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Para quem o visse de longe e não o ouvisse falar, Saul Caldeira não parecia um tipo complicado.
Alto, espadaúdo e sempre bem composto, Saul Caldeira é um desses choninhas anónimos e apagados que passam despercebidos grande parte da vida até que, chegando a meio dos trinta, ganham compostura e importância e se descobrem cheios de si, opiniosos e surpreendentemente emproados, procurando disfarçar o seu ar embaciado e desinteressante de sempre com o porte que as gravatas e as roupas de marca lhe podem dar.
Calado, introvertido, engraxador e obtuso, ainda que as três primeiras características escondam a quarta, Saul subiu sem dificuldade na hierarquia do serviço distrital do instituto público onde trabalha até chegar ao patamar de uma posição de chefia, que não ambiciona e que consegue evitar, mas que lhe permite, ainda assim ou por isso mesmo, ser a eminência parda do serviço, com a fama – mítica – de ser técnica e humanamente muito bom.
Não é, nem uma coisa nem outra. Saul é um tipo ressabiado, sem paciência e sem qualquer tipo de tolerância a contrariedades ou rejeições e, tecnicamente, não é uma nódoa porque é demasiado cuidadoso e vaidoso para assumir um erro ou falha, que consegue sempre, por portas e travessas, às vezes, como se fizesse um favor, assacar a outrem.
Maria tinha-o conhecido profissionalmente e, sem perceber muito bem como, tinha acabado enrolada com ele ou, para ser mais preciso, com ele enrolado nela quatro vezes; cada uma delas pior que a anterior.
Maria percebeu no terceiro encontro, ainda que não conseguisse identificar a razão concreta, que Saul vinha com intenção de ficar, de se estabelecer, de não só se enrolar nela amiúde como de se enrolar à sua vida. E, percebeu igualmente nesse terceiro encontro – um jantar, com copos, dança e ele em casa dela –, que Saul não era o que aparentava ser ou, se calhar era, ela é que não tinha percebido a vacuidade e vulgaridade do seu estilo e aparência que, depois de decifrado, era o perfeito reflexo do homem vaidoso e oco que ele era.
Provavelmente por isso ou então por estar entediada, Maria, no quarto encontro, enquanto suportava os movimentos gelatinosos de Saul a embater-lhe nas nádegas e sentia as suas palmas das mãos suadas e frias nas ancas, ouviu-se a pedir para que ele dissesse palavrões e lhe chamasse nomes, que ela, naquele momento, achava que merecia para ver se ganhava juízo e se distraía dos ridículos movimentos pélvicos do amante e das suas mãos que lhe lembravam peixes mortos a descongelaram sobre a sua pele.
– Força! Força! Dá-me com força! Força! Chama-me nomes! Bate-me!
Surpreendido e contrariado, Saul bateu-lhe desajeitadamente nas nádegas, aumentou a cadência e reforçou o movimento das ancas por alguns segundos mas continuou em silêncio e Maria insistiu no que ele não fez:
– Chama-me nomes! Chama-me nomes, foda-se!
Saul grunhiu qualquer coisa ininteligível, tornou a bater-lhe molemente nas nádegas e voltou a pousar as solhas descongeladas nas ancas da mulher.
– Agarra-me, foda-se! – gritou Maria, furiosa consigo própria por estar ali. – Agarra-me e chama-me nomes!
Saul obedeceu novamente só ao primeiro pedido e apertou as mãos de encontro às ancas dela como se a agarrasse, como se pretendesse colar-lhe mais peixes mortos ao corpo, depois, como as mãos suadas lhe escorregassem, cruzou os braços em cima dela e agarrou-a, a mão esquerda na anca direita e a direita na anca esquerda, fazendo força para as mãos não escaparem e, por isso, puxando-a involuntariamente para si sempre que ia para a frente. Enraivecida com o silêncio dele, Maria lançava-se de encontro a ele cada vez com mais força, cada vez mais depressa e berrava como uma possessa:
– Chama-me nomes, foda-se! Chama-me nomes, parvalhão!
2 comentários:
E o gajo, nada?!
Cof, foda-se!
Rai's parta o homem.. nem para chamar nomes serve...
Gostei particularmente da imagem das solhas descongeladas! LOL
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