– E agora? – inquiriu o cão, olhando em volta à procura nas estantes vazias de qualquer coisa para ler.
Entre os livros que tinham sido tirados e atrás dos que não tinham ficado, um lamentoso letreiro luminoso laranja leccionava lentamente letra a letra: P O U P E E N E R G I A.
– Aquilo está sempre aceso? – questionou o cão, com ar ambientalmente superior.
O crocodilo rodou sobre si próprio e encarou o cão focinho com focinho:
– Algum problema?
O cão não desviou o focinho e manteve-se seguro, ainda que um pouco nauseado com o invisível e inaudível hálito putrefacto azulado e sibilante que o crocodilo expelia com prazer. Arregalou as sobrancelhas militarmente alinhadas e entrechocou ruidosamente as pestanudas pálpebras.
O crocodilo arrepiou-se e temeu que se pudesse apaixonar pela voluptuosa e sensual gazela-de-Thomson que entrava chinelando vagarosamente para que todos a pudessem apreciar. O coxo gostou especialmente das quatros havaianas que o ungulado animal calçava com garbo. O cão, por sua vez, não conseguia tirar os olhos dos quadris traseiros do espampanante mamífero bovídeo. O crocodilo descurou os pormenores e concentrou-se no conjunto: se pudesse comia-a toda.
– Nenhum – respondeu o cão sem saber já a quê, enquanto salivava abundantemente de língua desditosamente caída por falta de ocupação. E, a custo, murmurou para o crocodilo enquanto apontava de esguelha com sub-reptícios movimentos da cabeça para a gazela: – Quem é?
O crocodilo ignorou-lhe os sinais e a pergunta e com displicência ensaiada deslizou para o tapete. Sorriu para a gazela, pestanejando copiosamente e sentiu o membro viril entumecer quando ela lhe respondeu com um sorriso prometedor.
O coxo soltou um riso escarninho e malsão quando se apercebeu da falsa levitação que o crocodilo usava para impressionar a beldade de cascos e deu-lhe um forte pontapé na cauda que o fez rodar como a hélice de um helicóptero.
Todos os mamíferos se riram da figura do réptil que, pousando as patas no chão, sorriu delicada e desportivamente para o coxo, antes de lhe abocanhar a perna sã até ao joelho.
– Ri-te agora! – incitou o crocodilo sarcástico, trincando ruidosamente a tíbia e o perónio que desfazia com visível deleite, mantendo propositadamente o pé calçado do coxo de fora das ocupadas mandíbulas. – Anda, ri-te! Ri-te! Ri-te agora!
A gazela olhou enojada e virando-se para o cão pediu-lhe, esticando o beiço como se o pretendesse beijar caso ele acedesse ao seu pedido:
– Não pode fazer nada, senhor cão? – A gazela fixou-o como se quisesse ser possuída por ele imediatamente e ronronou: – É muito desagradável, sabe… Podíamos passar uns bons momentos, senhor cão, mas assim…
O cão ouvia-a como se fosse a própria Nossa Senhora a falar-lhe, ainda que os seus propósitos não fossem nada divinos, sacros ou celestiais, antes pelo contrário.
O coxo lamuriava-se como os coxos costumam fazer quando são subitamente desprovidos da parte inferior das suas pernas sãs: debitando de forma incessantemente espaçada um ruído irritante que se repete monocórdico como uma buzina de nevoeiro, entrecortado ao cronómetro por bojudos soluços e angulosos lamentos com palavras que o decoro e a educação não nos permitem transcrever.
– Que desagradável… – repetiu a gazela, virando-se sedutoramente de perfil para o cão lhe contemplar mais uma vez as perfeitas curvas posteriores que sobressaíam contra o pôr do sol pintado na parede por trás dela.
Excitado, o cão ganiu, uivou e perseguiu a cauda como um louco, deitando abaixo as pilhas de nada e destruindo de passagem as pirâmides de coisa nenhuma.
A gazela sorria lubricamente, satisfeita com o impacto que causava nos machos de qualquer espécie, saltitando ronceira entre os destroços das pirâmides de coisa nenhuma e as arruinadas pilhas de nada.
O crocodilo engoliu a perna e o pé estaladiço do coxo, cuspiu a sapatilha e a meia e mergulhou nas quentes e agradáveis profundezas lamacentas do tapete de Arraiolos sexualmente explícito.
O coxo apanhou a sapatilha e a meia, espantosamente intactas, agarrou no lamentoso letreiro luminoso laranja, que arrancou da parede, retirou algumas obras literárias cuidadosamente seleccionadas das estantes vazias e saiu pela porta que não chegou a abrir.