Terça-feira

… mas ele não o fez.


Durante horas, com a espingarda carregada pronta a disparar, ouviu-lhe todas as histórias, todas as conversas, todos os episódios pelos quais não nutria o menor interesse: da mulher, da sogra, do patrão, dos irmãos, do rafeiro que trazia e da arma do avô que carregava como um brinquedo. E nunca, em qualquer minuto de todas as horas em que o ouviu, disfarçou o enfado, o aborrecimento, o desconforto e o incómodo que a ininterrupta arenga lhe causavam.
Durante quilómetros, sem disparar um único tiro, aturou-lhe as infantis pantominices, as corridas sem nexo, os saltos por cima de arbustos, sebes, árvores caídas e pequenas barreiras, anunciados, todos eles, com gritos, braços no ar ou sorrisos abertos como se de grandes feitos se tratassem. Como se ele não fosse um homem mas um gaiato.
Durante o frio da manhã e o calor da tarde aturou-lhe os maiores disparates, os comentários mais estapafúrdios, os mais bizarros nomes ou as indescritíveis historietas sem graça que lhe ocorriam por causa de uma árvore, de uma planta, de algum pássaro, insecto ou réptil que, certamente surdos, não os evitavam.
Durante um dia inteiro de caça, que mais valia aos gambozinos, viu-o brincar com os cães como uma criança; distrai-los, corrompê-los, enganá-los às gargalhadas, aos gritos, aos pinotes como se tivesse alguma graça, como se aquilo fosse um jogo, uma brincadeira.
Pela primeira vez em muitos anos de caça não disparou um único tiro, não avistou uma peça, não vislumbrou sequer a mais pequena possibilidade de, em silêncio, em sossego, em vigilante cuidado, levantar a espingarda, apontá-la e desistir num último momento por se ter enganado. Nem sequer se enganou entre um coelho e uma lebre, entre uma perdiz ou uma codorniz, uma avestruz e um canário, não viu nada. Nada!
– Ouve lá – perguntou, estafado, farto de ver os cães correrem para nada, de andar para nada, de nada apontar para nada –, tu vieste à caça ou vieste entreter os animais?
Ele riu-se, com um riso sincero mas alarve, numa gargalhada franca mas despropositada e gritou:
– Essa é boa!... Entretê-los! Essa é muito boa!
Sentiu o volume e o peso da arma e pareceu-lhe – e nunca antes ou depois lhe parecera isso – que a arma lhe sussurrava uma solução instantânea para resolver o seu estado de espírito, o seu cansaço e o seu desespero. Espantado, estacou, engoliu em seco e suspirou.
O imbecil ria-se e repetia “entretê-los, entretê-los” como se acabassem de lhe contar uma irresistível anedota.
O caçador, pois só ele o era, baixou os olhos para o chão, fechou a arma e sopesou-a como se hesitasse no seu uso.
– Viste alguma coisa? – gritou o outro, estridente, olhando em volta com ar alucinado e estúpido.
Subitamente imóveis, os cães pareciam fitá-lo e pedir-lhe que se decidisse de uma vez, trocando olhares cúmplices e compreensivos, garantindo, com os seus olhos límpidos e leais, eterno silêncio e apoio.
Tornou a engolir em seco e evitou os olhares dos cães, tal como tentara esquecer a arma que tinha na mão.
– Viste alguma coisa? – matraquilhava o outro. – O que é que viste?
O caçador ainda o ouvia, mas a voz dele sumia-se como se se estivessem a afastar e a imagem dele desvanecia-se rapidamente, tornando-o numa voz sumida de um ser sem rosto, sem personalidade e, no momento seguinte, sem que sequer o estranhasse, já só ouvia um ruído de fundo sibilante nada parecido com uma voz humana e apenas via um vulto em movimento que ora se aproximava de si, sibilante, ameaçador, ora se afastava, temeroso, esquivo. Um alvo exótico, esquisito, com uma cabeça ridiculamente opada a esvoaçar desordenadamente como “um balão numa barraca de feira engaiolado e impulsionado por uma ventoinha para ser rebentado por uma pressão de ar. A merda de um balão amarelo” pensou.
– Viste alguma coisa? – repetia o imbecil saltitante, virando-se em todas as direcções, procurando para todos os lados.
“Como um balão-alvo” suspirou, a medo.
E, sem perceber o que se estava realmente a passar, ouviu:
– Já vi! Já vi! – e depois a ordem: – Dispara! Dispara!