Segunda-feira

Um Curto Reencontro

Encontraram-se, por acaso, num bar. Cumprimentaram-se. Ela olhou-o, ganhou balanço e avançou sem rodeios mas com um sorriso torcido a preparar a fuga se necessário fosse:
– Nunca mais me disseste nada. – declarou. – Desapareceste.
– Desapareci? – perguntou ele, apenas para ganhar tempo, sorrindo só com a boca.
– Foi – afirmou ela, abrindo o sorriso defensivo. – Nunca mais disseste nada.
– Pois não – reconheceu ele, esboçando um ténue sorriso comprometido, procurando-lhe os olhos para perceber o terreno que pisava. Não compreendeu, o sorriso voltara à primeira forma, torcido mas sem qualquer ressentimento, o que ele preferiria. – Tens razão, nunca mais te disse nada.
O sorriso dela fechou-se por um instante, a franqueza dele desarmava-a sempre, ela sabia-o e, ainda por cima, nunca percebia se ele fazia de propósito ou se era mesmo assim.
– Porquê? – retorquiu ela, encolhendo os ombros, recuperando o sorriso e baixando propositadamente a pouca carga dramática do diálogo. Com eles não havia dramas, nunca houvera. – Porque é que nunca mais me disseste nada? – e gracejou, ante o desconforto dele: – Estavas com medo de mim?
Ele olhou em volta, pensativo, pôs os cotovelos nos braços da cadeira, entrelaçou as mãos em cima da mesa, mostrou-se pouco à vontade, separou as mãos e procurou o copo com a mão direita, segurou-o, aproximou-o de si sem o levantar da mesa e, sem a olhar, respondeu:
– Não sei – bebeu um gole, molhando os lábios, tornou a beber e despejou meio copo. – Achei que estavas à espera de algo meu que eu não te podia dar...
– O quê?! – interrompeu ela, surpreendida, furiosa. – Eu nunca te pedi nada!
– Ah! – Ele tentou sorrir, achou que havia ali um mal entendido qualquer, não estava à espera daquela reacção. – Não é isso – e, nervoso, não conseguiu deixar de rir, principalmente porque não sabia do que estava a falar, nem fazia ideia do que ela estava a pensar.
– Não é isso, o quê?! – inquiriu ela, o riso nervoso dele enfurecera-a ainda mais.
– Espera – pediu ele, sério –, deixa-me explicar.
Mas ela, espantada com o seu olhar saltitante e com a sua cara de vítima, já não quis saber.