Quinta-feira

(ii)

Carla atravessou a sala comprida sorridente e provocadora, estabelecendo, em cada passo e em cada troar dos seus saltos no encerado soalho do escritório, a sua posição de domínio perante os colegas que a olhavam ora com gulosa lascívia, os homens, ora com disfarçada inveja, as mulheres. Sónia, que lhe conhecia os passos que, aliás, eram únicos, inconfundíveis, uma mistura de determinação em câmara lenta e sensualidade ritmada, ouviu-a aproximar-se mas não a olhou. Carla ultrapassou a porta aberta do gabinete de Sónia como atravessara o corredor entre as secretárias e espaços dos subalternos, como ela lhes chamava, sem uma palavra, um aviso, ou sequer um olhar. Entrou e postou-se em frente à secretária de Sónia que, esforçando-se para não sorrir ou fazer qualquer movimento que denunciasse o facto de saber que a outra estava ali, como se isso fosse possível, continuou a teclar com eficaz rapidez sem levantar os olhos do monitor. Carla, entrando no jogo, aguardou um momento pela atenção da outra, dois segundos, suficientes, em sua opinião, para ambas perceberem que estavam a jogar e a empatar. Carla gostava de Sónia, gostava genuinamente dela; na verdade, ainda que não fossem muito chegadas fora do trabalho, considerava-a uma amiga, uma verdadeira amiga. Mas, isso, não lhe concedia paciência suplementar para joguinhos de meninas. Ela estava ali, a outra sabia-o, que brincasse fazendo-se despercebida, tudo bem, mas aqueles dois, agora já quatro ou cinco, segundos eram suficientes. Impaciente, como todas as mulheres que se sabem bonitas, mordeu o lábio inferior, num trejeito bem disposto e, cuidadosamente para não danificar as extensões das unhas, tamborilou no tampo da secretária com a mão esquerda, enquanto, com a direita, exibia um maço de tabaco como um livre-trânsito. Sónia deslizou o olhar do monitor para as unhas tamborilantes, depois para o maço e, por fim, para o encadeante sorriso vermelho vivo de Carla.
– Vens? – moveram-se os lábios, impecavelmente pintados, completando o convite que o maço participava e que o contínuo tamborilar suave mas inapelável no tampo da secretária das unhas perfeitas, conjunto faíscante com os lábios, tornava absolutamente irresistível.
Sónia admirou-lhe as longas e cuidadas unhas, olhou-lhe os dedos curiosos e adivinhou-lhe as intenções: o cigarro a fumar na varanda do escritório trazia água no bico. Tanta água. E a água trazia pessoas, e entre as pessoas estavam ela e ele. Ela e ele.
– ‘Bora – insistiu a colega com o seu sorriso mais inocente, desmascarado pelo seu olhar atrevido.
– Estou a acabar uma coisa, Carla, já vou…
A colega escondeu os dentes atrás dos lábios, fixou-a e não desistiu:
– Deixa lá isso, ainda não fumaste hoje – argumentou.
– Já tu… – retorquiu Sónia, tentando manter-se séria.
Os olhos azuis bebé de Carla sorriam contrariando o falso semblante ressentido que a insinuação de Sónia fizera aparecer. Entreabriu os lábios, mostrou-lhe a ponta da língua e respondeu fugindo propositadamente com o olhar, como uma menina apanhada a dizer uma pequena mentira:
– É o segundo, minha cara, só o segundo.
Riram.
– Se é o segundo… – Sónia rendeu-se sem dar muita luta: o irritante tamborilar na secretária das espantosas unhas vermelhas da colega, o brilho inquiridor nos seus olhos e a falta de smiley no ok de Paulo no google talk decidiram por ela. – Tens lume? – perguntou, enquanto tirava um maço da gaveta da secretária.
– Lume? – Carla uniu os lábios até a boca ficar apenas um redondo ponto vermelho, os olhos azuis bebé pediram desculpa e as mãos uniram-se em prece junto ao generoso e bem recheado decote. – Lume? – repetiu, baixinho. – Se tenho lume? – Deu uma gargalhada abafada e, piscando o olho, que reabriu lentamente para as suas longas pestanas fazerem o devido efeito, ronronou: – Para dar e vender, menina, para dar e vender. Precisas de aquecer… – fez uma pausa, para somar um trejeito delicioso nos lábios à sua expressão e concluiu ronronando: – Não me digas que precisas de aquecer… ou acender alguém?
Sónia riu da interpretação teatral de Carla e levantou-se com o maço na mão.
– Hummm… Ainda bem que me avisas… – disse, compenetrada como se fosse mesmo importante.
– É?
– Não – retorquiu Sónia, sorridentemente séria – mas se precisar, já sei a quem pedir.
– Posso dispensar-te… – Carla parou para deixar passar Sónia. – Posso dispensar-te aí umas duas colheres disso, estás à vontade.