio de pulso sem conseguir evitar uma careta de desagrado com o adiantado da hora, ponderou na estratégia a seguir e decidiu, apesar da hora, continuar no mesmo registo pouco interessado. Desencostou lentamente as costas da cadeira, tornou a assentar os cotovelos nos joelhos, uniu as mãos entrelaçando os dedos, com excepção dos polegares que deixou estendidos onde pousou o queixo e perguntou:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Quer desenvolver o assunto?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Maria olhou-o e sorriu abertamente, reconhecendo a pergunta. Conhecia-lhe a manha. Mais, conhecia-lhe a manha e sabia que ele não ignorava que ela lhe conhecia a manha.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Sem desapoiar o queixo dos polegares, o homem respondeu-lhe ao sorriso com um sorriso maior, que lhe colou os dentes ao nó do indicador direito, um piscar de olho cúmplice e um ligeiro aceno da cabeça para a direita como se pedisse desculpa por ser tão pouco discreto.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Posso desenvolver, doutor – anuiu ela, encolhendo os ombros ligeiramente – mas não há muito mais assunto para desenvolver.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Há o que houver.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Havia uma música dos Madredeus que era assim.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Há – emendou o homem. – Ainda que fosse haja.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Maria tornou a sorrir e olhou para o espaço vazio que a rodeava no longo sofá onde se sentava. O psicólogo percebia de música e nunca deixava passar um erro, um lapso ou uma simples imprecisão. Era demasiado previsível e ela aproveitava-se disso para ganhar tempo e ordenar as ideias. Mais uma vez não falara no sofá. Aliás, nunca lhe falara do sofá que tinha em casa e que era igual àquele onde agora estava sentada, um sofá de três lugares, em pele, cujo único problema era fazer suar e colar a pele nua. Era um sofá para pessoas vestidas. Fora nesse sofá que tudo se passara e em que, também, tudo acabara.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-5927340015097689509?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/5927340015097689509/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=5927340015097689509&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/5927340015097689509'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/5927340015097689509'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/09/nomes.html' title='Nomes'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-2571921777013391386</id><published>2011-09-20T08:00:00.000+01:00</published><updated>2011-09-20T08:00:07.285+01:00</updated><title type='text'>Estratégia</title><content type='html'>&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt; &lt;w:WordDocument&gt;  &lt;w:View&gt;Normal&lt;/w:View&gt;  &lt;w:Zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;  &lt;w:HyphenationZone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;  &lt;w:Compatibility&gt;   &lt;w:BreakWrappedTables/&gt;   &lt;w:SnapToGridInCell/&gt;   &lt;w:WrapTextWithPunct/&gt;   &lt;w:UseAsianBreakRules/&gt;  &lt;/w:Compatibility&gt;  &lt;w:BrowserLevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt; &lt;/w:WordDocument&gt;&lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt;&lt;style&gt; /* Style Definitions */ table.MsoNormalTable	{mso-style-name:"Tabela normal";	mso-tstyle-rowband-size:0;	mso-tstyle-colband-size:0;	mso-style-noshow:yes;	mso-style-parent:"";	mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt;	mso-para-margin:0cm;	mso-para-margin-bottom:.0001pt;	mso-pagination:widow-orphan;	font-size:10.0pt;	font-family:"Times New Roman";}&lt;/style&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;– O quê?! – O cliente, que viu o advogado aflito durantetodo o julgamento, levanta os olhos da nota de despesas e honorários e espuma:– Mil e quinhentos euros de honorários?! O doutor não está bom!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;– O senhor desculpe… – O advogado fala pausadamente,já não está aflito e tem uma conta para receber. – O senhor desculpe mas, comopode constatar, o valor é o correcto e está aí devidamente justificado. Podeconferir.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;– Ó doutor… – O cliente arremelga os olhos, esfrega acara com as palmas das mãos e continua (ainda se lembra do julgamento): – Odoutor passou o tempo aflito, à rasca, sem perceber um boi do que se estava apassar e…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Depois de ver o sorriso cínico estampado na apalermadacara do advogado, o cliente pára para tornar a esfregar a cara, cerrando aspálpebras com toda a força tentando acalmar-se.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;O advogado aproveita a pausa e, em tom de carregadacandura, avança:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;– Mas o senhor não foi absolvido? – O causídico fazuma pausa dramática, ajeita a gravata, cerra os punhos, fixa o cliente comolhar duro mas mantém o tom cândido: – O senhor não ganhou a acção?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Espantado, o cliente chega a pensar se este homem àsua frente não será irmão gémeo do choninhas que viu na sala de audiências. Julgaque essa é a única explicação possível, e, por momentos, agarra-se a ela. Porpouco tempo, pois, um sapo gigante viscoso e mal saboroso que sente a enfiar-sede cabeça na garganta esclarece-o: é o mesmo, não há outro.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Áspero, o advogado insiste:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;– Não foi absolvido? Não ganhou?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Abatido, o homem baixa os olhos para a nota dedespesas e honorários e, num sussurro, reconhece:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;– Fui… ganhei.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;O advogado põe o seu ar de injustiçado supremo, deincompreendido absoluto, e, depois de olhar para a folha que o cliente tem àfrente, suspira, abre as mãos e diz:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;– Então penso que atingimos os nossos objectivos,senhor X – aqui até o trata pelo nome, o sacripanta –, e que, naturalmente, ovalor dos meus honorários são plenamente justificados. O senhor tinha muitomais a perder…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;O cliente não aguenta o repugnante sabor do sapo ereplica:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;– Eu fui absolvido porque não tinha feito nada eganhei a acção porque fui absolvido… – mas falha o tom, já certo de ter perdidopor ter ganho, e, num último estertor, rosna: – Já o doutor passou o tempo aolhar para as pernas da funcionária, a fazer olhinhos à procuradora, a engraxara juiz e, pior que isso tudo, sem perceber patavina do que se estava a falar,que eu bem lhe via, no meio das suas momices, essa expressão, a mesma que temagora!, da mais pura aflição e desamparo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Num ápice, o advogado transforma a expressão involuntárianum sorriso contemporizador, olha para a conta com ar angélico, ergue os ombroscom ostensiva superioridade e remata em tom falsamente conciliatório:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;– Isso até pode ser muito certo, sim senhor… Mas, ocerto é que ganhámos, meu caro... Ganhámos. O que quer dizer que a minhaestratégia… A minha estratégia, de que essa expressão, que o senhor cunhou comode aflição e desamparo, foi parte integrante, foi totalmente conseguida,totalmente procedente. Repito: totalmente conseguida. Portanto…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-2571921777013391386?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/2571921777013391386/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=2571921777013391386&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/2571921777013391386'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/2571921777013391386'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/09/estrategia.html' title='Estratégia'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-7920165183727593938</id><published>2011-09-14T19:01:00.000+01:00</published><updated>2011-09-15T11:41:41.014+01:00</updated><title type='text'>Criador de Fatos</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;Um dia, daqui a uns anos, quando se escrever que o professor Marcelo passou a vida a criar fatos políticos, omais certo é o leitor néscio julgar que o professor era um alfaiate ou umestilista com fama mas com uma gama de clientes limitada (e não muito recomendável).&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;– Só que ele não se ficava pelosfatos políticos. – Felizmente, há-de sempre haver um leitor mais avisado. – Oprofessor também criava fatos jurídicos.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;– Ah! – Sorrirá o néscio, satisfeito por concluir por si: – O professor também fazia becas e togas.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-7920165183727593938?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/7920165183727593938/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=7920165183727593938&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/7920165183727593938'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/7920165183727593938'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/09/criador-de-fatos.html' title='Criador de Fatos'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-2371371220305645794</id><published>2011-08-23T22:36:00.000+01:00</published><updated>2011-08-23T22:36:33.173+01:00</updated><title type='text'>Sonho</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Procurou o espelho e não se viu. Assustado, esticou o dedo até tocar no vidro frio mas, perplexo, continuou sem ver reflectido o seu rosto, espantado e assustado a ver a casa de banho vazia, ou a ponta do seu dedo que tocava e sentia o vidro frio. Acelerado, quase em pânico, voltou ao quarto e viu-se deitado. Sorriu. Viu o seu próprio ar plácido. Sereno, descansou. Era um sonho. Fechou os olhos e já não acordou.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-2371371220305645794?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/2371371220305645794/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=2371371220305645794&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/2371371220305645794'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/2371371220305645794'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/08/sonho.html' title='Sonho'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-5236458987090472948</id><published>2011-08-04T19:43:00.000+01:00</published><updated>2011-08-04T19:43:01.979+01:00</updated><title type='text'>A Sanduíche</title><content type='html'>&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:WordDocument&gt;   &lt;w:View&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:Zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:HyphenationZone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:Compatibility&gt;    &lt;w:BreakWrappedTables/&gt;    &lt;w:SnapToGridInCell/&gt;    &lt;w:WrapTextWithPunct/&gt;    &lt;w:UseAsianBreakRules/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:BrowserLevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt; /* Style Definitions */ table.MsoNormalTable {mso-style-name:"Tabela normal"; mso-tstyle-rowband-size:0; mso-tstyle-colband-size:0; mso-style-noshow:yes; mso-style-parent:""; mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt; mso-para-margin:0cm; mso-para-margin-bottom:.0001pt; mso-pagination:widow-orphan; font-size:10.0pt; font-family:"Times New Roman";}&lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;  &lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Que ar é esse?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Que ar?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Esse, essa espécie de aparvalhado contentamento deslumbrado.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Nem queiras saber.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Apareceu comprador para a casa?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Não.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Arranjaste uma casa para te mudares?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Não.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Sabes o que eu acho?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Não.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Acho que as pessoas quando se divorciam devem mudar-se logo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– É capaz. Mas por mim está tudo bem.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Tudo numa boa?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Na maior.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Estiveste a fumar alguma coisa ou quê?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Achas?!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Sei lá, essa espécie de aparvalhado contentamento deslumbrado não é normal.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– A minha tarde não foi normal, se calhar é por isso.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Não deve ter sido… Não deve ter sido nada normal, não. Mas, se queres saber, isso não me interessa nada! Vou jantar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Se queres saber…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Não quero…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Hoje fiz uma sanduíche!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Boa!... Eu fiz sopa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Ah! Não… Não foi uma sanduíche dessas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Não?! Então foi de quais?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Das outras.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Quais outras?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Daquelas… Tu sabes: uma sanduíche! Uma san-duí-che, estás a ver?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Não devo estar, porque o que eu vejo não justifica esse aparvalhado contentamento.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Uma sanduíche humana, bolas!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Com pessoas?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Sim, com duas pessoas, ou melhor, com duas mulheres!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Ah!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– E a tua sopa?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– A minha sopa?!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Sim, a sopa que fizeste é de quê?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Vens me dizer que estiveste a fazer uma sanduíche e agora queres saber do que é a sopa que eu fiz?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Sim. Um homem não vive só de sanduíches.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Estou a ver. Ou melhor, não estou, nem quero ver nada!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Tu é que perguntaste.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Pois fui mas depois disse-te que não queria saber.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Foi… E, afinal, a sopa é de quê?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– De legumes.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Ah… De legumes… hmmm…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– E, na sanduíche, tu eras exactamente o quê? Uma desenxabida fatia de fiambre de peru magro fora do frigorifico há três dias?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Qual peru, qual carapuça!... Eu era a carne! Carrrrne!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– E elas eram o pão?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Sim, supostamente. Se era uma sanduíche.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– E foi em carcaça?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Foi em carcaça, o quê?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– A sanduíche. Foi em carcaça ou em pão caseiro?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Não estou a perceber… Não era pão! Não era uma sanduíche de pão.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Sim, eu sei. Já me disseste, foste tu e duas mulheres. Tu eras a carne e elas eram o pão. Uma espécie de bifana.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Sim.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– No prato?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– No prato?!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Bolas! Se a bifana foi servida num prato, foi?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Não era uma bifana…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Ou uma sanduíche, é o mesmo. Foi no prato?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Mas não era uma sanduíche, não havia prato. Éramos nós três.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Tu e duas mulheres?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Sim…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Deitados?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Ah!... Também… Porquê, no prato era se estávamos deitados?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Era. Tu eras a carne e tinhas uma fatia de pão por baixo e outra por cima?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Tinha!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Coitada da fatia de baixo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Coitada?!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Sim, ter de gramar contigo em cima e ainda com uma fatia de pão por cima a fazer mais peso… Que pouca sorte.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Ah! Não, quando estivemos deitados foi de lado.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Tipo cachorro…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Quente!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Pão, tu e pão.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Pois.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Pelo menos tinhas as costas aconchegadinhas…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Achas que eu me importava com isso!?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Sei lá, nunca fiz uma sanduíche. E empurrava-te?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Quem é que me empurrava?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– A fatia de trás.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Se me empurrava?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Sim, contra a fatia da frente. Empurrava?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Se calhar… Acho que sim… Esfregava-se, pelo menos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– A fatia de trás esfregava-se em ti e tu esfregavas-te na fatia da frente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Sim… Mas isso dito assim…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Como?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Nada. Não interessa… Esquece a sanduíche.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– É o que eu mais desejo!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Ainda há sopa?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Se eu ainda tenho da sopa que fiz?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Sim. Há?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Tens.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Tenho?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Não. Não é “Há?”, é “tens?”. A sopa é minha, não é nossa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Era só uma forma de dizer.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Acredito, mas não é a forma correcta.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Ainda tens sopa?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Tenho.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Posso comer uma tigelinha?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– O quê?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Se posso comer uma tigela de sopa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;; mso-bidi-font-family: &amp;quot;Century Gothic&amp;quot;;"&gt;– Podes, por mim podes. Podes comer as tigelas que quiseres! Podes mesmo comeres todas as tigelas que conseguires do armário da esquerda! Essas são todas tuas!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-5236458987090472948?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/5236458987090472948/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=5236458987090472948&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/5236458987090472948'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/5236458987090472948'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/08/sanduiche.html' title='A Sanduíche'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-6124582762440332643</id><published>2011-07-25T17:30:00.001+01:00</published><updated>2011-07-25T18:11:10.578+01:00</updated><title type='text'>O inocente</title><content type='html'>&lt;span style="font-family: Constantia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Constantia;"&gt;– Não te esqueças – recomendou Constantina várias vezes de diversas maneiras, enquanto Aníbal andava pelo pequeno apartamento como uma barata tonta à procura das chaves do carro, da carteira, do telemóvel e das chaves de casa. Em resposta, ele fazia que sorria, arrepanhando os lábios e mostrando os dentes sem abrir a boca, e continuava a atarantada busca pelos objectos que precisava para sair à rua. – Não é melhor escreveres? – perguntou ela suspirando, quando, finalmente, o viu abrir a porta de casa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Constantia;"&gt;– Eu não me esqueço de nada – declarou Aníbal, sentido, mostrando-lhe a língua e saindo. Bateu com a porta, silenciando propositadamente as despedidas, enquanto lhe censurava os modos e a falta de fé.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Constantia;"&gt;Aníbal flutuou, cheio de si, pelo corredor até ao elevador, contestando com veemência as incontáveis recriminações que ela injustamente lhe fazia, até que, diante da porta fechada e do botão na parede a piscar, percebeu que não fazia a mínima ideia do que ia à rua buscar. Não ficou surpreendido e logo decidiu que a culpa não era dele – era dela. E, inocente, sorriu.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-6124582762440332643?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/6124582762440332643/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=6124582762440332643&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/6124582762440332643'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/6124582762440332643'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/07/o-inocente.html' title='O inocente'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-447431670792419323</id><published>2011-07-21T19:07:00.003+01:00</published><updated>2011-07-21T19:21:33.162+01:00</updated><title type='text'>laços de familia</title><content type='html'>&lt;span style="font-family: Constantia;"&gt;Qd é q me ias dizer?&lt;/span&gt;  &lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Constantia;"&gt;O q?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Constantia;"&gt;Q tenho 1 madrasta.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Constantia;"&gt;Ah! Viste no facebook?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Constantia;"&gt;Pois, mudaste o teu estado&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Wingdings;"&gt;:-) &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Constantia;"&gt;estou numa relação&lt;/span&gt;!&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Constantia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Constantia;"&gt;Eu não gostei, cota, axo q 1 filho deve ser informado.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Constantia;"&gt;No stress, man. Stay cool. E, para não dizeres que não te digo nada, dou-te uma novidade em 1ª mão.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Constantia;"&gt;?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Constantia;"&gt;não tens só uma madrasta!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Constantia;"&gt;Então?!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Constantia;"&gt;Tens duas, meu caro.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Constantia;"&gt;Uau! Tás em grande, velho!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Constantia;"&gt;Não sou eu.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Constantia;"&gt;Pior. Comé isso?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Constantia;"&gt;A outra é da tua mãe :-p&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Constantia;"&gt;...Da-se e ainda me melgam para eu ter juízo?!?!?... Vcs orientem-se, meu. Tenho dir&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Constantia;"&gt;bjs&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-447431670792419323?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/447431670792419323/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=447431670792419323&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/447431670792419323'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/447431670792419323'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/07/lacos-de-familia.html' title='laços de familia'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-8783071387711475891</id><published>2011-07-19T13:30:00.002+01:00</published><updated>2011-07-19T15:16:52.918+01:00</updated><title type='text'>verde-código-verde</title><content type='html'>&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Passou o produto no leitor de códigos de barras, ouviu o sinal sonoro da introdução do preço na conta do cliente, olhou para o tapete rolante vazio à sua direita e, esforçando-se por mostrar um sorriso, ainda que tristonho e cansado, perguntou se era tudo. O cliente acenou que sim com a cabeça e fez um ligeiro trejeito com os lábios. A mulher perguntou-lhe se tinha cartão de cliente. O homem estendeu a mão e deu-lho juntamente com o cartão de Multibanco e um papel que dava desconto. Ela usou-os, anunciou o valor a pagar, carregou na tecla que fechava a conta e, sem qualquer comentário ou gesto supérfluo, fez a operação de cobrança que o homem concluiu com o verde-código-verde habitual. Ele agarrou nos sacos de plástico com a mão esquerda e ela deu-lhe a conta e um desconto em combustível que ele segurou com a mão direita. Desejaram-se mutuamente boa tarde, cruzando os olhares uma fracção de segundo mais do que o normal e pensando ambos, naquele instante antes de o homem seguir carregando os sacos e a mulher recomeçar a passar produtos no leitor de códigos de barras, que a tarde seria boa se a passassem juntos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-8783071387711475891?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/8783071387711475891/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=8783071387711475891&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/8783071387711475891'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/8783071387711475891'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/07/verde-codigo-verde.html' title='verde-código-verde'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-4131409964303475360</id><published>2011-07-11T18:32:00.003+01:00</published><updated>2011-07-12T12:05:19.842+01:00</updated><title type='text'>Ponto de vista</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Encontraram-se numa rua de Lisboa. Cumprimentaram-se e foram tomar café. Falaram disto e daquilo. Da curiosidade de se encontrarem e de se verem de vez em quando, por acaso. Riram-se de episódios passados do tempo em que trabalharam juntos. Era tarde e foram jantar.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Jantaram, conversaram e decidiram ir beber um copo.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;No passeio à porta do restaurante, enquanto decidiam onde e como ir, António pôs um ar sério e perguntou, coçando a barba de três dias que lhe emoldurava a face:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Posso dizer-te uma coisa?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;António fez a pergunta olhando em frente e manteve-se assim. Alice fixou-se no perfil dele; estranhou-lhe o tom e o olhar perdido mas abanou afirmativamente a cabeça em resposta, ainda que sem grande convicção, pois, para mais, tinha a certeza que ele não a estava a ver.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Podes – acabou por verbalizar Alice, continuando a estudar-lhe o recém-adquirido e inesperado perfil seráfico. A mulher aguardou ainda mais um momento para que ele dissesse o que queria dizer ou para que, pelo menos, se virasse para ela mas como nada aconteceu disse, ainda com um sorriso na voz: – Podes, desde que seja qualquer coisa boa.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:WordDocument&gt;   &lt;w:View&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:Zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:HyphenationZone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:Compatibility&gt;    &lt;w:BreakWrappedTables/&gt;    &lt;w:SnapToGridInCell/&gt;    &lt;w:WrapTextWithPunct/&gt;    &lt;w:UseAsianBreakRules/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:BrowserLevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt; /* Style Definitions */ table.MsoNormalTable {mso-style-name:"Tabela normal"; mso-tstyle-rowband-size:0; mso-tstyle-colband-size:0; mso-style-noshow:yes; mso-style-parent:""; mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt; mso-para-margin:0cm; mso-para-margin-bottom:.0001pt; mso-pagination:widow-orphan; font-size:10.0pt; font-family:"Times New Roman";}&lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;&lt;span style="font-family: Constantia; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT; mso-bidi-font-family: Constantia; mso-bidi-language: AR-SA; mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-fareast-language: PT;"&gt;&lt;/span&gt;Alice viu-lhe as pálpebras semicerrarem por um instante, como se ele estivesse a analisar a conformação entre o que lhe queria dizer e o pedido dela, e, sem saber porquê, não gostou.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Não sei – confessou António, virando-se para ela. Os olhares cruzaram-se e Alice não conseguiu evitar franzir o sobrolho. António explicou: – Há coisas que nós não sabemos se as outras pessoas gostam de ouvir, apesar de nós termos de as dizer.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Se tens de dizer deixa de ser importante a minha vontade, não é? – disse Alice, desconfortável.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;António voltou a olhar em frente. Alice procurou ver o que ele estava a ver.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Sim – anuiu António. – Se eu acho que tenho mesmo de o dizer nem te devia perguntar nada. Dizia-o e pronto.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Diz.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Para que me interessa andar atrás de ti se depois não dou o último passo na tua direcção? – perguntou António, em tom declamatório.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– O quê?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Para que me interessa andar atrás de ti se depois não dou o último passo na tua direcção? – repetiu António.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Tu é que sabes. – Respondeu Alice, surpreendida, sem saber do que estavam a falar. – Andas atrás de mim?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Ando – reconheceu António, ainda olhando em frente. – Ás vezes procuro-te nos sítios por onde andas, ainda que normalmente não te veja.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Isso não é normal. – Não havia censura na voz dela mas também não havia espanto, o que a espantou.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Pois não. Mas passo lá, dou voltas que não precisava, invento caminhos para cruzar as ruas em que te podia encontrar…&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Mas procuras-me ou passas?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Passo à tua procura.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Ele olhou para ela, os olhares cruzaram-se e ambos os mantiveram.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Mas não paras? Não ficas à minha espera? Não me procuras ver?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Não, não e nim. – António acompanhou a resposta com um sorriso, que se esbateu por si quando concluiu: – Procuro ver-te mas na verdade não te procuro para te ver.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Isso é tudo muito estranho. Não é normal, pois não? Tens consciência disso?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Tenho.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Mas às vezes encontramo-nos.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Sim.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Ah… Mas não é por acaso…&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Não, não é por acaso, é porque eu procuro cruzar-me contigo…&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Ah…&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– E procuro-te no facebook e em blogues.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Porquê?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;António cerrou os lábios e arqueou as sobrancelhas.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Isso é que é o pior.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– O quê?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– A resposta ao porquê – disse ele. Ela ficou a olhar para ele, interpelando-o com uma expressão quase cómica de triste perplexidade e desencanto. Ele continuou sério e solene como se o que dissesse fizesse sentido: – Porque eu não sei bem… – hesitou. – Porque eu não sei porquê – corrigiu. – Não sei mesmo, nem bem nem mal – concluiu.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Tu és um mar de dúvidas e incertezas, não és? – perguntou ela, omitindo o “continuas” que pensou que a frase devia ter.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Nem sempre. – António encolheu os ombros com um sorriso agarotado e disse: – Hoje dei o passo em frente.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Ela abanou a cabeça, pensou por um momento e lançou-lhe:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Vamos ser francos e directos um com o outro?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Ele concordou de pronto:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Sim.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– E definitivos?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Ele cerrou os lábios numa expressão convicta e empenhada e anuiu com a cabeça:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– E definitivos.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Ela deu-lhe um beijo na face, agradeceu o jantar, disse-lhe adeus e foi-se embora.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Ele ficou em silêncio a vê-la afastar-se, contemplando embevecido o seu andar, congeminando razões e ocupações que a levavam a despedir-se assim, certo que a coisa correra bem.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-4131409964303475360?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/4131409964303475360/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=4131409964303475360&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/4131409964303475360'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/4131409964303475360'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/07/ponto-de-vista.html' title='Ponto de vista'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-2862693640146964033</id><published>2011-07-05T08:40:00.004+01:00</published><updated>2011-07-06T18:53:50.221+01:00</updated><title type='text'>Coabitação e um gato</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Deitada na cama, Ana terminou o primeiro parágrafo da página 214 do livro que estava a ler e marcou-o com o indicador direito. Conferiu as horas no seu relógio de pulso, vinte e cinco para as dez, e decidiu que eram horas de parar de ler. Tacteou a cama com a mão esquerda à procura do marcador, que estava parcialmente debaixo da sua nádega esquerda, virou-se um pouco para o lado contrário e tirou-o. Abriu e fechou o livro, depois de deixar o marcador entre as páginas onde antes estivera o indicador, e pousou-o na cama, com a intenção de voltar a ler quando se deitasse – estava a gostar. Afagou o gato deitado ao seu lado, que arqueou as costas para melhor sentir a mão da dona, e levantou-se. Olhou para o computador portátil, ligado mas em modo de suspensão, que estava numa mesinha preta ao lado da cama, confirmou as horas no relógio da mesa-de-cabeceira, 21:34 e tornou a olhar para o computador, hesitando entre conferir os e-mails e o facebook ou ir comer imediatamente. Na dúvida, rodou a cabeça e olhou para o gato como se lhe pedisse ajuda para tomar uma decisão. O animal percebendo o olhar da dona, saltou prontamente da cama para o chão e dirigiu-se à porta encostada, transmitindo claramente os seus desejos. Ana sorriu, achava que mais do que desejos o gato transmitia ordens. Olhou para o computador como se se justificasse à máquina, apagou a luz do candeeiro e seguiu o animal. “Tens razão, já são mais do que horas de comermos”, transmitiu-lhe telepaticamente quando abriu a porta do quarto e o deixou passar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;O gato correu para a sala e ela olhou para aí de esguelha, sem ver mais do que a televisão acesa na Fox. “Como é que ele vivia antes de haver tantos canais? De haver séries e filmes a toda a hora?”, pensou Ana referindo-se ao marido, de quem se esqueceu imediatamente quando o gato a ultrapassou vindo da sala mas já sem correr. A mulher achou graça aos passos decididos e à cauda empertigada do animal, como se ele fizesse questão que ela o visse e a obrigasse a segui-lo, e ficou a pensar no descaramento aristocrático do animal e na sua sorte por ter comer já feito e até quem o servisse, ao contrário dela que não fazia ideia do que ia preparar e comer ou pior, deu um risinho que não passou de um suspiro, sem saber sequer se tinha alguma coisa em condições para preparar.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Inventariando mentalmente o conteúdo do seu lado do frigorífico, sem deixar de seguir a cauda do gato, Ana foi apanhada de surpresa quando viu os pés do marido junto ao fogão quando o animal se enroscou neles. Parou na ombreira da porta, puxando instintivamente para trás o pé direito que já estava dentro da cozinha.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Ah… Estás aí? – soltou Ana sem querer, incomodada pela presença do marido e pela ligeireza interesseira do gato; afinal estivera a ler para lá da hora de jantar para não se cruzarem e tinha vindo naquele momento principalmente por causa do gato.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;O marido não lhe respondeu, não a ouviu ou fez que não a ouviu. Ela hesitou, voltou-se para trás mas olhou para o relógio e rodou sobre os calcanhares voltando-se de novo para o interior da cozinha, ainda sem entrar. Suspirou e esboçou um sorriso enfastiado na direcção do marido, que se voltara para ela sem expressão.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Alexandre, o marido, sem largar o cabo da frigideira, onde fritava dois ovos mexidos com um tomate e uma pequena cebola cortados em quartos, um dente de alho esmagado e folhas de orégãos frescos e pimenta preta, que agarrava com a mão esquerda, nem a espátula de madeira com que mexia o cozinhado, alternou, por segundos, o olhar entre os ovos e a mulher que parecia ter de vencer um campo de forças que ele emanava para entrar na mesma divisão da casa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Ainda não jantaste? – questionou Ana, sem se mexer nem disfarçar a censura que lhe moldava o tom, servindo-se de uma pergunta de resposta óbvia para esconder o aborrecimento de ver o gato enrolar-se nas pernas dele pedindo-lhe descaradamente mimo e comida, não necessariamente por essa ordem, e o facto de não ter voltado para trás enquanto tinha podido fazê-lo em silêncio.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Ana e Alexandre, casados, sem filhos mas com um gato, um &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;sacaninha que parece ter verdadeiro e consciente prazer em provocá-los sempre que  os apanha juntos, &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;vivem num apartamento pequeno, com dois quartos, uma sala, uma cozinha, uma dispensa e uma casa de banho, que agora parece ter encolhido e em que eles parecem esbarrar continuamente um com o outro, apesar de não se quererem ver, como se a casa se voltasse contra eles e os quisesse levar ao confronto e ao fim do último dever conjugal que ainda cumprem: a coabitação.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Alexandre tornou a olhar para a mulher, baixando ostensivamente o olhar para os pés dela que não se moviam. Não conseguiu evitar um sorriso mas, quando se apercebeu que não o conseguiria esconder, virou-se para o fogão, evitando que Ana o visse. Então, apagou o lume, retirou a frigideira para um bico frio, baixou-se para afagar o gato ganhando tempo e perguntou com ar de quem não ouviu bem a pergunta da mulher:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Se eu já jantei?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;O casal olhou-se com ar sério, ela em pé junto à ombreira da porta, ele agachado ainda a fazer festas ao gato. Ana manteve a pergunta deixando descair a cabeça e proferindo um sim sumido. O marido olhava-a calado como se esperasse qualquer coisa. O gato parecia rir-se para ela, ainda que ela estivesse certa e segura que o gato não se ria para si mas de si, o pérfido.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Sim, ainda não jantaste? – reforçou Ana, comprimindo o silêncio que a enervava.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Já – mentiu Alexandre, passando uma última vez a mão pela cabeça do gato, antes de se levantar e se virar para o fogão, agarrar a pega da frigideira e completar a mentira em tom neutro: – Estava a fazer estes ovos para ti.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Ana, que recomeçara a andar lentamente, procurando, sem conseguir, desviar os olhos do gato, falhou um passo, o que ele percebeu pelo som dos chinelos no chão da cozinha. Alexandre sorriu e, satisfeito, imaginou-lhe a expressão surpreendida.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Ainda não jantaste, pois não? – perguntou o homem, prolongando a farsa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Ela aproximou-se do fogão e ficou ao lado dele, observando os ovos mexidos. Há muito tempo que não estavam tão próximos um do outro. O gato roçou-se na perna direita de Ana e na perna esquerda de Alexandre.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;– Tem bom aspecto – reconheceu Ana, a quem a súbita visão da comida cozinhada, pronta a ser servida e a comer agravou a sensação de fome e vazio no estômago.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Candara;"&gt;Entediado, faminto e desesperado, o gato esticou a cauda na horizontal e entrelaçou-se caprichosamente entre as pernas de ambos, levando-os a sorrir um para o outro, agoniando-o de tal maneira que, se pudesse, o gato lhes retraçava as pernas todas até chegar aos ossos e fazer um mar de sangue no chão da cozinha.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-2862693640146964033?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/2862693640146964033/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=2862693640146964033&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/2862693640146964033'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/2862693640146964033'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/07/coabitacao-e-um-gato.html' title='Coabitação e um gato'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-5900378323065509301</id><published>2011-06-28T12:22:00.000+01:00</published><updated>2011-06-28T12:22:03.139+01:00</updated><title type='text'>O tapete</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;Foi uma cena de filme: dois indivíduos param o automóvel, abrem a mala, tiram com algum esforço um grande tapete enrolado e atado com uma corda em volta, que parecia embrulhar qualquer coisa com a forma de um corpo, e lançam-no, com inesperado à vontade, às águas acastanhadas do Tejo. Fizeram-no com tal descontracção que quem viu a operação – atletas de fim de tarde, namorados de principio de noite e velhos babosos interessados em ver as atletas e as namoradas (e um que via os atletas e os namorados) – ficou espantado mas sem acreditar verdadeiramente no que via.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;E, quando os dois homens se meteram no carro e se afastaram calmamente, os mais esclarecidos e os menos distraídos com as atletas que continuavam a correr e com as namoradas que continuavam a passear – o que apreciava os atletas e os namorados não pensou em nada, ou melhor, censurou os homens por deitarem fora um tapete com tão bom aspecto e uma corda nova – procuraram câmaras de filmar e tomaram atenção para ouvir um “corta” gritado. Só que nada aconteceu, ou melhor, aconteceu o que tinha de acontecer da forma mais prosaica que seria imaginável: o tapete afundou-se e desapareceu, os homens sorriram a quem os olhava e seguiram sem deixar rasto, matrícula ou algo que ajudasse à sua identificação e os atletas continuaram a correr, os namorados a namorar e os velhos (alguns não eram assim tão velhos) continuaram a tomar atenção aos corpos em que estavam interessados.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;Para variar, a polícia chegou um pouco depois, o que causou um certo burburinho e expectativa entre os presentes, reconheça-se, mas o agente vinha buscar um dos velhos que, sem mostrar os genitais, se masturbava e gritava palavras de incentivo quando as corredoras passavam – as palavras eram de incentivo ao seu acto e não aos dotes atléticos das corredoras, o que, provavelmente, provocava os indignados telefonemas anónimos efectuados por vozes ofegantes para a policia – e, por isso, o burburinho e as expectativas esmoreceram e desapareceram logo que o agente em vez de se dirigir ao rio se dirigiu, como habitualmente, ao velho indecente.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;– Ó Artur, pá, sabes bem que tenho uma grave micose na virilha – resmungou o idoso, justificando-se sem tirar a mão direita de dentro das calças quando o agente o abordou.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;O agente riu-se e, agarrando-o cuidadosamente pelo braço esquerdo, disse-lhe:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;– Vamos lá embora, senhor Anselmo. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;O velho levantou-se e, após um longo suspiro, murmurou:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;– Estava quase, pá. Quase! Hoje é que era…&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;– Mas porque é que você grita, homem?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;– É mais forte do que eu – reconheceu o velho onanista encolhendo os ombros. O agente sorriu, condescendente. Picado pelo sorriso, o velho ergueu o braço e num gesto largo que abarcava todos os mirones resmungou injustiçado: – E eles?!&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;– Eles não gritam – informou lacónico o agente, abrindo a porta do pendura do veículo com o dístico de “Escola Segura” para o velhote entrar.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;O velho aceitou a resposta, que sabia ser verdadeira, pediu ao agente que o deixasse em casa e contou-lhe a estranha história de dois tipos que levavam um tapete na mala do carro e que, sem mais, o tiraram do carro com esforço, porque o tapete estava pesado e parecia enrolar qualquer coisa, e depois o deitaram ao rio mas o agente – tal como vocês – não acreditou.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-5900378323065509301?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/5900378323065509301/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=5900378323065509301&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/5900378323065509301'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/5900378323065509301'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/06/o-tapete.html' title='O tapete'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-452934060218723737</id><published>2011-06-24T17:50:00.000+01:00</published><updated>2011-06-24T17:50:16.992+01:00</updated><title type='text'>E os homens também.</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Sentado na esplanada, B. vê A. caminhando com ar perdido e acena-lhe para o chamar. A. retribui o aceno com aparente dificuldade e caminha lentamente na direcção do amigo. Sem falar, puxa uma cadeira, deixa-se cair como se tivesse sido baleado naquele momento e fica aparvalhado a olhar para o horizonte, no caso a fachada em ruínas de um prédio do outro lado da rua. B. que lhe conhece os exagerados gestos teatrais a pedirem tortuosas explicações, bebe metade da imperial, agarra meia dúzia de tremoços para ir debulhando como pipocas no cinema e pergunta sem preâmbulos:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Então, o que foi agora?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;A., suspira ruidosamente recuperando vitalidade (mas pouca), estica o braço para colher uma mão cheia de sementes amarelas demolhadas em água e sal, ergue um dedo a pedir uma imperial, ergue outro a pedido de B., espera que o empregado lhe veja os dois dedos no ar e, quando isso acontece, aponta para o copo quase vazio de B.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Ó pá... – A. interrompe-se para descascar e comer um tremoço, numa sucessão perfeita de movimentos mínimos mas absolutamente eficazes, e, depois de deglutida a semente cozida, continua com ar sofrido: – Não me digas nada... não me digas nada.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;B. bebe o resto da cerveja, pensa como era bom se isso resultasse e murmura:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Se eu não disser nada tu também não dizes?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– O quê?! Estás a rezar ou quê?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Não. Estava a pensar numa coisa.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Ah... Quem me dera ser assim, a poder pensar noutras coisas, a poder estar sentado como tu, despreocupadamente, numa esplanada a beber cervejas e a comer tremoços...&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Pois é... – B. mantém-se sério. – Ás vezes, as pessoas nem percebem a sorte que têm em poder estar assim, sentados, numa esplanada a beber cervejas e a comer tremoços... Aliás,...&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;A. concorda movendo a cabeça em câmara-lenta, com o ar cómico de quem vai desfalecer se continuar a concordar com tanto empenho.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;B. olha-o, percebe que A. não o ouve e só espera que ele se cale para desfiar as suas últimas e insuperáveis tragédias, e conclui:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Aliás, parece-me que há pessoas que mesmo quando estão sentadas numa esplanada a beber cervejas e a comer tremoços não sabem que aí estão e que, se depois lhes perguntarem, negam ou então dizem que só lá estiveram por absoluto altruísmo para acompanhar um amigo, só por isso, e só beberam uma imperial e comeram um tremoço por solidariedade e com muito esforço.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Pois é... – A cabeça de A. continua a pender e a subir e a pender e a subir como se tivesse ganho autonomia. – Ó pá mas tu nem sabes o que me aconteceu...&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Mas vou saber.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– As gajas são todas iguais. Não há uma que se aproveite.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Essa é que é uma grande verdade – intromete-se o empregado, que pousa as duas imperiais e, agarrando no copo vazio, declara enfático, antes de se afastar: – Leiam os meus lábios: Ne-nhu-ma! Nem uma, amigos!&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;B. não comenta, agarra no copo cheio e dá dois goles. A. agarra no seu copo e acompanha-o, depois, a cabeça, logo que a boca se vê livre do copo, volta por motu próprio ao anterior movimento pendular e, por fim, diz:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– É que quando querem alguma coisa de um gajo – "Mas alguém quer alguma coisa de ti?" admira-se o amigo –, não o largam, andam atrás, não descolam, e isto e aquilo, e que torna e que deixa e ronhonhó...&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– E re-béu-béu pardais ao ninho...&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Pois é – anui A., pondo na boca todos os tremoços que tem na mão, sem os descascar, uns sete ou oito, que come de boca aberta ante o olhar espantado de B., e, ainda com a boca cheia e a cuspir pedaços amarelos, continua: – Depois de terem o que querem, deixam de nos ligar e um gajo que se lixe!&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;A. espera que B. concorde mas este, hipnotizado pelo espectáculo amarelo, branco e cor-de-rosa que se desenvolve na boca de A. e arredores, demora a perceber e só depois de um "Não achas?" sibilino e amarelecido de A., replica, sem saber do que está a falar:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Podes crer.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Satisfeito, A. bebe o resto da sua imperial para empurrar a massa de tremoços e cascas que não tinham sido engolidas ou expelidas como projécteis e conclui:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– É que são todas. As mulheres são todas iguais!&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Mas há umas que são mais iguais do que outras – replica B.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– É, lá isso é – concorda A. imediatamente, sem ouvir, mais preocupado em ser visto pelo empregado e garantir a pronta reposição de cerveja na mesa do que com o rumo da conversa. – Queres outra? É que hoje estão a escorregar que é uma maravilha!&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;B. diz que sim, que quer, que sim, que estão, e sorri satisfeito, mas com uma ponta de remorso, certo da inevitabilidade de ter de ouvir o que aconteceu a A. mas seguro de que isso só acontecerá quando ele próprio já estiver alcoolicamente preparado para tal.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-452934060218723737?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/452934060218723737/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=452934060218723737&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/452934060218723737'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/452934060218723737'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/06/e-os-homens-tambem.html' title='E os homens também.'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-6228359313583912248</id><published>2011-06-24T12:13:00.000+01:00</published><updated>2011-06-24T12:13:02.043+01:00</updated><title type='text'>A Coerência (ou a falta dela)</title><content type='html'>Que se lixe a coerência! Os fins também podem ter fim. O fim acabou. Isto recomeça até acabar outra vez.&lt;br /&gt;O obrigado mantém-se.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-6228359313583912248?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/6228359313583912248/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=6228359313583912248&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/6228359313583912248'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/6228359313583912248'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/06/coerencia-ou-falta-dela.html' title='A Coerência (ou a falta dela)'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-6352131971447589845</id><published>2011-05-12T16:41:00.000+01:00</published><updated>2011-05-13T21:35:24.312+01:00</updated><title type='text'>FIM</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;Obrigado.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-6352131971447589845?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/6352131971447589845/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=6352131971447589845&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/6352131971447589845'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/6352131971447589845'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/05/fim.html' title='FIM'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-3883308840810188398</id><published>2011-04-28T19:16:00.000+01:00</published><updated>2011-04-28T19:16:04.360+01:00</updated><title type='text'>O Casamento</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;As coisas não corriam bem. Aliás, se quiser ser mais preciso e correcto, tenho de dizer que as coisas entre eles corriam mal. Quase todas as coisas que os envolvessem a ambos enquanto casal corriam quase sempre mal, ainda que, a cada um individualmente as coisas até corressem bem; mesmo as que ao casal corriam mal. Era estranho e eles sabiam isso. Naquele momento, nem eles, nem ninguém, percebia a insistência no casamento. Eu, pelo menos, não percebia mas eu sou um mero narrador – a história não é minha e as minhas opiniões não são importantes. Tudo era mau e as conversas entre ambos nunca chegavam ao fim.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Mas houve um momento em que fomos felizes – declarou o marido.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Foi?! – espantou-se a mulher.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Foi – confirmou o marido, deixando a cabeça pender ligeiramente e mantendo esse movimento mais do que o necessário.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Os dois ao mesmo tempo? – perguntou a mulher, depois de desesperar pela imobilização da cabeça dele.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Sim – respondeu ele, convicto.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Houve um momento em que fomos os dois felizes ao mesmo tempo?! – insistiu ela, arqueando as sobrancelhas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Houve – respondeu ele, seguro.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Quando?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O homem olhou para a mulher e ela devolveu-lhe o olhar. Ele fez uma careta enquanto erguia e baixava os ombros. Ela sorriu só com a boca e gracejou, ácida:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Bem me parecia.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O homem baixou a cabeça.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Mas houve – retomou o marido depois de um longo silêncio. – E não foi um momento…&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Foi uma época – gracejou ela.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele olhou-a fixamente semi-cerrando as pálpebras e mordendo o lábio inferior.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Estás a gozar – disse o homem em tom pausado, com ar até um pouco melancólico – mas foi mesmo uma época.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Uma longa época de verão – troçou a mulher, com o sorriso fino de displicente superioridade que o irritava.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E ele enterrava-se mais no sofá, cerrava os punhos que arrumava debaixo dos sovacos num movimento infantil e voltava-se para a televisão, com ar compenetrado como se fosse ver alguma coisa, a ruminar recriminações, até que, ao fim de um bocado, normalmente sentenciava:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– É sempre a mesma coisa. É impossível falar contigo – e seguia disparado em passo trôpego mas decidido para a sala de refeições do lar. – Velha de merda!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ah!... Mas havia dias que era ao contrário e era ela que perdia e saía de supetão, ainda que devagar que o andarilho não lhe permitia grandes velocidades.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-3883308840810188398?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/3883308840810188398/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=3883308840810188398&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/3883308840810188398'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/3883308840810188398'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/04/o-casamento.html' title='O Casamento'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-1425661008102914362</id><published>2011-04-14T13:49:00.001+01:00</published><updated>2011-04-14T17:46:17.578+01:00</updated><title type='text'>Impressão</title><content type='html'>O homem, baixo, feio, hirsuto e ligeiramente manco, aproximou-se com um deslocado sorriso radioso por baixo de um bigode mal amanhado e perguntou gentilmente:&lt;br /&gt;– Boa noite. A menina desculpe, está a trabalhar?&lt;br /&gt;A “menina” que o vira aproximar-se num crescendo de pânico e repulsa foi surpreendida pelo sorriso, pela gentileza e pelo timbre da voz do homem que, no entanto, não superaram a primeira impressão de horror e nojo que se instalara e que a dominava em cada olhar de esguelha que lançava ao homem.&lt;br /&gt;– Sim, estou – respondeu a “menina”, com um sorriso plástico sem expressão.&lt;br /&gt;Os olhos do homem brilharam de contentamento e, num gesto nervoso, rápido e quase imperceptível, levou a mão direita ao bolso das calças onde guardava a carteira, tocou no bolso, sentiu o volume da carteira e perguntou:&lt;br /&gt;– E está livre?&lt;br /&gt;– Eu não sou nenhum táxi – resmungou a mulher, liquidando o ar de menina com que se apresentava.&lt;br /&gt;– Desculpe – pediu o homem. – Eu... Eu não...&lt;br /&gt;– Estava a brincar – interrompeu ela, fazendo um esforço por dar verosimilhança à frase e ao riso com que a dissera. – Não ligue!&lt;br /&gt;O homem voltou a sorrir, abanou a cabeça como se tivesse achado graça e, por fim, quando ela parou de rir, insistiu na pergunta com um ligeiro movimento da cabeça e um simples – E?&lt;br /&gt;– Ah, sim. Estou. Estou livre – respondeu a mulher, com um sorriso nos lábios e angústia no olhar.&lt;br /&gt;O homem alisou o bigode, encolheu os ombros e lançou brandamente:&lt;br /&gt;– Está livre mas não está livre de preconceitos – e sorriu sem mostrar os dentes. A mulher cruzou pela primeira vez o olhar com o dele e não respondeu. Ele concluiu: – Obrigado, de qualquer forma.&lt;br /&gt;– Obrigado?! Obrigado, porquê?&lt;br /&gt;– Por ser transparente. – O homem tornou a tocar na carteira e despediu-se com um – Boa noite e bom trabalho – sem ironia.&lt;br /&gt;– Obrigado – aceitou a mulher, aliviada por vê-lo de costas e a afastar-se. – E melhor sorte numa próxima vida – murmurou sem ironia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-1425661008102914362?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/1425661008102914362/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=1425661008102914362&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/1425661008102914362'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/1425661008102914362'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/04/impressao.html' title='Impressão'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-2883988817196906792</id><published>2011-04-07T19:48:00.002+01:00</published><updated>2011-04-08T11:04:02.741+01:00</updated><title type='text'>A gaivota monárquica</title><content type='html'>Iludi-me.&lt;br /&gt;Iludi-me e pensei que era capaz. Não fui.&lt;br /&gt;Ou melhor, fui, fui e vim mas não fui capaz.&lt;br /&gt;A cidade pareceu-me enorme e eu demasiado pequeno. E, quanto mais me embrenhava nas ruas, nas avenidas, nas praças da cidade mais pequeno ficava. E fui perdendo a ilusão de que era capaz. Não fui.&lt;br /&gt;Não fui capaz mas só percebi isso quando já nem tinha tamanho. Já não existia. Não era eu que estava ali. E ri-me, ri-me porque me vi com o telemóvel na mão e pensei: se já não tenho tamanho, se não sou eu que estou aqui, quem é que está a segurar o meu telemóvel? Quem é este que tem o meu telemóvel e está a ver um número sem lhe ligar? Tive de me rir e ainda por cima a perna direita do cavalo na estátua era a esquerda, mas isso toda a gente sabe. A pessoa que tinha o meu telemóvel na mão pô-lo no bolso, que, por acaso, por mero acaso, era nas minhas calças, e desapareceu e fiquei eu, sozinho, sem vontade de rir. Não havia razões para isso. Afinal estava ali e viam-se cobras debaixo das patas do cavalo verde, pombos a cagar no braço do rei e uma gaivota pensativa garbosamente pousada nas plumas do capacete régio. A gaivota olhava ligeiramente para a direita como o cavalo e o rei.&lt;br /&gt;Pensei na placa. Na placa da saída do auto-estrada. E como podia ter seguido para norte sem parar. Há lá uma outra cidade. Há mais, claro, a norte há muitas cidades mas eu escusava de me iludir, se me lançasse ao rio quanto muito chegava ao Dafundo e isso se a maré estivesse a descer.&lt;br /&gt;Voltei para trás, havia um cego a pedir, como se as esmolas o pudessem ajudar a ver; era convincente e quem o visse não lhe apanhava a manha: o cego via mas só via o que queria. Era da raça dos piores cegos mas disfarçava bem e fazia as moedas tilintar como se aquelas chamassem outras e chamavam, que volta não volta lá se juntava outra na palma da mão tão suja quanto estendida. O cego era coxo, manquejava e não tinha um dedo, um polegar para precisar; e havia dias, quando estava bem disposto ou já bebido, em que o cego passava a coxo, dava um jeito ao braço para impressionar e estendia a mão sem o polegar e corria as ruas sem parar a manquejar.&lt;br /&gt;“Tem de se ter disposição para ser coxo e pedir pois temos muito de andar e manquejar”, dizia o cego, sincero. “Para pedir é melhor ser cego, basta estar parado, fingir que não se vê e estender a mão. Às vezes custa, que um homem não é de ferro e agora, com o calor… Estender a mão? Não, pá, fingir que não se vê. É cada lasca!... Mas ser coxo é pior, muito pior, é que não basta coxear, é preciso manquejar e manquejar.”&lt;br /&gt;“Hei!” gritou o cego ao ver-me seguir. Parei. O homem estalou os dedos, nasalou a voz e rosnou: “Ó sócio, ó sócio, estou eu aqui concentradíssimo a dar-lhe a conhecer a verdade, toda a verdade sobre os cegos e os coxos e o amigo vai-se embora?! E a comissão, pá? E a comissãozinha para o ceguinho que é coxo e manqueja? Vá lá, deixe-se de pelintrices, ó doutor.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-2883988817196906792?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/2883988817196906792/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=2883988817196906792&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/2883988817196906792'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/2883988817196906792'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/04/gaivota-monarquica.html' title='A gaivota monárquica'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-6274120959450133982</id><published>2011-04-05T19:45:00.003+01:00</published><updated>2011-04-06T18:42:08.470+01:00</updated><title type='text'>Amansar o animal feroz</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;A mulher deixou de ouvir os passos atrás de si, virou-se, imobilizou-se surpreendida por vê-lo sentado e perguntou:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;– Então, não te despes, José?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;Sentado numa cadeira de braços à entrada do quarto, José olhava a mulher encostada à cama redonda, segurando o segundo botão da blusa entre o indicador e o polegar da mão direita à espera da resposta dele.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;– Foste à manifestação na Avenida da Liberdade?! – atirou José, franzindo o sobrolho.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;– Do dia 12? – questionou a mulher, só para ganhar tempo e perceber-lhe o estado de espírito, juntando a mão esquerda à direita que não moveu.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;José levantou os olhos para o espelho redondo do tecto e dali viu-lhe o cabelo, os ombros e as mãos junto ao peito, presas ao botão que não se abrira.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;– Sim, do dia 12, qual é que havia de ser? – Perguntou o homem, endurecendo a expressão.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;– Na semana a seguir houve outra – disse a mulher.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;– A da CGTP? – inquiriu José, desejando que a mulher tirasse as mãos da blusa “e a blusa, já agora” e lhe deixasse ver as mamas a partir do tecto.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;– Sim.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;– Também foste a essa?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;– Não.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;– Ah! Quer dizer que foste à outra – exclamou o homem, batendo com a mão no braço da cadeira.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;– Fui – Reconheceu a mulher, com ar cândido, e, com o mesmo ar ainda que com um toque sarcástico que deu com o movimento assimétrico das sobrancelhas, perguntou: – Porquê?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;Involuntariamente, José fechou a mão direita e voltou a bater no braço da cadeira, agora com o punho fechado.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;– Porquê?! – José sentiu o sangue afluir-lhe à face e tentou acalmar-se, temendo o consequente e visível rubor; não lhe queria dar esse prazer. Abriu a mão fechada e mostrou os dentes num sorriso, mais do que forçado, falhado. – Por nada, disseram-me que tinhas ido…&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;– E fui – A mulher sentou-se, pousou as mãos na cama com os braços esticados atrás de si e, sem fugir com o olhar à expressão de censura e ressentimento que ele lhe dirigia, disse em tom seguro e pausado: – Achas que isso agora ainda tem algum interesse? É que já passou quase um mês em tempo e quase uma legislatura em termos políticos. Já quase nada é o que era… Pelo menos, para ti.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;– Sim, para mim mudou muita coisa – respondeu friamente o homem, mas sem conseguir deixar de procurar o espelho no tecto para a ver a partir de cima. – Mas só para mim, porque no teu caso está tudo na mesma: continuas a ser puta!&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;– É a vida. – A mulher manteve a postura e o tom e, com um sorriso, precisou: – É a minha vida, José.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;Um laivo de repulsa perpassou pelo olhar do homem mas não se fixou e antes que ele falasse (ou explodisse), a mulher continuou enquanto abria dois botões da blusa:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;– Mas viemos aqui para falar de nós, das nossas vidas, do que fazemos connosco e do que isso afecta as outras pessoas ou viemos aqui, como sempre, para termos prazer? – E, percebendo a atenção dele ao decote que se abria, levantou-se ligeiramente e deixou-se cair lentamente de joelhos à sua frente, entre as suas pernas, ronronando-lhe com imperceptível profissionalismo junto à braguilha: – O que somos fica lá fora, José. Aqui somos só uma mulher e um homem…&amp;nbsp; Uma mulher e um homem.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-6274120959450133982?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/6274120959450133982/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=6274120959450133982&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/6274120959450133982'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/6274120959450133982'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/04/amansar-o-animal-feroz.html' title='Amansar o animal feroz'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-7124102527967461683</id><published>2011-04-01T12:03:00.002+01:00</published><updated>2011-04-03T19:28:22.725+01:00</updated><title type='text'>A Chave</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A tipa chegou-se ao pé do tipo e disse-lhe:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Não sei mas parece-me que devíamos fazer tipo qualquer coisa.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O tipo olhou para a tipa de esguelha e respondeu com uma pergunta:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Tipo o quê?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A tipa franziu o sobrolho e sentou-se no sofá ao lado do tipo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Se calhar… – disse, hesitando. – Se calhar, ajudava se parasses de jogar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Ajudava quem? – replicou o tipo sem tirar os olhos da televisão nem os polegares dos botões que premia com furiosa rapidez.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A tipa não respondeu, olhou para as suas mãos e para os dedos esticados, abertos, e levantou-se. Foi ao quarto, pegou numa mochila encostada à cama e voltou à sala, passando em silêncio por trás do sofá. Havia tiros, explosões e sangue na televisão. O tipo grunhiu como se tivesse sido atingido e recostou-se no sofá. A mulher passou-lhe a mão pelo cabelo e seguiu; abriu a porta do apartamento e saiu. Deixou a porta aberta e a sua chave na fechadura.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-7124102527967461683?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/7124102527967461683/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=7124102527967461683&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/7124102527967461683'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/7124102527967461683'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/04/chave.html' title='A Chave'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-421397237341826935</id><published>2011-02-28T17:50:00.003Z</published><updated>2011-03-01T10:51:12.235Z</updated><title type='text'>A Lavagem</title><content type='html'>– E agora, José?&lt;br /&gt;O nomeado olhou desconfiado a mulher que o nomeara e, sem se mexer, replicou:&lt;br /&gt;– Agora o quê?&lt;br /&gt;– Nada – respondeu a mulher, arqueando ligeiramente as sobrancelhas. – Queres mais alguma coisa? – perguntou, servil.&lt;br /&gt;José flectiu e esticou os braços como se fizesse uma flexão, olhou para as mãos abertas espalmadas no lençol e para os ombros nus da mulher. Apreciou-lhe o contorno do pescoço, estudou-lhe o rosto vistoso, fixou-se nos olhos amendoados, tanto na forma como na cor e respondeu: – Não, porquê?&lt;br /&gt;– Não queres mais nada? – insistiu a mulher.&lt;br /&gt;– Não – repetiu José, enfastiado com a insistência.&lt;br /&gt;– É que se saísses de cima de mim eu ia lavar-me – disse a mulher, com o tom mais suave e cordial que conseguiu.&lt;br /&gt;– Ah… – José riu. – É que eu estou tão habituado a foder e a não sair de cima que até me esqueço – confessou com inusitada franqueza.&lt;br /&gt;A mulher sorriu, um sorriso forçado mas bem disfarçado, e não respondeu: não sabia o quê. José flectiu o braço esquerdo, rodou o tronco e as pernas e caiu de costas na cama, ainda a rir.&lt;br /&gt;Em silêncio, a mulher levantou-se e foi-se lavar. “É pena que o país não se lave assim, com esta facilidade”, suspirou para si sentindo a água quente escorrendo-lhe purificadora por todo o corpo.&lt;br /&gt;No quarto, o homem ainda lançava gargalhadas e “porreiros” como se tivesse dito alguma coisa com graça e a mulher, ouvindo-o enquanto se esfregava com exagerada energia, decidiu ir no dia 12 à manifestação. “Que te lixes, José!... Vou e vou ser mais uma gota para ver se te lavamos de vez.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-421397237341826935?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/421397237341826935/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=421397237341826935&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/421397237341826935'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/421397237341826935'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/02/lavagem.html' title='A Lavagem'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-7932131603478913813</id><published>2011-02-17T08:31:00.002Z</published><updated>2011-02-17T10:16:48.952Z</updated><title type='text'>a felicidade</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;Cristino conheceu Mária de quem teve uma filha, Pedra, e um filho, Luciomar, que nasceu e foi registado no Brasil, durante uma viagem de Cristino à Bolívia. Mária ficou em Portugal mas, no decorrer da gravidez, conheceu Tereso, um baiano que morava em Chelas junto ao Pingo Doce e que vivia morrendo de saudades do Rio onde tinha sido calceteiro. Pedra ficou com uma meia-tia da parte da madrinha da mãe e Mária foi ao Brasil para ver o calcetão que Tereso dizia ter feito. Na Bolívia, Cristino apaixonou-se por Sérgia, uma algarvia que acompanhava com bolivianas da vida nas calles de La Paz. Cristino achou-lhe graça e emprenhou-a, ainda que a meio da tarde do dia seguinte, já sóbrio, não conseguisse perceber porquê. Tereso deixou uma flor estranha e com um odor ainda pior no quarto de Mária na Maternidade Municipal Fernando Magalhães onde nasceu Luciomar e partiu. Partiu quatro costelas, dois dos três ossos ilíacos do lado direito e perfurou a abóbada palatina com um lápis n.º 2 quando foi atropelado. Tereso já não tinha intenções de voltar, pois gostava de grávidas mas não de mães, e o estado de morto que lhe diagnosticaram à entrada do hospital impediu-o de qualquer recaída, por isso, Mária, nada grávida e duplamente mãe, nunca mais o viu, nem recuperou o lápis que lhe emprestara. Na manhã de denso nevoeiro em que Cristino chegou da Bolívia ainda Mária não tinha voltado do Brasil mas, duas semanas depois quando saiu de uma casa de banho segura em Ranholas onde evacuou, entre graves crises de obstipação, toda a coca que trouxera, já Luciomar, Pedra e Mária estavam em casa à espera das notas do narcotráfico como se não fosse nada com eles. Eram felizes.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-7932131603478913813?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/7932131603478913813/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=7932131603478913813&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/7932131603478913813'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/7932131603478913813'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/02/felicidade.html' title='a felicidade'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-1198485677574633915</id><published>2011-02-15T14:50:00.003Z</published><updated>2011-02-15T15:10:01.395Z</updated><title type='text'>O Problema</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Os homens vivem toda a vida com o estigma do primeiro amor – disse a mulher ao sair da pastelaria, agarrando a porta para a amiga sair e encarando-me a fumar um cigarro na entrada do prédio ao lado.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;A amiga que a acompanhava saiu, passou-lhe à frente, olhou-a hesitante, parecendo aguardar pela continuação da conversa, e, como a outra permanecesse em silêncio, gracejou:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Mas este já é, pelo menos, o segundo amor dele.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;A mulher que tinha uma opinião definitiva sobre a imaturidade dos homens e a nossa incapacidade de ultrapassar determinados sentimentos, lançou-me de passagem um rápido sorriso condescendente tipo tu-que-fumas-também-sofres-do-mesmo-mal, e respondeu enquanto se afastavam:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Pois, e esse é que é o problema!&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-1198485677574633915?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/1198485677574633915/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=1198485677574633915&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/1198485677574633915'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/1198485677574633915'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/02/o-problema.html' title='O Problema'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-415307582359138418</id><published>2011-02-01T13:58:00.003Z</published><updated>2011-02-01T18:59:11.884Z</updated><title type='text'>O Chá</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– E ele disse que achava que o frio era esclarecedor, seguiu a conversa sem dizer nada e acabou a proclamar “Viva o sol", como se, realmente, não quisesse esclarecer nada. – A mulher fez uma pausa, repetiu o “viva o sol” num murmúrio a olhar para o céu (o sol estava lá e via-se da janela mas não no sitio para onde ela olhou), e completou: – E eu perguntei-lhe: “O frio é esclarecedor porquê?”&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;A mulher, que falava enquanto lia um ofício numa folha de papel, calou-se e deixou-se perder na elaboração da resposta, teclando como se a pressão que fazia nas teclas e a rapidez com que digitava as palavras pudesse dar colorido e tom ao texto.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Vocês estavam onde? – perguntou a outra mulher, depois de desesperar pela continuação da história.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Num... – A mulher hesitou. – A beber café.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– E ele não respondeu?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Quem?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– O Saraiva, quem é que havia de ser?!&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Não faço ideia – concluiu a mulher, sem parar de escrever.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Não fazes ideia?! – Insistiu a falsa loura, de calças de ganga justas e uma cerimoniosa blusa de amplo e vistoso decote, batendo com uma caneta no tampo da mesa onde se empoleirara de perna traçada.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Ó doutora… – gemeu a escrevinhadora, olhando desesperada para o monitor à sua frente. – O doutor Cristino quer que eu lhe envie esta resposta antes das cinco, para ele a enviar a seguir.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;A doutora olhou para o relógio de pulso e encolheu os ombros:&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Acabas a história e eu vou-me logo embora.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;A assessora do presidente do Conselho de Administração cerrou as pálpebras com força enquanto suspirava, abriu-as e capitulou com uma careta resignada:&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Aproveito e bebo um chá.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;A doutora, vogal executiva do Conselho de Administração mas sem grandes atribuições, sorriu e recomeçou imediatamente a conversa:&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Estavam a tomar café e?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– A tomar café?! – Espantou-se a assessora que se levantara e rodeava a secretária, passando em frente à doutora que mudara igualmente de expressão: olhavam-se as duas com ar surpreendido.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Tu é que disseste – esclareceu a vogal.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;A mulher de pé riu:&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Só se fosse café com leite, ou melhor, com natas, mas sem café. – A assessora tocou na perna da doutora, um toque suave, junto ao joelho e piscou-lhe o olho antes de retirar a mão. – Quer chá?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;Sem perceber porquê – sem sequer pensar nisso, na verdade –, a doutora ficou a olhar para o sítio onde a assessora lhe tocara, sentindo uma impressão estranha e longínqua que irradiava um calor ténue para o resto do corpo. Passou as mãos pelo cabelo, num gesto nervoso e excitado que a apanhou desprevenida quando se apercebeu de o ter feito e, de olhos fixos no cadenciado movimento das nádegas da outra mulher, demasiado perfeito para ser espontâneo, acabou por perguntar apenas:&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;– Chá de quê?&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-415307582359138418?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/415307582359138418/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=415307582359138418&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/415307582359138418'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/415307582359138418'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/02/o-cha.html' title='O Chá'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-7018203293529489742</id><published>2011-01-28T15:44:00.006Z</published><updated>2011-01-28T19:00:22.484Z</updated><title type='text'>Um Natal Normal (x)</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Obrigado pelas suas últimas palavras a ir até à janela ver a chuva, Francisco dirigiu-se aí vagarosamente procurando fazer render o tempo – a filha à espera para terminar a conversa postara-se à porta da cozinha a controlar-lhe os passos, de braços cruzados e sorriso malicioso.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Francisco demorava-se à janela, vigiando pelo canto do olho a posição da filha, constatando aborrecido que nem a chuva nem a filha davam tréguas. O que lhe deu algum alento. Pelo menos, o genro, esse sacrista, não havia de estar melhor que ele, que lhe tinha de aturar a mulher e a sogra.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– O teu marido? – perguntou dirigindo-se à filha mas sem sair da janela, depois de lhe procurar o automóvel em toda a extensão visível da rua.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Luísa aproximou-se, espezinhando sem dó nem piedade os mosaicos da sala, o pavimento flutuante da sala de jantar e os tímpanos do pai, e juntou-se a ele.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Teve de ir ao escritório – informou, encostando o nariz ao vidro da janela ainda de braços arrumados. – Há lá uma porta que mete água.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Uma porta?! – Gozou o pai. – Eu acho que tudo aquilo mete água, Luísa. A começar pelo teu marido…&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;A filha não fez caso, limitou-se a erguer e baixar os ombros ostensivamente e manteve-se silenciosa.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– E as coisas na câmara, estão mais calmas? – Inquiriu o pai, prosseguindo a estratégia de lançar um assunto que pegasse e fizesse esquecer a conversa da cozinha. O homem tinha um pressentimento desagradável sobre o que a filha lhe ia responder e tentava evitar retornar ao assunto anterior.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Estão – disse a filha. – A mulher tem andado muito ocupada. Há um mês e tal que anda uma simpatia…&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Com quê?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Comigo… Com toda a gente.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Não é com quem – corrigiu o pai, começando dissimuladamente a distanciar-se das cantarias em pedra moleanos que suportavam o alumínio cinza da janela. – É com quê. Tem andado ocupada com quê?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Ah… – A filha seguiu-o, distraída. – Não sei, é um mistério mas o que corre é que há mouro na costa.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;O senhor Francisco aprovou, mais a costa que o mouro, é certo, mas aprovou, balançou a cabeça e não impediu um ar sonhador de lhe afoguear o rosto, levando-o a chegar-se imediatamente ao recuperador de calor para o verificar e justificar com a proximidade de uma fonte de calor a súbita tez rosada que adquirira. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Luísa riu-se do ar do pai mas não o censurou, compreendeu-o. A Presidente da Câmara era uma costa a que quase todos os homens gostavam de atracar – mouros ou não. Encostou-se ao braço do sofá da sala, passou os olhos pela televisão e esperou que o pai fizesse o resto da pantomima para a evitar.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;E o homem, sabendo-se observado, empenhou-se em fazê-la: fechou, abriu, tornou a fechar e a abrir as saídas de ar do recuperador de calor, enquanto falava na possibilidade de encher um enorme balão de ar quente ligado às saídas de ar do recuperador que havia de erguer a casa ou rebentar com ela ou só com o balão (não chegou a nenhuma conclusão); abriu a porta de vidro e remexeu e recolocou os cavacos de sobro que ardiam alegremente; acrescentou uma enorme rodela de um nobre tronco de oliveira; dissertou sobre as qualidades caloríficas e de higiene, limpeza e odor do recuperador de calor em confronto com as lareiras abertas; e, por fim, percebendo que a filha não se ia embora, deu o trabalho por terminado, depois de se demorar a ajeitar e arrumar parte da lenha armazenada por baixo de um balcão de pedra mármore branca, que fazia conjunto com a estrutura da lareira e estava repleto de molduras e algumas fotografias avulsas.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Vou comer mais um pé de abóbora – informou, rodeando o sofá e a filha. Esta, mantendo a marcação cerrada, seguiu-o.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;O homem entrou na cozinha, dirigiu-se ao prato dos pés de abóbora e enfiou um na boca.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Estão bons – apreciou e tirou outro. – Muito bons.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;A filha estudava-lhe os movimentos e, ao segundo frito, deu por si a contar os movimentos malares do pai até o engolir.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Quatro – anunciou. – O pai mastigou o pé de abóbora quatro vezes!&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;O senhor Francisco fulminou a filha com o olhar mas falou para a mulher:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Ó mulher, a tua filha agora é do CSI dos fritos ou quê?! Esta agora…&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– E tens sorte de ela não ser da STASI ou do KGB dos pés de abóbora, homem, se fosse estavas tramado – comentou a mulher, sem parar de cozinhar.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Isso é verdade – aceitou o homem, sorrindo. – Isso era bem pior – e tirou outro frito, que trincou numa das pontas e começou a comer com outra educação e recato.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Assim, está melhor. Já parece uma pessoa a comer – picou a filha.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;O homem fez-lhe uma careta e, decidido a voltar à sala e sentar-se sossegado no seu sofá, perguntou:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– E, afinal, o que é que arranjaste que está tão linda?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Excitada pela antecipação do momento de capitulação do pai e antevendo o resultado da resposta que lhe decidira dar, a filha teve de fazer um esforço de contenção para não rir e respondeu em tom sério e indiferente:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Arranjei a área circundante à minha vagina.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Ah! – Deixou escapar o pai, que logo se recompôs, dando outra moderada dentada ao frito que ainda segurava. – Queres dizer que fizeste uma depilação especial aos teus pêlos púbicos, é isso?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;A filha olhou-o surpreendida e teve de se concentrar para responder com um simples:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Foi.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Agora era o homem que fazia um esforço para não desatar à gargalhada ao ver o ar atónito e desolado da filha.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Fizeste bem – aprovou o homem. – Os enormes matagais de outrora já não se usam.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Pois é…&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Até a tua mãe também já tem um bigode à Hitler, vê lá.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– É?!&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Sim, toda rapada não, pareceu-nos que já não era coisa para a idade dela, mas aquela penugenzinha aparada e bem delimitada fica-lhe muito bem. Eu gosto.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Não sabia…&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– E eu também já rapei os testículos – anunciou o senhor Francisco, acabando o pé de abóbora e chupando as pontas dos dedos. – Faz um bocadinho de impressão ao princípio e depois quando os pêlos começam a crescer outra vez, mas eu já não quero outra coisa e a tua mãe também prefere. Não é, Isabel?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;A filha olhava ora para o pai, ora para a nuca da mãe, sem saber o que dizer. A nuca da mãe moveu-se para cima e para baixo.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Sim, é melhor – completou a D. Isabel. – É melhor para tudo.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;O pai sorriu, agarrou noutro pé de abóbora e saiu da cozinha a cantarolar uma música de Natal.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-7018203293529489742?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/7018203293529489742/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=7018203293529489742&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/7018203293529489742'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/7018203293529489742'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/01/um-natal-normal-x.html' title='Um Natal Normal (x)'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-2614774858747514065</id><published>2011-01-26T15:03:00.000Z</published><updated>2011-01-26T15:03:41.118Z</updated><title type='text'>Ouvi Dizer</title><content type='html'>“Não é certo que ela me torne a falar, aliás, o mais provável é que ela nunca mais me venha a dirigir a palavra. Parece-me que isso é o que vai acontecer. Havia de fazer alguma coisa. Não é isso que quero. “Eu tinha tantos planos p’ra depois”. Ah! Acontecer! Fazer as coisas acontecer. Procurar que os meus desejos se realizem. Levantar-me e ir atrás dela. Falar-lhe. Dizer-lhe qualquer coisa. Podia mandar-lhe um sms ou um mail. Fazer uma chamada. Voltou-se para trás. Sorri, estúpido, sorri! Vai ter com ela e fala-lhe. Acho que aquele dedo esticado quer dizer que nunca mais me vai falar. Se calhar avancei depressa demais. Fecha o sorriso, já chega, ela não se riu para ti. “Na pressa de chegar até nós.” Levanta-te. Vai lá. Fala-lhe. Diz-lhe qualquer coisa que a faça reconsiderar. A tua unha do dedo médio está muito bem pintada. Não. Outra coisa. Desculpa. Sim. Pede-lhe desculpa.”&lt;br /&gt;– Ana!&lt;br /&gt;“Desculpa”&lt;br /&gt;– O que é?&lt;br /&gt;– Fica-te bem essa cor de verniz das unhas – “AAAAAAAHHHH!!! Não era isto…”&lt;br /&gt;– O quê?!&lt;br /&gt;– O verniz…&lt;br /&gt;– Não é verniz, é gel!... Vês?&lt;br /&gt;– Ah… Gel?!... E os outros dedos?&lt;br /&gt;– Tu só vais ver este mas as outras unhas estão iguais, parvo! Adeus.&lt;br /&gt;– Ah… Eu depois mando-te um mail…&lt;br /&gt;– Não, não mandes, não te incomodes, escreve antes uma história.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-2614774858747514065?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/2614774858747514065/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=2614774858747514065&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/2614774858747514065'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/2614774858747514065'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/01/ouvi-dizer.html' title='Ouvi Dizer'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-1795270691512319224</id><published>2011-01-21T14:58:00.002Z</published><updated>2011-01-21T15:14:50.458Z</updated><title type='text'>Um Natal Especial (ix)</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;A porta abriu-se lentamente mostrando apenas um corredor vazio e uma porta fechada mais à frente, a mulher não se mostrou e ele não soube o que pensar. Pousou as mãos nos joelhos, cerrou os lábios, passou as palmas das mãos com força pelas calças quase sem as mover e tentou não pensar em nada, não queria elevar ainda mais as delirantes e debochadas expectativas em que se sentia afogar – que, temia, já estavam num nível insuportável de alcançar.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Posso levantar-me? – inquiriu João.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Não – respondeu a amante, em tom jocoso, escondida atrás da porta. – É claro que não. Deixa-te estar sentado até eu dizer.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Tenho uma prenda para te dar – disse o homem.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Edite encostou a porta e ele percebeu que ela o estava a ver pelo buraco da fechadura. João sorriu e, sem pensar, mexeu na braguilha. A mulher tornou a abrir a porta sem se mostrar e disse-lhe, rindo:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– É uma boa prenda mas deixa-a estar embrulhada.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– A prenda não sou eu – esclareceu o homem, percebendo o equívoco.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– É só uma parte de ti? – insistiu ela, ainda a rir.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Não, nem eu nem uma parte de mim – replicou ele. – Se vieres cá para fora vês logo.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Posso dar-te primeiro a minha, João?... É que eu gostava de sair daqui.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Sim, claro, eu também gostava muito disso.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Então, fecha os olhos – pediu-lhe a amante. – Fecha mesmo e só abras quando eu disser… Já está?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Sim – faltou-lhe a voz. – Sim – repetiu.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Fecha mesmo – ordenou a mulher. – Não os abras!&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;João ouviu os saltos dos sapatos dela a tocar elegantemente no chão dirigindo-se a si. Já não tinha expectativas, já estava no céu, e teve de pôr a mão esquerda sobre os olhos para os manter fechados.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Ainda não os abras, só quando eu disser – disse Edite, falando junto a ele, impregnando o ar com o seu perfume.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;A mulher pegou-lhe na mão direita, que se mantinha sobre a perna, e pousou-a no braço do sofá.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Vou-te pôr uma prenda sobre os joelhos, não lhe mexas até eu dizer e não abras os olhos. – Beijou-lhe os lábios, deu-lhe uma lambidela na ponta do nariz e pousou-lhe qualquer coisa muito leve nas pernas.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;O homem respirou fundo e concentrou-se nas suas pernas, procurando perceber o que ela aí colocara. Não conseguiu. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Espera só mais um minuto – pediu ela, percebendo pela baixa temperatura da mão dele e pelos movimentos involuntários do rosto que tão bem conhecia, a arrebatada excitação em que o estava a deixar.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Para se manter quieto e de olhos fechados, João teve de cerrar as pálpebras com mais força e esfregar a mão esquerda na face e na testa. Tornou a esfregar pressionando mais a mão sobre a pele mas tal não lhe mitigava a crescente e descontrolada agitação. Então, sem descerrar as pálpebras, fixou o polegar no centro da bochecha, como a ponta seca de um compasso, e rodou as pontas dos restantes quatros dedos da testa até ao maxilar e do maxilar até à testa, procurando centrar-se na sensação conhecida dos seus dedos a coçarem o rosto. Queria acalmar-se. Queria controlar-se. Queria, por tudo, manter-se de olhos fechados mas sentia-se em grandes dificuldades.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Enquanto os dedos pressionavam o rosto, o homem ouviu os passos dela a afastar-se e, logo, a parar; depois toques ligeiros dos saltos altos no chão como se ela procurasse uma posição e, por fim, a sua voz:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Agora, vais agarrar no objecto que tens nos joelhos, não vais dizer nada e vais usá-lo dez vezes.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Posso abrir os olhos?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Se quiseres.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;João agarrou no objecto sem abrir os olhos e engoliu em seco. Abriu os olhos e confirmou o que pensava ser o objecto depois de o tactear. Olhou para o lado e viu-a e percebeu a prenda e a ordem que a amante lhe dera. Sorriu. Adorou-a. Adorou-lhe os contornos, a posição e a surpresa. Adorou-lhe as longas pernas perfeitamente torneadas e a posição do corpo. As ancas e as costas. Percebeu o cuidado cenográfico da posição dos pés, das pernas e do tronco. Dos cabelos e do sorriso que só via de perfil. Apaixonou-se outra vez pela curva do seu pescoço e pelo volume dos seus seios, ainda que só visse parte do esquerdo.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Levantou-se e aproximou-se dela em silêncio, de olhos fixos nas nádegas maduras e perfeitas que agora estavam à sua frente. Fez o objecto vibrar no ar, beijou-lhe delicadamente cada uma das nádegas e chicoteou-a. Chicoteou-a de novo. Gostava do som. Chicoteou-a outra vez. Gostava do som da palavra. Chicoteou-a mais uma vez. Também gostava do som do chicote a bater-lhe nas nádegas nuas. Chicoteou-a. Ela gemeu, languidamente, pareceu-lhe. Chicoteou-a.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Que belas nádegas – observou, enquanto tornava a chicoteá-la.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Ela gemeu, um gemido mais longo e profundo. “Definitivamente lânguido”, pensou João, não conseguindo evitar um sorriso.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Chicoteou-a com mais força. “A força está no pulso. O impulso vem do pulso. O pulsar do chicote na carne nua nasce no movimento do pulso, não do braço.” Chicoteou-a.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Hummm… Estou a gostar disto – disse e chicoteou-a. – Dez!&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Ela gemeu, languidamente. Ele concentrou-se nas nádegas marcadas com corações rubros mal definidos. Ela não se mexeu, continuou com as pernas afastadas, rígidas e perfeitamente direitas, os sapatos pretos de salto alto, agulha, simétricos, separados cerca de meio metro e o tronco curvado sobre o grosso vidro temperado da mesa de reuniões.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;João bateu com a chibata na palma da mão esquerda, satisfeito. Engoliu em seco.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Que bela prenda – afirmou. – Acho que nos vai dar muito jeito.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;A mulher levantou-se e virou-se para ele, tinha as faces rosadas e um brilho incandescente no olhar.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Para começo foi bom – comentou. – Não podes é ser tão gentil, João. Tens de me dar com mais força. Com mais gana!&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Ele anuiu com um aceno e beijaram-se como adolescentes, como se as suas vidas dependesse disso.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Gosto de ti, João.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– E eu de ti. Muito.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;A autarca olhou para o relógio por cima da porta do gabinete e, de expressão fechada, contrariada, disse-lhe:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Tens de ir.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-1795270691512319224?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/1795270691512319224/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=1795270691512319224&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/1795270691512319224'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/1795270691512319224'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/01/um-natal-especial-viii.html' title='Um Natal Especial (ix)'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-5250296160118325084</id><published>2011-01-18T15:09:00.001Z</published><updated>2011-01-18T15:09:39.131Z</updated><title type='text'>As Despedidas</title><content type='html'>– Há regressos que nunca se devem fazer. As coisas nunca voltam a ser as mesmas. Nós já não somos os mesmos. Se voltamos é porque esquecemos o porquê da separação; as razões da separação. A própria separação. Fantasiamos sobre um idílio que acabou e a que queremos regressar como se fossemos menos os que nos separámos do que os que estiveram juntos. Não há retornos felizes. As peças não tornam a encaixar. As peças depois de separadas, partidas, doridas, nunca mais se tornam a encaixar. Os regressos nunca se devem concretizar.&lt;br /&gt;– Assim, definitivamente?&lt;br /&gt;– Assim.&lt;br /&gt;– Então… – Os olhares cruzaram-se. Ele fez uma pausa e perguntou: – O que estamos nós aqui a fazer?&lt;br /&gt;– A despedirmo-nos.&lt;br /&gt;– Definitivamente?&lt;br /&gt;– Sim. – Ela sorriu, primeiro com os lábios e com os olhos, depois com todo o rosto, e completou: – Sim, definitivamente ou até à próxima despedida – e beijou-o, primeiro com os lábios e com a língua, depois com todo o corpo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-5250296160118325084?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/5250296160118325084/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=5250296160118325084&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/5250296160118325084'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/5250296160118325084'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/01/as-despedidas.html' title='As Despedidas'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-1145465552784189841</id><published>2011-01-14T16:24:00.003Z</published><updated>2011-01-14T16:40:04.653Z</updated><title type='text'>Um Natal Ocidental (viii)</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Quem é que parece um zombie? – intrometeu-se Francisco, cuspindo migalhas dos pés de abóbora que entregavam por seu intermédio a alma ao criador.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– O paizinho – confessou prontamente Luísa, ainda impressionada com o acerto descuidado da mãe e com a gula do pai.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;O homem semicerrou as pálpebras, como se conseguisse ver melhor a filha desse modo, enfiou outro pé de abóbora na boca e falou, mas ninguém percebeu nada.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Não comas mais, Francisco – pediu a mulher, sem tirar os olhos da massa que fritava. – Olha a tua vesícula.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Só me vai doer amanhã – resmungou o marido em resposta e continuou no mesmo tom: – Um zombie?! Pareço um zombie, é? – A filha confirmou com a cabeça. – Pareço um zombie mas não sou… Tomem atenção, olhem que a mim não me escapa nada – ameaçou em tom propagandístico.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Luísa cerrou os lábios para não rir, enquanto a mãe continuava a debater-se com a fritura das filhós e mantinha-se à parte da conversa.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;O homem pegou em mais dois pés de abóbora, virou costas e já saia da cozinha quando se voltou para trás e perguntou à filha:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– E o que é que tu arranjaste?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Eu?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Sim.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– O que é que eu arranjei?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Sim.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– De quê?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Isso queria eu saber. – O homem enfiou um dos pés de abóbora na boca e chupou os restos de açúcar e canela das pontas dos dedos. A filha olhava-o à espera de mais pistas. O homem engoliu o pé de abóbora quase sem o mastigar e acrescentou: – O que tu arranjaste e a tua mãe disse que estava linda.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Ah! – A filha percebeu a confusão entre o plural que a mãe usara para lhe elogiar as sobrancelhas e o singular que o pai ouvira, hesitou, riu para si e reconheceu com ar comprometido, balanceando bajuladoramente a cabeça: – Sim, senhor, não lhe escapa nada. Nós a pensarmos que o pai tinha todos os sentidos ferrados nos pés de abóbora e o pai, como quem não quer a coisa, a apanhar à sorrelfa o que nós dizíamos.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;O homem sorriu e inchou.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– É para veres que o teu pai não é nenhum parvo e muito menos um zombie.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Eu sei que não é – disse a filha, chegando-se a ele e beijando-o na face.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– E afinal – replicou o pai, dando um passo atrás, prevenindo-se da ocorrência de mais manifestações de afecto filial –, o que é que arranjaste?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Quer mesmo saber, paizinho? – Troçou a filha. – Olhe que há conversas de mulheres que os homens pensam que querem saber mas que, no fim, depois de as ouvirem, passam a pensar que mais valia nunca terem preferido querer sabê-las…&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Ora essa – interrompeu o pai, melindrado, ainda que não tivesse a certeza de ter percebido o arrazoado da filha. – Mas tu pensas que o teu pai vive em que século?! Não há nada que tu possas ter arranjado e ter dito à tua mãe e ela dizer que está linda, que eu não possa ouvir, compreender, analisar e opinar. – Chegado aqui, o homem, só ao ouvir o que estava a dizer, percebeu que havia muitas coisas que a sua filha podia contar à mãe que ele definitivamente preferiria não saber, nunca saber, e mais, ao ouvir-se, sentiu, de forma não elaborada, que estava a abrir um precedente perigoso que a sua filha, a sua querida mais retorcida filha, poderia começar a usar para o aborrecer, para se meter com ele, para o picar como gostava tanto, mas, ainda que pensasse tudo isto, ouviu-se a continuar a discursar sobre a modernidade, o primado da informação e do conhecimento nas relações entre as pessoas e a diferença dos pais do antigamente para os pais de hoje. – … e ainda que eu seja pela idade, num mero formalismo caduco, um pai do antigamente sei o que é ser um pai moderno, que sinto que sou, que quero ser e que os meus filhos merecem e, com certeza, prezam. Não há assuntos tabu, não há realidades escondidas, não há…&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;A mãe fazia caretas cómicas aos filhós, à massa dos filhós, à fritadeira, ao fogão, à parede em frente ao fogão, ao exaustor, que não se atrevia a ligar no máximo, como devia, para recolher o cheiro a fritos por causa do barulho, e a tudo para onde se virava. Fazia caretas para tudo menos para o marido, a quem reconhecia os discursos redondos sem efectiva substância ou qualquer desejo de efectivação do que dizia, nem para a filha, de quem temia a língua mordaz e afiada, o ácido sentido de humor e a pura malícia que, vezes demais, destilava.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;O pai acabou o discurso, comeu o pé de abóbora que ainda tinha na mão e que usara como uma espécie de batuta, e preparava-se para virar costas, já esquecido ou a fazer-se esquecido da pergunta que originara a sua campanha eleitoral, quando a filha o interpelou:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– E afinal, já não quer saber o que eu arranjei?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;O homem hesitou mas mentiu:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Quero, claro que quero, ia só ver se ainda estava a chover.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-1145465552784189841?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/1145465552784189841/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=1145465552784189841&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/1145465552784189841'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/1145465552784189841'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/01/um-natal-ocidental-viii.html' title='Um Natal Ocidental (viii)'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-408833442571092502</id><published>2011-01-11T13:22:00.003Z</published><updated>2011-01-11T17:33:19.546Z</updated><title type='text'>Escuta 2011.01.10. 22:34-22:39</title><content type='html'>– Está, Pedro?&lt;br /&gt;– Sim.&lt;br /&gt;– Isto é seguro, pá?&lt;br /&gt;– É, Zé. Em princípio, é.&lt;br /&gt;– E no fim?&lt;br /&gt;– No fim?!... No fim de quê?...&lt;br /&gt;– No fim, pá!... No princípio é seguro e no fim?&lt;br /&gt;(Risos) – Ah! No fim... No fim, se não for, arranja-se alguém que corte à tesoura.&lt;br /&gt;– Pois!... Desde que não seja o mesmo que te corta o cabelo, pá!&lt;br /&gt;(Pára de rir) – Que me corta o cabelo?!&lt;br /&gt;– Sim.&lt;br /&gt;– O que é que tem o meu cabelo?&lt;br /&gt;– O que tem?!&lt;br /&gt;– Sim.&lt;br /&gt;– Tem um corte horrível, pá. Desculpa lá, mas sabes que eu sou frontal, Pedro. O teu corte de cabelo é um horror!&lt;br /&gt;(Sussurra) – Olha que o teu e a tua penca...&lt;br /&gt;– Diz?&lt;br /&gt;– Nada, é a tua opinião, Zé… Estamos num país livre...&lt;br /&gt;– Essa é porreira, pá!... Ó Silva Pereira, um país livre... Essa é boa!&lt;br /&gt;(Riem os dois)&lt;br /&gt;– Mas, ouve lá, ligaste-me por um telefone seguro só para me dizeres que o meu corte de cabelo é horrível?&lt;br /&gt;– Não, pá, é claro que não… (Abafa uma gargalhada) Isso era um desperdício, pá! (Solta uma gargalhada) Esse cabelinho à... à... Isso é tão mau que nem sei a que é, pá! (Continua a rir) Mas que é do domínio público, pá, isso não há dúvidas. (Pára de rir e fala em tom afectado como se fizesse uma boquinha a imitar o interlocutor) Essa madeixinha a cair-te para a testa como uma ondinha a morrer na praia, esse risquinho a trepar até ao pingurito da cabeça como se quisesse ir embora... (Fala normalmente) Ó meu amigo, não vale a pena tentarmos esconder o que é evidente, isso é um corte de cabelo que não lembra a ninguém!&lt;br /&gt;– Pronto já se ouviu, Zé, não batas mais no ceguinho. É o que há… Mas, ouve lá, se não me ligaste para falares sobre a minha aparência capilar, ligaste para quê?&lt;br /&gt;– Ah!... Pois... Era... Era... Já nem sei, pá. Já nem sei... Eu depois ligo-te.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-408833442571092502?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/408833442571092502/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=408833442571092502&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/408833442571092502'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/408833442571092502'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/01/escuta-20110110-2234-2239.html' title='Escuta 2011.01.10. 22:34-22:39'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-4899378301281580543</id><published>2011-01-03T14:16:00.002Z</published><updated>2011-01-03T15:45:06.377Z</updated><title type='text'>Extasiado</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Mal havia chegado ao átrio do tribunal quando ouviu o seu nome cantado em voz autoritária mas não desprovida de simpatia por uma funcionária judicial. Subiu as escadas em passo acelerado e respondeu prontamente ainda antes de as abandonar. Ouvindo-o, a funcionária interrompeu o nome seguinte, levantou os olhos, acenou ligeiramente com a cabeça na sua direcção e repetiu o seu nome, “Júlio F… A… F…”. Ele confirmou e, sem mais formalidades, ficou assente para todos os devidos e necessários efeitos que ele era ele e estava ali. Então, encostou-se à parede e ouviu a funcionária declamar, sem resultados, os nomes seguintes do rol de testemunhas do processo para o qual havia sido convocado e, contrariado por não estar incluído nas ausências, procurou as pessoas que o levaram a estar ali àquela hora da manhã. Ninguém. Nem testemunhas, nem arguidos, nem ofendidos. Nada. Nenhuma pessoa do “seu” processo; só um advogado.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Vamos aguardar – declarou a funcionária, olhando para o relógio de pulso e depois para o advogado e para ele.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Mas faz-se? – perguntou o advogado, aproximando-se da funcionária.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Em principio não, mas para já não lhe posso garantir. Têm de aguardar – completou, incluindo-o.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;O advogado, aproveitando a inclusão, cumprimentou-o, apresentando-se como mandatário do arguido, por quem Júlio ali estava, e seguiu esticando imediatamente a conversa condenando de forma veemente a falta de informação quanto às consequências da greve.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;A funcionária ouviu o causídico com um longo encolher de ombros, enquanto Júlio escutava sem opinar, sentindo-se cada vez mais contrariado por estar ali.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Vamos aguardar – rematou a funcionária no fim do arrazoado do causídico, afastando-se.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Assustado com a perspectiva de ficar sozinho com o advogado, Júlio chamou a funcionária, perguntou-lhe se tinha tempo de ir beber um café e sorriu-lhe agradecido com a resposta positiva. Estava livre, pensou, cruzando acidentalmente o olhar com o do advogado.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Quer ir tomar um café, doutor? – convidou, sem querer, por mera educação, dirigindo-se ao advogado.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Pode ser – respondeu o causídico com inesperada convicção e prontidão, que a frase que transcrevo não revela, nem na forma nem no tom, mas que, a bem da verdade, mantenho nos seus precisos termos.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;No caminho, curto, entre o tribunal e a pastelaria mais próxima, falaram do tempo e da justiça e de como ambos se encontram cinzentos e pouco recomendáveis. O advogado falava de dias de sol e de tempos mais prazenteiros. “Com outras formas de se fazerem as coisas e em que nos sentíamos melhor. Muito melhor”, sublinhava em tom grave e sério. Desconsolado, Júlio ouvia-o sem balir, balançando a cabeça a compasso.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Já junto à porta da pastelaria, o advogado travou-lhe o passo, tocando-lhe com a mão no braço:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Vamos antes ali – disse, apontando para um café mais adiante, sem disfarçar a observação atenta e interessada que fazia do interior do estabelecimento que acabava de rejeitar.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Por mim… – respondeu Júlio, apanhado de surpresa e tentando, debalde, perceber onde o homem fixava o olhar.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;O advogado, mantendo um estado de enlevada contemplação do que se passava para lá da montra envidraçada da pastelaria, perguntou-lhe, sem se mover e como se o fizesse para adiar por uns instantes o despegar do nariz do vidro:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– A não ser que se importe. Importa-se?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Não – assegurou Júlio, encolhendo os ombros. – Por mim é igual, doutor.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;E seguiram, o homem conjecturando numa explicação para o sucedido e o advogado, com uma súbita expressão de profundo desalento, recolhendo-se na análise visual das pedras da calçada que a seguir pisava.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Beberam o café e voltaram para a Casa da Justiça, sem trocarem mais do que meia dúzia de palavras de circunstância.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Subiram, souberam que o impasse se mantinha e desceram para fumar um cigarro.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Se calhar, há bocado ficou a pensar que eu era maluco – disse o advogado, entre duas passas no cigarro.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Quando? – perguntou Júlio, surpreendido, percebendo, quando se ouviu, que não o havia negado como queria.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Quando fomos tomar café – esclareceu o advogado. Júlio fez uma careta como se não percebesse. Ele continuou: – Quando lhe disse para irmos mais à frente e fiquei a olhar para a pastelaria como um miúdo para uma loja de doces.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Ah… – Fingiu Júlio sem muita convicção e, convicto, mentiu: – Não.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;O advogado riu-se.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Não viu, pois não? – perguntou, abrindo um sorriso de quem sabe um segredo.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Não vi o quê, doutor?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Não viu – troçou, definitivo. – Se visse, sabia.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Mas dentro da pastelaria?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;O advogado chegou-se a ele e segredou:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Atrás do balcão está a coisa mais apetitosa que consegue imaginar. – Levou as pontas dos dedos aos lábios e beijou-as ruidosamente. – Um docinho! Uma coisa fantástica!&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Júlio hesitou na resposta mas, apreciando os trejeitos e expressões de lúbrica admiração e voraz cobiça que o advogado teatralmente fazia com cómico empenho, decidiu segui-lo:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Então… – olhou-o com ar sentido. – Então e levou-me para o outro café?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Aquilo faz-me mal em jejum – justificou o causídico. – É que você não está a ver, nem sequer a imaginar.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– O doutor não me deixou – queixou-se Júlio, forçando-se a dar um tom lamurioso de irreparável decepção que o causídico sentiu e aceitou sem duvidar.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Penalizado e arrependido, o advogado olhou-o sério e declarou solene:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– O problema são as calças.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Júlio, espantado, balbuciou:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– As calças, doutor?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Sim, senhor, as calças – confirmou o causídico, movendo lentamente a cabeça na vertical, com o ar entendido de quem perdeu tempo a pensar no assunto. – As calças de ganga que a empregada da pastelaria usa, invariavelmente do mesmo modelo e que é, certamente, o que mais a favorece… E favorece muito! – Exclamou com um sorriso matreiro e um piscar de olho a pedir cumplicidade masculina. Aguentou a pausa até o interlocutor sorrir e recomeçou: – As calças que ela usa ajustam e modelam-lhe as nádegas de tal forma… – mordeu o lábio inferior. – Faz-nos acreditar que Deus existe, é verdade, mas é-me tão penoso beber café ao balcão… – arrastou a frase e terminou-a num suspiro teatral. Fez uma careta, abanou a cabeça e concluiu: – Faz-me mal… Muito mal. Tão mal que, às vezes, prefiro nem ver… Fico extasiado… É mesmo, fico extasiado como um parvinho.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Estava enganado o Camilo – comentou Júlio, sorrindo.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;O advogado olhou-o por um momento, apanhado de surpresa mas a processar a informação com crescente alegria, e respondeu, rindo:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;– Estava, de facto, estava. É verdade, por vezes, a gente extasia-se! Extasia-se mesmo!&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: justify;"&gt;“– A gente não se extasia, minha senhora. Olha.”, de A Mulher Fatal, de Camilo Castelo Branco.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-4899378301281580543?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/4899378301281580543/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=4899378301281580543&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/4899378301281580543'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/4899378301281580543'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2011/01/extasiado.html' title='Extasiado'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-4456800526184065015</id><published>2010-12-30T20:40:00.003Z</published><updated>2010-12-31T10:45:48.476Z</updated><title type='text'>Um Natal Municipal (vii)</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;“Afinal foi boa ideia” pensava João, sorridente, enquanto esperava que a cancela levantasse para lhe dar acesso ao interior do parque subterrâneo de estacionamento municipal. “Diziam que o parque não servia para nada… Enganavam-se! O senhor presidente era um visionário. Um visionário... e, no fim, perdeu as eleições.” João, irónico, sorria ao ver o interior do parque quase completamente deserto. “Deve ser por ser Natal!”, gargalhou, negaceando com a cabeça. “O dinheiro que se gastou nesta bodega…”. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;A cancela levantou e, ansioso, João, esqueceu as considerações sobre a política autárquica e o desperdício de dinheiros públicos, e seguiu para o segundo piso do parque onde ficava a “box do amor”. Riu. “Quem diria que, nesta idade, voltaria a enrolar-me num carro… E a gostar.” Parou de rir quando viu pelo espelho retrovisor os sacos de prendas no banco traseiro. “Que mal”, censurou-se, sem se decidir se estava a pensar na mulher, a dona das prendas, ou na amante, que as veria. Pensou nele e nas consequências nefastas para o seu prazer que a visão das prendas poderia causar na disponibilidade e fulgor sexual da amante e imobilizou imediatamente o automóvel.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Quando abriu a porta do automóvel, lembrou-se de alguém, não conseguiu precisar quem, ainda que tentasse, que se tinha esquecido de tirar as cadeirinhas dos filhos num encontro que se pretendia escaldante e que, por esse motivo – dois motivos, duas cadeiras –, tinha sido um fiasco completo, cheio de palavras azedas, de alegadas faltas de consideração e cuidados e com um fim abrupto e irremediável.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;“É o mínimo, …, foda-se” – João lembrava-se do diálogo mas não dos intervenientes, por isso faltavam-lhe os nomes. – “É o mínimo, …, foda-se”, protestava a mulher, especada, em pé, sem entrar para o carro a olhar para as cadeirinhas, com a mão direita colada ao puxador da porta do pendura e a face a ganhar cores e trejeitos que o homem nunca lhe vira ou que, diga-se em abono da verdade, tornaria a ver.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;“Eu tiro-as já. Desculpa”, pedia o homem, de olhar perdido entre a face arco-íris da mulher, as impávidas cadeiras das filhas e a espectacular tarde que se esfumava ali, naquele momento, naquelas cadeiras.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;“Não é preciso, …, foda-se” – João repetia mentalmente o diálogo e ficou muito desagradado com a mulher, de quem não se lembrava o nome ou sequer sabia se conhecia, pois considerou-a muito mal-educada. “Não era caso para tanto, foda-se” pensou, sem se aperceber que a imitava. “Não havia necessidade de terminar todas as frases com um soberano e acusador “foda-se” como se as duas cadeirinhas fossem um crucifixo gigante que o homem levara para uma mesquita.”&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;“Eu tiro-as”, dizia o homem, sem as tirar, hesitando entre rebaixar o banco e pô-las na mala por dentro do carro ou retirando-as e abrindo a mala do carro para aí as colocar. Os movimentos do homem eram patéticos, as palavras e o tom em que as dizia eram absolutamente patéticos e as expressões faciais e os olhares eram completamente patéticos.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;“Não vale a pena, foda-se”, determinou a mulher, cuja mão não se descolava do puxador da porta ainda que ela já estivesse longe dali, tão longe como João de se lembrar do nome dela, que, aliás, nunca soubera, e avançou com as tais recriminações e acusações de falta de cuidado, de consideração, de insensibilidade. “Mau marido, mau pai e mau amante!” cuspira a mulher por fim, largando a porta, que teve de abrir e fechar com força antes de a conseguir largar, ainda que não percebesse porquê. “Foda-se!” concluíra como se esperava, afastando-se sem olhar para trás, deixando o homem ainda hesitante entre desaparecer num buraco sem fundo ou ser volatilizado sem deixar rasto.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Pelo contrário, João, determinado e imperturbável, abandonou o lugar de condutor e, com intencional rigor, precisão e rapidez militares, que lhe deram prazer e lhe permitiram esquecer o susto da recordação do anónimo episódio das cadeirinhas, efectuou a operação de esconder as prendas de Natal na mala do carro e voltou ao volante em menos de nada. Procurou o controlo remoto do portão da box, encontrou-o, manteve-o em riste e seguiu, pronto a carregar no botão no momento e sítio ideais para não ter de parar em frente às lâminas cinzentas do portão a subir.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Carregou e sem ter de parar, num timing perfeito de que se orgulhou, introduziu o veículo na garagem individual, desligou o motor e iniciou de imediato o movimento descendente do portão. Escreveu no telemóvel e enviou o sms: “Presente!”&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;“:-) Sobe” recebeu.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;“Subo?” escreveu mas, no último momento, decidiu não enviar. “Se é para subir é para subir!”, sorriu, satisfeito. Não lhe apetecia ficar no carro. Apagou a mensagem não enviada e as recebidas e enviadas de e para ela, saiu do automóvel, da box, do estacionamento, do elevador, do corredor, do pequeno átrio que dava acesso à sala dela e, sem ter visto ninguém, bateu à porta e entrou.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Edite? – chamou, percebendo-se sozinho no espaçoso gabinete. Rodeou a mesa de reuniões pela direita e aproximou-se da secretária, olhando para a porta que dava acesso à varanda exclusiva daquela sala. A porta estava fechada. Pousou a mão na portátil fechado e sentindo-o morno, tornou a chamar, virando-se para a porta que dava acesso por um corredor interior a uma casa de banho privativa, ao gabinete da secretária da presidência e a uma sala de reuniões. – Edite? – Rodou a maçaneta mas a porta não abriu.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– João? – perguntou uma voz feminina do outro lado da porta.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Sim – confirmou ele, tornando a rodar a maçaneta.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Espera – pediu a voz. – Tranca a porta do gabinete e senta-te no sofá individual. Quando estiveres pronto, diz.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;João arregalou as sobrancelhas, olhou para o relógio de pulso, preocupou-se (mas pouco) e fez o que ela lhe pediu. Trancou a porta e sentou-se no sofá que estava directamente virado para a porta que ele não conseguira abrir.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Estou pronto – murmurou num acto falhado pela expectativa, sorriu, tossiu, aclarou a garganta e repetiu agora de forma audível: – Estou pronto.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Posso ir?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Podes – sussurrou o homem, acompanhando com desvelo a quase imperceptível rotação da maçaneta prateada e o lento movimento da porta a abrir.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-4456800526184065015?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/4456800526184065015/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=4456800526184065015&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/4456800526184065015'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/4456800526184065015'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2010/12/um-natal-municipal-vii.html' title='Um Natal Municipal (vii)'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-2963892056430600373</id><published>2010-12-23T08:50:00.004Z</published><updated>2010-12-23T10:52:32.023Z</updated><title type='text'>Um Natal Demencial (vi)</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Mais do que integrado no espírito da época, Francisco atingira um estado de plena suspensão contemplativa, encontrando-se em absoluta paz consigo e com o resto da humanidade. Mais, o homem, sentado de pernas juntas e braços arrumados cruzados sobre o peito, mudo e quedo, fixo na televisão, estava surdo para o mundo e mouco para os gritos e chamamentos domésticos. Francisco entrara num plano superior de alheamento, de concentração, de introspecção exteriormente estimulada, comungando hipnoticamente a delicada serenidade e a deslumbrante lassidão das imagens televisivas, dos lentos e pormenorizados planos e grandes planos da jovem modelo nua que, apenas com um berrante barrete vermelho debruado com uma faixa horizontal de virginal lã branca na cabeça, se movia graciosa e eroticamente em câmara lenta à sua frente no grande LCD do Natal passado.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Francisco – berrava a mulher, desconhecedora das súbitas e recém adquiridas aptidões quase místicas do marido. – Francisco!&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Mas o enlevado Francisco, concentrado apenas nos volumosos e deliciosos seios da mulher na televisão, no seu sensual e desprotegido pescoço arqueado, na posição da cabeça voluptuosamente lançada para trás e, por fim, no grande plano do seu rosto brilhante e sensual, húmidos lábios entreabertos e enormes e risonhos olhos, permanecia alheio aos gritos da mulher que, aliás, não ouviu ou – há que dizê-lo com frontalidade – de cuja existência, naquele momento, nem sequer desconfiava.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Francisco! – repetiu a mulher, mais fino e mais forte, tornando impossível a meditabunda contemplação do marido, que, mecanicamente, mudou de canal ao regressar à existência terrena.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– O que é?! – resmungou.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Não estavas a ouvir? – A mulher continuava a gritar e a filha, calada, a olhar para ela à espera do que iria acontecer.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Não, não ouvi – gritou o homem. – O que foi.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Chega aqui que a tua filha quer falar contigo!&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Luísa lançou à mãe um olhar feroz e cerrou as finas sobrancelhas, simétricas e de contorno irrepreensível, sublinhando a sua discordância. O pai ouvindo o exaustor a carburar como um tractor enterrado no meio de lama a desatascar uma coisa qualquer muito grande, muito pesada e bem cravada na lama que naquele sitio já quase secara, obrigando o tal tractor a trabalhar em pleno emitindo um barulho tremendo decidiu que os pés de abóbora estavam prontos e, por isso, que valia a pena ir à cozinha e foi. A mãe, que já acabara com a massa para os pés de abóbora, reduziu a potência do exaustor, pegou no alguidar de barro com a muito sovada massa das filhoses e iniciou a sua produção.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Arranjaste-as? – perguntou a D. Isabel, admirando as sobrancelhas da filha, depois de encher a fritadeira com fartas colheradas de massa que, pela sua leveza e textura, lhe devolveu a boa-disposição. – Estão lindas.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Vaidosa, a filha confirmou com um sorriso e um ligeiro arquear dos elogiados conjuntos de pêlos.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– O que é que se passa? – perguntou o pai, entrando na cozinha, atraído para os pés de abóbora como um cão para uma cadela no cio (não é muito bonita a imagem, reconheço, mas é a que melhor se adequa à completa convergência de todos os sentidos do homem com vista à realização pronta e bem sucedida do objectivo a que se propôs: comer quantos pés de abóbora quentes aguentar ou a mulher lhe deixar).&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Já não é nada – respondeu a mãe e, piscando o olho à filha, sussurrou: – O teu pai só vai ver os pés de abóbora.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;A filha sorriu e anuiu, com um murmúrio cúmplice: – Já está a ir.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Olha para ele, Luisinha – sugeriu a mãe, sem perder a atenção no ponto de fritura dos filhoses. A filha observou o pai. A mãe, de costas para o marido, continuou sussurrando: – Repara na rigidez muscular, na fixação visual, na excreção salivar, nos movimentos reptilinios da língua e na concentração obsessiva com que ele se aproxima da travessa… – Enquanto tirava as primeiras filhoses da fritadeira, Isabel riu com a embasbacada atenção da filha a olhar o pai, pontuando, além disso, com um aceno vertical da cabeça o acerto das observações da mãe. – Tem ou não tem um certo ar de demência alucinada?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Sim... Parece um zombie – comentou a filha, admirada com a surpreendente acuidade analítica e inédito sentido de humor da mãe.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-2963892056430600373?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/2963892056430600373/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=2963892056430600373&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/2963892056430600373'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/2963892056430600373'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2010/12/um-natal-demencial-vi.html' title='Um Natal Demencial (vi)'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-652002992403691193</id><published>2010-12-21T16:21:00.002Z</published><updated>2010-12-21T17:24:30.547Z</updated><title type='text'>Um Natal Acidental (v)</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Luísa pousou o telemóvel em cima da bancada da cozinha, informou laconicamente a mãe da presumível demora do marido enquanto tirava o grosso e longo casaco, que foi pendurar na entrada, e voltou à cozinha para esclarecer o que tinha a mãe contado ao pai acerca da sua vida íntima.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Calcando sonoramente os mosaicos com prazer, Luísa aproximou-se da mesa da cozinha, que servia de placa giratória entre os pratos e doces que estavam prontos e os que faltavam acabar ou aquecer, pegou num pé de abóbora envolto numa mistura de açúcar louro, açúcar em pó e uma pitada de canela, e encostou-se à janela junto ao fogão, ficando de frente para a mãe que se afadigava entre os fritos e as panelas. Regalou-se com o frito sem fazer qualquer apreciação, evitando até o deleitoso sorriso que as pupilas gustativas forçavam, e, com ar reprovador, lançou de forma áspera e insolente:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– A mãe disse ao pai que nós não fodemos desde Março?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Luísa – exclamou a mãe, escandalizada, deixando cair um pé de abóbora que tirara do óleo fervente.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– O que foi? – replicou a filha, alçando os ombros. – A mãe também é uma dessas fundamentalistas do acordo ortográfico?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Confundida, a mãe hesitava entre o olhar trocista mas de expressão dura e séria da filha e o ar aflito do desditoso pé de abóbora em perigo.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Desculpa? – murmurou a mãe, dirigindo-se à filha mas resgatando cuidadosamente o seu pobre pé de abóbora.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Agora com o acordo ortográfico os meses do ano já não são com maiúscula – explicou a filha, com ar professoral como se a mãe se tivesse mesmo insurgido contra isso. – Mas eu não vou nisso, mãezinha. Os meses são meses e Março é Março. Se é Março eu digo Março não digo março.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Salvo o pé de abóbora das garras malévolas e cancerígenas do óleo, a assarapantada D. Isabel, ainda com a grosseira designação do acto sexual a ressoar-lhe nos ouvidos, manteve-o esquecido e suspenso sobre a fritadeira, olhando a filha com total incompreensão. Satisfeita, a filha sorriu sem o mostrar e retornou ao assunto que a aborrecia:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– A mãe disse ao pai que nós, desde Março, com maiúscula, se não se importa, não… &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Luísa fez uma pausa, constatando com malícia o tremor da mão da mãe, a coloração arroxeada da sua face e os movimentos anárquicos da escumadeira entre a fritadeira e a travessa com o papel absorvente. A mãe suspensa da palavra que a filha ia empregar, sentia-se desfalecer. O pé de abóbora, apavorado, tentava a custo manter-se na escumadeira que se agitava tempestuosamente sobre o óleo a ferver e, sem conseguir evitá-lo, tomou-se de súbita devoção pelo pai de todos os pés de abóbora, rogando-lhe imediata protecção e salvação com incalculável fervor e igual número de promessas.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Luísa percebeu a periclitante situação da mãe e engoliu um sorriso que se formara nos olhos e que descia para os lábios. Sentia que estava a ir longe demais e recuou, desconhecendo que estava a ser inconscientemente guiada para os caminhos do bem pelo poderoso Senhor dos Pés de Abóbora. A involuntária penitente alterou o tom e a frase:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– A mãe disse ao pai que não fazemos o amor desde Março?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;A mãe suspirou profundamente e abanou a cabeça sem convicção. A filha continuou:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Não fazíamos – rectificou. – É que já não é verdade, mãezinha.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;A mãe concentrou-se nos pés de abóbora retirando-os aos dois e três de cada vez do óleo, colocando-os sem cuidado no papel aderente. O Senhor dos Pés de Abóbora terminado o seu acto misericordioso pleno de sucesso abandonou as instalações, antevendo a breve chegada do agradecido crente para pagar as suas promessas. Abandonada a si própria, Luísa recuperou a maldade e refinou-se após a inocente pergunta da mãe:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– É verdade, Luisinha, já fizeram as pazes?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– É verdade, mamã – respondeu cândida a filha que, antevendo a continuação da resposta, continha a custo uma gargalhada que lhe enchia a garganta. – Foi verdade até ontem, mãezinha. Ontem à noite, o João, quando saiu do banho e sem se secar, agarrou-me por trás quando eu estava a lavar os dentes, baixou-me as calças do pijama, cuspiu na palma da mão com que me lubrificou, agarrou-me pelas ancas e penetrou-me furiosamente como…&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;A mãe aumentou a potência do exaustor e, mais do que proporcionalmente, a emissão de ruído, e gritou:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Francisco!&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-652002992403691193?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/652002992403691193/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=652002992403691193&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/652002992403691193'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/652002992403691193'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2010/12/um-natal-acidental-v.html' title='Um Natal Acidental (v)'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-6229716109423479976</id><published>2010-12-17T08:54:00.008Z</published><updated>2010-12-31T10:45:19.467Z</updated><title type='text'>Um Natal Ocidental (iv)</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Estacionado o automóvel, João permaneceu sentado no seu interior, conferindo atentamente a intensidade da chuva, à espera de um abrandamento para sair. O que, “felizmente”, pensava sem remorsos, não acontecia.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Absorto nos seus pensamentos, que seguiam pessoas ou actividades, João deixou-se, sem querer, envolver no som violento da água a embater no tejadilho e na visão diluviana dos pingos grossos a escorrerem caudalosamente no pára-brisas, caindo num primitivo torpor hipnótico, pleno de reminiscências inconclusivas, que não conseguia, conscientemente, compreender ou situar. Empenhado, fechou os olhos para se concentrar no som da chuva e, depois, abriu-os lentamente para que o conjunto se compusesse. O som e visão da água uniram-se. Sentiu que estava mais perto de perceber mas compreendia, ainda que o não quisesse reconhecer, que não passaria dali. Faltava-lhe qualquer coisa. Qualquer coisa essencial. “Faltam-me cheiros”, ponderou, tornando a cerrar as pálpebras, enquanto levantava a cabeça como se farejasse o ar.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Embrenhado nessas singulares meditações, João foi surpreendido pelo toque de mensagem recebida no telemóvel, que lhe destruiu, concluiu ele aborrecido, toda a possibilidade de aprofundar o que sentia. Todavia, passou, de imediato, do aborrecimento à vergonha e ao arrependimento, julgando-se um tontinho que – “de nariz no ar”, troçou – embarcara, sem sentido crítico, num delírio absurdo da imaginação.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Incomodado consigo, João pegou no telemóvel com súbita urgência, como se o aparelho lhe resgatasse o senso e a razão em perigo, e leu a mensagem:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;“Sub. se viesses aqui tinha uma prenda para ti ;)”&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Esqueceu tudo, sorriu como um garoto e, automaticamente, os olhos fugiram-lhe para o relógio do automóvel. Não conseguiu que o sorriso não se transformasse num transgressivo e expectante riso nervoso, ligou a ignição e fez uma chamada:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Tenho de ir ao escritório – anunciou com tom pesaroso. – E já viste esta chuva? – continuou desanuviando o tom. – Ainda por cima não consegui arranjar estacionamento aí ao pé e não sei se puseram os resguardos na porta da varanda de trás… – Fez um estalido de aborrecimento com a língua e concluiu: – Acho que é melhor lá ir, Luísa. Não achas?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Já lá não está ninguém? – perguntou a mulher.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Não, já liguei para lá… – João repetiu o estalido, que lhe estava a sair e a soar bem.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Até já, então – conformou-se Luísa, com uma careta que ele, naturalmente, não viu. – Despacha-te.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Sim, diz aos teus pais. É rápido.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;João, mordendo o lábio inferior para não rir como um parvinho excitado, desligou a chamada e respondeu ao sms, “hummm… box 5 m”. Ligou os limpa pára-brisas e arrancou, feliz como um adolescente, com um nó na garganta e frio nas extremidades do corpo.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-6229716109423479976?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/6229716109423479976/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=6229716109423479976&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/6229716109423479976'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/6229716109423479976'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2010/12/um-natal-ocidental-iv.html' title='Um Natal Ocidental (iv)'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-8234126527400940924</id><published>2010-12-15T12:44:00.003Z</published><updated>2010-12-17T12:38:31.370Z</updated><title type='text'>Um Natal Ocidental (iii)</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Está a chover, Francisco – gritou a mulher.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Pois está – concordou o marido, indiferente.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Está a chover muito, Francisco – reforçou a mulher.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Está, Isabel, na rua está a chover muito. – O homem acentuou o nome da mulher, pois, não gostava que ela acabasse as frases com o seu nome como se lhe estivesse a dar uma ordem. Fez uma ligeira pausa e completou em tom de gozo: – Mas, felizmente, aqui não.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Vai ajudar o João, coitado – continuou a mulher, sem lhe dar troco. – Ele vai ficar todo encharcado!&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Temos pena. – Os olhos do homem sorriram ao olhar novamente pela janela, chovia desalmadamente. Satisfeito, levantou a voz e respondeu: – Ele não precisa de ajuda, mulher. Ele é auto-suficiente!&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;A filha olhou para a mãe, surpreendida e chocada. Comprometida, a mãe olhou-a de relance, fixou-se nos pés de abóbora que fritavam e gritou para o marido:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Deixa-te de conversas e vai ajudá-lo!&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– A mãe disse-lhe? – perguntou a filha.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Ele não precisa de ajuda – berrou o marido. – Pergunta à tua filha! Ele precisa de ajuda, Luísa?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– A mãe disse-lhe? – repetiu a filha.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Precisa, Luísa? Ele precisa de alguma ajuda? – insistiu o pai.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Não, pai, não precisa – declarou a filha, levantando a voz, e, censurando a mãe com o olhar, perguntou em voz baixa: – Disse-lhe, não disse?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Vês? – gritou o homem. – O teu genro não precisa de ajuda.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;A mãe abanou a cabeça mas não respondeu à filha e gritou para o marido:&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Deixa-te de conversas! O João vai ficar todo encharcado! Vai, pelo menos, buscar o saco das prendas. Está aí o chapéu-de-chuva grande.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Agora não posso, mulher, estou aqui a controlar o lume – justificou o marido com verdade, ainda que sem tirar os olhos da televisão, pois, quando o disse, olhou por uma fracção de segundo para a imagem da lareira que ardia atrás de uma mulher nua que, em primeiro plano, se espojava languidamente num enorme tapete branco, felpudo e fofo, acariciando-se.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-8234126527400940924?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/8234126527400940924/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=8234126527400940924&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/8234126527400940924'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/8234126527400940924'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2010/12/um-natal-ocidental-iii.html' title='Um Natal Ocidental (iii)'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-5683604670371898920</id><published>2010-12-13T11:19:00.001Z</published><updated>2010-12-13T18:48:36.532Z</updated><title type='text'>Um Natal Ocidental (ii)</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Bacalhau, mãezinha? – enjoou-se a filha, empinando o nariz de perdigueira ao entrar na cozinha, depois de beijar o pai que, sentado no sofá da sala, contemplava a lareira a arder procurando abstrair-se do batuque dos saltos da filha.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Aborrecida com a falta de respeito da filha pelas tradições, a mãe tentou fixá-la de forma acusatória e assertiva mas só lhe conseguiu fazer uns mortiços olhos de carneiro mal morto ou, no caso dela, de ovelha estrebuchante.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– É a tradição, Luísa – baliu a mãe, amuada, limpando as mãos à bata que vestia por cima da roupa. – O que é que tu querias?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;As mulheres ensaiaram um cumprimento que havia de consistir, se se tivesse concretizado, em quatro ósculos, dois por cada mulher um em cada uma das faces mas que só resultou numa aproximação sem contacto entre bochechas e embrenharam-se nos vapores melífluos de bacalhau, couves cozidas e fritos que enevoavam a cozinha.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– O João? – gritou o pai.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Foi arrumar o carro – informou a filha do meio do cerrado nevoeiro culinário.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;O pai grunhiu com satisfação redobrada quando olhou para a janela e viu a chuva a cair copiosamente.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-5683604670371898920?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/5683604670371898920/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=5683604670371898920&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/5683604670371898920'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/5683604670371898920'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2010/12/um-natal-ocidental-ii.html' title='Um Natal Ocidental (ii)'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-668350413145332806</id><published>2010-12-09T18:37:00.000Z</published><updated>2010-12-09T18:37:47.846Z</updated><title type='text'>Um Natal Ocidental (i)</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;A campainha tocou.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Vai lá, Francisco – gritou esganiçada a mulher das profundezas da cozinha. – Vai lá que são eles!&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Quem? – resmungou o marido, colado ao sofá da sala, fixo na televisão e de comando em riste.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;A campainha tornou a tocar.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Quem é que havia de ser? – gritou a mulher. – A tua filha e o teu genro. Vai lá que eu tenho os pés de abóbora a fritar.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Ela tem chave – informou o marido, lacónico e sem nada mover para além do polegar sobre o comando.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;A campainha repetiu-se.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Está a começar a chover, homem – gritou a mulher – e eles devem trazer as prendas!&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– De certeza que o comichoso do teu genro tem chapéu… – resmungou alto o marido, que se calou ao ouvir a chave a rodar na fechadura da porta da rua e esta a abrir-se.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Está alguém? – gritou uma voz feminina, com o mesmo timbre da cozinheira.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;– Eu não te disse que ela tinha chave? – registou o homem.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;A mãe respondeu da cozinha ao chamamento da filha, o pai mudou de canal para um com pessoas vestidas e a filha aproximou-se ruidosamente, abatendo com júbilo festivo os barulhentos saltos sobre os inocentes mosaicos do hall de entrada e da sala.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-668350413145332806?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/668350413145332806/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=668350413145332806&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/668350413145332806'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/668350413145332806'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2010/12/um-natal-ocidental-i.html' title='Um Natal Ocidental (i)'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-1991193714316156997</id><published>2010-11-09T15:51:00.006Z</published><updated>2011-01-27T19:06:53.887Z</updated><title type='text'>Um repentino pensamento libertador</title><content type='html'>Pôs a mão esquerda no bolso interior direito do casaco e, como esperava, encontrou-o vazio. Com os lábios cerrados, expirou pelo nariz e tentou lembrar-se onde guardara o papel com o número de telemóvel. Nada. Então pensou que as coisas já não se fazem assim, que agora se troca de números com um toque de um telemóvel para o outro. Mas eles não haviam feito isso, ainda que não soubesse porquê.&lt;br /&gt;Olhou para o seu telemóvel pousado na secretária, primeiro com o absurdo desejo de que o aparelho tocasse, depois com a inútil esperança de que por se fixar nele se lembrasse onde guardara o papel e, por fim, com a absoluta certeza de ter perdido o papel e de nunca mais voltar a falar com ela.&lt;br /&gt;“Ela pode ligar-me”, desdramatizou ainda a olhar o aparelho. Agarrou-o e, com dois toques, desbloqueou-o para verificar que estava ligado, que tinha rede, bateria e não estava no silêncio. A confirmação do estado de prontidão do aparelho não o alegrou, pelo contrário, sem saber porquê, deu-lhe a certeza que não seria ela a ligar-lhe.&lt;br /&gt;Largou o telemóvel ao lado do portátil onde escrevia e viu o punho da camisa branca com riscas azuis e a manga azul escura do casaco pousada sobre a secretária. “Eu não tinha este casaco”, afirmou para si, movendo os lábios sem emitir as palavras. “Tinha uma camisa branca, lisa” pensou. Rolou a cadeira para trás e constatou que as calças azuis não eram as mesmas que usara no dia anterior. “Eram as castanhas”, sorriu sem alterar a expressão, “e o casaco era o castanho.”&lt;br /&gt;Esqueceu a manga azul e fixou o sucedâneo de folha branca que brilhava no ecrã. Sorriu. “O papel ficou no casaco de ontem”, acreditou. “Logo ligo-lhe”, decidiu e parou de escrever.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O título do post, "Um Repentino Pensamento Libertador", é o título de um excelente livro de Kjell Askildsen, editado pela Ahab.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492219-1991193714316156997?l=garfiar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://garfiar.blogspot.com/feeds/1991193714316156997/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492219&amp;postID=1991193714316156997&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/1991193714316156997'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492219/posts/default/1991193714316156997'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://garfiar.blogspot.com/2010/11/papel.html' title='Um repentino pensamento libertador'/><author><name>[garfanho]</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17129945656015259275</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-9036590584961680608</id><published>2010-11-04T10:49:00.001Z</published><updated>2010-11-04T18:50:51.062Z</updated><title type='text'>A Espera</title><content type='html'>Enfastiado, o coelho debicava uma cenoura. Com ar pensativo, a galinha ruminava lentamente uns grãos de milho. Sentada nas patas traseiras, a vaca roía um feixe de ervas frescas contemplando de a
