O Brinde
Ela deu uma sonora gargalhada demente e ele arrependeu-se imediatamente de ter concordado com o “joguinho”.
– E agora como te sentes? – perguntou a mulher, num tom contido, mas friamente ameaçador.
Assustado, ele lembrou-se dos legumes que ela comera em vez das batatas fritas, da conversa de ter acabado a meia-maratona, de ir ao ginásio todas as manhãs antes de ir trabalhar, de três vezes por semana praticar natação à hora de almoço e de ir todos os dias para o trabalho a pé. “Seis quilómetros”, dissera-lhe como se isso fosse uma coisa boa. Aflito, tentou sorrir, como se estivesse à vontade.
– Bem… – Teve de tossir para compor a voz. – Sinto-me bem – declarou, tentando parecer sereno. – Estou à espera…
Ela repetiu a gargalhada e acabou de se despir. Olhava-o e sorria, mas com um sorriso nada amigável. Um sorriso malévolo, aterrorizante.
Ele respondia ao sorriso, enquanto, disfarçadamente, forçava as algemas que o prendiam à cama.
– São de brincar? – perguntou, quase em pânico, quando lhe viu o corpo esculpido, as carnes secas, os abdominais perfeitos e as pernas e braços sem ponta de gordura.
Sem fechar o sorriso, ela levantou os braços e apanhou o cabelo num rabo-de-cavalo, obrigando-o a admirar a perfeição dos seios, redondos e duros.
– São para brincar – respondeu ela, reparando nos nervosos movimentos nervosos das mãos dele –, não são de brincar – concluiu, com um temível brilho no olhar.
– Estás a falar de quê? – perguntou ele, já esquecido da sua pergunta ou das algemas, magnetizado como estava pelos seios maravilhosamente esculpidos que se espetavam apetecivelmente na sua direcção.
A sobrancelha esquerda dela baixou, sinalizando a desconfiança que a pergunta dele lhe causara. Olhou para as mãos dele, agora imóveis, e fixou-lhe o olhar, que continuava cravado no seu peito. A sobrancelha direita solidarizou-se com a esquerda e, ambas, carregadas como uma tempestade tropical, quase que se uniram, obscurecendo-lhe o olhar e o rosto:
– São de brincar?! – murmurou ela, olhando os seus seios, e lançou-lhe com raiva: – O que é que estás a insinuar?!
– De quê?! – cacarejou ele. – De quê?!
Apavorado, o homem perdeu o controlo do rosto e, sincronizadamente, os seus lábios e pálpebras efectuaram movimentos semelhantes e, como numa repartição pública, os superiores afastaram-se dos inferiores, como se estes tivessem tinha. E ele deitado, nu, de mãos algemadas e olhar perdido, estabeleceu uma nova definição para o ar de parvo masculino – o que não é fácil, convenhamos. De boca e olhos escaqueirados, estáticos, expectantes, em pânico, olhava-a num silêncio sepulcral. Por sorte, o indicador direito quis juntar-se ao nariz, num habitual tique nervoso de desunhada coçagem, e, num súbito clarão, disparou:
– Eu estava a falar das algemas. Das algemas. São de brincar? As algemas, as algemas são de brincar?
– Ah – suspirou ela, friamente, como faria um contrariado carrasco na Florida com uma súbita, mas temporária, quebra de energia. – Por momentos, pensei que estavas a… – Calou-se, preferindo não verbalizar tão iníquo pensamento.
– As algemas estão a apertar-me – queixou-se ele, conseguindo emitir em tom de brincadeira para não dar parte de fraco.
– Hmmmm… – por uma vez ela fez um sorriso normal. – Faz parte do jogo, querido, faz parte do jogo – disse, encolhendo os ombros enquanto se dirigia ao fundo da cama. Parou e observou-o com atenção.
Mexeu-lhe nos pés com desdém e, com ar enjoado, inquiriu:
– Não cuidas muito bem dos teus pés, pois não?
Ele ergueu as sobrancelhas espantado, sem perceber o alcance da pergunta.
Ela fez um esgar de desprezo e desconforto.
Ele tentava, com muito esforço, disfarçar os seus verdadeiros sentimentos e mostrar-se tranquilo.
– Eras tu que dizias que os homens gostam de estar nas mãos das mulheres, não eras?
Ele mostrou os dentes, mas não conseguiu sorrir.
– E agora? – ela repetiu ao milímetro a gargalhada demente de quando acabara de fechar as algemas. – Ainda pensas o mesmo?
Ele ergueu o pescoço e acenou com a cabeça positivamente.
Ela sorriu, esperou que ele se sentisse confiante para abrir um sorriso tímido em resposta e, com estudada brusquidão, fechou o sorriso e sussurrou:
– “God, I love you”
Reconhecendo a frase e o filme, ele ficou lívido, deixou de sentir o corpo e sentiu-se diluir no colchão.
Olharam ambos para os pés dele.
Ela riu, ele não.
Quarta-feira
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13:17
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Segunda-feira
O livro é bom, mas este parágrafo é muito melhor:
"(...) Haze sentou-se na borda da cama dela com o chapéu na mão.
O sorriso da senhora Watts era curvo e afiado como a lâmina de uma gadanha. Era óbvio que ela estava tão bem adaptada que já nem precisava de pensar. Os olhos dela engoliam tudo de uma vez, como areia movediça.
«Esse chapéu d'andar à cata de Jesus!», disse ela. E sentou-se na cama, baixou a camisa de noite até às pernas e tirou-a. (...)"
Flannery O'Connor, Sangue Sábio, pág. 47, edição Cavalo de Ferro.
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13:10
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Sexta-feira
(O folhetim) 37
A Patroa sentiu um inesperado arrepio quando a mão de Big se roçou na sua e, alarmada, olhou primeiro para as mãos e depois para dentro do balcão, onde encarou Luísa, que a olhava igualmente atónita. Estupefacta, teve consciência de sentir um calor difuso na face e um súbito tremor nas pernas, como se o sangue fugisse para outro lado qualquer, algo que não sentia há muitos anos. Comprometida, furtou-se à troca de olhares com Luísa e entrelaçou as mãos, afastando-as da mão de Big. Luísa sorriu.
– Sabes o que mais me chateia? – perguntou a Patroa.
– Não – respondeu Big.
– A falta de liberdade – declarou.
Big fitou-a, sério:
– O que a chateia é a falta de liberdade? A sua liberdade?
– Sim.
– Porquê?
– Isto de ser patroa de uma casa de meninas, não é fácil, dá muito trabalho, é… – e explicou-se lentamente, inflectindo a voz em timbres sensuais, quentes, arrebatadores. Falava do que sabia e gostava e, ao mesmo tempo, entusiasmada com a recuperação do papel de sedutora, há muito secundarizado em favor do de empresária, seguiu feliz e empenhadamente procurando manter a atenção e o interesse de Big. Ele ouvia-a, ainda que não captasse tudo, mas deixava-se embalar na agradável ladainha pronunciada em tom sensual, mas cansado, pela Patroa, enquanto se esforçava para, sem que ela se apercebesse, retomar o contacto ocular com Kitty, que se mantinha encostada à porta da cozinha, olhando-os, ainda que evitasse cruzar olhares com Big.
Luísa esperava pacientemente que a Patroa tornasse a olhar para si, o que, por acaso, finalmente aconteceu. Os dois vincos verticais paralelos que desciam do nariz e lhe cercavam a boca aprofundaram-se e a testa enrugou-se, Luísa bateu ao de leve com o dedo médio no mostrador do relógio de pulso, obrigando a Patroa a conferir as horas.
– Já?! Já são estas horas – resmungou a Patroa, mudando o semblante e voltando a ser D. Micas, a empreendedora dona de uma casa de putas. – Pensava que era mais cedo.
Big estranhou a mudança de tom da Patroa, olhou para Kitty e sorriu-lhe. Kitty respondeu-lhe ao sorriso e Big, sem dar por isso, baixou os olhos para o seu relógio. Quando tornou a olhar para a porta da cozinha já Kitty tinha desaparecido.
– Sabes – disse-lhe a Patroa, em tom profissional, batendo-lhe nas costas, percebendo o desânimo do homem pelo desaparecimento de Kitty –, gostei de ti. – Fez uma pausa e continuou, simpática: – Apesar da situação com o Perdiz e das caretas de mau que fizeste no fim – riu-se. Ele baixou os olhos e ela anunciou: – Acho que estou a amolecer mas, como gostei de ti, acho que tens direito a uma de borla. – Piscou-lhe o olho e concluiu: – Com quem quiseres.
Big olhou-a de pálpebras escancaradas.
A patroa soltou uma gargalhada.
– Calculo que queiras a Kitty.
Ele disse que não com a cabeça.
– Não? – espantou-se a Patroa.
– Não, não quero ir com ninguém – declarou ele, quase envergonhado. – Desculpe.
A Patroa deu outra gargalhada.
– Apesar de seres mau para o negócio, acho que fazes muito bem.
– Acha?
– Acho – respondeu a Patroa, séria, chamando Luísa, com a mão. – A Kitty?
A outra aproximou-se:
– Está na cozinha – informou. – Porquê?
– O Calado já veio?
– Penso que sim…
– Pensas?! – interrompeu a patroa, sarcástica. – Estás a perder qualidades, mulher, logo hoje, no dia mundial das zonas húmidas… Pensas ou veio?
Luísa deu um passo na direcção da porta basculante da cozinha, que empurrou ligeiramente, e declarou, olhando para a Patroa:
– Veio. – Tornou a olhar para dentro da cozinha, de sobrolho franzido e lábios cerrados e disse: – Estão a falar… A Kitty está a falar com o Calado.
– E ele tem o aparelho, ao menos?
Big sem perceber nada, via e ouvia o ping-pong entre a Patroa e a empregada e tentava perceber o que se passava.
Luísa abriu mais a porta, acenou a Calado, que lhe sorriu, e apontou para o ouvido. O padeiro acenou negativamente. Luísa, de sobrancelhas arqueadas voltou para dentro, encostou-se ao balcão e falou baixinho:
– Ela está a comer um pão com chouriço e ele não tem o aparelho.
– Que rico par de jarras – zombou a Patroa. – És servido de um pão com chouriço, rapaz… Não sabemos o teu nome, pois não?
– É importante?
A Patroa encolheu os ombros:
– Por mim, não.
– José.
Os olhos da Patroa brilharam, olhou-o com atenção e sentenciou:
– Não… Não tens cara de José.
– Os Josés têm uma cara própria?
– Não, mas tu não tens cara de José – respondeu a Patroa, segura de si. – Pois não?
– Não – concordou Luísa.
– Mas se queres ser José – decidiu a Patroa, sorrindo –, José serás.
Big hesitou e quando se preparava para dizer o seu nome, a Patroa encostou-lhe o dedo à boca, calando-o e tornou a convidar:
– És servido de um pão com chouriço quente, José?
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garfanho
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14:05
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Quinta-feira
– Ouve lá.
– O que é?
– Ouviste dizer alguma coisa sobre as pulseiras electrónicas?
– Não… Eu nem gosto disso.
– Não?
– Achas? Isso é uma chatice do caraças. Um gajo não está preso mas também não está solto. É uma indefinição do caraças. Não é para mim.
– É melhor que ir dentro.
– É capaz, mas eu gosto é das coisas bem definidas. Não gosto dessas aldrabices tecnológicas pós-modernas.
– Então, não ouviste dizer nada sobre efeitos colaterais?
– Isso não era um filme?
– É capaz, mas eu estou a falar das pulseiras, não ouviste dizer nada?
– Não, de quê?
– Eu ouvi dizer que as pulseiras electrónicas tiram a tusa.
– O quê?!
– As pulseiras electrónicas tiram a tesão.
– 'Tás parvo ou quê?
– Quê.
– Quê, o quê?
– Estou quê!
– Estás quê, o quê?
– Não perguntaste se eu estava parvo ou quê?
– Perguntei, porquê?
– Eu estou a responder que estou o quê.
– Isso já percebi, porra! Mas estás quê, o quê?
– Nada! Deixa lá! É verdade?
– É verdade, o quê?
– Porra! Que as pulseiras electrónicas tiram a tesão a quem as usa!
– Sei lá!
– Ouvi dizer...
– E eu com isso?
– 'tou-te só a dizer.
– E?
– E o quê?
– O que é queres que eu te diga?
– Tiram?
– Não sei.
– Mas não achas que se tirarem, é uma medida muito gravosa?
– Qual?
– Qual o quê?
– Porra! Qual é a medida que é gravosa?!
– Aplicar a pulseira electrónica.
– Se tirar a tesão?
– Sim.
– É capaz de ser, sei lá.
– Não te preocupa?
– Não, a mim não.
– Mas se tirar, passamos a ter uma medida de coacção com efeitos colaterais não previstos, nem tipificados na lei...
– Ilegal?
– E inconstitucional!
– Ouve lá, já aplicaste alguma vez?
– Não, e tu?
– Também não. Comigo vai tudo dentro!
– Tudo?
– Os que podem ir, claro!
– Então, nunca lhes dás as pulseiras?
– A quem?
– Aos arguidos, porra! A quem é que havia de ser?
– Não, comigo vai tudo dentro já te disse. Ouvi dizer que as pulseiras electrónicas tiram a tusa.
– Foi?
– Foi.
– Tem graça, eu também ouvi dizer isso. Quem é que te disse?
– Foste tu.
– Ah… Vamos almoçar?
– Vamos, que eu tenho um julgamento às duas.
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garfanho
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12:50
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Quarta-feira
– Não lhe disseste? – perguntou uma voz de mulher, atrás dele.
– Não – respondeu, sem desviar o olhar da rua.
– Porquê? – insistiu a mulher.
Ele levou o cigarro à boca e inalou longamente. Lançou uma baforada de fumo para o ar e murmurou:
– Não sei.
– Porquê? – A mulher não percebera o murmúrio.
– Não sei – repetiu, de forma audível. – Não sei porque não lhe disse.
– Mas pensas dizer?
O homem rodou a cadeira e encarou a mulher. Ela olhava-o, sem censura. Tinha os cotovelos apoiados na secretária e as mãos unidas junto à face. Ergueu as sobrancelhas a pedir uma resposta, mas não verbalizou o pedido.
Ele bateu o cigarro levemente no cinzeiro, fazendo cair a cinza acumulada, coçou a têmpora direita e apoiou o queixo na mão esquerda.
– Não tinhas deixado de fumar? – perguntou ela.
– Deixado, não – esclareceu ele –, mas já não fumava há uma semana – reconheceu.
– E hoje acendes uns nos outros?
– Foi só este – justificou.
Ela calou-se.
Ele tornou a rodar a cadeira e voltou à posição original. Abriu uma gaveta da secretária, agarrou na carteira e retirou uma folha de papel dobrada, que abriu e desamarrotou em cima da secretária.
– O que é isso?
– Nada – respondeu ele, comprometido. Dobrou a folha e tornou a guardá-la na carteira, que arrumou na gaveta.
– Ouve lá, posso perguntar-te uma coisa?
Ele fechou a gaveta, sentiu o tom sério dela como uma ameaça indefinida e tentou ganhar tempo:
– Deixa-me acabar aqui uma coisa – pediu e começou a dedilhar furiosamente o teclado.
Ela entendeu o embaraço dele e sorriu. “Teria sido demasiado directa?” pensou. Ambos sabiam do que ou de quem se estava a falar, e ela duvidada agora que o tom e a pergunta facilitassem respostas. Arrependeu-se e esperou.
Absorvida pelo seu próprio trabalho, ela não o ouviu parar, não se apercebeu que ele acendera outro cigarro, nem ouviu a impressora a debitar o que ele havia escrito.
Ele esperou que a impressão fosse concluída e levantou-se, de cigarro na boca e ombros descaídos. Em silêncio, dirigiu-se à impressora que se encontrava na parede por trás dela, junto à porta do gabinete, e retirou as folhas. Segurou-as na vertical e bateu-as no tampo da mesa que acumulava livros, decretos, despachos e processos avulsos que esperavam melhores dias. Ordenou as páginas e fixou-se na primeira página.
– O que é isto? – surpreendido, não conseguiu evitar a verbalização da surpresa.
Ela deixou as mãos suspensas sobre o teclado, ergueu as sobrancelhas, cerrou os lábios contrariada e rodou a cadeira, enquanto armadilhava um sorriso, para o enfrentar.
– O quê?
Ele mostrou-lhe a folha, virou-a para si e começou a ler, alto:
– “Apontou o cigarro apagado que tinha na mão direita à beata do cigarro aceso que prendia nos lábios e acendeu aquele neste. Esmagou a imprestável beata no cinzeiro cheio e olhou pela janela, para a rua.” – Levantou os olhos para lhe conferir a reacção e, não a compreendendo, perguntou o óbvio: – Somos nós?
Ela fechou o sorriso plástico que aparecera na volta da cadeira e acenou positivamente com a cabeça, confirmando:
– Somos.
Ele continuou a ler, em silêncio.
– Não percebo – suspirou, quando chegou ao fim do texto.
– O quê?
– Estás a escrever-nos, porquê?
Não era a pergunta que ela estava à espera. Tentou não franzir as sobrancelhas e pôs as mãos debaixo das pernas, obrigando os pés a esticarem e a levantar os calcanhares do chão para balançar melhor a cadeira de um lado para o outro.
– Não sei – disse, sincera.
Ele tornou a atenção para a folha de papel.
– Está certo – comentou, com um sorriso envergonhado. – Estás certa.
– Em quê? – Ela não conseguiu evitar responder-lhe ao sorriso e sentiu um ligeiro calor na face.
Ele não reparou e, entre duas passas no cigarro, de que se esquecera, explicou a meia voz:
– A tua pergunta – hesitou, mas decidiu ser sincero – e o teu tom, assustaram-me. A pergunta foi demasiado séria.
– Era para ser. – Tirou as mãos debaixo das pernas, assentou os cotovelos nos braços da cadeira, uniu as mãos junto ao peito, entrelaçando os dedos, cruzou os pés e imediatamente descruzou-os e fechou o sorriso. – Acho que não podes continuar assim, Vítor.
Ele deixou a mão que segurava as folhas descair e fixou-a, sem expressão. Deu mais uma passa no cigarro e avançou para a sua secretária, para o cinzeiro.
Ela continuou:
– Sabes o que te chamou o Luís na terça-feira?
Ele acenou que não com a cabeça, acabou com o cigarro e esmagou-o, com inusitado empenho.
– O quê?
– Zombie.
– Zombie?! Que parvoíce é essa?
– Parvoíce? Tu andas aí pareces um morto-vivo… Entras, trabalhas, sais. Se ninguém te disser nada, não dizes nada a ninguém. Não te ris, não brincas…
– Estou farto disto, Inês. Farto.
– Disto ou da tua vida?
O homem sentou-se, olhou para a rua pela janela. O dia estava cinzento, opressivo. Passou o indicador direito entre o engravatado pescoço e o apertado colarinho e engoliu em seco.
– Isto é a minha vida – murmurou.
A mulher deu uma gargalhada.
– Desculpa – pediu, sem conseguir parar de rir. – Essa frase, com esse tom, deu cabo de mim… Desculpa.
– Podes rir – respondeu ele em tom magoado. – Acho que é mesmo para rir. Só para rir.
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garfanho
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18:23
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Sexta-feira
o folhetim,
Encostada à ombreira da porta da cozinha, Kitty hesitava entre entrar e esquecer Big ou continuar ali, feita parva, sem nada que o justificasse senão o sorriso e o olhar dele que, de vez em quando, se cruzava com o seu. A patroa, ainda que a estivesse a ver, já se esquecera dela e falava com Big como se o conhecesse desde sempre.
Kitty procurou os olhos de Big para se despedir mas, antes que ele tornasse a olhar para si, foi surpreendida pela entrada na cozinha do padeiro, vindo da rua. Kitty reparou no sorriso envergonhado, nas patilhas desproporcionadas e no cabelo enfarinhado. Sorriu-lhe, mas não se moveu da ombreira da porta. O homem entrou, sempre a fazer vénias, como se pedisse desculpa em cada passo que dava e pousou cuidadosamente a saca de pão em cima da mesa.
O padeiro apontou para a saca do pão e, sério, indicou por gestos que o pão estava quente. A mímica do homem lembrou Kitty que ele era surdo-mudo. Ela agradeceu o aviso com uma vénia e tornou a sorrir, sem conseguir disfarçar o desamparo de estar ali, assim, sozinha, prostituta a suspirar por um cliente e a olhar para um padeiro surdo-mudo, que lhe sorria como um menino.
Kitty olhou para Big, que lhe piscou o olho. Ela sorriu em resposta. "Estúpida" pensou e desencostou-se da porta, entrando na cozinha.
O padeiro acenou uma despedida e virou-se para sair, não vendo que ela o chamava:
– Olha. Olha. – Kitty esquecera-se que o padeiro não a podia ouvir.
Kitty sentiu-se completamente desamparada. Abandonada. A cozinha vazia, demasiado branca e iluminada feria-a, fazia-a sentir-se pequena. Insuportavelmente pequena e só.
– Precisava de falar consigo – segredou, vendo a porta fechar-se. – Preciso de falar com alguém.
Kitty arrastou-se vagarosamente e sentou-se num dos bancos junto à mesa, onde fumegava a saca do pão, e suspirou, sem conseguir pensar no que quer que fosse. Sentia-se vazia, sozinha. Sentia-se suja, feia, amarrotada. Derrotada.
A porta da rua abriu-se e o sorriso brilhante do padeiro reapareceu. O homem pousou um pequeno saco de papel, de onde retirou um pão com chouriço, agarrando-o por fora, para não lhe tocar, e ofereceu-o a Kitty. Esta agradeceu e aceitou. O padeiro retirou um guardanapo de papel do suporte que se encontrava na ponta da mesa e, com cuidado, entregou o pão parcialmente embrulhado a Kitty.
– Eu gostava de ter uma vida normal – declarou Kitty, agarrando o pão, ainda quente. – Calado, não é? – perguntou Kitty, achando graça à ironia.
O padeiro estacou e fixou-lhe os lábios para perceber o que ela dizia. Kitty repetiu:
– Chamas-te Calado, não é?
O padeiro acenou com a cabeça positivamente.
– Sabes, Calado. – Kitty falava e o padeiro surdo-mudo olhava-a com atenção, tentando ler-lhe os lábios. – Gostava mesmo de ter uma vida normal, ser uma mulher normal.
Kitty deu uma dentada no pão e baixou a cabeça.
Calado tirou um pequeno bloco do bolso de trás das calças e escreveu. Pareceu-lhe que Kitty se calara. Pousara os cotovelos na mesa, enfiara os dedos da mão esquerda no cabelo e suportava a cabeça nessa mão e o pão na direita, sem fazer qualquer movimento, além dos de mastigar. Calado hesitou, Kitty parecia ter-se esquecido de si. Virou a página do bloco, não tirando a que já escrevera, e escreveu outra mensagem. Bateu suavemente na mesa e estendeu a segunda folha escrita a Kitty, que ergueu a cabeça e o olhou com olhos brilhantes, húmidos.
"Se quiser, vou buscar o aparelho"
Kitty forçou um sorriso, apontou para os lábios e perguntou:
– Consegues perceber o que digo?
Ele sorriu e abanou a cabeça. Conseguia, com dificuldade, mas conseguia.
– Qual é o teu primeiro nome?
Calado escreveu no bloco, "Sérgio" e mostrou-lhe a página.
– Não é preciso, obrigado.
"O quê?"
– Ires buscar o aparelho.
"Parece que precisa de falar com alguém", escreveu o padeiro surdo-mudo.
Ela concordou.
– Preciso mesmo, Sérgio, preciso mesmo.
"Não precisamos todos, ???"
– Sim, acho que sim – Kitty releu a vírgula e os pontos de interrogação. – Mariana, chamo-me Mariana, mas aqui chamam-me Kitty.
O padeiro alargou o sorriso e escreveu com entusiasmo:
"Mariana, a quem chamam Kitty, é quase uma frase bíblica"
Kitty leu, espantou-se e, sem saber o que dizer, deu outra dentada no pão.
O padeiro surdo-mudo viu as horas, foi buscar um sumo e ofereceu outro a Kitty, que aceitou. Sentou-se em frente a ela e esperou que ela falasse.
– A vida é lixada, Sérgio.
O padeiro percebeu a primeira frase, aquela única frase e concentrou-se, com todas as suas capacidades em perceber o que ela lhe dizia, mas para além do seu nome, não compreendia mais nada.
Hesitou, mas acabou por escrever e mostrar o bloco a Kitty:
"Não consigo apanhar o que me estás a dizer, desculpa."
– Não faz mal – disse-lhe ela. – Estares aí, a ouvir-me, ainda que não me oiças, é suficiente, Sérgio.
"Vou buscar o aparelho, é um minuto", insistiu ele por escrito.
– Não é preciso, a sério – os olhos de Kitty brilhavam de tristeza. – Ouve-me só, Sérgio, ouve-me só.
Ele pendeu a cabeça, aceitando.
– Acho que preciso de falar para me ouvir. Para me perceber. – e o padeiro surdo-mudo de olhos azuis, curiosos, brilhantes, de sorriso franco e compreensivo, de patilhas generosas e cabelo enfarinhado ouviu-a sem ouvir nada, mas com toda a atenção do mundo.
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garfanho
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12:20
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Quarta-feira
Bodega.
– Uma frase.
– Uma frase, o quê?
– Preciso de uma frase.
– Para quê?
– Para escrever um diálogo, uma história, uma coisa qualquer.
– Uma frase?!
– Sim.
– Uma frase? Uma frase qualquer?
– Uma frase com conteúdo, uma frase que se possa pegar.
– O sol está quente.
– Desculpa?
– O sol está quente.
– Pois está e depois?
– É uma frase.
– E?
– É uma frase com conteúdo e que se pode pegar.
– Achas?
– Eu não, mas não sou eu que quero escrever.
– Ah!
– Nem sou eu que peço frases para pegar.
– Estou a ver.
– Não deves estar, mas está bem…
– Não devo estar?!
– Não deves estar a ver.
– Porquê?
– Porque um tipo que precisa de uma frase de outra pessoa para escrever, é um tipo que não tem nada para dizer, por isso mas vale abster-se de escrever. É um tipo que vê pouco, que percebe pouco.
– Não é preciso ofender, só te disse que precisava de uma frase. Gostava de escrever.
– Mas se precisas de uma frase é porque não sabes o que escrever, não é?
– É.
– Se não sabes o que escrever é porque não tens nada de relevante ou interessante para transmitir, não achas?
– Sim, és capaz de ter razão. Mais vale não escrever e esperar que tenha alguma coisa minha a dizer.
– Ora aí está, afinal ainda vês qualquer coisa. É mesmo isso.
– Mas eu gosto de escrever, parece que tenho necessidade de o fazer.
– Tens de esperar.
– Pelos vistos… E tu?
– Eu, o quê?
– Gostas de escrever?
– Gosto. Também gosto.
– E escreves quando não tens nada para dizer?
– Hummm.
– Escreves?! Não me digas que escreves? Estás a dar-me este chá…
– De gengibre.
– De gengibre?
– Nunca provaste?
– Chá de gengibre?
– Sim, nunca bebeste?
– Não.
– Não é mau, tem um sabor picante. Dizem que faz bem à garganta.
– Bebeste?
– Bebi e no dia seguinte estava fino.
– Foi?
– Foi, foi o dia em que acabava o antibiótico de largo espectro e o xarope.
– Ah! Então não foi do gengibre.
– É coisa que nunca saberemos.
– Mas podemos supor.
– Podemos. E ainda aproveitei a água.
– Qual água?
– A água de cozer o gengibre.
– O chá?
– Sim, mas se passou para um wok deixou de ser chá, passou a ser água de cozer gengibre.
– E aproveitaste o chá que passou a água de cozer gengibre para quê?
– Cozer camarões ao vapor.
– Foi? E ficaram bons?
– Muito bons, especialmente depois de passarem por azeite, gengibre ralado, whisky e, no fim, tomates frescos esmagados, sem grainhas, nem pele, com coentros e malaguetas…
– O que é?
– É quase hora de almoço.
– Falta meia hora.
– Mas ainda quero escrever uma coisa.
– Escrever?
– Sim.
– O quê?
– Isto.
– Isto, o quê?! Isto?
– Sim.
– Eu a pedir-te uma frase para escrever?
– Sim.
– E tu é que vais escrever?!
– Tu vais?
– Não me disseste nenhuma frase.
– Então, escrevo eu.
– Vai-te lixar.
– Vai tu.
– Tu.
– Tu tu.
– Tu tu tu.
– Tu tu tu tu tu tu. Tu.
– Mas eu dou o título.
– Por mim. Qual é?
– Bodega.
– Bodega?!
– Bodega.
– Seja bodega, não é grande coisa de qualquer maneira.
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garfanho
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13:05
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Terça-feira
não é que não queira escrever, quero; não tenho é ideia nenhuma, zero, niente, nada. uma margem sul de ideias, é o que é.
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garfanho
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10:51
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Sexta-feira
O folhetim – um enxerto onde nada se passa, nada se adianta, nada se narra. Pura perda de tempo, que nem me atrevo a numerar
– Tens falado com ele?
Isabel acenou com a cabeça:
– Não, desde o episódio 22,2 que não sei nada dele.
– Mas tem sido ele a escrever, não tem? – perguntou Luísa, de braços cruzados sobre o balcão.
– Acho que sim – Isabel hesitou, mas concluiu peremptória: – Tem.
– Mas hoje não escreveu outra vez, pois não?
– Que eu saiba…
– E agora? – suspirou Caramelo, desanimado. – Fomos descontinuados?
– Se calhar foi o teu fastidioso e imprestável monólogo que o afastou – sugeriu Henrique, sério.
Caramelo volatilizou-o com o olhar.
– Quem disse isso? – Gritou Luísa, de braços no ar.
– O quê?! – perguntou Fernando.
– Que o Caramelo volatilizou o Henrique com o olhar – esclareceu Luísa, anormalmente excitada.
– Eu não volatilizei ninguém – reclamou Caramelo.
– Diz ali que me volatilizaste, meu cabrão – rosnou Henrique.
– Pois diz – confirmou Caramelo, num sussurro –, mas eu não te volatilizei…
– Diz ali – anunciou solene Fernando, censurando Caramelo. – Se diz ali é porque o volatilizaste.
– E como é que ele o volatilizou se ele ainda ali está? – perguntou Cosme, batendo com os nós dos dedos da mão direita no balcão, com excepção do do polegar que, como o seu e o meu, sendo oponível, não aponta na mesma direcção dos restantes dedos quando se cerra o punho.
Luísa bateu com as palmas das mãos no balcão e gritou:
– Isso não interessa nada! – O ponto de exclamação é dela, eu limito-me a narrar conforme vou inventando.
– Não interessa que o Caramelo me tenha volatilizado com o olhar? – queixou-se Henrique, desanimado.
– Eu não te volatilizei, pá – repetiu Caramelo.
– Diz ali – insistiu Fernando, provocador.
– Diz ali… – Caramelo diminuiu o volume: – E se dissesse ali que tu és um parvo de primeira apanha?
– Não é preciso estar escrito – comentou Toni DJ, que abandonara o seu triste posto para se juntar ao grupo. – Ele é um parvo de primeira apanha.
Com excepção de Fernando, o grupo explodiu numa gargalhada aprovadora e unânime.
Luísa foi a primeira a abafar o riso e virando-se para Isabel explicou:
– O volatilizou-o era importante. – A outra tomou atenção. – Era importante para sabermos quem está a narrar. Não é ele, tens a certeza?
– Tenho – respondeu Isabel. O grupo de personagens ouvia com toda a atenção. – Ele ia escrever o monólogo do Caramelo…
– Estás a ver! – Interrompeu Henrique, com um gritinho de menina.
Caramelo sentiu-se compensado com o “gritinho de menina” atribuído a Henrique para o achincalhar e não respondeu, só riu.
Henrique corou.
Isabel continuou:
– Ia escrever o monólogo do Caramelo, mas queixou-se que o Caramelo era uma personagem sem voz própria… A coisa não saía…
– Ele é que não presta – defendeu-se a personagem, melindrada.
– E ia escrever qualquer coisa com a Kitty e o resto da conversa entre a Mãezinha e o Mr. Big…
– Por isso é que eles não estão cá – sugeriu Luísa.
Isabel assentiu com a cabeça:
– Provavelmente.
– Eu estou – resmungou Caramelo.
– Mas o teu monólogo já estava escrito – informou Isabel –, ele não sabia era que volta lhe havia de dar.
Floriano Perdiz levantou-se do seu sofá, de onde ouvia toda a conversa e, logo que começou a andar, perguntou, levantando a voz:
– E agora?
As restantes personagens que se encontravam junto ao balcão olharam-no, espantadas. De onde estavam já não viam o sofá. Aliás, além do grupo, de parte do balcão e do tecto, as personagens já não viam mais nada, não sabiam mais nada, não ouviam mais nada.
– Estava aí, senhor Perdiz? – perguntou Luísa, vendo-o materializar-se à frente do grupo.
Espantado, Perdiz franziu o sobrolho à pergunta.
– Eu tenho estado sempre ali – declarou, rodeando o grupo para se aproximar do balcão e de Luísa.
– Onde? – insistiu Luísa.
Perdiz passou o indicador direito pela ponta do nariz, cofiou o bigode, ergueu as sobrancelhas sobranceiramente e apontou:
– Ali, no… – engoliu o “meu sofá” que já não via. Tudo à volta desaparecera num breu palpável, substancial. – Ali…
– Estava a ver-nos?
– Sim, perfeitamente – Perdiz olhou para a ponta do balcão onde antes estavam Micas e Big, mas o balcão dissolvia-se em nada dois palmos depois do cotovelo de Isabel. – Estava a vê-los e a ouvi-los – Perdiz deslizou a mão pelo balcão, aproximando-se a medo da escuridão.
– Não dá nada – avisou Isabel, que abriu o braço e fez a mão desaparecer no escuro, afinal, imaterial.
As personagens espantaram-se com a indiferença de Isabel perante a ausência de parte do seu braço e Perdiz receoso recolheu a mão, afastando-a da ponta da dissolvente do balcão.
Isabel sorriu, dobrou o braço pelo cotovelo e mostrou a mão, agitando-a, para comprovar que estava tudo normal.
– Falta-te um dedo – gritou Cosme, agarrando-se com as duas mãos ao pouco cabelo que lhe restava.
Em choque, todos olharam para a mão de Isabel e, instintivamente, apertaram a meia-lua em que se encontravam fora do balcão.
Henrique teve a sensação que o nada se aproximara ameaçadoramente do grupo, querendo, provavelmente, integrar o ser. Os seres, eles, as personagens, que aqui e agora são o absoluto. Henrique gostara de Hegel, mas não percebera nada.
– O nada quer ser – disse Henrique, enigmaticamente.
Os outros olharam para a mão de Isabel: os dedos estavam lá todos – Caramelo apreciou-lhe a perfeição, a beleza da mão, os outros apreciaram que ela mantivesse os cinco dedos.
– Não lhe falta dedo nenhum – rosnou Perdiz, que se sentira assustado e assustado por estar assustado e assustado por estar assustado por estar assustado e assust…
– Alto! – ordenou Luísa. – Mas afinal quem é que está a narrar? Quem é que disse que o Caramelo volatilizou o Henrique com o olhar? Quem é que nos colocou nesta situação improvável, irreal, absurda?
– Não é ele? – perguntou Toni DJ dirigindo-se a Isabel.
– Não – repetiu Isabel enfastiada. – Ele foi sujeito a um tratamento com um antibiótico de largo espectro…
Ouviu-se um gregoriano “Oh”: as personagens temiam pela continuação da história.
– Não pode ser – chorou a voz off de Farinha. – Eu já paguei à mãezinha para levar a Jessica e já tomei o Cialis.
– Fárinha – Jessica falava com o sensual sotaque mineiro –, ‘cê fez isso por mim?
– Eu bem me parecia – disse Perdiz. – O cabrão do doutor tinha de andar a tomar qualquer coisa… Cialis, doutor?
– Vinte e quatro horas sobre vinte quatro horas de pau feito – anunciou Farinha com voz de barítono. – E agora não vejo a puta… – murmurou. – Que sorte de merda.
– Ela tem os dedos todos – reclamou Caramelo, batendo no ombro de Cosme.
– Quem é que falou? – gritou o doutor…
– É doutorado?
– Quem? – respondeu Farinha de pau e peito feito.
– O senhor.
– Não. Porquê? – ameaçou.
– É licenciado?
– Sou.
– Ah!
Cosme chegou-se para junto de Isabel, afastando-se de Caramelo.
– Ela tem os dedos todos – reclamou Caramelo, fazendo o gesto mas não conseguindo bater no ombro de Cosme.
– Quem é que falou? – gritou o licenciado Farinha.
– Eu, António Caramelo, licenciado em animação sócio-cultural. Porquê?
Farinha deu uma gargalhada.
– Está a vê-la, doutor Caramelo?
– A quem?
– À Jessica – respondeu com maus modos o licenciado Farinha
– Mas o que é que ele tinha? – perguntou Henrique dirigindo-se a Isabel.
– Quem? – intrometeu-se Luísa, só para eu não repetir Isabel em três linhas seguidas.
– O narrador – indicou Henrique que, provavelmente, com más intenções literárias, olhou para Isabel: – Ele tomou o antibiótico de largo espectro, porquê?
– É um ganda menino – sentenciou Fernando, antecipando-se a Isabel.
– Está a vê-la ou não? – repisou a voz-off do licenciado Farinha.
– Não.
– Oiça lá – o licenciado Farinha de pau-feito, estava à beira de ficar como as mulheres de um filme de Almodôvar. – Você não disse que ela tinha os dedos todos?!
– Era a menina Isabel.
– Doutora – corrigiu Luísa, ante o olhar envergonhado da empregada de balcão. – Doutora Isabel.
– E ele tomou o antibiótico porquê, doutora?!
– Estava mal da garganta.
– Deve ser doutorada em animação sócio-cultural – lançou a voz-off do licenciado.
– Não se pode desligá-lo? – ciciou Toni Dj.
– Eu ouvi.
– Só se já não dissermos, nem fizermos nada – propôs Luísa. – Se não houver nada para narrar…
– E esperamos que ele volte?
– Sim, é melhor, que daqui já não vamos a lado nenhum.
– Lá se vai o efeito do Cialis, doutor – gritou Perdiz.
– Bardamerda, ó Perdiz, bardamerda.
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garfanho
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