– Sabes o que eu acho? – perguntou recostando-se no sofá de três lugares que ocupava a parede em frente à televisão.
Ela levantou os olhos do livro que lia, no sofá individual que se encontrava ao lado do móvel da televisão, e acenou que não.
– Que, provavelmente, seríamos mais felizes se alguém nos explicasse em pequenos que íamos passar o resto da vida sozinhos – declarou, sério.
Ela olhou-o com atenção.
– O quê? – inquiriu, enquanto, de relance, tentava perceber o que estava ele a ver na televisão sem som.
– Quando éramos pequenos nunca ninguém nos disse que íamos viver sozinhos – explicou. – Toda a nossa preparação tem a ver com a sociabilização, com a vida em sociedade, com a vida com os outros e, no fim…
– Estamos sempre sozinhos – concluiu ela, pousando o livro no colo, marcando-o com um dedo que mantinha entre as páginas.
– Sim – anuiu ele com um breve sorriso e, recostando-se mais no sofá, manteve-se uns segundos calado, de comando em riste mas sem iniciar o zapping que lhe fazia cócegas no polegar e perguntou: – Acabamos por estar sempre sozinhos, não é?
Ela mexeu-se o mínimo essencial para ele perceber que ia responder, estudou-lhe o semblante carregado e, preocupada, constatou a ausência de movimentos no polegar zappinante e disse:
– Se calhar não nos damos o suficiente para podermos deixar de estar sozinhos – levantou o livro, que não abriu, e segurou-o na vertical. – Se calhar, tentamos não depender de ninguém e isso obriga-nos a que, de alguma forma, estejamos sempre sozinhos.
As sobrancelhas dele ergueram-se concordantes, os lábios contraíram-se num leve sorriso oblíquo satisfeito, encolheu os ombros conclusivos e acenou com a cabeça agradecido pelo acordo dela, que só percebeu o fim da conversa pelos ligeiros movimentos de pressão do polegar no botão do comando que mudava sequencialmente os canais da televisão.
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