12
O psicólogo, a patinar na resposta da engenheira à pergunta que ele não chegara a fazer, ficou a olhar ora para a porta que ela fechara ao sair, ora para o telemóvel que tocava e mostrava um número que ele não conhecia, amargamente arrependido da precipitada decisão de atender a chamada em detrimento da conclusão da conversa com a engenheira. E, apesar de se fixar nos dois objectos à espera de mudanças, nada aconteceu: a porta continuou fechada e o telemóvel continuou a tocar. Resignado, concluiu que já não podia mudar nada, a engenheira fora-se e não voltaria a abrir a porta até à próxima consulta e, ainda que não conseguisse esquecer ou decifrar o “Não, não tenho”, a única coisa que agora podia fazer era atender o telemóvel. Fê-lo.
– Doutor?! – disse-lhe uma voz feminina.
– Sim. – O psicólogo reconheceu a voz mas não a identificou.
– Ele está aqui.
João Marcelo registou e pensou na frase ligando-a à voz que a dissera, sem que, no entanto, conseguisse concluir fosse o que fosse. Na realidade, parte do seu cérebro já deixara de patinar no “Não, não tenho”, pois, já estava aí completamente atolada sem conseguir ultrapassar a dúvida quanto ao que ela não, não tinha, nem quanto à pergunta que ela pensava que ele lhe ia fazer mas não fez. “Não, não tenho”, ruminava, enquanto distraidamente pensava na voz que lhe falava ao telemóvel. “Eu ia-lhe perguntar se o sofá se colara a ela. Não, não tenho, não é resposta… Não tem o quê?”
– Ele está aqui, doutor – repetiu a voz conhecida mas ainda anónima.
– Quem? – perguntou João Marcelo, decidido a tentar perceber, sem perguntar, quem lhe ligava.
– Ele, doutor… – A voz exprimia algum desapontamento e exasperação pela pergunta. – O tipo dos nomes.
– Ah… – O psicólogo compreendeu o desapontamento da paciente, devia ter percebido logo que era ela que lhe estava a ligar. – Maria!... Ah!... Não estou a perceber. Ele está aí? Onde?
– Ele está à minha espera, doutor, à porta do meu prédio.
“A senhora tem um prédio?”, pensou perguntar em tom de graça mas retraiu-se e só perguntou: – Acha que vai haver problemas, é? – e, pensou mas não disse: “E liga-me a mim?!”
– Não sei… Ele esteve a mandar-me mensagens todo o tempo que eu estive consigo e eu só as vi quando saí. – Maria falava rapidamente mas sem levantar a voz – E, a partir da terceira ou da quarta, as mensagens tornaram-se ofensivas e eu não as vi todas… E agora ele está ali, à minha espera. – A mulher suspirou e viu o amante descontinuado de braço no ar a acenar-lhe.
– Mas quer que eu vá aí? – O psicólogo rodeando a secretária, saiu do gabinete e, tapando o telemóvel com a mão, sussurrou à funcionária: – Dê-me aí ficha da Maria S.
– De quem? – Perguntou a funcionária pois o psicólogo dissera mesmo Maria S., como se estivesse num livro de um autor russo do fim do século XIX.
– Ele já me viu, doutor, tenho de ir ter com ele – informou Maria, recomeçando a andar, ainda que o psicólogo não o soubesse.
– Da paciente das 17 – concretizou o psicólogo, ainda com a mão a tapar o telefone, que tirou para gritar novamente: – Mas quer que eu vá aí?! – Patrícia com cara de caso estendeu-lhe a ficha solicitada. Ele agarrou-a, sem a ver, e sussurrou: – Tem a morada dela? – A funcionária confirmou com a cabeça e o psicólogo perguntou: – Há mais alguém?
– Não, está só ele… Que eu veja, está só ele – respondeu a paciente, caminhando lentamente. – Porquê, o doutor acha…
– Ah! Não, não era consigo, Maria – Interrompeu o psicólogo, percebendo a informalidade com que estava a tratar a paciente mas sem o conseguir evitar, e decidido informou: – Eu vou já para aí! – Regressando ao gabinete para ir buscar a carteira e as chaves, já sem tomar atenção ao telemóvel.
– Não é preciso, eu só gostava que o doutor ouvisse a conversa – disse a mulher, sem que o psicólogo a ouvisse. – Eu vou pôr o telemóvel na mala mas não desligo.
– Não há mais ninguém, Patrícia? – repetiu o psicólogo, afogueado. A funcionária confirmou que não com um aceno.
– Aconteceu alguma coisa, doutor? – Perguntou Patrícia, descontente com a falta de informação que podia pôr em causa o seu encontro com o segurança. – Há algum problema?
– Não – respondeu o psicólogo, encaminhando-se em passo acelerado para a porta. – Acho que não.
– E ainda volta, doutor?
– Não. Acho que não. A ficha tem a morada certa?
Patrícia fez uma careta e gritou para a porta que se fechava:
– Tem! – Abanou a cabeça e falou baixinho, para si: – Tem a morada de Maria S., na Rua I., na região de L.
1 comentários:
Bom, cada vez mais emocionante!
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