Sexta-feira

As Mãos

As mãos aproximaram-se como se tivessem vontade própria. Tocaram-se. Roçaram primeiro levemente, costas com costas. Os indicadores saíram ligeiramente da formação e encontraram-se um com o outro, como corajosos batedores ao serviço dos restantes dedos ainda expectantes. Por um instante apenas eles se tocaram, indicador contra indicador, cruzando-se, sentindo-se, tacteando o desejo do outro, a vontade do outro. Sem parar, ele e ela continuavam a andar, a falar sobre uma coisa qualquer, como se as mãos que se tocavam, os dedos que se roçavam e entrelaçavam fossem sorrisos etéreos, sem corpo, sem passado nem futuro, sem justificações nem expectativas e não lhes pertencessem nem os vinculassem. Os toques leves, o roçagar ainda acidental que se podia explicar pela lenta caminhada lado a lado, entre sorrisos, risos e conversa sem conteúdo, deu lugar, espontaneamente, a um encadeamento perfeito, como se os dedos se vissem, soubessem o que fazer, como se as mãos se conhecessem, como se a pele se atraísse, e atraía. Mais do que mãos dadas, eles sentiam-no ainda que o evitassem pensar, era um abraço, eram dois corpos unidos por duas mãos; uma estranha união, que eles, perplexos, cada um por si, cada um com as suas razões, com as suas incertezas, sentia como completa, como estranhamente correcta, certa. As mãos juntas, sem que qualquer um deles o mencionasse sequer, para não quebrar o momento, o encantamento, representavam o que as bocas queriam, o que os olhos desejavam, o que os corpos esperavam sem que os cérebros o quisessem reconhecer.
A compasso, sem uma palavra, pararam e viraram-se um para o outro, unidos só pelas mãos, depois pelos olhos, pela boca, pelos braços. Beijaram e abraçaram na fúria contida da primeira vez, na contenção furiosa do tempo que esperaram para o fazer.
Depois, um beijo rápido, lábios que quase não se chegaram a tocar, e retomaram a caminhada, sem sorrisos, sem palavras, no pavor de chegar
, unidos de novo só pelas mãos como se estas tivessem vontade própria.
Aproximaram-se dos dois carros lado a lado, que haviam estacionado antes de se encontrarem para lanchar, e despediram-se com o formalismo da amizade e partiram sem mais, de mãos dadas.
– O teu carro fica ali?
– Fica – e beijou-lhe levemente as costas da mão que continuava unida à sua.

Segunda-feira

Um Curto Reencontro

Encontraram-se, por acaso, num bar. Cumprimentaram-se. Ela olhou-o, ganhou balanço e avançou sem rodeios mas com um sorriso torcido a preparar a fuga se necessário fosse:
– Nunca mais me disseste nada. – declarou. – Desapareceste.
– Desapareci? – perguntou ele, apenas para ganhar tempo, sorrindo só com a boca.
– Foi – afirmou ela, abrindo o sorriso defensivo. – Nunca mais disseste nada.
– Pois não – reconheceu ele, esboçando um ténue sorriso comprometido, procurando-lhe os olhos para perceber o terreno que pisava. Não compreendeu, o sorriso voltara à primeira forma, torcido mas sem qualquer ressentimento, o que ele preferiria. – Tens razão, nunca mais te disse nada.
O sorriso dela fechou-se por um instante, a franqueza dele desarmava-a sempre, ela sabia-o e, ainda por cima, nunca percebia se ele fazia de propósito ou se era mesmo assim.
– Porquê? – retorquiu ela, encolhendo os ombros, recuperando o sorriso e baixando propositadamente a pouca carga dramática do diálogo. Com eles não havia dramas, nunca houvera. – Porque é que nunca mais me disseste nada? – e gracejou, ante o desconforto dele: – Estavas com medo de mim?
Ele olhou em volta, pensativo, pôs os cotovelos nos braços da cadeira, entrelaçou as mãos em cima da mesa, mostrou-se pouco à vontade, separou as mãos e procurou o copo com a mão direita, segurou-o, aproximou-o de si sem o levantar da mesa e, sem a olhar, respondeu:
– Não sei – bebeu um gole, molhando os lábios, tornou a beber e despejou meio copo. – Achei que estavas à espera de algo meu que eu não te podia dar...
– O quê?! – interrompeu ela, surpreendida, furiosa. – Eu nunca te pedi nada!
– Ah! – Ele tentou sorrir, achou que havia ali um mal entendido qualquer, não estava à espera daquela reacção. – Não é isso – e, nervoso, não conseguiu deixar de rir, principalmente porque não sabia do que estava a falar, nem fazia ideia do que ela estava a pensar.
– Não é isso, o quê?! – inquiriu ela, o riso nervoso dele enfurecera-a ainda mais.
– Espera – pediu ele, sério –, deixa-me explicar.
Mas ela, espantada com o seu olhar saltitante e com a sua cara de vítima, já não quis saber.

Quinta-feira

Nunca tinha comido um "fortune cookie" ou bolinho da sorte, daqueles que se vêem nos filmes e séries americanas com um papelinho lá dentro contendo uma mensagem mais ou menos críptica, mais ou menos engraçada e com mais ou menos relevo para o desenrolar do filme ou série em questão.
Nunca tinha comido mas agora já comi - ofereceram-me um - e, se o bolo, na verdade uma espécie de bolacha, não é bom nem é mau, o papelinho fez-me voltar aqui, ainda que, provavelmente, contrariando o seu propósito, ora leiam:

You should respect the power of words and choose them with caution.

E é isso que tenho feito, talvez com cautela a mais, pois, não escrever não é respeitar as palavras nem, muito menos, escolhê-las com cuidado; não escrever é apenas a ausência de escrita, de palavras, é não só não as escolher como, realmente, acaba por ser um desrespeito ao poder das mesmas. Vou pensar nisso.