Segunda-feira

(iv)

Já sob a imensa e legal exaustão atmosférica, Sónia e Carla ainda riam quando encostaram a porta de vidro que dava acesso à varanda do vício, como todos lhe chamavam. Carla acendeu prontamente o seu cigarro, entrincheirou o isqueiro em mão protectora, estendeu-o na direcção da ponta do cigarro de Sónia e, ainda o fumo não chegara aos pulmões da amiga, avançou sem rodeios:
– Vão?
Sónia sabia que a “água”, a mesma água que as trouxera ali, havia de trazê-los à tona e que o cigarro era apenas uma desculpa da amiga para saber dela e dele, mas não esperava que os corpos – pensou assim, “os corpos” – dessem à costa logo na primeira onda. Engoliu o sorriso com a segunda passa no cigarro e fez-se despercebida:
– Vamos?... Quem?
– Tu e ele. Vão?
Sónia lembrou-se das magníficas unhas pintadas a baterem no tampo da secretária, revelando a impaciente curiosidade da amiga, e sorriu com a sua transparência, sem subterfúgios nem rodriguinhos. Era directa. Carla era sempre directa. Sónia levou o cigarro à boca, deu uma passa especialmente demorada, exalou o fumo com lentidão e, no fim, tentou:
– Sabes que ando para te perguntar uma coisa…
– É?! O quê?
– Estás a fumar mais?
– O quê?
– Estás a fumar mais?
– E o que é que isso tem a haver? – Carla olhava-a fixamente, propositadamente, sem definir a expressão.
– Com quê?
– Com vocês – o tom era ríspido, ainda que amaciado por um meio sorriso compreensivo. – Tu e ele.
– Nada – reconheceu Sónia, arqueando ligeiramente as sobrancelhas.
– Ah!... – Carla não se importou com a tentativa fracassada da amiga de desviar a conversa, encolheu os ombros e persistiu como se nada fosse: – Mas vão?
– Vamos.
– Ah!... É?... Onde?
– Estás a fumar mais, não estás? – insistiu Sónia.
– Vão onde? – Carla, como sempre, tinha a sua própria agenda, o seu próprio ritmo e escolhia em função disso as respostas que dava ou omitia e as perguntas que fazia.
Sónia, que a conhecia bem e sabia quando devia desistir de engodar a conversa em seu favor, deu outra longa passa, olhando distraidamente para outros homens e mulheres que fumavam noutras varandas e acabou por responder directamente e com sinceridade:
– Não sei – disse e, sem se virar, acrescentou: – Ele estava esquisito…
– É segunda-feira – sentenciou Carla e, tocando no ombro da amiga, apontou disfarçadamente para uma varanda à esquerda: – Olha!
– E depois?
– É o António.
Sónia seguiu-lhe o subtil movimento, a varanda não era longe, e os gestos eram perceptíveis à distância. O homem acenava.
– Não é isso – esclareceu, ainda que procurasse perceber quem era o António. – O que têm as segundas-feiras?
– Ah! – Carla sorriu e decretou a meio-tom: – As segundas-feiras são dias estranhos em casos extraconjugais.
– Desculpa?! – Sónia engasgou-se e tossiu mas Carla não lhe ligou, ainda olhava para a varanda do 3.º esquerdo das traseiras de um prédio do quarteirão, onde estava António e outro indivíduo. Sónia espantada, tanto com a forma como com a matéria da sintética mas definitiva tese da amiga, repetiu-lhe a frase: – As segundas-feiras são dias estranhos em casos extraconjugais – e questionou, de sobrancelha direita a sublinhar a estranheza: – Que merda de conversa é essa?!
Carla riu, acenou para António que lhe acenava com insistência e comentou displicentemente:
– Era um bom minete mas um chato do pior.
Sónia tornou a engasgar-se mas não tossiu. A sobrancelha direita, que por acaso era a esquerda, sinalizou a mudança de humor da dona e arqueou ligeiramente, para um trejeito cómico.
Carla, acenando para António, repetiu para amiga:
– Tinha uma língua brutal, fazia coisas… brutais mas de resto, era quadrado. Um chato do pior.
Sónia não se conteve e deu uma gargalhada:
– Um bom minete?
– Era, era um bom mineteiro – confirmou Carla, de polegar em riste, perguntando à distância se estava tudo bem com o mineteiro fumador que, percebia-se, inchara e sorria com quantos dentes tinha na boca ante os coloridos cumprimentos da mulher.
– António? – perguntou Sónia.
– Sim – respondeu Carla entre gestos e acenos excessivamente simpáticos, teatrais. – Achas que estou a exagerar? – perguntou a meia voz.
– Em quê?
– Nisto, nestes cumprimentos, nestes acenos – explicou Carla, ainda a gesticular. – É certo que ninguém me fez um minete como ele fazia…
– Era assim tão bom?
– Era de ir ao céu e… – Carla olhou a amiga directamente, suspirou e de sorriso beato e olhar ditoso completou: – E ir ao céu e ir ao céu e ir ao céu.
– Bolas! – pasmou Sónia, fixando-se em António, que continuava a gesticular e a sorrir com ar de parvo.
Carla esticou o polegar e o mindinho encolhendo os restantes dedos da mão direita que encostou à face enquanto acenava com a esquerda uma fria despedida e disse à amiga virando-se definitivamente para a porta envidraçada:
– Um bom minete mas pouco mais, de resto era muito mole. Acho que pensava que tinha uma língua de ouro e que isso bastava, o panhonha. E está na mesma, com o seu ar convencido e meio apalermado.
– Estavas a dizer-lhe para te ligar…
– Pois estava – Carla riu – e, se ele me ligar, vai falar com o Antunes.
– Qual Antunes? O Antunes, o teu ex?
– Sim – Carla não conseguia parar de rir –, ele é que ficou com o telemóvel que o António tem.
– O teu ex-marido ficou com o teu telemóvel?
– Ficou com um, disse que era da empresa – Carla falava despreocupadamente com um sorriso malicioso. – Quando me pagou metade da quota nas partilhas, quis ficar com tudo o que era da empresa e eu dei-lhe o telemóvel…
– Podias ter ficado com o cartão.
– Não – o sorriso cresceu e alastrou, a expressão facial e corporal de Carla era todo um tratado de satisfeita malícia. – O cartão é que interessava, eu só lhe disse que, se fosse a ele, não dava aquele telemóvel a ninguém e ele ficou com ele, o parvo, e não o desligou!
Carla deu uma gargalhada.
– Mas, afinal, o que tinha esse telemóvel?
– Tu não o tinhas – Carla não parava de rir. – O António tinha. O Fernando tinha. O Dr. Paulo tinha. O…
– Ah! E tu deste-lhe esse telemóvel?! – interrompeu Sónia, quase escandalizada.
– Dei – confirmou Carla a rir. Fez uma pausa, parou de rir e declarou séria: – Foi para ele perceber que enquanto andava a dar na secretária, aquela mamalhuda de merda, eu não estive propriamente a chorar pelos cantos, parvalhão! – Carla deu uma passa no cigarro, olhou pelo canto do olho confirmando o desaparecimento de António e virou-se de novo para a rua. – Não sei que raio de fixação é que os homens têm por mosquinhas mortas com mamas grandes…