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A engenheira, remoendo injúrias, ofensas à honra e maldições ao psicólogo, descia no elevador a resmungar e a imaginar o que podia fazer para o aborrecer – a mulher procurava ideias de vingança maléficas e grandiosas mas, na realidade, ela só o queria aborrecer e isso aborrecia-a. Sentia-se mal, queria mais, queria ser pior. Sentia como imperdoável que ele não só lhe tivesse resistido como, no fim, ainda a deixasse pendurada entre a porta do consultório e o riso escarninho e mal intencionado da funcionária que lhe cobrara a consulta e se despedira de si com insultuosa normalidade. “A puta! O Tapioca havia de ter gonorreia e pegar-lhe!” Mas, se pensava isso de Patrícia, com quem acabara por ter uma conversa minimamente civilizada antes de entrar para a terapia, não conseguia estender esses sentimentos ao psicólogo, a quem – “foda-se!” – só queria aborrecer. “É triste.”
O elevador abriu-se e a engenheira saiu na cave ainda sem ideias, encaminhando-se em passo propositadamente lento para o estacionamento privado da Clínica, onde deixara o automóvel. Seguia pesarosa mas inconformada quando, com a mão enfiada dentro da pequena mala de marca à procura do comando do seu automóvel, reconheceu o do psicólogo. Parou a olhar para ele à espera de uma epifania ou, pelo menos, de uma ideiazinha exequível de vingança, quando sentiu na ponta dos dedos o pedaço de tecido que guardara na mala. E teve-a. Era brilhante! Riu-se e depois ponderou as consequências da sua ideia e concluiu com um sonoro:
– Que se lixe! – A que contrapôs em silêncio um “No pior dos casos são mais umas horas de terapia ou…” A engenheira hesitou quanto a pensar conscientemente o que já intuía poder acontecer mas decidida, sorriu, agarrou na tanga preta, tirou-a da mala, cheirou-a e concluiu: “Ou tem de me analisar as taras ou renuncia e indica-me outro psicólogo. Que se lixe, assim é que não pode continuar.”
De tanga preta na palma da mão, a engenheira olhou em volta, verificou que ninguém a via, encostou-se ao automóvel do psicólogo para ficar mais resguardada e pôs a tanga amarrotada por baixo da saia entre as virilhas. Ria-se enquanto humedecia e impregnava a tanga de fluidos e aromas. Tudo a excitava e ria-se cada vez mais, acabando por se encostar ao automóvel quando sentiu um pequeno arrepio que a fez vacilar. Cerrou os dentes, parou e cheirou a peça de lingerie com uma forte inspiração pelo nariz, ficando satisfeita com o odor fesco e perfumado “a prazer e deboche”. Então, embrulhou-a o melhor que conseguiu e segurou-a com a ponta dos dedos frios e trémulos, beijou-a e prendeu-a no manípulo da porta do automóvel do psicólogo, escondendo-a o mais possível de forma a só ser percebida por quem estivesse a abrir a porta.
Delirante a engenheira deu três passos na direcção da mala do automóvel e tornou a aproximar-se como se fosse abrir a porta. Riu-se: a tanga mal se via. Era quase certo que o homem só daria por ela quando a tivesse na mão. “Não tem hipóteses!” e imaginou a surpresa do psicólogo quando lançasse a mão para abrir a porta e se deparasse com tal prenda. “Eu não tinha. Agora tens tu!”
Sem pensar, ou melhor, sem sequer dar por isso, a engenheira lambeu o vidro da porta do condutor, puxou a mini-saia para baixo, ganhando dois ou três centímetros de recato, e afastou-se sem conseguir parar de rir.
4 comentários:
Isto sim, é que é dar tanga!
(tantos cofs, com este sofá...)
Safa, uma pessoa distrai-se um pouco e de repente já há material para um livro!; isto é que tem sido garfanhar, hein?! ;-)
@São Rosas: : )
;O)
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