Terça-feira

Post antes de férias,

que também se podia intitular post para cumprimento de obrigações contratuais, ou melhor, post para cumprimento de obrigações resultantes da minha esmerada educação e pelo respeito que me merecem…
– Bardamerda! – resmungou o Pereira, que abandonou este blog prematuramente dois anos depois do que devia. – Um tipo arranja uma vida, poupa os colegas à vergonha de serem enxovalhados várias vezes por semana, ainda que eles o façam por si diariamente sem precisarem da ajuda de ninguém, e deixa o blog que tão esforçadamente criou, oferecendo-o a um garfanho qualquer e tem de ler esta…
Corto-lhe o tempo de antena. Isto não é serviço público e se ele não aproveitou os quinze segundos que, graciosamente, lhe conferi, a culpa não é minha.
– Vai-te lixar, pá – interrompe o Borrego, esse grande menino que nunca quis tomar as rédeas e se escondia atrás do colega com nome de árvore de fruto. – Nunca quê?!
– Eu bem vos disse – intromete-se o Oliveira, que lia Sterne e pedia para se chamado Phutatorius, o copulador, numa desesperada, mas infrutífera, tentativa de que o nome o levasse ao acto. – Eu bem vos disse – repetiu, acenando com a cabeça –, este gajo não é de confiança…
Deixo-os, os infelizes repartidos de uma repartição imaginária e descontinuada, e viro-me para outras personagens à procura de…
– Escusa de falar comigo – interrompe Chico, o ex-cunhado, essa besta, rosnando. – Eu merecia mais, meu caro – sussurra para o que os outros não oiçam a desavergonhada lambe-botice. – Isto tinha sido um blog à séria se me deixassem escrever ou, pelo menos – o ex-cunhado, essa besta, confere que ninguém o está a ouvir e declara como se fosse verdade: – Isto tinha sido qualquer coisa de jeito se eu tivesse sido promovido a personagem principal, meu caro.
– Acha? – pergunto, franzindo o cenho.
– Sempre esperei que me levasse à Casa da D. Micas.
– Para quê?
– Ora – o ex-cunhado, essa besta, sorri da desfaçatez da minha pergunta –, não é evidente, meu caro?
– Não – replico.
O ex-cunhado, essa besta, fecha o sorriso, bate com a mão na anca e abana a cabeça desvalorizando-me.
– Se eu lá estivesse aquilo era muito mais animado, pá – opina. – Comigo, V. Exa. não se tinha enredado numa teia de personagens secundárias e conversas sem interesse.
– Não?
– Claro que não – responde entediado com a minha pouca fé. Faz um trejeito com a língua de que mostra a ponta e passa e repassa entre os lábios entreabertos, julgo que o trejeito seria pretensamente de cariz sexual, estica os lábios e faz um ruído como se sorvesse qualquer coisa, penso que igualmente para demonstração do seu carácter libidinoso, e por fim, de sorriso aberto como se tivesse acabado de dar duas, pisca-me o olho, estica e retrai o braço direito várias vezes com o punho fechado, arfando ruidosamente, e declara: – Era sempre a bombar. Sempre a bombar.
– Era?! – Só consigo dizer ainda estupefacto pela perfeita sincronização do movimento do braço e do punho com a respiração ofegante.
– Aquilo era uma casa de putas? – pergunta.
– É – informo, ainda à espera que o braço recomece a arfar.
– Mas não parece, foda-se, parece uma casa de meninos, um escritório qualquer, uma triste e bisonha repartição… – Querendo ser ouvido a dar-me nas orelhas, levantara a voz e olhava agora quer para os repartidos à esquerda, quer para os encalhados da casa da putas à direita. – Náufragos – corrigiu.
– Náufragos?!
– Náufragos, pá, náufragos – o ex-cunhado, essa besta, já não fala: discursa. – E não só eles… – sente a atenção das personagens do folhetim e grita apontando na direcção daqueles: – Vocês, sim vocês. Vocês são umas pobres vitimas da inépcia narrativa e da completa incapacidade deste individuo – olha-me, puxa uma escarreta e cospe-me para os pés – de acabar uma história…
O arremesso bocal da esverdeada secreção foi a gota de água, Chico, o ex-cunhado, essa besta não foi, nem nunca irá à casa da D. Micas.
– Ele está a falar de quê? – pergunta Sérgio, o padeiro surdo-mudo, sem desviar o olhar do generoso decote em tons pastel de Jaciara, a ucraniana empregada de limpeza da repartição.
– Bielorussa! – corrige a volumosa empregada em tons pastel. – Deixa de olhar para as minhas seios, seu pervertido! – exclama ofegante num sensual movimento mamário em tons pastel a bielorussa que devia mudar de história.
O doutor Farinha, ainda sob o efeito do Cialis, que lhe dá vinte e quatro horas de pau feito, aborrecido em tons pastel com a falta de acção no folhetim onde o colocaram inadvertidamente, levanta o braço e questiona suplicante:
– Se ela não mudar, posso mudar eu?... Posso? Posso?
Mas, subitamente, os pacíficos tons pastel que cobriam a nudez de Jaciara desenvolveram uma corolação violeta, numa espécie de efeito especial barato que se consegue com a mudança da iluminação e, sem que se percebesse a razão, que não a resultante da vontade do narrador de escrever tamanha imbecilidade, o fim de tarde soalheiro transformou-se num mar de dentes a rilhar, narinas a sangrar, tormentos sem fim, tribulações contínuas, narizes contra joelhos, olhos contra punhos, bochechas de encontro a palmas da mão, cães a ladrar, ambulâncias a apitar, “os corpos no lago eram de gente no desemprego”, a chuva era de gafanhotos e as águas tépidas translucidas dos bucólicos regatos tingiram-se de vermelho sangue... mas isso é outra história e agora não interessa nada.

Segunda-feira

Tempo seco com aguaceiros persistentes

De ombros descaídos, cabelo escorrido e despenteado, com o nó da gravata a um polegar do colarinho e passo cansado e lento, o lingrinhas chegou-se ao cubículo onde se dirigira silenciosamente e perguntou num suspiro desanimado:
– Sabes, a sensual Susana?
O gordo ocupante do cubículo deu um surpreendido e ridículo saltinho de menina, o que logo o indispôs contra o colega, descolou os olhos do monitor do computador e fixou-se no lingrinhas que se aproximara sorrateiramente e falara sem avisar, assustando-o.
“Podia ter-me morto, se quisesse, que eu nem dava por nada”, pensou o gordo que tinha a mania da perseguição, enquanto o outro esperava por uma resposta à sua pergunta. “Havia de mudar a disposição do gabinete,” ponderou sério, olhando em volta, “assim, fico muito exposto...”
– Estás a ouvir? – bufou o lingrinhas, frequentador de chats e abusador do Messenger, aborrecido com o desinteresse do gordo, que olhava em volta com ar de engenheiro. – O que é que se passa? – insistiu.
– É o meu gabinete... – começou o gordo, com ar solene e superior.
– O teu gabinete?! – admirou-se o lingrinhas, olhando para o abafado espaço que o gordo ocupava entre três divisórias mal amanhadas. – Qual gabinete?
O gordo semicerrou os olhos, alinhou os lábios e as sobrancelhas e rosnou:
– Isto é o meu gabinete, meu caro. Há algum problema?
O lingrinhas que se correspondia on-line com a sensual Susana e, já agora, com a insaciável Úrsula, viu os lábios do gordo tornarem-se uma fina e malvada linha cómica mas não reparou no assustador movimento das sobrancelhas, pelo que se desencostou lenta e despreocupadamente da divisória interrompida que permitia o acesso ao gabinete e soltou uma fina gargalhada de gozo.
– Nenhum problema, pá – declarou rindo. – Por mim, se quiseres chamar ao teu cubículo uma sala de conferências individual, estás à vontade.
O gordo pousou as mãos pequenas e papudas nos braços da cadeira, ergueu-se ligeiramente e soltou um sonoro peido:
– Vai cagar.
O esticadinho que teclava com a sensual Susana, com a insaciável Úrsula, com a arrebatada Tigresa e com a despachada Madame X, franziu o nariz e esperou em silêncio que o aroma o atingisse, ainda que, por questões de prevenção olfactiva, desse um passo atrás.
– Sabias que a Maria e a Carla já se tinham ido embora? – perguntou, pronto a admirar o gordo pelo seu desprezo às convenções sociais.
O gordo fez cara de quem não se ralava nada com isso, mas sabia que estavam sozinhos naquele canto da sala e bolçou um antipático:
– Já? Não sabia – mentiu.
O outro acenou que sim, em extâse. O gordo era o seu ídolo.
– Não sabias? – deixou escapar o crédulo magricela. O gordo enganava-o sempre. Satisfeito com a coragem do outro, o lingrinhas inspirou pelo nariz cuidadosamente e, seguro da inexistência de qualquer fragrância intestinal, retomou o seu posto encostado à divisória do gabinete do gordo.
“Também podia dizer que sofro de alergia aos ácaros e pedir para tirarem a alcatifa”, reflectia o gordo, preocupado com a sua segurança. “Sempre os ouvia chegar”.
– Vens sempre de sapatos? – perguntou o gordo inopinadamente.
Surpreendido, o não tão gordo interveniente olhou para os pés, para confirmar que estava calçado.
– Querias que viesse de quê?
– Nem à sexta? – quis confirmar o gordo de forma a esgotar todas as possibilidades. À sexta-feira não vinham de gravata, por isso era possível que o presumível assassino pudesse aparecer sem sapatos ruidosamente seguros.
– Venho sempre de sapatos – disse o outro, sem perceber nada.
O gordo tossiu: quanto mais cedo começasse a apresentar sintomas de alergia melhor. Sacou de uma gaveta um lenço que parecia um bocado de desperdício e, sob o olhar hipnotizado do colega, assoou-se ruidosa e furiosamente, não conseguindo evitar, em consequência da exagerada força evacuatória nasal, largar um aromático conjunto de bufas.
Aquele que vinha falar na sensual Susana assistia com gosto ao absurdo espectáculo que o gordo montara com uma espécie de lenço e um nariz, mas não esperava ser envolvido, como foi, pela invisível, silenciosa e traiçoeira arma intestinal do gordo, que, sorrindo como um menino bom, enrodilhava o monte de desperdício a que chamava lenço e o devolvia ao fundo da gaveta onde, certamente, viviam e prosperavam várias colónias de fungos, bactérias e outras formas de vida.
– Foda-se – queixou-se sem educação a vítima do atentado olfactivo, o que, sejamos justos, é compreensível em face do repugnante ar poluído que o envolvia sem hipóteses de fuga ou remissão.
– O que tem a sensual Susana? – indagou o gordo com voz doce e interessada, como se entre a primeira frase do colega e a sua pergunta não tivesse passado mais do que um instante. “O tempo é relativo”, justificou.
Ainda atordoado pelo inesperado ataque ao seu nariz, o outro pareceu concordar com o gordo e respondeu como se nada se tivesse passado entre a sua aparição no cubículo e o interesse do gordo na sensual Susana.
– Acho que a gaja é incontinente... – segredou.
O gordo ainda que habituado a tudo esperar do lingrinhas foi surpreendido e não se conteve:
– Incontinente?! – A sua fé do género humano acabava de bater no fundo e por muito pouco não se levantou e não saiu a correr. – Incontinente, a sensual Susana?! Não pode ser...
– Incontinente, pá... – o lingrinhas crescia com o impacto da sua bombástica e liquida notícia na fisionomia do gordo. – Incontinente – repetiu de boca cheia.
O gordo fincou os dedos nos braços da cadeira, olhou bem para a cara de parvo do colega e, num instante de lucidez, perguntou:
– Mas como é que tu sabes isso?
O esqueleto andante sorriu, como se soubesse tudo e até a resposta àquela pergunta em particular. Tornou a desencostar-se, agora porque achava que ficava melhor desapoiado quando transmitisse o resto da informação, pôs as mãos nos bolsos, formalmente descontraído, e colocando a voz, avançou:
– A gaja disse-me...
– Quando?
– Há bocado no Messenger...
– O quê?! Que é incontinente?
– Não, não disse assim... – o lingrinhas fez uma pausa e recomeçou: – “Vou ficar toda molhada!”...
– Molhado – corrigiu o gordo.
– Não sou eu.
– Não?
– Não, pá, ela é que disse...
– O quê?
– Que “vou ficar toda molhada!”
– Ela disse isso?
– Foi... – O lingrinhas tirou as mãos nos bolsos e esfregou-as uma na outra. – Toda molhada, vê lá...
– Mas estavam falar de quê? – inquiriu a anafada personagem.
– Olha... – o lingrinhas esfregou as mãos ossudas e estalou os dedos – Sexo, do que é que havia de ser?
O gordo semicerrou os olhos como gostava de fazer, achava que lhe dava um ar sapiente.
– E essa gravata? – perguntou o gordo ainda processar a inesperada informação da incontinência da sensual Susana.
O lingrinhas conferiu a gravata.
– O que é que tem?
– Puseste assim pela virilha, de propósito?
O lingrinhas agarrou na gravata e esticou-a para ver onde chegava: batia a meio da braguilha.
– Ou é para limpar o pingo? – atacou o gordo.
– Vai-te lixar! – rosnou o diminuído lingrinhas.
O gordo lembrou-se da alcatifa e recuperou a tosse.
O lingrinhas continuou encostado à divisória à espera sabe-se lá de quê.
– Incontinente – acabou o gordo por repetir –, tens a certeza?
– Estou-te a dizer. Incontinente.
– Meu Deus, ao que isto chegou – o gordo forçava os lábios a descaírem numa careta miguelsousatavaresiana de quem está mal com o mundo porque o mundo não faz o que ele diz. – Qualquer dia ainda me vens dizer que a insaciável Úrsula é um marmanjo qualquer, que a incandescente Laura rói as unhas dos pés, que a arrebatada Tigresa tem pêlos nos sovacos ou que a despachada Madame X sofre de halitose...
– Halitose?
– Sofre da exalação de odores repugnantes e incómodos provenientes da cavidade oral.
– Mau hálito!
– Ou isso – reconheceu o gordo com maus modos. – Mas vocês estavam a falar exactamente de quê?
– Quem?
– Tu e a sensual Susana, foda-se.
– Sexo – o lingrinhas formatou um sorriso marialva que ostentava com orgulho. – Podemos escrever o que quisermos que, na verdade, estamos sempre a falar de sexo...
– Sim, no teu caso é capaz – o gordo acenou depreciativamente com a cabeça. – Mas estavam falar exactamente de quê?
– Sei lá – o lingrinhas aborrecia-se com a insistência do gordo –, ela tinha-me dito que ia dar banho aos filhos...
– Ah! – exclamou o gordo. – Não seria por isso?
– O quê?
– Que ela ia ficar molhada?
– Não – o lingrinhas encolheu os ombros: o gordo não tinha salvação, era definitivamente um não crente, uma alma perdida, um desamparado das novas relações sociais. – As coisas que se escrevem nos chats e no messenger nunca são o que parecem – elucidou – têm sempre duplos sentidos, triplos sentidos e, no fim, estamos sempre a falar de sexo. – E repetiu com enfâse: – As coisas nunca são o que parecem.
– Mesmo que pareçam que estás a falar de sexo – rasteirou o gordo, cínico.
– O quê?
– Mesmo que estejam a falar de sexo – o gordo virara-se para o monitor, dando a entender que queria acabar a conversa –, como tudo tem mais do que um sentido, acabam por não estar a falar de sexo.
O emudecido lingrinhas tentava perceber o que o gordo dissera. O gordo aproveitou e continuou:
– Possivelmente, estão sempre a falar de vocês – o gordo gostou da frase e do raciocínio. – Elas estão a falar delas, da vida delas, dos seus desejos, dos seus gostos, dos seus desgostos, mas acham que precisam de falar de sexo para tu as ouvires, para te interessares...
– Teriam-me em muito má conta – comentou o lingrinhas.
O gordo riu-se:
– Para elas és um básico, incapaz de mais do que duas frases sem qualquer conotação sexual...
– E não estão longe da verdade – o lingrinhas acompanhou-o a rir. – Três frases, no máximo.
– Pois.
– Então, achas que ela ia mesmo dar banho aos filhos?
O gordo confirmou com uma cabeçada na atmosfera.
– Ora, bolas – o lingrinhas suspirou e cruzou os braços, descorçoado. – Qual é o interesse de irmos para ali falar da vida?
O gordo não se dignou a responder-lhe ou, sequer, a olhar para ele, limitou-se a encolher os ombros e a tossir.
O lingrinhas separou-se da pouco mais magra divisória, passou a mão pela franja e afastou-se a resmungar:
– Gordo de merda. – Deu um pontapé num refego da alcatifa, passou o dedo entre o colarinho e o pescoço e entrou no seu próprio cubículo. – Mas se ia dar banho aos putos, o que seria que ela queria dizer com hectolitros e hectolitros de chuva dourada? Que raio de espectáculo é esse que ela me queria mostrar?

Sexta-feira

[escrito (nota-se) mas não revisto]
O folhetim 39

Fernando e Henrique viram a D. Micas encostar o indicador direito aos lábios de Big, calando-o, e olharam um para o outro espantados.
– Estás a perceber alguma coisa? – perguntou Henrique.
Fernando desviou os olhos de novo para a razão da sua incredulidade e respondeu:
– Nem estou a tentar, pá, nem estou a tentar.
– E da Patroa tens? – inquiriu o outro.
– O quê?
– Alguma fotografia no telemóvel – explicou Henrique.
Fernando manteve-se calado, vendo Big responder com um aceno a algo que a Patroa lhe perguntara, tomou atenção à movimentação e ao estranho sorriso de Luísa, que se dirigiu para a cozinha, e viu, de olhos arregalados e beiço descaído, Big a seguir a Patroa, entrando para trás do balcão e desaparecendo logo atrás de Luísa.
– Tens? – insistiu Henrique.
– Achas?! – Fernando não tirava os olhos da porta da cozinha, como se tivesse a esperança de conseguir ver através da porta fechada. – Achas que a D. Micas vai com alguém, pá.
– Parece que sim – comentou Henrique, referindo-se a Big.
– Aquilo é a cozinha, parvalhão – respondeu Fernando, azedo. – Mas não estou a perceber nada disto.
– E da outra?
– Qual outra?
– Da que foi com o Cardoso.
– Da Palmira?
– Sim.
– Tenho – respondeu Fernando, desinteressado. – Mas parece que já não está actualizada, a gaja disse que tinha feito um upgrade na xoxota – Fernando falou com sotaque brasileiro –, não ouviste?
– Mostra lá.
– O quê?
– A fotografia que tens dela.
– Para quê?
Henrique calou-se, pensando na razão do seu pedido.
– Para quê? – repetiu.
– Sim – insistiu Fernando, que continuava fixado na porta da cozinha –, queres ver a fotografia da coisa da Palmira, para quê?
Henrique pensou na “coisa da Palmira” e tornou a pensar numa razão para querer vê-la.
– Não faço ideia – confessou. – Não sei, se calhar, pela mesma razão que tu lhes tiras fotografias.
– Tu não sabes qual é a razão porque eu lhes tiro fotografias…
– Grandes planos – acrescentou Henrique, com um sorriso de desaprovação. – E qual é a razão?
Fernando encolheu os ombros.
– Isso é um bocado doentio, não é? – perguntou Henrique, implicativo.
– Vai-te lixar…
– Degradante…
– Degradante?! – Fernando enervou-se. – Tu não querias ver? Tu não te riste quando viste há bocado? Tu não comentaste e disseste graçolas?... Há bocado não te vi com ar de estares a ver nada degradante. Nada que te desagradasse…
– Eu…
– Aliás – Fernando sentia as fontes a latejar, a cabeça a precisar de ser coçada e a respiração a alterar-se. – Aliás, as fotografias são minhas, as mulheres a quem as tirei souberam e concordaram… algumas gostaram, outras acharam que eu era maluquinho, tarado, sei lá… mas todas, todas concordaram e nem paguei mais por isso…
– Mas isso serve para quê?
– Serve-me a mim… Não me serve para nada ou serve, não interessa, é meu. É o meu telemóvel, elas não estão identificadas, elas consentiram… O que é que interessa para que é que serve?! Quem é que estabelece, quem é que define o interesse das coisas, a sua utilidade? Não gostas, não vês. Não concordas, estás no teu direito. Não tens é de me julgar ou de as julgar a elas ou de dizer que isto é degradante ou deixa de ser… Degradante é a tua conversa. Degradante é a censura, a ausência de liberdade, a homogeneização forçada, a imposição de gostos. – Fernando espumava. – E doentio é o encarneiramento, a perseguição, a delação, a estupidez e a falta de senso! – Henrique ouvia-o acabrunhado mas concordante, Fernando concluiu: – Por isso, meu caro, um gajo tirar fotografias ao que lhe apetecer com pessoas adultas e que podem consentir e consentem e guardá-las no telemóvel não é degradante, nem doentio, é uma tara, é uma colecção, é o que for, mas ninguém tem nada a ver com isso…
– Mas posso não gostar.
– Claro que podes – Fernando sentiu a adrenalina baixar. Sorriu. – Claro que podes não gostar e podes dizê-lo e deves dizê-lo.
– E aquele cabrão? – Henrique olhava para a porta da cozinha referindo-se a Big.
Fernando riu, suspirou e tornou a rir:
– Aquele é que nos lixou. – Ajeitou a franja e passou a mão pela cara. – Nunca cá tinha vindo, não queria vir e agora vai para a cozinha, fazer sabe-se lá o quê, com a dona da casa…
– E com a Kitty – acrescentou Henrique.
– É verdade! Ainda mais essa!

Quarta-feira

diálogo esquizofrénico

vou parar.
acabar?
fazer uma pausa.
definitiva?
acho que não. uma pausa.
porquê?
não tenho nada para escrever.
isso nunca foi impeditivo. não está a ser.
podia só escrever pausa.
podias não escrever nada.
não gosto de ver isto assim.
como?
parado. suspenso. chateia-me.
e escrever que vais fazer uma pausa, anima-te?
não.
e escrever isto?
também não. só não quero parar sem mais. e escrevi tantos diálogos que gostava de...
acabar?
não, acabar não. pelo menos, acho que não. gostava de anunciar a pausa com um diálogo.
anunciar?
informar.
e depois?
depois? depois logo se vê.
e o folhetim?
o que tem o folhetim?
não acaba?
espero que sim. tenho de ir relê-lo, já não sei o que escrevi.
e postas?
isso interessa?
a ti não?
sim, a mim sim. acho que o devo acabar por mim.
então acaba.
vou tentar.
e postas?
acho que sim.
bolas. não tens a certeza de nada?
boa pergunta.
e?
e?
a resposta. a pergunta é boa, mas qual é a resposta?
não sei.
tu não és assim.
como é que sabes?
eu sou tu.
não, eu é que sou tu.
eu!
eu!
eu é que estou a escrever.
tu?! eu é que estou!
mau. quem é que escreveu isto?
eu.
tu?!
sim, eu.
acho que não, meu amigo. eu é que escrevi.
achas?
sim, acho.
não tens a certeza?
tenho. eu tenho. tu é que não tens certezas. eu tenho.
e postas?
o quê?
isto.
sim, não tenhas dúvidas.
e o folhetim?
isso és tu.
eu?
sim, tu.
olhe que não, olhe que não.
não?
não. queres contar para trás?
o quê?
as linhas deste diálogo.
para quê?
para saber quem está a escrever...
para quê?
isso é verdade. para nada.
sempre tenho razão.
em quê?
é melhor parares.
eu? eu, parar?
sim.
tu é que vais parar.
'tá pior. tu é que tens de parar. tens. tu.
não temos gotas?
pois não.
então, mais vale continuarmos.
se calhar.
e a pausa?
qual pausa?
a que iamos fazer.
onde?
aqui. não disseste que o blog ia parar?
eu?!
eu é que não fui.
ai isso é que foste.
eu?!
queres contar?
conta tu.
eu não, eu sei que não fui.
então, se não é para parar, este post serve para quê?
para a mesma coisa que os outros.
para nada?
ora, estás a ver como sabes. nem mais.
e agora?
agora, o quê?
postamos.
acho que sim, sempre escusa isto...
isto?
o blog. sempre escusa o blog de estar ao abandono.
parece, não é?
parece?
tem mau ar, não tem?
ainda tens dúvidas?
e este post não vai ajudar nada, pois não?
não. mas engana.
engana?
sim, à primeira vista deve parecer que está aqui qualquer coisa escrita.
estou a ver. até parece que é uma coisa à séria.
hum... isso também é capaz de ser demais. o principio não é nada prometedor. assim que lerem as primeiras frases, bau bau, lá se vai o engano.
só lhes apetece é garfiar.
isso é que é uma grande ideia.
garfiar?
sim. desaparecer, fugir, escapulir-nos.
ah. garfiamos?
deviamos ter-nos lembrado disso há dez minutos.
porquê?
escusávamos de escrever isto.
escusavas. eu não estou a escrever nada.
não?
outra vez?
e quem é que escreveu mwpyrd.
não faço ideia. o narrador?
qual narrador, isto não somos só nós a falar?
e a escrever.
sim, e a escrever. não somos?
só tu.
sim, só eu.
não tens vergonha?
de quê?
de estares a escrever isto?
de escrever não, mas de postar...
é uma coisa um bocado doentia, não é?
é capaz, mas não tinha nada para escrever. era isto ou nada.
mais uns dias em branco.
pois.
mais valia.
achas?
tenho a certeza.
não posto?
e perdias este tempo todo para nada?
era só o meu.
isso é verdade. vamos mas é embora, é melhor, não é?
acho que sim.
até já.

Domingo

ainda n' O Folhetim. peça 38

O ajudante de farmácia pendurou a bata, foi à casa de banho passar a cara por água, lavar as mãos e compor o cabelo e, sob o olhar divertido da farmacêutica, passou pelas colegas com um sorriso maroto e o indisfarçável brilho no olhar das sextas-feiras. Vestiu o blazer, que só aparecia uma vez por semana, e preparava-se para se despedir com o seu melhor estilo quando a farmacêutica lhe comunicou de forma telegráfica:
– Hoje vou lá eu.
O homem estacou, confirmou que a doutora se lhe dirigira e deixou escapar, com uma primeira ponta de desânimo:
– Porquê?
– Porque sim – informou a doutora sem mais explicações. – A encomenda está pronta?
– Está, mas…
– Onde é que está?
– Já está na carrinha, mas…
– A chave?
A doutora procurava manter-se seca e breve, tentando não demonstrar piedade pelo desânimo do ajudante de farmácia. O homem sentira o “hoje vou lá eu” como uma brutal e inesperada bofetada e não o disfarçava. Tossiu nervosamente.
– Qual chave? – perguntou, num fio de voz.
– Da carrinha – respondeu a doutora. – Do que havia de ser?
O homem deixou pender os braços ao longo do corpo, sentiu os pés presos ao chão e a testa enrugar-se. Olhava a doutora sem esconder a perplexidade e o desconsolo que o oprimiam.
– A doutora quer mesmo lá ir? – insistiu, sem se mover, sem sequer pestanejar.
– Já disse que sim. – A doutora endureceu o tom. – Qual é a duvida, senhor Arlindo?!
– De certeza?
A doutora baixou os olhos. A expressão de desalento do ajudante era cómica. Era todo um tratado de abandono, de prostração, de desolação.
– Ó homem, a mulher não é nossa cliente? – A doutora falou com um sorriso quase compreensivo.
– É – suspirou o senhor Arlindo.
– Aquilo não é um estabelecimento comercial aberto ao público?
– Mais ou menos.
– Mais ou menos?! – A doutora irritou-se e esqueceu a cara de cão sem dono do homem. – O que é isso do mais ou menos?
– Não é bem um estabelecimento comercial…
– Não?!
– Nem é bem uma casa aberta ao público…
– Esses mais ou menos – a doutora acenava com a cabeça – e esses bens é que me confundem: Não é bem um estabelecimento comercial?! Não é bem uma casa aberta ao público?
– A doutora percebe…
– Não, homem, não percebo.
– Aquilo é uma casa de… – o senhor Arlindo hesitou, olhou em volta e disse baixinho: – Aquilo é uma casa de meninas, doutora.
– Ai, é?!
– Sim, é uma casa dessas e é mesmo à séria…
– Não acredito.
– Não?! – As rugas na testa do desanimado ajudante de farmácia aprofundaram-se e a boca não se fechou.
A doutora olhou-o já sem paciência e lançou:
– Oiça lá, ó senhor Arlindo, pensa que eu nasci ontem ou julga que eu sou parva?
– Diga? – A boca do homem permanecia aberta, as rugas da testa não se conseguiam vincar mais.
– Mas o senhor pensa mesmo que eu não sei que aquilo é uma casa de meninas? – questionou a doutora, olhando-o fixamente. – E que a D. Micas é a dona?
– Achava que sim…
– Achava?! Já não acha, é?
– Como a doutora disse que queria lá ir…
– E o que tem isso a ver para o caso?
– Pensei que, talvez…
– Ó senhor Arlindo – a doutora ergueu a mão e interrompeu-o –, desculpe lá, mas acha que alguém que trabalha nesta farmácia, e principalmente eu, que sou a dona, não sei que uma casa que nos encomenda todas as semanas caixas e caixas de preservativos, caixas e caixas de lubrificantes e caixas e caixas de halibuts, creme gordo e coisas dessas, é uma casa onde se pratica a prostituição? Acha?!
Instintivamente o homem teve de pôr a mão no balcão, como se precisasse de se apoiar. Fechou e tornou a abrir a boca sem emitir nenhum som. Fixou-se na parede atrás da doutora e ouviu-se dizer como se quisesse engolir a palavra:
– Desculpe?
– Uma casa de putas, homem. – Pela primeira vez a doutora achou que estava a ser demasiado directa para o inerte senhor Arlindo, mas o inesperado e injustificado aparvalhamento do homem complicavam-lhe os nervos. – O senhor acha que aqui alguém tem dúvidas?
O homem respirou fundo e percebeu pela expressão faíscante da doutora que estava a exagerar na tentativa de a levar a reconsiderar. Recuperou o tom e alguma da sua habitual postura:
– Não, de facto, não – declarou. – Acho que toda a gente sabe.
– Então, não sei qual é o seu problema. – A doutora começou a desabotoar a bata. – A chave da carrinha?
– Está no chaveiro – informou o homem, vencido, desapoiando-se do balcão.
A doutora percebeu a resignação do homem e perguntou de forma mais simpática, enquanto despia a bata:
– E o recibo?
– Está na carrinha.
– É muito material? – A doutora achou graça ao termo “material” e baixou a cabeça quando não conseguiu evitar abrir o sorriso.
– Está tudo em duas caixas, das médias, das azuis – explicou o ajudante, procurando o telemóvel no bolso do casaco, que segurou sem tirar.
– Então não há problema. – A doutora sorriu e começou a andar na direcção do homem, que se encostou ao balcão para a deixar passar. A mulher bateu-lhe nas costas, amigavelmente, e enquanto se dirigia ao interior da farmácia, para pendurar a bata e vestir um casaco, repetiu em tom de gozo: – Não há problema, pois não, senhor Arlindo?
– Se a doutora acha – disse o homem, virando-se para o interior da farmácia, onde a doutora entrara. Ergueu as sobrancelhas. Apertou o telemóvel e certificou-se, esticando pescoço, que não a via, nem ela a si. Tirou o telemóvel do bolso e escolheu no menu a escrita de mensagens. Hesitou, com receio que doutora voltasse de repente e o apanhasse a escrever uma mensagem.
– Só se o senhor Arlindo tiver lá alguma coisa combinada – gritou a doutora junto ao robot que ia buscar e entregava os fármacos para avio.
– Eu?! – Enxofrou-se o homem, devolvendo o telemóvel ao bolso ao ouvir os passos da patroa. – Eu… Alguma coisa combinada?!
A patroa aproximou-se a sorrir.
– Tem? – perguntou com ar trocista.
– Não – empinou-se o homem.
– Então, não há problema.
– Pois, se calhar, não há.
– E falo com quem?
– Quando?
– Quando lá chegar, homem. Falo com quem? – A doutora não conseguia desviar o olhar do desanimado semblante do ajudante. – E tire essa cara de enterro, para a semana vai você outra vez.
– Fala com o porteiro…
– Aquilo tem porteiro?
– Tem.
– Coisa fina.
– Fala com ele e pede para falar com a D. Micas ou com a Luísa… – o nome soou-lhe mal, hesitou, pigarreou e rectificou: – Com a D. Luísa. Ele quando vir a carrinha, trata logo disso.
– Entro com a carrinha?
– Entra. Tem estacionamento privativo.
– É?
O senhor Arlindo sorriu com ar triunfante como se o estacionamento fosse obra sua e explicou:
– Quando entrar, se o Rodrigues…
– Quem é o Rodrigues? – inquiriu a doutora, curiosa e satisfeita com o regresso do irritantemente confiante senhor Arlindo de sempre.
– O porteiro – esclareceu o ajudante de farmácia, com um travo de superioridade na voz. Abriu um primeiro sorriso, que suspendeu de imediato, e continuou em tom informativo mas ligeiramente alarmado: – Se ele não estiver a ver e não lhe indicar o lugar, passa por um Range Rover dourado e encosta à esquerda, atrás do jipe. Pára aí e fica entre a porta da entrada e a porta da cozinha…
– Mas o porteiro pode não me ver?
A doutora franziu o sobrolho, agora que sabia mais coisas sobre a casa parecia-lhe que era importante ser logo vista e ajudada pelo porteiro. Antes não tinha pensado em nada, decidira ir sem sequer pensar como se iria processar a entrega mas, agora que sabia qualquer coisa, começava a duvidar da sua decisão, pensava que havia muita coisa que podia correr mal e que era verdadeiramente estranho que a proprietária de uma farmácia fosse vista a entrar numa casa de meninas, mesmo que fosse só para fazer uma entrega.
O ajudante de farmácia percebeu a dúvida nas carregadas sobrancelhas da patroa e sorriu interiormente.
– O porteiro pode não me ver? – repetiu a doutora, pendurada no silêncio do homem.
– Pode – respondeu o senhor Arlindo, fazendo uma pausa para dar gravidade à situação. – O porteiro pode não a ver.
– E se ele não me vir, faço o quê?
O ajudante olhou rapidamente em volta como se fosse dizer um grave segredo.
– Tem de entrar. Às vezes, o porteiro está lá para dentro – informou displicente. O senhor Arlindo crescia com o silêncio atento da doutora. – Entra, vai até ao balcão e pergunta pela D. Micas ou pela D. Luísa… – Calou-se com estrondo teatral. Contemplou a doutora de cima abaixo em concentrado silêncio, coçou a bochecha esquerda, o nariz e o queixo, que ficou a acariciar pensativo, franziu o sobrolho e acenou com a cabeça negativamente.
– O que foi agora? – Não conseguiu a doutora calar.
– Hmmm… – o senhor Arlindo sentia a esperança renascer. Ergueu as sobrancelhas e arremelgou os olhos, enquanto aproveitava para, justificadamente, apreciar com lúbrica minúcia cada centímetro, cada curva, cada detalhe do corpo da doutora. Entusiasmado, mas sem se esquecer de continuar a acariciar lentamente o queixo, nem de manter o ar sério, pensativo e preocupado, o senhor Arlindo não se apercebeu de dar um passo atrás, para passar dos pormenores para o conjunto, nem de abrir a boca (por sorte a língua não saiu, nem ficou pavlovianamente a pender), nem teve consciência de dizer, enquanto ofegava: – Bem… Bem…
A doutora que esperava uma explicação para tão inesperado e enxovalhante comportamento do seu ajudante de farmácia, que só faltava babar, olhava-o petrificada, sem reacção, ainda que se sentisse de novo a recomeçar a entrar em ebulição.
– Deus existe – murmurou o senhor Arlindo quase em extâse, que terminou no momento em que ele se ouviu dizer aquelas palavras.
Envergonhado, o homem passou a mão do queixo para a boca e forçou uma tosse de conveniência. Baixou os olhos para, disfarçadamente, conferir o vulcânico espanto da doutora e antes de saber o que dizer o vulcão entrou em erupção:
– Deus existe?! – A doutora falou alto. – Deus existe?! Que raio de conversa é essa a olhar para mim, senhor Arlindo?
– Ah… Ah… – balbuciou o homem sem levantar os olhos dos sapatos. – Não estava a olhar para a doutora, doutora…
– Não?! Olhe que ninguém diria.
– Não, quero dizer… – o homem levantou a medo os olhos para descobrir as faces vermelhas da patroa e o seu olhar mortífero. – Estava a olhar mas não a estava a ver…
– Olhe que também ninguém diria, senhor Arlindo…
– Não, quero dizer… estava a vê-la mas estava a pensar noutra coisa – o homem ganhou cor quando sentiu algum terreno debaixo dos pés. – Estava a pensar na situação, doutora, na situação da senhora lá aparecer assim… ainda para mais… – gaguejava, mas já recuperara o controlo e sentia que era a última hipótese de recuperar a sua ida à casa da D. Micas, que sentia como um direito laboral, tão certo e legítimo como o subsídio de refeição ou o pagamento das horas extraordinárias. – Ainda para mais, aparecendo assim tão bonita – continuou. – Os homens que não a conhecem podem ser desagradáveis, se a senhora não encontrar logo o porteiro ou a D. Micas.
A doutora acenou com a cabeça concordando com a ideia que o senhor Arlindo apresentava. “A coisa podia ser desagradável”, pensou, preparada para desistir, “mas, por outro lado, tinha uma certa graça” sorriu lisonjeada, ainda não totalmente convencida a abandonar a sua reivindicativa curiosidade.
O senhor Arlindo olhou por cima do ombro direito da doutora para ver as horas, largou o telemóvel, tirou a mão do bolso do casaco e esperou, quase certo do resultado, a capitulação da patroa.
A doutora seguiu-lhe o olhar enquanto ele via as horas, reparou depois no súbito aparecimento da mão saída do bolso e pressentiu nele um ligeiro sorriso debochado. “Que se lixe a taça”, pensou, encolhendo os ombros, e perguntou em tom profissional de patroa para empregado:
– Além da Micas, peço para falar com o Rodrigues ou com a Luísa, não é?
Surpreendido, o homem não conseguiu verbalizar uma resposta, limitando-se a anuir com a cabeça. A mão voltou ao bolso e ao telemóvel.
– Quer algum recado para alguém, senhor Arlindo? – troçou a doutora, encaminhando-se para a porta de saída.
O homem, regressado a seu desencantado ateísmo, escarrou um não que lhe encheu a boca toda.
“Vou jantar com os miúdos”, decidiu, “e vou lá mais tarde”.