Sexta-feira

a bem dizer, o 25 de Abril, esse golpe de estado que a meio da manhã mudou de roupa (foi o povo! foi o povo!) e passou a revolução (perderam-se os caquis, os verdes azeitona e as botas de quilo, ganharam as bocas de sino, as golas altas e os colarinhos italianos que quase tapavam os ombros) também serviu para isto, um tipo qualquer vir todas as sextas-feiras maçar-vos com mais uma estucha de uns episódios compridos como tudo de um folhetim que é quase pior que o PREC.
Siga a marinha, que a tropa está cansada!

O FOLHETIM (ninguém sugere um nome?)


24
“Good Thing”
Indiferente ao que se passava em baixo, Toni DJ aproveitava a confusão para pôr as musicas que lhe apetecia, no caso os Fine Young Cannibals.
Perdiz cruzou os braços e, aproveitando os movimentos de Big para se soltar do abraço horizontal do Porteiro, dava-lhe disfarçadas mas certeiras caneladas.
Nelson não tocava em Kitty. Pedia-lhe educadamente que soltasse as orelhas do irmão, mas não lhe tocava. Os olhos não conseguiam tanto, pois, ainda que ela não os sentisse, não lhe concediam um segundo de descanso. Nelson ora lhe estudava as costas quase nuas, ora se detinha com cuidados de botânico nas pernas dela, que envolviam o seu irmão, ora procurava com afinco de mineiro as nádegas entre os movimentos da mini-saia, que se enrodilhava e desenrodilhava como se tivesse ganho vida própria. E sorria.
Big sentia as canelas serem picadas de cada vez que mexia as pernas para o lado de Perdiz, mas além dos braços pacificamente arrumados e de uma ligeira aura de humidade ao redor da braguilha do outro, nada conseguia ver, não sabendo, com certeza, ainda que suspeitasse, de onde caíam as caneladas. Além de que, as pontuais dores nos artelhos e nas canelas, não eram nada perante a dificuldade que tinha em respirar, devido ao peso do Porteiro sobre si e aos joelhos de Kitty, que na sua fúria libertadora, de quando em vez, lhe acertavam em cheio no pequeno Mr. Big e nos seus dois acompanhantes.
O Porteiro não sabia se havia de largar Big e desenvencilhar-se de Kitty ou manter Big manietado e aguentar estoicamente as orelhas a serem deslocadas de sítio ou levantar-se com Big, deitando Kitty ao chão. Procurava com olhar suplicante a ajuda da Patroa e com gritos de menina o auxílio do irmão. E, pior do que tudo o que lhe estava a acontecer, preocupava-se com os danos que pudessem estar, nesse momento, a ser infligidos ao seu estimado sobretudo, que só aceitava, por sentir que aquele estava a ficar impregnado dos odores e humores mais íntimos de Miss Kitty.

25
A Patroa esperou os trinta segundos da ordem para que a coisa se resolvesse por si. Viu Big tombar sob o peso de Rodrigues. Viu Kitty lançar-se sobre o Porteiro. Viu o sorriso de Perdiz e os movimentos do seu pé direito. Viu o atabalhoamente sorridente de Nelson e o seu interesse na anatomia de Kitty. Ouviu as músicas com que Toni DJ impregnava o ambiente com os restos dos anos 80. Sentiu as dores de Big de cada vez que um dos joelhos de Kitty, ou ambos, tombavam sobre si, como uma das pragas do Egipto. E, por fim, olhou em volta e viu ainda a movimentação de clientes, curiosos e putas, tendo até percebido a movimentação furtiva e contra as regras de Palmira, levando Cardoso pela porta de exclusivo serviço das putas.
Viu tudo e deixou-se ficar, como se nada visse. Luísa admirava-lhe a contenção e disse, só para a Patroa ouvir:
– Trinta segundos.
D. Micas ouviu, suspirou e descolou as costas do balcão. Semicerrou os olhos, escondeu os dentes e, praticamente, os lábios, que ficaram como um ríspido e duro risco, e dirigiu-se lenta mas decididamente ao foco de instabilidade.
A sua movimentação, felina e aristocrática, pareceu ser notada imediatamente por todos os que se encontravam no estabelecimento, que se focaram em si e já não na briga.
Dos intervenientes, Perdiz foi o primeiro a sentir o seu ferroso olhar – não só a expressão da Patroa endurecia, como os olhos pareciam mudar de cor, do castanho baço da profissional da noite, os olhos escureciam e apareciam entre o ferro ferrugento e o mais profundo negro. Perdiz olhou-a comprometido, mas não desviou o olhar. D. Micas, sem alarido, fez-lhe sinal com as mãos e a cabeça para se afastar, e ordenou a Isabel, que lhe servisse uma água com gás fresca e o levasse para o sofá.
– Isabel, sirva uma água fresca com gás ao senhor Floriano – disse, como se o narrador ainda não vos tivesse dito nada. – Sirva-o no sofá.
Perdiz deu mais uma canelada em Big de passagem e dirigiu-se ao sofá, sem reclamar.

– Levantem-se! – intimou a Patroa, sem levantar a voz, dirigindo-se ao trio, que continuava espojado por camadas como um mil-folhas.
Miss Kitty e Rodrigues, ouvindo a voz autoritária da Patroa, suspenderam imediatamente a escaramuça. Kitty largou as orelhas do porteiro e, com um sorriso tímido, recebeu o acolhedor braço de Nelson que a ajudou a erguer-se, o que fez sem levantar os olhos. Rodrigues fixou Big em jeito de ameaça e, em silêncio, largou o outro e pôs-se de pé, com uma agilidade que o tamanho e o peso não faziam adivinhar. Postou-se ao lado do irmão, desamarrotando o sobretudo, cheio de vontade de o tirar e cheirar-lhe as costas.
Big falou, esbracejou e levantou-se a custo e com cara de mau, que achou que lhe ficava bem.
D. Micas aproveitou o hiato provocado pela pantomima de Big e cravou o olhar em Toni DJ, que entretanto avançara para “Kiss” do artista que então, parece que agora outra vez, era conhecido por Prince.
Toni sentiu o olhar mortífero da Patroa, sorriu como se estivesse a chupar limões ou a acariciar urtigas e calou a música, toda a música, e, aborrecido, retirou os dois cd’s dos leitores incorporados na mesa de mistura, arrumou-os e procurou música nova para tocar.
Micas sorriu, o silêncio soube-lhe bem, tal como a encarneirada prontidão dos presentes para lhe obedecer. Fez sinal ao porteiro para ir para a porta e a Kitty para esperar e fixou-se em Big:
– É a primeira vez?
Ele olhou-a nos olhos, sentiu uma comichão purulenta na face e desviou o olhar.
– A primeira vez? – repetiu Big, constrangido. – A primeira vez, que quê?
Micas envolveu Big pelos ombros com o braço direito e puxou-o para si.
Fernando e Caramelo aproximaram-se.
– Ele veio connosco, D. Micas – informou Fernando.
– Como se isso fosse uma boa notícia – zombou a Patroa.

vintesseis
Caramelo olhou para Fernando e perguntou, enquanto os dois viam Big ser levado por D. Micas:
– E agora?
Fernando encolheu os ombros, passou a mão pela cara e resmungou:
– Sei lá… Não estou a perceber nada disto.
– Deve ser da hora – sugeriu Caramelo, olhando para o relógio e encolhendo os ombros. – A esta hora, isto ainda não é bem uma casa de putas.
Fernando que lhe virara as costas para se encostar ao balcão, deixou descair os dois dedos que erguera para pedir duas minis a Cosme, deixou cair o cotovelo no balcão e virou a cabeça para o outro.
– Então, a esta hora isto é exactamente o quê?
Caramelo aproximou-se do balcão, tornou a encolher os ombros em resposta ao outro e quis saber:
– Estás a pedir para mim?
– Fernando, são duas minis? – perguntou Cosme, que se aproximara.
O cliente assentiu com a cabeça, esperou que o empregado colocasse as cervejas no balcão, estendeu uma nota de cinco euros para pagar e perguntou:
– Ouve lá, Cosme, mas que raio se está a passar aqui hoje?
– Parece que estamos num episódio da Quinta Dimensão – acrescentou Caramelo.
Cosme riu e cantarolou o tema do genérico da série.
– Da primeira, do Rod Sterling – reconheceu Cosme. – Da original!
Fernando deixou os outros dois rirem, agarrou na garrafa e apalpou a sala: Floriano já estava no seu sofá, agarrado a um copo de água com gás; Kitty dava a volta ao balcão para entrar para a copa; Isabel voltava em passos rápidos para trás do balcão, como se não pudesse sair de lá; Rodrigues, o porteiro, de cara fechada como o sobretudo, encostara-se ao umbral da porta da rua, olhando ora para fora, ora para dentro, sempre com a mesma cara de caso; o dono do outro sobretudo encostara-se à entrada do balcão e de mão no copo de Sumol, olhava fixamente para Luísa; esta mantinha-se soberanamente no mesmo lugar, controlando tudo; Toni DJ, de copo de imperial na mão, abanava-se indolentemente ao som de “Grace Kelly”, de Mika, como se fizesse um favor a alguém, escolhera-o pelas parecenças com Freddy Mercury, a música lembrava-lhe Bycicle Race ou, principalmente, Bohemian Rhapsody, ainda que não tivesse nada a ver, mas o timbre e o falsete de um e de outro tinham; o resto da sala, putas, clientes e curiosos agiam com uma normalidade desarmante, espantou-se Fernando, como se nada se tivesse passado.
– Mas, afinal, Cosme – retomou Fernando, quando o riso e a música da Quinta Dimensão se desvaneceram –, o que é que se passa aqui hoje? Parece que está tudo dormente…
Não vou dizer que Cosme encolheu os ombros que esta é imagem estafada por aqui. Em meia dúzia de linhas, já se encolheram ombros para uma semana inteira, mas, na realidade, foi o que o empregado fez, com a agravante de ter tirado e mostrado a língua a Fernando, num gesto indelicado que pretendia demonstrar a indiferença do outro perante aquele que não acompanhara o coro de “tananinas tanananas” que Cosme e Caramelo cantaram com a devoção de um Salmo.
Caramelo já não viu a língua espetada de Cosme, pois, quando se virou, por acaso, para a sala, no fim dos “tananinas tanananas” bateu com os olhos em Isabel, que também o olhou, e estugou o passo para chegar ao balcão. Caramelo sorriu, no que não foi correspondido, e reparou pela primeira vez no corpo bem torneado da recatada empregada de balcão que – ele ainda não sabia – nunca mostrava os dentes aos clientes. Gostou do avental cor-de-laranja forte atado à cintura e que lhe chegava aos pés e da larga t-shirt preta, que lhe escondia o tronco bem proporcionado e os seios perfeitos. Adorou a passada decidida da mulher e a dança contida, amarrada, do avental sob as suas pernas e esperou que ela passasse, para apreciar a forma sensual como o avental fechava e se abria atrás enquanto ela andava, permitindo-lhe adivinhar, nas passadas mais largas, o contorno das nádegas firmes e arrebitadas de Isabel. Caramelo esqueceu a anterior experiência na casa e suspirou apaixonado.

um dois e um sete
Big sentia-se uma marioneta seguindo debaixo do braço da Patroa, quando esta os dirigiu ao local de onde saíra e onde ainda estava Luísa.
– É a primeira vez? – tornou a perguntar a Patroa.
– Que venho aqui? – arriscou Big, olhando em volta.
– Sim – a Patroa riu. – O que é que havia de ser?
Big corou.
– Não – informou.
– Já cá tinhas vindo? – duvidou a Patroa.
Big não gostava do tratamento por tu, mas gostou do olhar de Luísa.
– Luísa, arranja uma bebida ao senhor – disse a Patroa. – Sê boa anfitriã.
– Estava a beber whisky, não era? – quis confirmar Luísa.
Big assentiu com a cabeça, mas recusou:
– Mas não quero mais, obrigado.
– Então?
– Não quero beber nada – informou Big, soltando-se sorrateiramente do braço da Patroa.
– A Kitty? – perguntou Luísa.
– Que vá jantar – ordenou secamente a Patroa. – Eu já falo com ela.
“All Good Things (Must Come to an End)”, Nelly Furtado, com Chris Martin.
– Ela não teve culpa de nada – disse Big, enquanto via Luísa dirigir-se a Kitty.
– Não? – A Patroa virou-se de frente para ele. – Então?
– Não, a culpa foi minha – Big encarou a Patroa. – Acho que me entusiasmei mas, ao mesmo tempo…
– Não querias ir – atalhou a mulher.
– Pois… – ele suspirou ruidosamente, mas não desviou o olhar, cerrou os lábios e juntou as sobrancelhas, num trejeito de resignação envergonhada. – A senhora é que é a dona do… do estabelecimento, não é?
– Sou – o olhar meio perdido de Big fez cócegas na Patroa, que não conseguiu evitar um sorriso.
– A Miss Kitty não teve culpa – recomeçou Big. – Ela estava a trabalhar, eu é que dei ideia de uma coisa, mas depois encolhi-me… Desculpe.
– Nunca foste com uma menina? – adocicou a Patroa.
– Não – confessou Big. – Nem queria, mas…
– Depois de conheceres a Kitty, balançaste, confessa!
Big baixou e ergueu a cabeça três vezes, concordando.
A Patroa soltou uma gargalhada:
– Vocês são todos iguais! Todos iguais!

Quinta-feira

Quando se tornou a deitar já não a abraçou.
– O que foi?
– Parecia que a torneira estava a pingar – respondeu.
Ela sentiu as costas dele encostarem-se às suas.
– Não me querias abraçar?
– Porquê?
– Deitaste-te de costas…
– Deitei-me de lado – corrigiu.
– Não é isso, deitaste-te de costas para mim. – Não havia censura na voz dela, apenas um ligeiro travo de resignação, talvez. – Não me querias abraçar?
– Queria…
– Já não queres?
Ele pensou em virar-se e abraça-la para que a conversa pudesse terminar, mas como se deitara assim por acaso, ou melhor, não por acaso, mas não pela razão que ela supunha, decidiu que se a abraçasse agora, de imediato, estaria a dar-lhe razão. Não lhe apetecia. Deixou-se ficar e respondeu:
– Quero.
Ela esperou que ele se virasse. Ele ficou quieto.
Ela continuou à espera de um gesto, de um movimento ou de um som. Nada.
Ele ficou à espera que ela falasse.

Como se costuma escrever, e eu não arranjo maneira melhor de o fazer: Passaram-se segundos que pareceram minutos, minutos que pareceram horas – na verdade, cerca de dois minutos que pareceram uma hora e tal, se somarmos as meias horas de cada um.
Ele pensava na vizinha do sexto direito e no panconas do marido, que bem merecia um jardim florido na testa.
Ela pensava na máquina de roupa que tinha de estender logo que se levantasse, no ensurdecedor silêncio dele (ela lia muito) e em esticar o cabelo no dia seguinte quando saísse do trabalho.

– Ninguém diria – comentou ela, baixinho.
– O quê?
– Que ainda me queres abraçar.
– Eu quero, mas…
– Mas?
Nenhum dos dois se mexia, nem alterava o tom ou o volume da voz. Falavam com uma civilidade a roçar a indiferença.
– Mas, se te abraçar – continuou ele –, tenho uma erecção.
– Ai é?! E… – Ela hesitou e recomeçou usando uma frase dele: – E porque é que havias de cometer esse erro?
Ele sorriu, reconhecendo a frase. A sua frase.
– Estás tão sedosa e cheiras tão bem, que não me aguento. Ele responde ao calor e suavidade das tuas nádegas, e eu não consigo fazer nada…
– E queres? – Ela encostou-se mais a ele.
– O quê? – Ele pousou a mão na anca nua dela.
– Fazer alguma coisa? – sussurrou ela, sentindo-lhe a mão a acariciar a anca e depois a nádega.
Ele virou-se. Encostou-se e roçou o sexo entre as nádegas dela. Abraçou-a, acariciando-lhe a anca com a mão esquerda e apalpando levemente o seio esquerdo com a outra mão.
– Queremos!

Segunda-feira

No dia mundial do livro, livros:

O Casamento, de Nelson Rodrigues: por tudo!
A Guerra do Fim do Mundo, de Mário Vargas Llosa: porque só consegui acabar dois anos depois: não queria que Canudos fosse destruída, nem que o Estado e a Igreja matassem António Conselheiro. Não queria ler o fim.
Quase tudo de Boris Vian em nome próprio: porque sim.
Doutor Jivago, de Boris Pasternak: porque é milhares de vezes melhor que o filme, como (quase) sempre.
Alguns Nero Wolf, de Rex Stout: porque pensava que não gostava de policiais.
Uma Conspiração de Estúpidos, de John Kennedy Toole: pelas primeiras cento e muitas páginas.
Wilt de Tom Sharpe: pelas gargalhadas.
Crimes Exemplares, de Max Aub: por me ultrapassar.
O Antigo Regime e a Revolução, de Alexis de Tocqueville: por me siderar e pela actualidade.
Memórias de Um Craque, de Fernando Assis Pacheco: pela escrita.
1984, de George Orwell: porque foi dos poucos que repeti (E na Penúria em Paris e em Londres, já agora, ainda que não tivesse repetido).
O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil: porque li os três volumes e o terceiro repete grande parte do segundo ou do primeiro (edição Livros do Brasil) e "ninguém nunca se queixou" disseram-me.
Os Skrotinhos, de Angeli: pelas beringelas!
O Antigo Testamento: pelo Enoch, que não andou mais porque Deus o levou (para onde?)

Sexta-feira

o folhetim (13.ª semana)

22,2
Isabel, a letrada empregada de balcão do lupanar, aconselha-me a não descrever exactamente o que se passou a seguir. Para ela ficaríamos com a prometedora ameaça de Perdiz que, percebe-se, diz, se materializa imediatamente e de forma violenta sobre Mr. Big.
– Os leitores são inteligentes – declara. – Principalmente, as leitoras – sentencia, sorrindo.
– São?
– E as brigas ficam bem nos filmes – continua –, nos livros tornam-se monótonas.
– É? – Franzo o sobrolho, dando expressão à dúvida. Tiro os dedos do teclado e imagino a personagem que me fala aqui.
– Juan Dahlmann lutou? – inquire ela, recuperando tiques de bibliotecária.
– Sim – respondo, satisfeito por me lembrar quem é. – Lutou e morreu.
– Foi?! – O tom é de troça. – Leste, foi?
A ironia na sua voz faz-me perder as certezas.
– Se li? – Tento lembrar-me da história. – Li – confirmo, para ganhar tempo.
– És capaz – concede. – Mas não leste a briga!
Sinto o ponto de exclamação, que se aloja na garganta como uma espinha, tusso e não digo nada. Perder desta forma uma conversa com uma personagem, mais do que mostrar sinais evidentes de esquizofrenia, é triste. Muito triste.
– Aliás, não só não leste a briga – Isabel fala depressa, como se pretendesse abreviar a conversa –, porque Borges não a escreveu, como não sabes realmente se Juan Dahlmann morreu.
Isabel sorri da involuntária rima e diz que é verdade: fala depressa porque quer acabar a conversa; na sua opinião, este capítulo não adianta nada à trama, pelo contrário, e, enigmaticamente, ainda me diz que lhe falta um "p".
Encolho os ombros, enquanto faço um esforço de memória para me lembrar da sorte do homem.
– Ah! Já me lembro! – exclamo, como se não me lembrasse desde o principio; como se esta conversa tivesse existido; como se Isabel fosse alguém; como se não tivesse lido o conto de Borges a meio desta semana.
Isabel abre um pouco mais o sorriso. Olho-a com a atenção. Sorri mais com os olhos do que com a boca. Parece-me que, afinal, está a gostar do protagonismo.
– Sentes que o Sul o matou – explica regressando a Borges, alheia ao meu olhar e ao meu último parágrafo – e que Juan Dahlmann morreu, sem dúvida nenhuma, mas Borges não descreve a luta, o que, aliás – Isabel é atreita a “aliáses” – não é, de todo, necessário.
Com o discurso de Isabel a encalhar a narrativa, olho pela janela sem sol. “Se tivesse escrito ontem, escrevia com sol e sete graus acima” penso, convencendo-me que a falta de luz solar me tolhe a inspiração. “Balelas!” reconheço e escrevo-o.
Lá fora, num sítio qualquer, provavelmente alheios a estas insonsas divagações, Floriano Perdiz e Mr. Big ainda estão frente a frente, medindo-se, rosnando. Perdiz já disparou a ameaça mas, segundo sabemos, ainda não a concretizou.
Engulo em seco. Puxo um cigarro, que não acendo – só fumo depois de almoço – e fico a olhar para isto.

23
O denominado Mr. Big ouviu
– Ai é?! Avô, hã?! Então, apanha lá esta, ó netinho!
e, contemporaneamente, viu Perdiz levantar a mão direita à altura da sua virginal bochecha, esticar os dedos enquanto dava amplitude ao braço e, sem pausas, sentiu a sua bochecha direita ser atropelada pelos quatro dedos do outro (o polegar não o atingiu, ficando a milímetros do seu nariz). Big sentiu a dor e ouviu o barulho em simultâneo, pensando, sem saber porquê, que sem barulho, provavelmente não havia dor, pensamento que imediatamente esqueceu, quando, além da dor e do som, sentiu a energia cinética da estalada virar-lhe a cara para a direita, onde estupidamente reparou em Cardoso de mão dada com uma mulher, o que igualmente logo esqueceu, quando atrás da cara sentiu o corpo seguir a cabeça e render-se, também ele, aos princípios da física.
Em queda, os olhos de Big procuraram perceber onde ia Cardoso, a boca procurou voltar ao seu local habitual, as mãos moveram-se na direcção do chão, para amparar o embate, a cabeça forçou o pescoço a um ângulo doloroso e a um movimento brusco de compensação no sentido contrário e o cérebro procurava adivinhar Perdiz para um contra-ataque, pensava em Cardoso de mão dada com a puta, nos olhos esbugalhados e aflitos de Kitty, na cara de parvo que tinha um tipo de sobretudo preto que se encontrava junto ao balcão, na musica que ouvia, no instrumento que a tocava, que lhe parecia um acordeão, e na impossibilidade de dois corpos ocuparem o mesmo espaço ao mesmo tempo. Quando assentou as mãos no chão, pensou que, isso tanto era verdade para a sua bochecha e a palma da mão de Perdiz, como para o seu corpo e o chão, e levantou-se de um salto.
De garrafa na mão, Miss Kitty virava-se de novo para a sala quando ouviu Floriano Perdiz chamar neto a Mr. Big e, imediatamente, desferir-lhe uma sonora e bem colocada estalada.
Perdiz esboçou um sorriso de satisfação, que o olhar de Kitty encolheu.
D. Micas, Luísa e Rodrigues soltaram preocupados e aborrecidos “foda-se!”.
Nelson Rodrigues sorriu. Gostava de cenas canalhas, de cenas de faca e alguidar e de brigas.
Fernando, Henrique e Caramelo entreolharam-se, fazendo caretas de espanto.
Cardoso ouvindo a estalada, viu Big vacilar e hesitou, mas Palmira segurando-lhe na mão puxou-o para a porta de serviço. Ele foi.
Big usou as mãos como base de apoio, flectiu os joelhos, dobrou os cotovelos e recuperou a posição vertical, engalfinhando-se com Perdiz.
Rodrigues, o porteiro, deu uma palmada no balcão, rodeou-o e lançou-se sobre o duo brigão, procurando agarrar Mr. Big e separar os rivais.
– Cuidado!
– Foda-se!
– D. Micas!
– Quieto! – ordenou Rodrigues, abraçando Mr. Big por trás. – É melhor não te mexeres!
Mr. Big, mais pequeno e mais leve que Rodrigues, não suportou o peso deste, vacilou, tombou para cima de Perdiz, que ao sentir o contacto, saltou para o lado como uma bailarina e, sinceramente satisfeito, viu Big cair aos seus pés, levando consigo o Porteiro.
– Que merda é esta?! – queixou-se o manietado Big sob o peso de guarda-vestidos de Rodigues. – Saia de cima de mim, foda-se! Saia de cima de mim!
– É melhor estares quieto! Quieto! Já disse!
– Ele não estava a fazer nada! – gritou Kitty. – Largue-o! Largue-o! Ele não estava a fazer nada!
– Mas devia! – sorriu Perdiz, ajeitando a roupa.
– Esteja calado, você! Foda-se! D. Micas! D. Micas!
– Está a aleijar-me! Foda-se!
– Larga-o! Larga-o!
– Nelson! Nelson! Tira a gaja de cima de mim, caralho!
– Foda-se! Sai de cima dele, Kitty! Não aguento!
– Larga-o! Solta-o!
– Foda-se!!! A gaja está a arrancar-me as orelhas! Nelson!

Terça-feira

Na Repartição:

– Bom dia.
– Bom dia. Diga?
– O Oliveira está?
– Está, está lá dentro.
– Ah! Sim… Está lá dentro?
– Sim, está. No arquivo. Quer que o chame?
– Hum… e o senhor Picoto?
– O Picoto não está.
– Ah! O Oliveira está lá dentro, mas o Picoto não está.
– Pois…
– E o Oliveira está lá dentro, onde?
– No arquivo…
– Pois, acho que já me tinha dito. Tinha, não tinha?
– Já.
– E o Picoto?
– O Picoto, o quê?
– Não está?
– Não. Já lhe tinha dito.
– É verdade… Onde?
– Quem?! O Picoto?
– Sim.
– Não sei.
– Não veio trabalhar?
– Veio, mas saiu. Serviço externo. Queria falar com ele, era?
– Não, queria falar com o Oliveira… Ele está no arquivo, é?
– … Acho que sim…
– Acha?
– Desculpe lá, quer que o chame ou não?
– Ao Oliveira?
– A quem é que havia de ser?
– Não é preciso enervar-se.
– Não me estou a enervar.
– Parece.
– Mas não estou! Quer que o chame ou não?
– Vê?
– Vejo o quê?
– Está a enervar-se!
– O senhor desculpe, quer que eu chame o senhor Oliveira ou não?
– E o senhor Pereira?
– Qual Pereira?
– O senhor Pereira da repartição…
– O senhor Pereira da repartição devo ser eu!
– Deve?
– Sou!
– Ah! Bem me parecia…
– Diga?!
– Nada. E o senhor Oliveira, demora muito?
– Se ninguém o chamar, demora.
– E o senhor podia chamá-lo?
– Com todo o gosto!
– Não é preciso ser mal-educado!
– Mal-educado, porquê?!
– Esse “com todo o gosto”, era um “com todo o gosto em despachá-lo”.
– Não.
– Era.
– Não era, mas se fosse…
– Ah! Reconhece!
– Não reconheço nada!
– “Mas se fosse”…
– Mas não foi. Quer que chame o Oliveira ou não?
– Isto… Isto… Bem se pode mudar tudo, que fica sempre tudo na mesma.
– Desculpe?
– Os serviços públicos: bem se pode mudar tudo, que fica sempre tudo na mesma!
– É a vida, meu caro senhor, parece que “É preciso que algo mude para que tudo fique na mesma”. Il Gattopardo. Leu ou viu?
– O Leopardo! Vi, mas que tem isso a ver com o caso?
– Nada…
– Sérgio Godinho!
– Sérgio Godinho? Sérgio Godinho, o quê?!
– “O Elixir da Eterna Juventude, esse que quer que tudo mude, p’ra que tudo fique igual”…
– “Estava marado, falsificado, é desleal!”
– Pois…
– Ah!... Mas afinal quer que chame o Oliveira ou não?
– Deixe lá, eu passo cá logo, não era nada de importante.
(– Logo vi.)
– Diga?! Não percebi.
– Nada. Quer que diga que esteve cá?
– A quem?
– Ao Oliveira!
– Não, eu até queria falar era com um senhor Borrego.
– Não era com o Oliveira?!
– Não, era com o Borrego.
– Então… Desculpe lá, mas não disse que queria falar com o Oliveira?
– Queria, mas o assunto é com o senhor Borrego ou com o senhor Pereira.
– Comigo?
– Sim, não é o Pereira?
– Sou.
– Pois.
– Então?
– Então, o quê?
– Qual é o assunto?
– Nada, eu depois passo cá.
– Mas se o assunto é comigo…
– Mas, se não se importar, tenho de cumprimentar o senhor Oliveira primeiro.
– Cumprimentar?
– Sim, cumprimentar. Dizer-lhe bom dia, ser educado, está a ver? Uma questão de cortesia.
– E depois?
– Depois, o quê?
– Depois de o cumprimentar.
– Venho falar consigo ou com o senhor Borrego…
– Bom dia.
– Bom dia.
– Ah!... Não se conhecem?
– Quem?
– Não me diga que o senhor é que é o senhor Oliveira?!
– Não lhe digo.
– Não é?
– Sou.
– Então?
– Então, o quê?
– Porque é que não me disse?
– O senhor pediu para não lhe dizer.
– Ah! Estou a ver. Era uma piada.
– Nem por isso.
– Mas o senhor não conhece o Oliveira?
– Não.
– Estava a dizer que o vinha cumprimentar…
– A mim?
– Sim, este senhor chegou aqui e perguntou por ti…
– Eu queria cumprimentá-lo e apresentar os cumprimentos do meu cunhado, o Lopes.
– Qual Lopes?
– O Lopes. O Lopes lá da terra, não está a ver?
– Ah! O Lopes… O Lopes é seu cunhado?
– É…
– Então, você é casado com a… Alda?
– Não, com a Ana Maria…
– Ah! A Ana Maria… A Ana Maria… Não estou a ver… O Lopes e a Alda têm uma irmã?
– Não. A Ana Maria, a minha mulher, é irmã da mulher do Mendes, que está casado com uma irmã da mulher do Lopes, que…
– Então, não são cunhados…
– É como se fossemos…
– Ó Oliveira…
– O que é? Dói-te o pescoço?
– Não.
– Parece, estás cheio de tiques.
– Não é nada… Não podem ir falar para ali?
– Ah! Venha lá, senhor…
– Perdiz, Floriano Perdiz.
– Floriano Perdiz?! Parece que o conheço… O seu nome não me é estranho. Venha lá, que aqui o Pereira parece que quer trabalhar.
– Até já, senhor Pereira.
(– Garfanho.)
– Diga?
– Nada. Até já. Oliveira!
– Diz?
– Toma.
– O que é isto?
– Nada, lê.
– Ah! Porquê?
– Nada.
– P’r’o Borrego?! Porquê, não podes atender as tuas personagens de outras histórias?
(– Bardamerda.)

Sexta-feira

sexta-feira.13.segue o inominado folhetim.

16
– Que dia! – queixou-se a D. Micas, depois de dar autorização a Palmira para deixar o serviço de sala e ir dar uma com Cardoso.
– Quanto é que lhe levo? – questionou Palmira, falando para Luísa.
– Tens de pagar… – Luísa hesitou e olhou para a Patroa, que ouvira a pergunta de Palmira. A Patroa acenou com a cabeça, cerrou os lábios, suspirou e encolheu os ombros resignada. Luísa recomeçou: – Pagas dez pelo quarto, o resto é para ti…
– Dez no primeiro quarto de hora – esclareceu a Patroa – e mais cinco por cada quarto de hora a mais.
As três olharam para Cardoso, o amante.
– Se pagares quinze euros já não é mau, Palmira – comentou Luísa. – Nada mau!
A Patroa riu.
Palmira olhou com mais atenção para Cardoso, que lhe devolveu o olhar, sorrindo gulosamente, e propôs:
– Mas se for mais de uma hora, só pago vinte!
A Patroa dobrou o riso:
– Ó mulher, se tu e aquele tipo estiverem a foder mais de uma hora, nem pagas nada! Nada!… – As três mulheres olharam para Cardoso, que ouvia os amigos a falar. – Aliás, com aquela carinha, se ele se aguentar um quarto de hora no balanço já tens muita sorte, mulher, muita sorte!
Palmira pôs o seu ar mais sério e convicto e confirmou:
– Mas se nós nos aguentarmos uma hora, não pago nada?
– Nada – assegurou a Patroa ainda a rir.
Luísa piscou o olho a Palmira, que se despediu com um confiante:
– Está feito, mãezinha! Uma hora!
As três riram.
A Patroa esperou que Palmira se afastasse, para ir pousar os copos e as garrafas que havia recolhido e ordenou a Luísa:
– Diz à Beta que ela vai para o quarto doze! Ah! E diz-lhe para lá ir ao fim de… – a Patroa hesitou, viu o sorriso na cara de Palmira, enquanto ajeitava o cabelo e se dirigia a Cardoso, viu o brilho sorridente nos olhos deste em resposta, e calou-se. Abanando a cabeça engoliu um “o mundo está perdido”, que Luísa reconheceu no resignado ondular da cabeça da Patroa, e reordenou: – Não… não digas nada.
– E do quarto? – quis saber a outra.
– Também não… Que se lixe… Faz de conta que hoje é Natal! Deixa-os esfodaçar à vontade!

dezassete
Por gestos, Toni DJ pediu uma imperial ao enfezado empregado do balcão, que lhe respondeu com o polegar erguido, referindo-se ao pedido mas, principalmente, à musica. “Road to Nowhere”, Talking Heads.
Para Toni aquelas eram as melhores horas do dia de trabalho e se, como hoje, a Patroa estivesse distraída ainda melhor, pois, podia pôr a música que quisesse. Àquela hora não havia obrigação de puxar pelas gajas, nem de entusiasmar os clientes. Não havia shows com as repetidas músicas que elas usavam para se despir, nem tinha de fazer a banda sonora para a Patroa falar e preocupar pessoas.
– Obrigado – agradeceu Toni, recebendo a imperial e virando-se para a mesa de mistura, empurrou um botão para cima e outro para baixo e anunciou: – Esta é para ti, Cosme!
O enfezado empregado de balcão ouviu os primeiros acordes e reconheceu:
– “Whatever Lola Wants” – Cosme ergueu os polegares. – Sarah Vaughan remisturado pelos Gotan Project!
– Exactamente – reconheceu Toni, que pegou numa caixa de um CD e o mostrou ao empregado.
– Não consegues! – atirou Cosme. – Astor Piazolla?!
– “Fuga Y Mistério”, meu caro – contra-atacou Toni, sorrindo desafiador. – Piazolla!
Cosme agarrou no copo vazio, olhou de esguelha para a Patroa e comentou:
– Estás com sorte que ela está distraída… Pode ser que te safes. – Cosme viu que Toni bebia a imperial com sofreguidão e, esperando pelo copo vazio, concluiu: – Se ela estivesse a ouvir, já estavas a beber água.
Toni despejou o copo, inspirou para recuperar o fôlego e concordou:
– Já estava e era toda a noite! – Riram os dois. Toni passou o copo vazio ao empregado. – E traz-me outra que ela não viu esta! Aquilo está um bocado estranho ali para baixo, não está?
Cosme agarrou no copo, encolheu os ombros e afastou-se:
– O normal.
– Mas o Perdiz está mais alucinado do que o costume – retorquiu o disc jockey.
– Isso é verdade – concordou o outro e afastando-se alvitrou: – Pode ser que não seja nada.

18
– Tu vais com a gaja? – perguntou Henrique.
Cardoso acenou que sim.
– Se a Patroa deixar – explicou. – Ela já não é puta.
– Não? – duvidou Henrique.
– Não – confirmou Fernando, que sabia.
– E nós? – interrompeu Caramelo, com cara de cão sem dono, aborrecido por ninguém lhe ligar. – Não vamos jantar?
Cardoso olhou para o relógio, levantou o olhar para Palmira, que olhava para si, sorriu-lhe e, entusiasmado, disse aos amigos:
– Vão vocês! Eu vou comer por aqui!
– E ele? – Henrique apontou com a cabeça na direcção de Mr. Big.
– Vai lá e pergunta-lhe – respondeu Fernando.
– Foda-se! – assobiou Henrique. – Vai tu!
– Vamos embora e dizemos-lhe – sugeriu Caramelo. – Se ele quiser vir vem…

19
Nesse momento, a conversa entre Miss Kitty, Mr. Big e Floriano Perdiz inflamava-se.
– Mas ias foder? – cresceu Perdiz para Mr. Big. – Diz lá, ias mesmo foder com a Miss Kitty?!
– Se calhar…
– Se calhar?!?!?! – cresceu Miss Kitty para Mr. Big. – Se calhar, íamos foder?
– Sim… – encolheu-se Mr. Big.
– Se calhar?!
– E se não calhar, Mr. Big? – intrometeu-se sarcástico Perdiz. – Não ia, não era?
– Oiça lá, mas o que é que você tem a ver com isso?! – defendeu-se Mr. Big.
– Tenho eu! – Miss Kitty fulminou-o com o olhar. – Íamos ou não? Ias-me jantar ou não?
– Jantar?! – Perdiz livrou-se de uma gargalhada nervosa que o perfume de Miss Kitty lhe provocava. – Agora chama-se assim?
– Cale-se, caralho! – ordenou Kitty. – Responde! Íamos?
– Sim… – repetiu Big.
– Que entusiasmo, Mr. Big… – Perdiz sorriu e cofiou o bigode. – Que alegria contagiante!
– Sim… – Kitty olhou em volta, um pouco perdida, procurando algo que a trouxesse à realidade. Não conseguiu e disparou: – “Sim…” Que merda de sim é esse?!
– Foda-se, desculpem lá – Mr. Big respirou fundo, confrontou o seu olhar com o de Perdiz e depois com o de Kitty, ganhou alento e tentou atabalhoadamente contra-atacar: – Mas que merda de casa de putas é esta, onde eu tenho de me estar a justificar?! Se eu quiser vou, se não quiser não vou!
– Não ia! – concluiu Perdiz com um gritinho que lhe sai mais agudo do que desejava.
– Não vais! – Kitty mordeu a unha do polegar direito, passou essa mão pelo cabelo e sentenciou friamente: – Agora mesmo que quisesses não ias, meu menino! E para mim chega, que vou jantar… Estou farta de aturar Bigs da treta e Perdizes mal encarados!
– Mal encarado?! – sentiu-se Perdiz. – Que merda é essa?!
– Big da treta?! – Big virou-se para Perdiz e rosnou: – A culpa é sua, caralho! Quem é que o mandou meter-se onde não era chamado?! Foda-se!

xx
– A gaja vai-se embora, mano – avisou Nelson, pousando o copo de Sumol.
– Quem?! – Admirou-se Rodrigues, que galava uma preta de calças de ganga azul escura elásticas e um cai-cai branco que desafiava a lei da gravidade fracamente encavalitado numas grandes mamas chocolatadas. – Quem é que se vai embora?
– Aquela que está a falar com o…
– A Kitty… – o Porteiro olhou para o trio que se desfazia – mas onde é que a gaja vai?! Os gajos vão enrolar-se! A gaja não pode!
– Já foi!

21
Miss Kitty lançou um lacónico passar bem a Big e a Perdiz e dirigiu-se à Patroa e a Luísa, para saber se podia ir jantar. Luísa agitou a cabeça com vigor e fez várias caretas para que Kitty não se aproximasse e voltasse atrás. A operária primeiro vacilou ante as caretas da ajudante da Patroa e depois decidiu-se voltar atrás, quando foi atingida pelo olhar furibundo do patronato. Disfarçou virando a agulha para o balcão e pediu a Isabel uma garrafa de água.
– Rápido – reforçou sonoramente, para demonstrar o seu empenho em resolver a situação que criara ou ajudara a criar.

Vinte e dois
– Foda-se! – Big não se conteve. – Mas… Mas… quem é que o mandou vir para aqui, caralho?!
– Cuidadinho com a língua, ó ceboleiro!
– Vá dar banho ao cão, seu empata fodas de merda!
– Atenção! Atenção à linguagem, ó menino!
– Menino é o caralho! Você vá mas é tratar-se, que isso de ter ejaculação precoce e vir para uma casa de putas é um desperdício do caralho!
– Ouve lá, o rapazinho, mais respeito! Olha que eu tenho idade para ser teu pai!
– Avô, você tem é idade para ser meu avô!
– Ai é?! Neto, hã?! Então, apanha lá esta, ó netinho!

Quarta-feira

A micose localizada de Deus

Deus descontinuou espaço e tempo e chamou-me à parte:
– Ando há dias a tentar falar contigo – rosnou amigável, coçando a virilha direita. – Mas as comunicações inter-galácticas estão cada vez pior e não te tenho visto no Messenger, por isso tive de fazer isto. Onde é que tens andado, pá?!
Eu ia justificar-me, mas Deus, erguendo assertivamente a mão direita, sorriu, encolheu os ombros, piscou-me o olho e explicou, em ar de gozo, que sabia tudo, pelo que eu escusava de inventar e, pondo o braço por cima do meu ombro direito, assegurou, ainda gozando:
– Não te justifiques, eu sei antes de tu saberes.
“Então, escuso de falar.”
Não disse, só pensei. Na verdade, até tentei não pensar, se ele já sabia escusava de o fazer.
– Mas, se eu não pensar sequer, eu é que não chego a saber – acabei por dizer.
Deus deu uma forte gargalhada e coçou a virilha esquerda com canino empenho:
– Se fosse na semana passada, já estava todo mijado, meu rapaz.
Eu olhei-o espantado e acho que nem cheguei a pensar no que aquilo queria dizer, mas ele, sapiente como poucos, compreendeu a minha perplexidade. “Como nenhum”, rectificou directamente no meu cérebro.
– Na verdade, foi na tua unha do dedo mindinho da mão esquerda – disse Ele.
– Foi na minha… – Ele, como já sabia o que eu ia dizer, preparava-se para me interromper. Levantei a mão como o vira fazer antes e disse-lhe: – Ó senhor Deus, desculpe lá, mas deixe-me falar, eu tenho de pensar e de me ouvir enquanto falo. – Ele sorriu, compreensivo, e a minha unha do dedo mindinho da mão esquerda comunicou-me que ele reconhecia as minhas limitações e que se eu queria falar que falasse. – Obrigado – agradeci. – Agora explique-me lá o que é isso de me falar através da unha.
– Não era isso que tu querias saber – disse ele, displicentemente, mais interessado em coçar a virilha direita.
– Não?
– Não, não era isso que querias saber – repetiu. – O que tu querias saber era porque é que se fosse na semana passada eu já estava todo mijado.
– Pois era – abanei a cabeça. “Este tipo sabe muito”
– Tudo – corrigiu-me. – Mas é simples, meu caro, é que eu na semana passada era um incontinente…
– Um incontinente?! – Espantei-me. – Deus era incontinente?
– Sim, meu caro, eu padeço, sabes… – Deus baixou a cabeça, como se apontasse para a mão que coçava com brio a virilha esquerda. – Eu tenho de padecer dos males do mundo – suspirou.
– Quer dizer que só há um mundo? – interrompi.
– Não, não quer dizer isso.
– Mas se o senhor é Deus e se tem de padecer dos males do mundo, singular, mundo.
– Eu percebi – Deus olhou-me com infinita benevolência e quase tanto desprezo. Eu e a micose estávamos ao mesmo nível. – Eu percebo tudo.
– Esqueci-me – justifiquei, erguendo as sobrancelhas. – É a primeira vez que estou falar com Deus…
– Pensas tu, meu rapaz, pensas tu.
– Já tinha falado consigo?
– Já.
– Quando?
E, não sei através do meu dedo mindinho, se do meu cérebro, vi uma taberna de beira da estrada onde eu comera uma sandes de presunto e bebera uma mini.
– Falámos neste pardieiro?
– Sim – Deus riu-se da minha franqueza, tossiu um “foda-se” para as virilhas e concluiu: – Era eu.
– Era o senhor, o quê?
– O tipo que estava a servir nessa tasca infecta.
– O gajo que me serviu uma sandes de presunto cheia de ranço?
– Ah! Boa! Esse mesmo – Deus deu-me duas palmadinhas nas costas. – Mas a segunda sandes era boa, não era?
– Pois era – anui. – E isso sempre me fez confusão, é que você foi cortar do mesmo presunto que antes estava rançoso.
Deus riu e tornou a bater-me nas costas.
– Tive de fazer batota – Deus deu uma forte gargalhada, mas falou muito baixo. – Tive de usar os poderes.
– Para tirar o ranço ao presunto?!
Deus estacou, fez um movimento para que eu olhasse para ele, pôs o indicador direito na vertical em frente à boca mandando-me calar e sussurrou:
– Não podemos falar nisso, pá. Isso é proibido.
– O quê?! – O ar sério e receoso de Deus espantou-me. A fúria com que coçava ora uma ora a outra virilha assustou-me. – É proibido tirar o ranço ao presunto?!
– Pschiu! Fala baixo! – Ordenou Deus olhando em volta. Puxou-me para si e continuou murmurando: – Quando estamos lá em baixo em estágio não podemos usar truques.
Da frase retive o estágio e o plural; do ar comprometido de Deus percebi que além de mais, havia certamente uma hierarquia, e dos seus rápidos movimentos dos olhos à procura de quem nos pudesse estar a ouvir conclui que Ele não estava no topo da pirâmide; do contrariado, mas competente, modo como coçava as virilhas deduzi que hoje padecia de uma grave micose localizada.
– Mas não te trouxe aqui para isso, meu rapaz – ele dava uma entoação qualquer ao “meu rapaz” que me aborrecia e parecia tirar um gozo qualquer desse facto, pois de cada vez que cravava um “meu rapaz” na conversa olhava-me com indisfarçada curiosidade e gozo.
E, com não sei quantos “meu rapaz” pelo meio, debitou um sermão incompreensível e deu-me – assim mesmo! –, deu-me uma missão, que eu, aliás, também não apanhei.
– Percebeste?
– Sinceramente?
– Sim.
– Não.
Deus cerrou os lábios num sorriso contrafeito e encolheu os ombros.
– Mas isso já você sabia – conclui eu.
– Pois já.
– E agora?
– Agora?! – Deus tornou a encolher os ombros e olhou para o buraco que se abriu debaixo dos nossos pés. Estávamos num topo de um vértice. Por cima o olho de um furacão. Deus levantou o rosto, olhou-me, voltou a olhar para baixo e disse: – O olho de um furacão é uma boa imagem mas, infelizmente, isto é apenas um ralo de uma banheira, a dimensão espaço-temporal em que normalmente te movimentas não dá para mais. A vossa dimensão não é grande coisa.
Eu olhei para baixo desiludido.
Ele deu uns pulinhos, como se isso lhe pudesse evitar as consequências da micose e tentou animar-me:
– Mas, visto daqui, parece uma coisa grandiosa, não parece, meu rapaz?
Engoli o “meu rapaz” e procurei vislumbrar o fundo do vértice. Fixei o ponto escuro mais distante dos meus pés mas, além do ponto escuro mais distante dos meus pés que fixei, não vi mais nada. No entanto, senti-me mais animado, era, de facto, uma coisa grandiosa. O vértice, a ausência de gravidade que me permitia simplesmente pairar sem pensar nisso, e a rapidez dos elementos que se deslocavam para o fundo do vértice, davam verdadeira e assombrosa grandiosidade à coisa e provocavam-me uma inédita sensação mística, sobrenatural. Eu estava na presença de Deus, a pairar sobre um vértice silencioso mas terrível, sem fim à vista. Que mais queria?
– Que eu não coçasse as virilhas? – perguntou Ele, reconhecendo o meu desconforto.
– O quê? – Tossi, disfarçando. – Não… Não… Coçar as virilhas, quem?
Deus sorriu, percebendo o meu embaraço.
– Ninguém, meu rapaz, ninguém – sussurrou e apontou para baixo.
O vértice aumentava e ganhava mais velocidade, a nossa insustentada posição provoca-me arrepios e admiração crescente.
Em êxtase, admirei o magnifico espectáculo, até que o súbito aparecimento de espuma de sabonete e champô nas paredes do vértice e de cabelos e pintelhos a tapar o ralo, criando uma crosta esbranquiçada de espuma e água suja debaixo dos nossos pés, acabou com todo o encanto.
– Isto é mesmo uma banheira? – perguntei enojado.
– Deus não mente – respondeu Ele, com um trejeito de infelicidade resignada, enquanto coçava as virilhas com ambas as mãos. – Adeus, meu rapaz, tenho de ir à procura de outro escolhido, tu não serves.
– Não?
– Era mais fácil o mar dar peras! – respondeu Deus prontamente, com uma gargalhada. – Peras!

Segunda-feira

Ia escrever outra coisa qualquer, ainda não tinha decidido o quê, nem fazia a mínima ideia do que poderia ser, mas ia escrever outra coisa qualquer. Podem ter a certeza!
É verdade, não era nada disto que eu ia escrever, mas assim que vi elrpcl sob o pomposo título Verificação de palavras, não consegui escrever mais nada. Que pouca sorte!
elrpcl?! Verificação de palavras?! Palavras?!
elrpcl?! Que raio de palavra é essa?
Que eu saiba, agrupar letras ainda não é formar palavras ou é?!
Será que os tipos do blogger acham que juntando, colorindo e inclinando as letras estão a inventar palavras?
E será que eles primeiro juntam, pintam e depois inclinam ou pintam, juntam e inclinam ou inclinam, juntam e pintam ou pintam, inclinam e juntam?
Eu acho que eles primeiro inclinam as letras, o que lhes deve dar uma trabalheira danada, reparem que as letras estão sempre impecavelmente inclinadas como eles querem. Vê-se bem, até um leigo como eu consegue ver, que a inclinação é a correcta e está optimizada para nos deixar em atenta veneração. Não há ali uma falha, uma incorrecção, um desvio à calculada e pretendida inclinação. elrpcl pode não ser uma palavra, mas disso a inclinação não tem culpa, antes pelo contrário!
Só depois, é a minha opinião, vêm os tipos que juntam as letras, aproveitando a inclinação definida pelos técnicos para agrupar as letras de forma harmoniosa e perfeita. De quando em vez, não sei se já repararam, há a intervenção de um tipo com um sentido de humor "muit'à frente" e que se diverte, e nos diverte, subvertendo e/ou dando novos significados à arte de juntar letras. Notem que foi aqui o caso, o "rpc" estão encostados uns aos outros o que não acontece com os dois "l" e com o "e"... Vocês podem nem se aperceber, mas há aqui todo um mundo de significados... isto é uma coisa absolutamente extraordinária... "muit'à frente!"
Por fim, surgem os tipos, que devem ser tipas, pois o bom gosto impera, que dão cor às letras. E é, mais uma vez, uma delicia. Uma delicia! Pensem bem, conseguiam pensar em elrpcl sem ser em verde? Acham que era a mesma coisa se viesse aí um curioso qualquer armado aos cucos e colorisse elrpcl de outra cor qualquer? Claro que não era! Foram precisos anos, meses, semanas, dias, horas, vá lá, alguns minutos, aí uns dois, para se ter capacidade para escolher a cor certa. Não é fácil! Nada fácil!

A todos os que criam, inclinam, juntam e coloram as palavras que nós, às vezes, tão displicentemente, verificamos, um grande BEM HAJA e que elrpcl vos ilumine todos os dias das vossas longas e profícuas vidas!
Obrigado!