(i) e (ii) estão aí para baixo, se quiserem ler, o que muito me admira - já vos disse que muito admirado fico sempre que vejo que alguém me lê? é verdade, fico mesmo e acho espantoso. olhem, obrigado. e desculpem lá qualquer coisinha de que gostem menos.
(iii)
– Já vais? – perguntou o metediço Óscar.
– Já, Alho – respondeu Paulo, conferindo o relógio de pulso. – Já chega, não achas?
O outro encolheu os ombros e acenou a cabeça com ar resignado.
– Tu ficas? – perguntou Paulo.
– E tu?
Paulo já o conhecia há mais de cinco anos, todavia, não conseguia atinar com as despedidas circulares do outro.
– Eu o quê? – inquiriu, a medo.
– Ficas ou vais?
Paulo suspirou, passou a mão pela face e, como se pedisse desculpa, respondeu quase em surdina:
– Vou.
– Ah!... Pois… – Óscar, a quem todos chamavam Alho, parecia reflectir no sentido da vida ou imaginar algo completamente diferente enquanto se fixava num pormenor qualquer do casaco de Paulo, que permanecia de pé, imóvel, hesitando entre acabar o arremedo de conversa com normalidade ou com uma espectacular fuga a correr, gritando palavrões e esbracejando como um louco.
– Vou andando, Alho. – Contrariado, Paulo decidira-se pela normalidade, apesar de preferir a corrida ou, pelo menos, um passo acelerado para fugir do colega, que durante o dia era absolutamente normal, mas que, ao fim da tarde, era acometido de uma absurda quase surreal incapacidade para se despedir. – Até amanhã.
– Ah… – soltou Óscar de olhos muito abertos. Paulo olhava-o à espera de uma continuação do “Ah” que parecia ter-lhe caído da boca. Óscar olhou para o relógio de pulso que mantinha pousado em cima da secretária, segurou-o e agitou-o. – Que horas são?
– Seis e vinte.
– Ah… – suspirou Óscar, colocando, sem mais, o relógio no pulso, com ar de quem sabia que não eram, nem nunca foram seis e vinte, nem nunca seriam, o ar era tão estupidamente absurdo, que quem o visse podia realmente convencer-se que nunca seriam seis e vinte.
– Porquê, que horas tens? – “Bolas!” censurou-se Paulo, quando ouviu a pergunta que havia feito.
Óscar Alho inchou, ruborizou e sorriu. Paulo não o acompanhou, pelo contrário, murchou, perdeu cor e cerrou os lábios.
– Eu não tenho horas, Paulo – expeliu Óscar entre despropositadas golfadas de riso –, mas o meu relógio regista dezoito horas e vinte e dois minutos…
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