Sexta-feira

jantar

– Está cheio, isto...
– Pois está, é sempre assim. As pessoas em vez de se comerem vêm comer, como se não o pudessem fazer nos outros dias.
– É um negócio, bem vistas as coisas deve ser o Natal dos restaurantes...
– É, é um dia fortíssimo. Está tudo cheio!
– Vêm comer e vêem comer!
– Pois.
– E quantos destes casais estarão a comer e a ver comer daqui a um ano?
– Isso interessa?
– Não... Quero dizer,… não sei.
– Isso é um pensamento retrógrado, antiquado, próprio dos teus avós ou, quanto muito, dos teus pais. Hoje vive-se o momento e o amor é eterno enquanto dura.
– Achas?
– Façam favor. Podem escolher mas estamos com um tempo de espera de uma hora. As bebidas é que posso trazer já. E entradas, vão desejar?
– Bebes vinho?
– Quê?
– Tinto.
– Ainda não sei o que vou comer.
– Um gin?
– Sim, pode ser.
– São dois gins tónicos e pode trazer as entradas, enquanto escolhemos.
– Sim, senhor, com licença.
– E nós?
– Nós, o quê?
– Estamos a comer porquê?
– Porque são horas de jantar.
– Sim, mas estamos a jantar os dois no dia dos namorados porquê?
– Queres a verdade?
– Sim, claro.
– Não me apetecia estar em casa sozinha.
– E sabias que eu vinha jantar contigo?
– Calculava, tu fugiste sempre... nunca jantámos fora no dia dos namorados, pois não?
– Acho que não.
– Dizias sempre, "porque é que havemos de cometer esse erro", lembras-te?
– E tinha razão.
– Pois, parece que sim. E depois de nós?
– Depois de nós, o quê?
– Jantaste?
– Claro, como é que achas que ganhei este corpo? Se não jantasse havia de estar muito mais magro!
– Não é isso, parvo...
– Ah! Voltámos aos velhos tempos.
– Desculpa?
– Ao tempo em que me chamavas parvo por tudo e por nada.
– Não te chamei parvo... ou melhor, chamei mas não te estava a chamar parvo, era uma forma carinhosa de dizer que...
– Nunca gostei desse tipo de carinho.
– Eu sei... Desculpa… mas, é engraçado, tu brincas com tudo mas quando brincam contigo...
– Não, sabes bem que não é isso.
– Sim, tens razão, não é quando brincam contigo, pode-se brincar contigo, o que não gostas é de certas brincadeiras, como te chamarem parvo ou usar palavrões... Não suportas que te mandem à merda, pois não?
– Não.
– Mas eu não te estava a chamar parvo, era uma forma carinhosa de dizer que tinha percebido a tua piada e que sabia que tu sabias que estavas a fazer uma piada.
– Que confusão para uma coisa tão simples!
– Parecem mesmo os velhos tempos. Sabes que só tu é que me fazes isto?
– O quê?
– Isto, estas conversas, estas confusões para explicar coisas simples, estas conversas sem fim.
– Não é uma conversa sem fim...
– Com licença, aqui estão os ginzinhos. As entradas trago já, está bem?
– E se não estiver?
– Não trago. Já escolheram?
– Ah... Já escolheste?
– Eu?
– Não, não escolhemos.
– Estejam à vontade, hoje é preciso muita calma, estejam à vontade. Eu já volto para tirar o pedido.
– Hum...
– Não diga, por favor. Não pergunte a quem é que eu vou tirar o pedido...
– Não ia perguntar.
– Ah… pensava que ia. É que hoje os homens acham-se particularmente inspirados, absolutamente engraçados, como se tivessem de ter resposta para tudo. Quer-me parecer que os homens estão sob grande pressão... É engraçado, não tinha pensado nisso, mas cada ano que passa estes jantares estão cada vez mais estranhos, mais... com hei-de dizer,… mais competitivos, como se fossem uma prova, como se fossem um exame... Os senhores desculpem-me este desabafo...
– Está desculpado…
– Não tem nada a ver convosco mas, realmente, isto parece-se cada vez mais como uma obrigação… não digam a ninguém, mas nem é bem uma obrigação é mais um tormento que os casais têm de superar, que isto, de jantar no dia dos namorados, não é fácil, nada fácil. Volto já, não se vão embora!
– Vamos ver…
– O quê?
– Se nos vamos embora.
– Ah! Boa! Essa foi boa mas está como os outros, está visto! Com licença.
– Era o que faltava.
– O quê?
– Um empregado com ideias…
– Certas.
– Sim, ainda por cima.
– Comemos o polvo à lagareiro?
– Queres?
– Tu não? Gostavas tanto de polvo.
– Sim, eu quero, tu é que dantes nunca querias…
– As pessoas mudam.
– Parece que sim. E, afinal, ainda não me respondeste.
– A quê?
– Estamos a jantar, porquê?... Além de não quereres estar sozinha e eu estar disponível?
– É preciso mais?
– Sim, acho que sim. Com certeza que jantas sozinha muitas vezes… ou algumas vezes, desculpa…
– Não era preciso emendares!
– Estava a brincar.
– Eu sei.
– E, além de jantares sozinha de vez em quando, eu não estou disponível só hoje…
– Não?... Hummm… Isso é alguma indirecta, algum dos teus convites enviesados?
– Desculpa?
– Estava a brincar.
– Ah!
– Mas, na verdade, não sabia se ias aceitar. Se queres saber, havia uma parte de mim que nem queria que aceitasses.
– Porquê?
– Sei lá… Porque, se calhar, passava o odioso para ti, ainda que não fosse o odioso, não havia nada de odioso se não quisesses jantar comigo, ainda por cima hoje… acho que era completamente compreensível… Aliás, se pensarmos bem, era o mais normal…
– Eu não aceitar?
– Tu não aceitares e eu não te convidar, isso é que era normal. Mas como eu te convidei e a normalidade já era, tu aceitares não é anormal, de facto, é apenas a sequência lógica da coisa, da anormalidade que eu iniciei quando te liguei… Estou a falar muito, desculpa.
– Não tens nada de pedir desculpa e não estás a falar…
– E tu, porque aceitaste?
– … demais. Porque queria jantar contigo, porque gostei de ser convidado, porque achei que, se me estavas a convidar, era por alguma razão, afinal já não nos falamos há mais de um ano…
– Eu liguei-te nos teus anos…
– E eu nos teus mas isso não é falar.

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