Quinta-feira

(alguém se lembra do Pereira da repartição? É ele!)

– Está muito cheio, doutor? – Pergunta-me a lasciva empregada de balcão, que, até hoje, não me deu abébias, "ou comia-me e mais qualquer coisa?" parece perguntar-me, surpreendendo-me.
Olhámos para a chávena de café, está quase a transbordar. Os nossos quatro olhos – três, virei a saber depois – encontram-se uns centímetros acima do café, ela sorri e eu retribuo.
– Ainda cabia mais qualquer coisa... – digo, tentando apresentar uma expressão facial sorridente e dúbia que pudesse corresponder ao pensamento entre aspas que acabam de ler e que eu acho que ela estava a ter.
A pastelaria está quase deserta, tirando umas doze ou quatorze pessoas sentadas e outras sete ou oito em pé, isto, claro, se formos generosos e tivermos a malha pouco apertada quanto à definição de pessoas. Ela ignora olimpicamente pedidos e chamadas de atenção e mantém-me no centro das suas atenções. Eu estou excitadamente nervoso ou nervosamente excitado, nem sei, mas estou a gostar. Ela encolhe o sorriso, mas não se afasta, põe ar de menina travessa e pergunta:
– Acha, doutor? – carregando sensualmente no doutor. – Conseguia e... – ronrona – comia?
"Se conseguia?! Se conseguia?!", eu já vou a duzentos à hora, pronto para me estampar ao mínimo deslize. Hesito na resposta, ela deixa crescer o meio sorriso ante a minha evidente atrapalhação, a expressão facial sorridente e dúbia já era. Devo acrescentar, sem jurar, que ouvi um "me" no fim do ronronado "comia" mas por essa altura, após a pausa que antecedeu o miado, já pouco ouvia, confesso, provavelmente terei imaginado, ela não me disse "comia-me?", ainda que a expressão do Oliveira que se colou a mim me fizesse crer exactamente o contrário, ele ouviu, conseguirá ainda em choque dizer-me umas horas depois, mas também não acreditou.
Respiro fundo, faço que estudo o tampo do balcão e torno a respirar, parece-me que se não me capacitar que o tenho de fazer o meu corpo não o faz por mim. Inspiro. Expiro. Inspiro.
– Quando é bom, cabe sempre mais qualquer coisa – respondo por fim, ignorando a última pergunta. Inspiro. Expiro. – Como se costuma dizer, quem come por gosto...
– Não é corre, doutor?
– Mas quem come com gosto também não se cansa, não acha?
– Lá isso é verdade – ela abre o sorriso. Eu mexo o café e entorno para o pires, mas faço-me despercebido, como se fosse de propósito. Ela continua: – E gostava de... – baixa e torna a levantar os olhos, encontrando-os com os meus. – Quero dizer, gostava... O doutor gosta de comer?
Decido dar um passo em frente, que se lixe, não sou doutor.
– Gostava – faço uma pausa para sublinhar o gostava e concluo como se estivesse seguro do que estou a dizer: – Gostava, gostava muito de... comer – o "a" é que não tive coragem de incluir, não saiu ainda que eu não pensasse noutra coisa. – Quero dizer, gosto, gosto muito de comer.
A frase soou-me mal, muito rasteira, ou melhor, o acrescento soou-me mal, mal metido, muito evidente, sem graça e temi o pior. Ela enigmatizou o sorriso e o olhar e atendeu displicentemente aquele a quem já se tem chamado Borrego, mas que não entra nesta história.
Bebi o café.
Ela não me olhou.
Tirei as moedas do bolso e coloquei uma de 50 cêntimos em cima do balcão. Olhei para dentro da chávena, confirmando que bebera tudo e, na certeza, de que a responsabilidade do insucesso era minha, preparava-me para sair.
– Já vai, doutor? – perguntou com uma ponta de tristeza. – Afinal, não come nada?
"Mau" penso, tentando esfriar o entusiasmo, quando a esmola é muita o pobre desconfia ou, pelo menos, devia desconfiar.
– O que eu queria – fixo-me nos seus olhos, – não posso comer agora! – com ponto de exclamação e tudo. Agora agarra, vamos lá ver se te desenrascas desta, venho aqui há dois anos e hoje, de repente, passas do oito para o oito mil sem justificação, nem preparação prévia. Eu sei que sou giro, mas isto é demais.
Ela abre o sorriso que se estende a toda a face, não!, a todo o corpo.
– É? – Agarra na minha chávena e pires. – E o que é que o doutor queria comer que não pode comer agora?
– Ah!...
E, felizmente, o Oliveira e o Borrego em coro, como duas meninas, começaram a tossir, a agitar-se, quase a desfalecer e ela com uma careta safou-me:
– É melhor ajudar os seus amigos, doutor, que eles não me parecem nada bem – piscou o olho direito e murmurou: – Amanhã à mesma hora e não se esqueça de me dar a resposta!

Segunda-feira

(iv)

Já sob a imensa e legal exaustão atmosférica, Sónia e Carla ainda riam quando encostaram a porta de vidro que dava acesso à varanda do vício, como todos lhe chamavam. Carla acendeu prontamente o seu cigarro, entrincheirou o isqueiro em mão protectora, estendeu-o na direcção da ponta do cigarro de Sónia e, ainda o fumo não chegara aos pulmões da amiga, avançou sem rodeios:
– Vão?
Sónia sabia que a “água”, a mesma água que as trouxera ali, havia de trazê-los à tona e que o cigarro era apenas uma desculpa da amiga para saber dela e dele, mas não esperava que os corpos – pensou assim, “os corpos” – dessem à costa logo na primeira onda. Engoliu o sorriso com a segunda passa no cigarro e fez-se despercebida:
– Vamos?... Quem?
– Tu e ele. Vão?
Sónia lembrou-se das magníficas unhas pintadas a baterem no tampo da secretária, revelando a impaciente curiosidade da amiga, e sorriu com a sua transparência, sem subterfúgios nem rodriguinhos. Era directa. Carla era sempre directa. Sónia levou o cigarro à boca, deu uma passa especialmente demorada, exalou o fumo com lentidão e, no fim, tentou:
– Sabes que ando para te perguntar uma coisa…
– É?! O quê?
– Estás a fumar mais?
– O quê?
– Estás a fumar mais?
– E o que é que isso tem a haver? – Carla olhava-a fixamente, propositadamente, sem definir a expressão.
– Com quê?
– Com vocês – o tom era ríspido, ainda que amaciado por um meio sorriso compreensivo. – Tu e ele.
– Nada – reconheceu Sónia, arqueando ligeiramente as sobrancelhas.
– Ah!... – Carla não se importou com a tentativa fracassada da amiga de desviar a conversa, encolheu os ombros e persistiu como se nada fosse: – Mas vão?
– Vamos.
– Ah!... É?... Onde?
– Estás a fumar mais, não estás? – insistiu Sónia.
– Vão onde? – Carla, como sempre, tinha a sua própria agenda, o seu próprio ritmo e escolhia em função disso as respostas que dava ou omitia e as perguntas que fazia.
Sónia, que a conhecia bem e sabia quando devia desistir de engodar a conversa em seu favor, deu outra longa passa, olhando distraidamente para outros homens e mulheres que fumavam noutras varandas e acabou por responder directamente e com sinceridade:
– Não sei – disse e, sem se virar, acrescentou: – Ele estava esquisito…
– É segunda-feira – sentenciou Carla e, tocando no ombro da amiga, apontou disfarçadamente para uma varanda à esquerda: – Olha!
– E depois?
– É o António.
Sónia seguiu-lhe o subtil movimento, a varanda não era longe, e os gestos eram perceptíveis à distância. O homem acenava.
– Não é isso – esclareceu, ainda que procurasse perceber quem era o António. – O que têm as segundas-feiras?
– Ah! – Carla sorriu e decretou a meio-tom: – As segundas-feiras são dias estranhos em casos extraconjugais.
– Desculpa?! – Sónia engasgou-se e tossiu mas Carla não lhe ligou, ainda olhava para a varanda do 3.º esquerdo das traseiras de um prédio do quarteirão, onde estava António e outro indivíduo. Sónia espantada, tanto com a forma como com a matéria da sintética mas definitiva tese da amiga, repetiu-lhe a frase: – As segundas-feiras são dias estranhos em casos extraconjugais – e questionou, de sobrancelha direita a sublinhar a estranheza: – Que merda de conversa é essa?!
Carla riu, acenou para António que lhe acenava com insistência e comentou displicentemente:
– Era um bom minete mas um chato do pior.
Sónia tornou a engasgar-se mas não tossiu. A sobrancelha direita, que por acaso era a esquerda, sinalizou a mudança de humor da dona e arqueou ligeiramente, para um trejeito cómico.
Carla, acenando para António, repetiu para amiga:
– Tinha uma língua brutal, fazia coisas… brutais mas de resto, era quadrado. Um chato do pior.
Sónia não se conteve e deu uma gargalhada:
– Um bom minete?
– Era, era um bom mineteiro – confirmou Carla, de polegar em riste, perguntando à distância se estava tudo bem com o mineteiro fumador que, percebia-se, inchara e sorria com quantos dentes tinha na boca ante os coloridos cumprimentos da mulher.
– António? – perguntou Sónia.
– Sim – respondeu Carla entre gestos e acenos excessivamente simpáticos, teatrais. – Achas que estou a exagerar? – perguntou a meia voz.
– Em quê?
– Nisto, nestes cumprimentos, nestes acenos – explicou Carla, ainda a gesticular. – É certo que ninguém me fez um minete como ele fazia…
– Era assim tão bom?
– Era de ir ao céu e… – Carla olhou a amiga directamente, suspirou e de sorriso beato e olhar ditoso completou: – E ir ao céu e ir ao céu e ir ao céu.
– Bolas! – pasmou Sónia, fixando-se em António, que continuava a gesticular e a sorrir com ar de parvo.
Carla esticou o polegar e o mindinho encolhendo os restantes dedos da mão direita que encostou à face enquanto acenava com a esquerda uma fria despedida e disse à amiga virando-se definitivamente para a porta envidraçada:
– Um bom minete mas pouco mais, de resto era muito mole. Acho que pensava que tinha uma língua de ouro e que isso bastava, o panhonha. E está na mesma, com o seu ar convencido e meio apalermado.
– Estavas a dizer-lhe para te ligar…
– Pois estava – Carla riu – e, se ele me ligar, vai falar com o Antunes.
– Qual Antunes? O Antunes, o teu ex?
– Sim – Carla não conseguia parar de rir –, ele é que ficou com o telemóvel que o António tem.
– O teu ex-marido ficou com o teu telemóvel?
– Ficou com um, disse que era da empresa – Carla falava despreocupadamente com um sorriso malicioso. – Quando me pagou metade da quota nas partilhas, quis ficar com tudo o que era da empresa e eu dei-lhe o telemóvel…
– Podias ter ficado com o cartão.
– Não – o sorriso cresceu e alastrou, a expressão facial e corporal de Carla era todo um tratado de satisfeita malícia. – O cartão é que interessava, eu só lhe disse que, se fosse a ele, não dava aquele telemóvel a ninguém e ele ficou com ele, o parvo, e não o desligou!
Carla deu uma gargalhada.
– Mas, afinal, o que tinha esse telemóvel?
– Tu não o tinhas – Carla não parava de rir. – O António tinha. O Fernando tinha. O Dr. Paulo tinha. O…
– Ah! E tu deste-lhe esse telemóvel?! – interrompeu Sónia, quase escandalizada.
– Dei – confirmou Carla a rir. Fez uma pausa, parou de rir e declarou séria: – Foi para ele perceber que enquanto andava a dar na secretária, aquela mamalhuda de merda, eu não estive propriamente a chorar pelos cantos, parvalhão! – Carla deu uma passa no cigarro, olhou pelo canto do olho confirmando o desaparecimento de António e virou-se de novo para a rua. – Não sei que raio de fixação é que os homens têm por mosquinhas mortas com mamas grandes…

Quinta-feira

o chato

Havia um chato que me chateava, o chato.
Era chato, o chato, que não me falava, nem me dirigia palavra.
Às vezes, olhava-me, o chato, e chateava-me. Ele sabia e disfarçava o sorriso de forma a que eu visse que ele sorria e disfarçava, o chato.
Era daqueles chatos que não se confrontam, nem se questionam.
O chato se pudesse chateava-me mais, chateava-me sempre.
Era chato, o chato que me confundia, aborrecia, só de o olhar, só de o ver e não o conseguia ignorar, nem ultrapassar.
Do chato podia fugir, mas não me conseguia esconder. Se estivesse dias sem o ver, havia de aparecer e era como sempre lá estivesse, a censurar-me, a condenar-me com um olhar, com um gesto sabido, estudado.
Acho que o chato ensaiava para o ser, porque o era de forma tão natural, tão absoluta, tão insidiosamente brutal.
Era chato, o chato que não me largava, mas que fugia ao contacto e não me via se eu lhe falava, o chato!
E, afinal, o chato era eu, disse-me que se chamava consciência por parte da mãe e escrúpulo por parte do pai.Vai-te lixar, pá, lancei-lhe eu, e ele, encolhendo os ombros deixou-se ficar e, sem mágoa, falou-me nos irmãos, o remorso e o arrependimento, que haviam de me vir visitar, mas que o problema não era dele e que, se ele era chato, havia de conhecer os outros.

Quarta-feira

É?

«Daqui ninguém sai na mesma», declarou nas suas brilhantes letras coloridas mas sem qualquer boneco amarelo no fim da frase que aliviasse a seriedade da declaração.
«Não sei», duvidei lacónico, armado em sofista de trazer por casa, escrevendo em letras negras, formais, de folha de vinte cinco linhas. Gosto de ser do contra mas, na verdade, estava de acordo. «Porquê?», perguntei, sem denunciar a minha opinião.
«X. está a escrever uma mensagem», li em letras pequenas por baixo da caixa de diálogo e esperei.
“Ter um blog, muda-nos?”, fiquei a pensar, “Vir ao messenger, muda-nos?”
Puxei um cigarro que não acendi e deixei-o ficar ao canto da boca, enquanto brincava com o isqueiro.
“Mudei porque tinha de mudar, porque o tempo passou. A simples passagem do tempo muda-nos”, tentei agarrar-me a uma verdade irrecusável e mais confortável, parece-me, tentando diminuir a importância do blog ou do msn.
«X. está a escrever uma mensagem» desapareceu e a mensagem não apareceu. Franzi o sobrolho, mas ela, naturalmente, não viu. Sorri, por pensar com tantas vírgulas.
«X. está a escrever uma mensagem», reapareceu, como o gargalo de uma garrafa entre as ondas. Qual solitário Robinson no meio do nada esperei que a garrafa, que não me iria salvar, contivesse algo para ler, nem que fosse apenas uma mensagem de outro náufrago como eu. Sentei-me na areia quente da praia que conhecia centímetro a centímetro à espera que a garrafa rolhada desse à costa. O mar encrespou-se e o gargalo da garrafa e a sua rolha apareciam e desapareciam entre a espuma e as massas de água ondulantes. Ansioso, acendi o cigarro.
“Daqui ninguém sai na mesma” reli, entre o fumo que toldava o monitor.
A falta de contacto visual, a ausência da leitura das expressões, dos olhos que brilham, das sobrancelhas que arqueiam, que sobem ou se contraem, de um sorriso que se abre ou que se esconde, as mãos que falam, as mãos que passam pelo cabelo, pelo nariz, pelo queixo, enquanto se fala, quando se hesita, quando se ouve, é um filtro enorme, uma barreira quase intransponível, que as palavras, os bonecos amarelos ou outros não conseguem transpor. Aqui somos outros ou, se calhar, somos nós, mais autênticos, escondendo-nos dos outros mas revelando-nos como somos, como queríamos ser, como podíamos ser.
– Tinhas razão – acabei por escrever à falta de mensagem do outro lado, na minha letra sem cor, sem brilho, como se me lançasse ao mar para apanhar a garrafa, vazia?
X. premiu simultaneamente no seu teclado as teclas shift e "‘" e no meu monitor surgiu um colorido e espinhoso “?”
Tornei a franzir o sobrolho, que acompanhei com o cerrar dos lábios, já que ninguém via, e expliquei, com a infeliz certeza que a garrafa já se havia perdido. A maré mudara e a mensagem passara ao largo.
«Não nos vermos, permite-nos uma facilidade de expressão que não temos quando falamos uns com os outros», escrevi, contrariado.
«ah isso», X. reconheceu a sua ideia, sem se dar ao trabalho de convocar maiúsculas ou pontuação.
E eu insisti, num esforço spitziano, ainda que me faltasse o bigode:
«daqui ninguém sai na mesma?»

Segunda-feira

outras coisas, que não cabiam aqui; as mesmas coisas com, pelo menos, uma revisão; e outras mesmas coisas que aqui nunca foram acabadas.

Quinta-feira

O PRIMEIRO POST (escrito tanto tempo depois)

Já sei.
Já?
Já. Está decidido.
Então?
Vou escrever um diário.
Um diário?! Um diário de quê?
Da minha vida.
Da tua vida?
Sim, estás a rir-te porquê?
Da tua vida?!
Sim, da minha vida! Podes parar?! Qual é a graça?
Não é nenhuma...
Então, cala-te!
Mas, é por isso mesmo que me estou a rir: a tua vida não tem graça nenhuma!
Invento!
Ah! Só se for...
O diário da minha vida depois do divórcio...
Do divórcio?!
Sim e...
Do divórcio?!
Sim, já te disse que é a minha vida depois do divórcio...
De quem?!
De quem, o quê?
O divórcio! A tua vida depois do divórcio de quem?!
Meu, de quem é que havia de ser?
Ah!... Claro, teu. Do teu divórcio!
Sim, se é a minha vida, é o meu divórcio.
O teu divórcio!
Sim, o meu divórcio! Que parte é que não percebeste?
Vais-te casar?
Não, porquê?
Então, onde é que arranjas um divórcio?
É a fingir, é um diário inventado, é o meu diário, mas eu sou outro.
Vais escrever um diário de outro gajo?
Não! Vou inventar um gajo e escrever-lhe o diário...
Depois dele se divorciar?
Sim.
Porquê?
Porquê o quê?
Porque é que se divorciaram?
Quem?
O gajo e a mulher!
Quem?!
Tu, ou melhor, o gajo do teu diário!
Ah!
Divorciou-se porquê?
Divorciou-se?
Bolas! O diário não é depois do gajo se ter divorciado?
É.
Então, tens de ter uma razão para os gajos se divorciarem!
Pois tenho.
Qual foi? Qual foi a razão?
Sei lá, ainda não comecei a escrever!
E o que é isto?
É o princípio.
De quê?
Do blog.
Qual blog?
O diário...
Do gajo que se divorciou?
Sim.
Então já começaste! O gajo divorciou-se porquê?
És chato! Sei lá, ainda não cheguei a essa parte.
Mas o diário não começa depois dele se divorciar?
Começa.
Quer dizer que o tipo já está divorciado.
Sim...
Então, tens de saber! Isso é antes do início! Isso é prévio ao próprio diário!
É, mas como sou eu que escrevo, eu é que sei.
Sabes?
Sei, mas isso ainda não.
E isto? Isto é exactamente o quê?
Uma preparação.
De quê?
Dos leitores.
Quais leitores?
Do blog.
Isto é um blog?
É.
E eu?
Tu?! Tu o quê?
Quem é que eu sou?
Sei lá! Estás-me a ajudar a preparar os leitores.
Para quê?
Para o que se vai seguir.
Precisam de preparação, é?
É.
É assim tão mau?
É um bocadinho, isto é um exemplo, estás a ver?
Se lerem isto conseguem ler o resto?
Sim, basicamente é essa a ideia.
E eu?
Tu o quê?
Quando é que recebo?
Recebes?!
Sim, por prepará-los!
Quando começar a dar qualquer coisa...
Isto?
Sim.
Então, vou andando que aqui não me safo!
Já vais?
Já, a minha vida não é isto...
Ah...
Olha! Mas de qualquer maneira: Boa sorte, que bem precisas.
Obrigado. Lês?
Achas?! Isto!?
É original.
O quê?
Nunca ninguém começou um blog assim.
E achas que foi porquê?
O quê?
Que ninguém começou um blog assim!
Nunca ninguém se lembrou?
É capaz, ninguém no seu perfeito juízo se lembraria...
Estás a chamar-me maluco?!
Eu?!
Sim, estavas a dizer que ninguém no seu perfeito juízo...
Claro! Desde quando é que se começa um blog assim?!
Desde hoje!
Está bem, por mim... desde que não me identifiques!
Não queres?!
Nem pensar.
Mas és o autor!
Autor?! Autor de quê?
Do blog, ora essa.
E tu?
Eu sou o narrador.
Qual narrador?
Do blog, de alguns posts.
E eu sou o autor?
Sim, és.
Não pode ser.
Pode e és, meu amigo.
Eu não sou teu amigo!
És o meu criador...
Mas isso não quer dizer que seja teu amigo! Sou o autor deste blog?
Está pior! És, não sabias?
Não! Não disseste que eu só estava a preparar os leitores?
Narrei, mas quem realmente escreveu foste tu.
Estou a ver... fui eu...
Foste. Continuas a não querer ser identificado?
Claro! Agora ainda menos. Vamos é começar isto, para eu me ir embora. Tu és o narrador, não é?
Sou, queres mudar?
Mudar?! Mudar o quê?
De narrador ou passares tu a ser o narrador...
Nem pensar! Eu vou-me já embora!
Não escreves?
É preciso?! Não és capaz de narrar sozinho? Isto não é o teu diário?
Hum... É o meu diário, de facto.
E o teu divórcio.
Sim, és capaz de ter razão. Se calhar, posso narrar sozinho.
E era mais genuíno!
Pois era! Não havia cá interferências exteriores!
Nem mais! Nem autores, nem bodegas. Um narrador e pronto!
Estou a ver...
Posso ir?
Podes! Eu acho que me desenrasco!
Adeus.
Depois dizes qualquer coisa? Escreves qualquer coisa?
Não, não é preciso, tu desenrascas-te.
Mas tu és o autor, tens de cá vir de vez em quando!
Tu és um bom narrador, narra à vontade!
Se tu o dizes!
Eu?! Eu não digo nada!
Não?
Não!
Ai é?! Eu também já não narro!
Não?
Não! "Pósto" só isto e pronto!
Então, posta, para veres os nomes que te chamam!
Vão-me chamar nomes?
Se alguém ler até ao fim e der-se ao trabalho, o que não acredito, só podem injuriar-te, ofender-te, qualificar a tua mãe...
Que se lixe, eu também não tenho mãe!
Não?
Não, eu sou só um narrador.
E os narradores não têm mãe?
Alguns podem ter, eu não.
Então, posta "p'raí"!
Só este.
Por mim...

Segunda-feira

(i) e (ii) estão aí para baixo, se quiserem ler, o que muito me admira - já vos disse que muito admirado fico sempre que vejo que alguém me lê? é verdade, fico mesmo e acho espantoso. olhem, obrigado. e desculpem lá qualquer coisinha de que gostem menos.

(iii)
– Já vais? – perguntou o metediço Óscar.
– Já, Alho – respondeu Paulo, conferindo o relógio de pulso. – Já chega, não achas?
O outro encolheu os ombros e acenou a cabeça com ar resignado.
– Tu ficas? – perguntou Paulo.
– E tu?
Paulo já o conhecia há mais de cinco anos, todavia, não conseguia atinar com as despedidas circulares do outro.
– Eu o quê? – inquiriu, a medo.
– Ficas ou vais?
Paulo suspirou, passou a mão pela face e, como se pedisse desculpa, respondeu quase em surdina:
– Vou.
– Ah!... Pois… – Óscar, a quem todos chamavam Alho, parecia reflectir no sentido da vida ou imaginar algo completamente diferente enquanto se fixava num pormenor qualquer do casaco de Paulo, que permanecia de pé, imóvel, hesitando entre acabar o arremedo de conversa com normalidade ou com uma espectacular fuga a correr, gritando palavrões e esbracejando como um louco.
– Vou andando, Alho. – Contrariado, Paulo decidira-se pela normalidade, apesar de preferir a corrida ou, pelo menos, um passo acelerado para fugir do colega, que durante o dia era absolutamente normal, mas que, ao fim da tarde, era acometido de uma absurda quase surreal incapacidade para se despedir. – Até amanhã.
– Ah… – soltou Óscar de olhos muito abertos. Paulo olhava-o à espera de uma continuação do “Ah” que parecia ter-lhe caído da boca. Óscar olhou para o relógio de pulso que mantinha pousado em cima da secretária, segurou-o e agitou-o. – Que horas são?
– Seis e vinte.
– Ah… – suspirou Óscar, colocando, sem mais, o relógio no pulso, com ar de quem sabia que não eram, nem nunca foram seis e vinte, nem nunca seriam, o ar era tão estupidamente absurdo, que quem o visse podia realmente convencer-se que nunca seriam seis e vinte.
– Porquê, que horas tens? – “Bolas!” censurou-se Paulo, quando ouviu a pergunta que havia feito.
Óscar Alho inchou, ruborizou e sorriu. Paulo não o acompanhou, pelo contrário, murchou, perdeu cor e cerrou os lábios.
– Eu não tenho horas, Paulo – expeliu Óscar entre despropositadas golfadas de riso –, mas o meu relógio regista dezoito horas e vinte e dois minutos…

Quinta-feira

All you need is me

– Sabes o que eu acho? – perguntou recostando-se no sofá de três lugares que ocupava a parede em frente à televisão.

Ela levantou os olhos do livro que lia, no sofá individual que se encontrava ao lado do móvel da televisão, e acenou que não.

– Que, provavelmente, seríamos mais felizes se alguém nos explicasse em pequenos que íamos passar o resto da vida sozinhos – declarou, sério.

Ela olhou-o com atenção.

– O quê? – inquiriu, enquanto, de relance, tentava perceber o que estava ele a ver na televisão sem som.

– Quando éramos pequenos nunca ninguém nos disse que íamos viver sozinhos – explicou. – Toda a nossa preparação tem a ver com a sociabilização, com a vida em sociedade, com a vida com os outros e, no fim…

– Estamos sempre sozinhos – concluiu ela, pousando o livro no colo, marcando-o com um dedo que mantinha entre as páginas.

– Sim – anuiu ele com um breve sorriso e, recostando-se mais no sofá, manteve-se uns segundos calado, de comando em riste mas sem iniciar o zapping que lhe fazia cócegas no polegar e perguntou: – Acabamos por estar sempre sozinhos, não é?

Ela mexeu-se o mínimo essencial para ele perceber que ia responder, estudou-lhe o semblante carregado e, preocupada, constatou a ausência de movimentos no polegar zappinante e disse:

– Se calhar não nos damos o suficiente para podermos deixar de estar sozinhos – levantou o livro, que não abriu, e segurou-o na vertical. – Se calhar, tentamos não depender de ninguém e isso obriga-nos a que, de alguma forma, estejamos sempre sozinhos.

As sobrancelhas dele ergueram-se concordantes, os lábios contraíram-se num leve sorriso oblíquo satisfeito, encolheu os ombros conclusivos e acenou com a cabeça agradecido pelo acordo dela, que só percebeu o fim da conversa pelos ligeiros movimentos de pressão do polegar no botão do comando que mudava sequencialmente os canais da televisão.

Olhou-o, concentrado nas imagens em movimento, abriu o livro e continuou a ler.