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Com movimentos erráticos e descoordenados que o obrigaram a voltar duas vezes atrás, João Marcelo foi buscar o telemóvel, a carteira e as chaves do automóvel à sua sala, despediu-se com um até amanhã de fugida à funcionária, que mostrou o tempo todo um sorriso sobranceiro e condescendente ao patrão, meteu-se no elevador e desceu até à cave do prédio.
João Marcelo caminhava com passos rápidos mas pouco firmes, ainda que tentasse manter uma certa compostura no andar, pois, não conseguia afastar a preocupação que, desde o primeiro momento em que Maria lhe dissera que o amante dos nomes estava à sua espera à porta de casa, o tinha envolvido totalmente como película aderente que lhe dificultava os movimentos, a respiração e, finalmente, o raciocínio. João Marcelo ia preocupado, muito preocupado. Aliás, o psicólogo ia mais do que preocupado, ia quase em pânico, sem conseguir principalmente perceber porque Maria se tinha lembrado dele e o que esperaria ela que ele fizesse quando se confrontasse com o amante dos nomes.
“Dou-lhe uma cabeçada no nariz” decidiu o psicólogo quando quase chocou com um poste. “Chego lá e dou-lhe uma valente cabeçada no nariz!”, repetiu animado e a imaginar toda a cena:
ele, decidido e viril a sair do automóvel;
ele a dirigir-se, com ar destemido, ao homem que, de dedo em riste junto ao nariz de Maria, a ameaça;
ele a tocar, com intrépida elegância, no ombro do outro;
o outro a virar-se para ele com cara de parvo e, depois, ao encará-lo, a ficar apavorado;
Maria a olhá-lo com deleitosa admiração – João Marcelo gostou particularmente da deleitosa admiração de Maria;
o outro a semi-cerrar as pálpebras com ar demente;
ele impassível a olhá-lo nos olhos e a mandá-lo desaparecer sem levantar a voz;
o outro, enxovalhado e desesperado, a pôr a mão no bolso das calças;
ele, calmo, a ver aparecer um cabo preto enorme de uma navalha de ponta e mola que o outro tira do bolso e que, pelo mero facto de a deter, lhe altera as feições, passando da expressão de um cobarde que tinha até aí para a de um cobarde com uma faca na mão;
o olhar suplicante mas tranquilo de Maria, certa da vitória do seu defensor;
ele a dizer qualquer coisa ao outro em tom harmonioso e descontraído;
o outro, surdo à razão, à harmonia e à descontracção, a erguer a navalha na sua direcção e a soltar a lâmina;
e, por fim,
ele, após um prévio e galante pedido de desculpas e uma justificação ponderada de que era o outro que o obrigava a agir, a colocar a cabeça para trás e a lançar, num gesto perfeito, a testa contra o nariz do meliante que cai a sangrar e que fica no chão a chorar como um menino. Um garoto. Um bebé.
Ah!
Seguro de que nada se passaria assim mas satisfeito com a cena imaginada, João Marcelo dirigiu-se ao automóvel que avistou ao fundo d0 corredor com novo alento e ânimo. As luzes dos piscas do automóvel piscaram quando ele carregou na chave, desarmando o alarme e abrindo as portas, “E se ele for mais alto do que eu?”, pensou, continuando a carregar na chave para baixar os vidros. “Salto!”, resolveu com um sorriso confiante, feliz com a eficaz simplicidade, até esteticamente mais vistosa, da solução encontrada. “Dou um salto e uma cabeçada! Com certeza que o homem não é jogador de basquete.”
2 comentários:
E um cof com a deleitosa admiração de sempre da tua
São Rosas
LOL
Que rica forma de um psicólogo resolver um problema... com razoabilidade, sei lá!
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