Quarta-feira

É?

«Daqui ninguém sai na mesma», declarou nas suas brilhantes letras coloridas mas sem qualquer boneco amarelo no fim da frase que aliviasse a seriedade da declaração.
«Não sei», duvidei lacónico, armado em sofista de trazer por casa, escrevendo em letras negras, formais, de folha de vinte cinco linhas. Gosto de ser do contra mas, na verdade, estava de acordo. «Porquê?», perguntei, sem denunciar a minha opinião.
«X. está a escrever uma mensagem», li em letras pequenas por baixo da caixa de diálogo e esperei.
“Ter um blog, muda-nos?”, fiquei a pensar, “Vir ao messenger, muda-nos?”
Puxei um cigarro que não acendi e deixei-o ficar ao canto da boca, enquanto brincava com o isqueiro.
“Mudei porque tinha de mudar, porque o tempo passou. A simples passagem do tempo muda-nos”, tentei agarrar-me a uma verdade irrecusável e mais confortável, parece-me, tentando diminuir a importância do blog ou do msn.
«X. está a escrever uma mensagem» desapareceu e a mensagem não apareceu. Franzi o sobrolho, mas ela, naturalmente, não viu. Sorri, por pensar com tantas vírgulas.
«X. está a escrever uma mensagem», reapareceu, como o gargalo de uma garrafa entre as ondas. Qual solitário Robinson no meio do nada esperei que a garrafa, que não me iria salvar, contivesse algo para ler, nem que fosse apenas uma mensagem de outro náufrago como eu. Sentei-me na areia quente da praia que conhecia centímetro a centímetro à espera que a garrafa rolhada desse à costa. O mar encrespou-se e o gargalo da garrafa e a sua rolha apareciam e desapareciam entre a espuma e as massas de água ondulantes. Ansioso, acendi o cigarro.
“Daqui ninguém sai na mesma” reli, entre o fumo que toldava o monitor.
A falta de contacto visual, a ausência da leitura das expressões, dos olhos que brilham, das sobrancelhas que arqueiam, que sobem ou se contraem, de um sorriso que se abre ou que se esconde, as mãos que falam, as mãos que passam pelo cabelo, pelo nariz, pelo queixo, enquanto se fala, quando se hesita, quando se ouve, é um filtro enorme, uma barreira quase intransponível, que as palavras, os bonecos amarelos ou outros não conseguem transpor. Aqui somos outros ou, se calhar, somos nós, mais autênticos, escondendo-nos dos outros mas revelando-nos como somos, como queríamos ser, como podíamos ser.
– Tinhas razão – acabei por escrever à falta de mensagem do outro lado, na minha letra sem cor, sem brilho, como se me lançasse ao mar para apanhar a garrafa, vazia?
X. premiu simultaneamente no seu teclado as teclas shift e "‘" e no meu monitor surgiu um colorido e espinhoso “?”
Tornei a franzir o sobrolho, que acompanhei com o cerrar dos lábios, já que ninguém via, e expliquei, com a infeliz certeza que a garrafa já se havia perdido. A maré mudara e a mensagem passara ao largo.
«Não nos vermos, permite-nos uma facilidade de expressão que não temos quando falamos uns com os outros», escrevi, contrariado.
«ah isso», X. reconheceu a sua ideia, sem se dar ao trabalho de convocar maiúsculas ou pontuação.
E eu insisti, num esforço spitziano, ainda que me faltasse o bigode:
«daqui ninguém sai na mesma?»