Terça-feira

Zombie

Agarrou a garrafa, que não chegou a tocar-lhe os lábios. Parou e olhou para sítio nenhum, com olhos vítreos, movimentos desconexos, lentos, quase infantis e pousou-a com raiva. Num instante de coragem inconsciente bateu-lhe com as costas da mão, afastando-a, fazendo-a cair. Partir-se. Ouviu o barulho do vidro a estilhaçar-se, dos vidros que deslizavam e da bebida que se perdia. Arrependido, bateu furiosamente na perna sem conseguir olhar para o chão e, assustado, pensou se podia ainda recuperar algum do líquido que se espalhara. Levantou-se. Tentou levantar-se rapidamente para afastar o pensamento de bêbado, o pensamento de fim, mas, depois de se erguer ligeiramente, tombou na cadeira e só a custo se conseguiu equilibrar. Viu-a. Ela sorria-lhe e ele sentiu que os seus lábios procuravam responder-lhe. Os lábios permaneceram imóveis, anestesiados. Tocou-lhes com a ponta dos dedos, como se os quisesse desentorpecer, como se os pudesse obrigar a sorrir. Não os sentia, nem os lábios, nem a ponta dos dedos e a mão caiu-lhe pesadamente para a perna, sem que a conseguisse mover. Grunhiu no que devia ser um lamento mas não se ouviu, olhava fixamente para o chão, para os cacos da garrafa e para o líquido brilhante que o chamava. Queria. Queria beber. Pensou nos vidros. E se cortasse a língua? E se cortasse os lábios? Se ela aparecesse e o quisesse beijar? E as mãos? Onde iria pôr as mãos sem se cortar? Tinha pavor de sangue. Do seu sangue. Do sangue dos outros. A boca seca puxava-o para o chão. O cérebro árido, vazio, procurava com fingido cuidado um local seco e seguro para as mãos aterrarem, como se precisasse de lhes assegurar essa mentira, um falso sentido de segurança. Olhou o tampo da mesa vazio, as cadeiras vazias, a cozinha vazia e a sua vida vazia e lançou-se para o chão, esperando, sem saber porquê, que alguém lhe amparasse a queda. As mãos fugiram, recusaram o risco, e os braços abriram-se fazendo-o cair como um Cristo cruxificado. Um lampejo de ironia tocou-lhe num ponto qualquer e viu-se a si próprio de braços abertos a voar direito ao desastre. A cara bateu no chão, violenta e dolorosamente. A camisa empapou o líquido ardente. Sentiu o ardor do whisky barato no olho esquerdo e nuns pequenos cortes na face e no corpo mas sentiu-lhe o doce e esperado sabor nos lábios, na língua, na boca, e começou a beber, antes que tivesse de ir torcer a camisa. O gargalo da garrafa surgiu-lhe no campo de visão e ele assentou num caderno sem folhas com uma caneta sem tinta que teria de beber para a sua direita para evitar os vidros. O líquido ligeiramente dourado ganhava estranhos e bizarros veios de vermelho que ele não se preocupou em procurar perceber, nem estranhava enquanto sorvia, lambia, inspirava o whisky do chão. Tornou a vê-la e lembrou-se do sorriso que então, orgulhosamente, conseguiu refazer e mostrar a uma das pernas da mesa. Via-a mas perdia-a imediatamente e a culpa não era dela. Agora sentia-o, sabia-o. No chão bebendo whisky de uma garrafa que partira, com os lábios e a língua a sangrar, com a camisa empapada de whisky e sangue, sabia que a culpa não era dela, mas dele. Só dele que a perdera. Olhou demoradamente para o gargalo da garrafa e para os pés da mesa e das cadeiras, a sua única audiência, e julgando que as palavras se estavam a formar e que iriam ser ditas, pôs o seu mais ar mais condoído e suplicante e, em silêncio, sem sequer um sussurro, confessou formal “a culpa foi minha, sempre minha, que nunca te tive, que nunca te soube ter” e continuou a lamber, a sorver, a beber sangue, vidros e whisky do chão da sua cozinha deserta, do fundo da sua vida vazia, satisfeito com o mar raso de álcool que via até perder de vista.