Terça-feira

O JAVALI DOURADO

Na sala, havia pilhas de nada ao lado de pirâmides de coisa nenhuma, o cão passou entre elas sem se molhar e sentou-se regiamente no sofá roxo coberto de fita plástica protectora sem emitir um som. O coxo, em cima da sua perna sã, coçava displicentemente a barriga do crocodilo empalhado que se deitara sobre o tapete de Arraiolos com motivos sexualmente explícitos. Nenhum fez menção de cumprimentar o cão que, aliás, passou por eles como se o fizesse por vinha vindimada.
– E agora? – inquiriu o cão, olhando em volta à procura nas estantes vazias de qualquer coisa para ler.
Entre os livros que tinham sido tirados e atrás dos que não tinham ficado, um lamentoso letreiro luminoso laranja leccionava lentamente letra a letra: P O U P E E N E R G I A.
– Aquilo está sempre aceso? – questionou o cão, com ar ambientalmente superior.
O crocodilo rodou sobre si próprio e encarou o cão focinho com focinho:
– Algum problema?
O cão não desviou o focinho e manteve-se seguro, ainda que um pouco nauseado com o invisível e inaudível hálito putrefacto azulado e sibilante que o crocodilo expelia com prazer. Arregalou as sobrancelhas militarmente alinhadas e entrechocou ruidosamente as pestanudas pálpebras.
O crocodilo arrepiou-se e temeu que se pudesse apaixonar pela voluptuosa e sensual gazela-de-Thomson que entrava chinelando vagarosamente para que todos a pudessem apreciar. O coxo gostou especialmente das quatros havaianas que o ungulado animal calçava com garbo. O cão, por sua vez, não conseguia tirar os olhos dos quadris traseiros do espampanante mamífero bovídeo. O crocodilo descurou os pormenores e concentrou-se no conjunto: se pudesse comia-a toda.
– Nenhum – respondeu o cão sem saber já a quê, enquanto salivava abundantemente de língua desditosamente caída por falta de ocupação. E, a custo, murmurou para o crocodilo enquanto apontava de esguelha com sub-reptícios movimentos da cabeça para a gazela: – Quem é?
O crocodilo ignorou-lhe os sinais e a pergunta e com displicência ensaiada deslizou para o tapete. Sorriu para a gazela, pestanejando copiosamente e sentiu o membro viril entumecer quando ela lhe respondeu com um sorriso prometedor.
O coxo soltou um riso escarninho e malsão quando se apercebeu da falsa levitação que o crocodilo usava para impressionar a beldade de cascos e deu-lhe um forte pontapé na cauda que o fez rodar como a hélice de um helicóptero.
Todos os mamíferos se riram da figura do réptil que, pousando as patas no chão, sorriu delicada e desportivamente para o coxo, antes de lhe abocanhar a perna sã até ao joelho.
– Ri-te agora! – incitou o crocodilo sarcástico, trincando ruidosamente a tíbia e o perónio que desfazia com visível deleite, mantendo propositadamente o pé calçado do coxo de fora das ocupadas mandíbulas. – Anda, ri-te! Ri-te! Ri-te agora!
A gazela olhou enojada e virando-se para o cão pediu-lhe, esticando o beiço como se o pretendesse beijar caso ele acedesse ao seu pedido:
– Não pode fazer nada, senhor cão? – A gazela fixou-o como se quisesse ser possuída por ele imediatamente e ronronou: – É muito desagradável, sabe… Podíamos passar uns bons momentos, senhor cão, mas assim…
O cão ouvia-a como se fosse a própria Nossa Senhora a falar-lhe, ainda que os seus propósitos não fossem nada divinos, sacros ou celestiais, antes pelo contrário.
O coxo lamuriava-se como os coxos costumam fazer quando são subitamente desprovidos da parte inferior das suas pernas sãs: debitando de forma incessantemente espaçada um ruído irritante que se repete monocórdico como uma buzina de nevoeiro, entrecortado ao cronómetro por bojudos soluços e angulosos lamentos com palavras que o decoro e a educação não nos permitem transcrever.
– Que desagradável… – repetiu a gazela, virando-se sedutoramente de perfil para o cão lhe contemplar mais uma vez as perfeitas curvas posteriores que sobressaíam contra o pôr do sol pintado na parede por trás dela.
Excitado, o cão ganiu, uivou e perseguiu a cauda como um louco, deitando abaixo as pilhas de nada e destruindo de passagem as pirâmides de coisa nenhuma.
A gazela sorria lubricamente, satisfeita com o impacto que causava nos machos de qualquer espécie, saltitando ronceira entre os destroços das pirâmides de coisa nenhuma e as arruinadas pilhas de nada.
O crocodilo engoliu a perna e o pé estaladiço do coxo, cuspiu a sapatilha e a meia e mergulhou nas quentes e agradáveis profundezas lamacentas do tapete de Arraiolos sexualmente explícito.
O coxo apanhou a sapatilha e a meia, espantosamente intactas, agarrou no lamentoso letreiro luminoso laranja, que arrancou da parede, retirou algumas obras literárias cuidadosamente seleccionadas das estantes vazias e saiu pela porta que não chegou a abrir.

Sexta-feira

a lápis
No entra e sai do débito conjugal, sem preliminares de língua, lábios ou dedos, ela perguntou:
– Tens a certeza?
Ele que cumpria a função de olhos fechados, entreabriu-os e perguntou:
– De quê?
– Que isto é assim?
– O quê?
– O sexo conjugal.
– Ah… – ele continuava o movimento das ancas num movimento mecânico. – Assim como? – perguntou sentindo o peso do olhar fixo dela.
– Tão desenxabido. Tão sem gosto.
As palavras e o tom impessoal magoaram-no mas não parou. Estava quase a vir-se.
– É que isto assim não tem jeito nenhum – reforçou ela, ante o silêncio dele. – Estou aqui, de perna aberta, a ver-te ir para cima e para baixo mas não sinto nada… – fez um esgar de aborrecimento e suspirou: – Isto assim é um tédio…
– Espera – pediu ele, enquanto se vinha. Gemeu.
– Até gemes e tudo – repreendeu-o ela, encolhendo os ombros. – Bela merda... e eu a olhar para a parede.
Ele ouvia-a mas não tomava atenção e acabou por se vir com três estocadas pélvicas de autómato. Saiu de cima dela e levantou-se para ir tirar o preservativo.
– Pensava que gostavas – disse, sem convicção, quando pôs os pés no chão.
Ela mirou-o, abrindo muitos os olhos, e troçou:
– E porque é que havias de pensar isso? – Passou a mão pelo sexo e cheirou-a. – Ainda por cima fico a cheirar a borracha – queixou-se.
– Podias tomar a pílula.
– Sabes que me engorda.
– Então… – ele encolheu os ombros – queres o quê?
– Uma televisão.
– Desculpa?
– Não me estás a perguntar o que quero?
– Estava mas…
– É isso – interrompeu-o ela. – Quero uma televisão… Uma dessas modernas, um plasma ou lcd ou lá o que é.
– Para quê?
– Para pormos naquela parede – disse e levantou o braço, esticou o dedo na direcção da parede em frente aos pés da cama, apontou para um ponto imaginário a um metro e noventa de altura e concluiu: – Ali, púnhamos ali.
Ele olhou a parede nua à sua esquerda, notou o ponto imaginário a um metro e noventa de altura feito a lápis, baixou os olhos para o preservativo que lhe embrulhava ridiculamente o membro murcho e engelhado e informou enquanto se virava:
– Vou tirar isto.
– Não tires tudo – disse ela, esganiçando a voz, tentando dar um ar de graça à frase.
Ele estacou, respirou fundo, virou-se lentamente e apontou para a parede. Esperou que ela o visse, seguisse o seu dedo e, no exacto momento em que ela fixou o ponto imaginário na parede a um metro e noventa de altura, perguntou:
– E aquilo é o quê?
– Uma parede – respondeu ela, sem hesitar.
Ele conteve-se, cerrou os lábios, fixou-se na parede para não a ver e suspirou:
– Não é isso… – e reformulou a pergunta: – Que ponto é aquele a lápis no meio da parede?
– Não está no meio – corrigiu ela. – Está a um metro e noventa de altura e não é um ponto, é uma marca.
Ele sentiu a correcção, a frase e o tom como um embate físico, sentiu o ar a faltar-lhe e o membro tristemente dependurado a enfezar, segurou o preservativo pela base, respirou fundo e tornou a falar.
– O que é aquela marca feita a lápis na parede a um metro e noventa de altura?
– É para pôr o suporte do lcd… – comunicou ela, definitiva.

Quinta-feira

a gravata

Ele falava mas eu só tinha atenção para o desmesurado comprimento da sua gravata. Não o ouvia, pelo que não lhe sentia a raiva crescente, nem me apercebia que falava cada vez mais depressa e que as mãos e os braços ganhavam vida própria entre suspiros e sopradelas ruidosas. A gravata a roçar o meio da braguilha tinha qualquer coisa de hipnótico, de absurdo, de apalhaçado e quando o senti tocar-me no peito e perguntar
– Está a olhar para onde?! Está a olhar para onde?!
não pensei que estava a ser ameaçado e respondi com outra pergunta:
– Isso é para limpar o pingo?
Eu ouvi-me. Ouvi-me e espantei-me. Ouvi-me e arrependi-me. Mas o tom inócuo com que fiz a pergunta não me soou mal e deixei-a ficar. Olhei-o nos olhos e mantive a pergunta. O olhar incrédulo que me devolveu deu-me vontade de rir mas tive o bom senso de o evitar e nem um sorriso esbocei.
– O quê?! – ameaçou por fim. – O que é isso?!
Entrevi nas sobrancelhas cerradas que lhe nublavam a fronha asséptica a posição delicada em que me encontrava. O tipo da gravata de metro tentava desesperadamente perceber se a minha pergunta era motivo suficiente para me espetar imediatamente uma galheta ou se, pelo contrário, ainda tinha de alimentar uma discussão mais acesa que pudesse descambar num confronto físico como ele evidentemente queria.
– A sua gravata – informei, sem me mexer – tem um tamanho ridículo.
Os olhos brilharam-lhe. A galheta justificava-se.
– A minha gravata?! – vociferou. – Um tamanho ridículo?!
Eu tenho a mania que tenho sorte e, além disso, a mania que posso dizer certas coisas e, mesmo assim, safar-me. A minha dúvida naquele momento era se o apalhaçado engravatado tinha noção disso e intrépido ou, talvez, só inconsciente renovei a pergunta em tom monocórdico:
– O tamanho da gravata é para limpar o pingo quando acaba de mijar?
E levei. Primeiro uma palmada de mão esticada que não me acertou, depois um murro que me passou a milímetros da ponta do nariz e, por fim, também me esquivei a um abraço pouco amigável.
O ridículo engravatado envergonhou-se com a falta de eficácia e limpou furiosamente a espuma que se formara aos cantos da boca antes de voltar a investir.
Tornou a falhar mas não desistiu e voltou a tentar: um murro, um pontapé, um empurrão e, por fim, ante tamanha deslocação de ar sem resultados, lançou-se contra mim, estatelando-se ao comprido no chão, que lhe amparou a queda sem uma queixa. Ele disse ai e umas asneiras.
Deixei-o acalmar e estendi-lhe a mão para o ajudar a levantar-se. Olhou-me mais furioso que agradecido e tentou acertar-me com o pé direito nas canelas. Saltei, voltei ao chão e repeti o gesto amigável.
Ele esticou a mão na direcção da minha e agarrou-a com força.
– Quem é você? – perguntou-me.
De mãos dadas como num quadro gay, eu em pé, com ar másculo e desinteressado, ele erguendo-se para mim com ar de quem me queria comer vivo, respondi:
– O meu nome é Neo.
– Neo? – perguntou.
– Neo – respondi.
– Do Matrix? – perguntou.
– Do Matrix – respondi.
– Por isso é que eu não lhe consigo acertar? – perguntou.
– Por isso é que não me consegue acertar – respondi.
O quadro gay transformou-se numa cena falhada de wrestling quando ele me tentou puxar para o chão e uma biqueirada certeira entre o escroto e o ânus convenceu-o a largar-me e espojar-se solitariamente no chão em posição fetal com as mãozinhas juntas ao bico da gravata agarrando o local que transmitia a sensação de dor indescritível ao seu agora esponjoso e absorvente cérebro.
– O meu problema são os nós – choramingou ao fim de um bocado, sem levantar a cabeça.
– O meu são os vocês – retorqui. – Todos vocês, Smith.
– Não sei porque é que não nos dão gravatas com elástico – queixou-se.
– Como a minha?
Puxei a gravata para baixo e mostrei-lhe o elástico que se escondia no colarinho.
Ele ergueu o olhar de cão sem dono, apreciou a correcção estética do meu nó, a medida exacta da minha gravata e o génio do elástico invisível e sussurrou apreciativo:
– Pois, como a sua. – Os óculos escuros reflectiam a minha imagem composta de actor de segunda e os seus lábios contemplativos, quase ternos na sua extasiada admiração, juntaram-se num assobio abafado, reconhecendo a sua inferioridade e a sua derrota.
– Componha-se, homem – disse-lhe e a
jeitei o nó da gravata que se adaptava perfeitamente ao colarinho e afastei-me lentamente rumo ao cinematográfico pôr-do-sol.

Terça-feira

Encontros sexuais simples

– Pisa-me!
– Piso-te?!
– Sim, pisa-me! Pisa-me com força!
– Piso-te?!
– Sim, pisa-me com força e chama-me bandalho!
– Bandalho?!
– Sim e pisa-me!
– Agora, bandalho?
– Sim… Sim, já!
– Onde, bandalho? Queres que te pise onde?
– Nos pés.
– Nos pés, bandalho? Só nos pés?
– Ahn…sim…
– Que mariquinhas, bandalho. Nos pés?... Só nos pés? Que merda de tara é essa?
– Porquê?!
– Isso é uma tara de merda, bandalho. Pisar-te nos pés? Pisar-te nos pés é para meninos, bandalho.
– Achas?
– Tenho a certeza!
– Mas tu tens uns saltos muito altos e pontiagudos…
– Mais me ajudas, bandalho, saltos destes, numa tara à séria, são para pisar o corpo todo.
– O… O corpo todo?
– Sim e o escroto…
– Bolas!
– Sim, as bolas! Isso é que era uma tara à séria… Agora os pés… Só os pés, bandalho?!
– Ah!... E se não me estás a pisar, escusas de me chamar bandalho.
– Eu estou a gostar, bandalho.
– Eu não.
– Acho que te fica bem.
– O quê?
– Bandalho. Bandalho assenta-te bem.
– O que é que isso quer dizer?
– Que tens cara de bandalho e atitudes de bandalho e ar de bandalho. És um verdadeiro e genuíno bandalho!
– Eu estava a brincar.
– A brincar?! Querias que eu te pisasse e chamasse bandalho a brincar?
– Não, quero dizer… Não, isso era a sério. Excita-me.
– Que te pisem os pés e te chamem bandalho?
– Sim.
– Isso é uma tara de merda. Uma tara de meninos!
– Já me tinhas dito.
– E não queres que te chame bandalho?
– Não.
– Porquê?
– Olha… Foda-se!... Porque não!
– Não te excita, bandalhozinho? Não te excita que te chamem bandalho, bandalho?
– Estás a gozar?!
– Eu?! Eu não… E deixa-me que te diga que vim aqui para isso, bandalho, mas pelos vistos, não me safo. Tu és mesmo um bandalho. Um bandalhozeco com taras da treta.
– Isso não tem graça! Escusas de estar a gozar…
– Oh!... Vais amuar, bandalho?
– Vai-te lixar!
– Não chores, bandalhozinho. Eu piso-te, amor, não seja por isso.
– Pisas?
– O escroto?
– Queres pisar-me o escroto?
– E o peito e as pernas e… todo, bandalho. Quero pisar-te todo!
– Mas gostas?
– Acho que vou gostar.
– Mas não pisas mesmo, pois não?
– Não piso?! Não piso?! Faço o quê, então?! Festinhas com o salto?
– Mas se tu te pões em peso em cima de mim…
– Desculpa?!
– Os saltos são muito finos, muito pontiagudos.
– Ah! E depois? Estás a insinuar alguma coisa?
– De quê?
– Do meu peso, bandalho. Essa frase… Eu não gostei nada dessa frase, bandalho! Se me ponho em peso em cima de ti?! O que queres dizer com isso?
– Nada. Nada. O problema são os saltos. São muito pontiagudos.
– Eu não tiro os dois pés do chão ao mesmo tempo.
– Prometes?
– Se estou a dizer.
– E o escroto?
– O que é que tem?
– Não me pisas.
– Que “ganda” menino, bandalho…
– Ias-me pisar?!
– Nããã…
– Ias!
– Não ia nada.
– Ias!
– Não ia… Talvez não fosse.
– Diz a verdade!
– Ouve lá, mas que merda de tarado és tu?! Piso-te os pés e chamo-te bandalho?! Mas que…
– Ias-me pisar!
– Claro que ia!
– E chamar-me bandalho?
– Com gosto! Bandalho!
– Não tiras os dois pés do chão?
– Não!
– Se eu gritar para parares, páras?
– Claro.
– E consegues não me pisar o escroto?
– Consigo.
– Deito-me?
– Claro, queres sentir o meu salto fino, frio e pontiagudo como, bandalho?
– hummm…
– Na cama não!
– Não?
– No chão. Na cama não me consigo equilibrar!
– Ah… E não me pisas o…
– Não, bolas! És medricas, bandalho. Deita-te, homem.
– …
– Não tenhas medo!... Não me conheces, bandalho?
– Não…
– Assim mesmo… Ficas bem, aí deitado… Bandalho!
– Podias despir-te… Podias ir-te despindo…
– Ainda não, meu bandalho. Concentra-te só no salto… está frio… faz-te doer… sentes? Sentes, bandalho? É bom, não é?
– Sinto… sim…
– É melhor do que só nos pés, bandalho, é ou não é?... Podia magoar-te… Posso fazer mais pressão… sentes, bandalho?... excita-te, não é?
– Sim… sim…
– Não fujas. Não te vires. Gostas?... Gostas?
– AAAAAAAAAh! NÃO!!! PÁRA! PÁRA!