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“Lanchamos?”
A pergunta simples, normal, recorrente em quase todos os dias das últimas semanas, caiu-lhe mal. Já a esperava mas, ainda que julgasse o contrário, não estava preparado para ela. Cerrou os punhos com força sobre o teclado e respirou fundo, viu os : e o ) aparecerem, rodarem e formarem um mais completo e amistoso
enquanto os olhos davam um breve mas custoso passeio entre os punhos cerrados, o “Lanchamos?” e o S do teclado, primeira letra da palavra que ia escrever.
“Sim” escreveu, sem mais, apenas com a ponta do indicador direito, lentamente como se cada letra fosse uma palavra, uma frase, um parágrafo.
“18.15 à porta?”
Leu a resposta que prontamente lhe apareceu na pequena janela no canto inferior direito do monitor e anuiu telegraficamente “Ok”.
Olhou o relógio de pulso, 17:45, e sentiu a agonia dos trintas minutos que lhe faltavam formar-se numa bola ácida na boca do estômago que, sabia, lhe ia subir até à garganta e que, depois, alastraria à boca e, na verdade, ao corpo todo. “Daqui a meia-hora, eu sou esta acidez e esta acidez sou eu”, pensou num tom trágico, quase retemperador, que, no entanto, não o convenceu a não tomar um anti-ácido com resultados garantidos, “Talvez se isto não me fizesse mau hálito” justificou-se. “Sempre era mais uma coisa em que pensar, além dela, além das palavras que lhe vou dizer….” Sorriu: “Talvez a própria dor me desse um ar sofredor, uma cor mais pálida, qualquer coisa que a distraísse. Na verdade, qualquer coisa que desse corpo à minha dor, aos meus sentimentos…” Soltou um risinho abafado, sarcástico: “Que ideias de merda, que ideias de puto. Para isso, podia flagelar-me e aparecer lá em baixo a escorrer sangue. E ela:
– O que é isso? – embasbacada, completamente estupefacta.
– Foi por ti, Sónia. Foi por ti.
E havia de se me agarrar ao pescoço e beijar-me, lamber-me as ferid… Não isso, não, era nojento. Beijava-me só e evitava o sangue que, de qualquer maneira, não era preciso ser muito. Uma coisinha ligeira só para a impressionar.”
Conferiu os mails, leu alguns, deu uma volta por meia dúzia de blogs e páginas de noticias e, sem conseguir decidir onde se havia de flagelar, desligou o computador, fechou a agenda aberta em cima da secretária, vestiu o casaco e saiu do gabinete.
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