Quinta-feira

o chato

Havia um chato que me chateava, o chato.
Era chato, o chato, que não me falava, nem me dirigia palavra.
Às vezes, olhava-me, o chato, e chateava-me. Ele sabia e disfarçava o sorriso de forma a que eu visse que ele sorria e disfarçava, o chato.
Era daqueles chatos que não se confrontam, nem se questionam.
O chato se pudesse chateava-me mais, chateava-me sempre.
Era chato, o chato que me confundia, aborrecia, só de o olhar, só de o ver e não o conseguia ignorar, nem ultrapassar.
Do chato podia fugir, mas não me conseguia esconder. Se estivesse dias sem o ver, havia de aparecer e era como sempre lá estivesse, a censurar-me, a condenar-me com um olhar, com um gesto sabido, estudado.
Acho que o chato ensaiava para o ser, porque o era de forma tão natural, tão absoluta, tão insidiosamente brutal.
Era chato, o chato que não me largava, mas que fugia ao contacto e não me via se eu lhe falava, o chato!
E, afinal, o chato era eu, disse-me que se chamava consciência por parte da mãe e escrúpulo por parte do pai.Vai-te lixar, pá, lancei-lhe eu, e ele, encolhendo os ombros deixou-se ficar e, sem mágoa, falou-me nos irmãos, o remorso e o arrependimento, que haviam de me vir visitar, mas que o problema não era dele e que, se ele era chato, havia de conhecer os outros.