28 de Outubro de 2011

Nomes (cont.)

7
O psicólogo, rodando nervosamente a maçaneta da porta, ouviu o comentário de Maria acerca do sofá mas não se conseguiu decidir por uma resposta satisfatória e permaneceu calado. Maria sorriu, aproximou-se dele e, meneando a cabeça, pediu passagem enquanto se despedia. O psicólogo abriu a porta e respondeu com um sumido “Até para semana”, acompanhado de uma ligeira vénia. Então, sorriu para a engenheira Fátima sem verdadeiramente a ver, e pediu, dirigindo-se também a Patrícia, que igualmente não viu, que lhe dessem dois minutos. Em silêncio, as mulheres baixaram ligeiramente a cabeça, anuindo; o que ele, naturalmente, também não viu.
Maria pagou e saiu, praticamente sem falar, sentindo-se observada, medida e analisada pela paciente seguinte.
Marcelo fechou a porta do seu gabinete e parou a olhar o sofá impróprio para peles nuas.
Insatisfeito com a mera apreciação visual, virou-se para trás e trancou a porta com cuidado para não fazer barulho. Voltou-se de novo para o sofá, aproximando-se lentamente, de forma quase furtiva, ao mesmo tempo que, sem saber porquê, pensava em como cato era absurdo. Tinha lido a palavra já não sabia onde e havia ficado preciosos segundos a tentar decifrar o que queria dizer cato. “Cato?! Quem é que quer escrever cato?! Que estupidez!”.
Encostou-se ao sofá.
Em pé, pousou a palma da mão direita na almofada do meio e moveu a mão lentamente procurando detectar alguma réstea do calor do corpo de Maria, sem resultados. Então levou a mão até à costura da almofada onde estiveram as pernas da mulher e procurou sentir algum resquício da sua presença, o que também não conseguiu, apesar de cheirar a palma da mão com insistência. Resignado, pousou as mãos no sofá e ajoelhou-se, acomodando primeiro os antebraços no sofá e depois a cabeça, que pousou de lado, colando o ouvido à almofada como um índio aos carris. Não sabia o que esperava ouvir ou sentir e, na realidade, apesar de um esforço de imaginação, não ouviu nem sentiu nada. Levantou a cabeça e moveu as mãos sobre o revestimento do sofá mas não sentiu qualquer atrito ou fricção. Cheirou a almofada e suspirou, desanimado. Levantou-se. Deu então três passos na direcção da porta e parou. Coçou a cabeça e encolheu os ombros. Enfiou as mãos nos bolsos das calças.
“Abandonado pelos seus companheiros a uma morte lenta e horrível sob o sol inclemente do deserto de Sonora, Josh cambaleava entre os catos que pareciam observar curiosos a sua agonia terminal… Entre os catos! A pessoa está a ler isto e pensa logo que há aqui uma gralha e o desgraçado do Josh anda no deserto a cambalear no meio de gatos. Gatos sentados, impávidos e serenos, a vê-lo cambalear, à espera que ele morra para lhe saltarem para cima e arranhá-lo e comê-lo com pequenas dentadas de catos… Mas isso não tem lógica! E há um momento em que o cato parece que nos ocupa todo o cérebro, que não há possibilidade de explicação para os catos no deserto. O que nos deixa prostrados e cambaleantes como o Josh mas sem os catos, seja lá o que isso for. Aproxima-se uma depressão. Há o sério risco de um irremediável desligamento da realidade… E, de repente, faz-se luz. Primeiro, uma luz ténue como um pirilampo sifilítico a dar as últimas. Mas depois acendem-se as luzes de milhões de pirilampos atafulhados de esteróides, como uma praga bíblica que nos cega de vergonha e embaraço: catos são cactos. Catos são cactos! Josh cambaleia no meio de cactos! Mas já não conseguimos ver. Há gatos atrás dos cactos e a morte horrível de Josh no meio do deserto de Sonora (ou um bocadinho para a direita) já não tem impacto. Josh morre para nada, é um triste. Catos! Que pouca sorte…”
Marcelo encolheu os ombros mais uma vez, ainda que sem convicção, rodou sobre os calcanhares, tirou as mãos dos bolsos e fez uma careta ao sofá. Deu os três passos que o separavam do sofá, desapertou o cinto, desabotoou as calças e empurrou-as para baixo, deixando-as amarfanhadas junto aos sapatos. Indeciso quanto a tirar as cuecas, permaneceu um pouco de pé, com as mãos nas ancas. Virou-se para se sentar. Tornou a encolher os ombros, baixou as cuecas e sentou-se.

2 comentários:

São Rosas disse...

Este sofá impróprio para peles nuas ficaria tão bem a dar consultas n'a funda São...

Nanny disse...

Parece-me que o teu psicólogo está a precisar de consultar um colega... ou uma colaga, sei lá!