Post antes de férias,
que também se podia intitular post para cumprimento de obrigações contratuais, ou melhor, post para cumprimento de obrigações resultantes da minha esmerada educação e pelo respeito que me merecem…
– Bardamerda! – resmungou o Pereira, que abandonou este blog prematuramente dois anos depois do que devia. – Um tipo arranja uma vida, poupa os colegas à vergonha de serem enxovalhados várias vezes por semana, ainda que eles o façam por si diariamente sem precisarem da ajuda de ninguém, e deixa o blog que tão esforçadamente criou, oferecendo-o a um garfanho qualquer e tem de ler esta…
Corto-lhe o tempo de antena. Isto não é serviço público e se ele não aproveitou os quinze segundos que, graciosamente, lhe conferi, a culpa não é minha.
– Vai-te lixar, pá – interrompe o Borrego, esse grande menino que nunca quis tomar as rédeas e se escondia atrás do colega com nome de árvore de fruto. – Nunca quê?!
– Eu bem vos disse – intromete-se o Oliveira, que lia Sterne e pedia para se chamado Phutatorius, o copulador, numa desesperada, mas infrutífera, tentativa de que o nome o levasse ao acto. – Eu bem vos disse – repetiu, acenando com a cabeça –, este gajo não é de confiança…
Deixo-os, os infelizes repartidos de uma repartição imaginária e descontinuada, e viro-me para outras personagens à procura de…
– Escusa de falar comigo – interrompe Chico, o ex-cunhado, essa besta, rosnando. – Eu merecia mais, meu caro – sussurra para o que os outros não oiçam a desavergonhada lambe-botice. – Isto tinha sido um blog à séria se me deixassem escrever ou, pelo menos – o ex-cunhado, essa besta, confere que ninguém o está a ouvir e declara como se fosse verdade: – Isto tinha sido qualquer coisa de jeito se eu tivesse sido promovido a personagem principal, meu caro.
– Acha? – pergunto, franzindo o cenho.
– Sempre esperei que me levasse à Casa da D. Micas.
– Para quê?
– Ora – o ex-cunhado, essa besta, sorri da desfaçatez da minha pergunta –, não é evidente, meu caro?
– Não – replico.
O ex-cunhado, essa besta, fecha o sorriso, bate com a mão na anca e abana a cabeça desvalorizando-me.
– Se eu lá estivesse aquilo era muito mais animado, pá – opina. – Comigo, V. Exa. não se tinha enredado numa teia de personagens secundárias e conversas sem interesse.
– Não?
– Claro que não – responde entediado com a minha pouca fé. Faz um trejeito com a língua de que mostra a ponta e passa e repassa entre os lábios entreabertos, julgo que o trejeito seria pretensamente de cariz sexual, estica os lábios e faz um ruído como se sorvesse qualquer coisa, penso que igualmente para demonstração do seu carácter libidinoso, e por fim, de sorriso aberto como se tivesse acabado de dar duas, pisca-me o olho, estica e retrai o braço direito várias vezes com o punho fechado, arfando ruidosamente, e declara: – Era sempre a bombar. Sempre a bombar.
– Era?! – Só consigo dizer ainda estupefacto pela perfeita sincronização do movimento do braço e do punho com a respiração ofegante.
– Aquilo era uma casa de putas? – pergunta.
– É – informo, ainda à espera que o braço recomece a arfar.
– Mas não parece, foda-se, parece uma casa de meninos, um escritório qualquer, uma triste e bisonha repartição… – Querendo ser ouvido a dar-me nas orelhas, levantara a voz e olhava agora quer para os repartidos à esquerda, quer para os encalhados da casa da putas à direita. – Náufragos – corrigiu.
– Náufragos?!
– Náufragos, pá, náufragos – o ex-cunhado, essa besta, já não fala: discursa. – E não só eles… – sente a atenção das personagens do folhetim e grita apontando na direcção daqueles: – Vocês, sim vocês. Vocês são umas pobres vitimas da inépcia narrativa e da completa incapacidade deste individuo – olha-me, puxa uma escarreta e cospe-me para os pés – de acabar uma história…
O arremesso bocal da esverdeada secreção foi a gota de água, Chico, o ex-cunhado, essa besta não foi, nem nunca irá à casa da D. Micas.
– Ele está a falar de quê? – pergunta Sérgio, o padeiro surdo-mudo, sem desviar o olhar do generoso decote em tons pastel de Jaciara, a ucraniana empregada de limpeza da repartição.
– Bielorussa! – corrige a volumosa empregada em tons pastel. – Deixa de olhar para as minhas seios, seu pervertido! – exclama ofegante num sensual movimento mamário em tons pastel a bielorussa que devia mudar de história.
O doutor Farinha, ainda sob o efeito do Cialis, que lhe dá vinte e quatro horas de pau feito, aborrecido em tons pastel com a falta de acção no folhetim onde o colocaram inadvertidamente, levanta o braço e questiona suplicante:
– Se ela não mudar, posso mudar eu?... Posso? Posso?
Mas, subitamente, os pacíficos tons pastel que cobriam a nudez de Jaciara desenvolveram uma corolação violeta, numa espécie de efeito especial barato que se consegue com a mudança da iluminação e, sem que se percebesse a razão, que não a resultante da vontade do narrador de escrever tamanha imbecilidade, o fim de tarde soalheiro transformou-se num mar de dentes a rilhar, narinas a sangrar, tormentos sem fim, tribulações contínuas, narizes contra joelhos, olhos contra punhos, bochechas de encontro a palmas da mão, cães a ladrar, ambulâncias a apitar, “os corpos no lago eram de gente no desemprego”, a chuva era de gafanhotos e as águas tépidas translucidas dos bucólicos regatos tingiram-se de vermelho sangue... mas isso é outra história e agora não interessa nada.