a bem dizer, o 25 de Abril, esse golpe de estado que a meio da manhã mudou de roupa (foi o povo! foi o povo!) e passou a revolução (perderam-se os caquis, os verdes azeitona e as botas de quilo, ganharam as bocas de sino, as golas altas e os colarinhos italianos que quase tapavam os ombros) também serviu para isto, um tipo qualquer vir todas as sextas-feiras maçar-vos com mais uma estucha de uns episódios compridos como tudo de um folhetim que é quase pior que o PREC.
Siga a marinha, que a tropa está cansada!
O FOLHETIM (ninguém sugere um nome?)
“Good Thing”
Indiferente ao que se passava em baixo, Toni DJ aproveitava a confusão para pôr as musicas que lhe apetecia, no caso os Fine Young Cannibals.
Perdiz cruzou os braços e, aproveitando os movimentos de Big para se soltar do abraço horizontal do Porteiro, dava-lhe disfarçadas mas certeiras caneladas.
Nelson não tocava em Kitty. Pedia-lhe educadamente que soltasse as orelhas do irmão, mas não lhe tocava. Os olhos não conseguiam tanto, pois, ainda que ela não os sentisse, não lhe concediam um segundo de descanso. Nelson ora lhe estudava as costas quase nuas, ora se detinha com cuidados de botânico nas pernas dela, que envolviam o seu irmão, ora procurava com afinco de mineiro as nádegas entre os movimentos da mini-saia, que se enrodilhava e desenrodilhava como se tivesse ganho vida própria. E sorria.
Big sentia as canelas serem picadas de cada vez que mexia as pernas para o lado de Perdiz, mas além dos braços pacificamente arrumados e de uma ligeira aura de humidade ao redor da braguilha do outro, nada conseguia ver, não sabendo, com certeza, ainda que suspeitasse, de onde caíam as caneladas. Além de que, as pontuais dores nos artelhos e nas canelas, não eram nada perante a dificuldade que tinha em respirar, devido ao peso do Porteiro sobre si e aos joelhos de Kitty, que na sua fúria libertadora, de quando em vez, lhe acertavam em cheio no pequeno Mr. Big e nos seus dois acompanhantes.
O Porteiro não sabia se havia de largar Big e desenvencilhar-se de Kitty ou manter Big manietado e aguentar estoicamente as orelhas a serem deslocadas de sítio ou levantar-se com Big, deitando Kitty ao chão. Procurava com olhar suplicante a ajuda da Patroa e com gritos de menina o auxílio do irmão. E, pior do que tudo o que lhe estava a acontecer, preocupava-se com os danos que pudessem estar, nesse momento, a ser infligidos ao seu estimado sobretudo, que só aceitava, por sentir que aquele estava a ficar impregnado dos odores e humores mais íntimos de Miss Kitty.
25
A Patroa esperou os trinta segundos da ordem para que a coisa se resolvesse por si. Viu Big tombar sob o peso de Rodrigues. Viu Kitty lançar-se sobre o Porteiro. Viu o sorriso de Perdiz e os movimentos do seu pé direito. Viu o atabalhoamente sorridente de Nelson e o seu interesse na anatomia de Kitty. Ouviu as músicas com que Toni DJ impregnava o ambiente com os restos dos anos 80. Sentiu as dores de Big de cada vez que um dos joelhos de Kitty, ou ambos, tombavam sobre si, como uma das pragas do Egipto. E, por fim, olhou em volta e viu ainda a movimentação de clientes, curiosos e putas, tendo até percebido a movimentação furtiva e contra as regras de Palmira, levando Cardoso pela porta de exclusivo serviço das putas.
Viu tudo e deixou-se ficar, como se nada visse. Luísa admirava-lhe a contenção e disse, só para a Patroa ouvir:
– Trinta segundos.
D. Micas ouviu, suspirou e descolou as costas do balcão. Semicerrou os olhos, escondeu os dentes e, praticamente, os lábios, que ficaram como um ríspido e duro risco, e dirigiu-se lenta mas decididamente ao foco de instabilidade.
A sua movimentação, felina e aristocrática, pareceu ser notada imediatamente por todos os que se encontravam no estabelecimento, que se focaram em si e já não na briga.
Dos intervenientes, Perdiz foi o primeiro a sentir o seu ferroso olhar – não só a expressão da Patroa endurecia, como os olhos pareciam mudar de cor, do castanho baço da profissional da noite, os olhos escureciam e apareciam entre o ferro ferrugento e o mais profundo negro. Perdiz olhou-a comprometido, mas não desviou o olhar. D. Micas, sem alarido, fez-lhe sinal com as mãos e a cabeça para se afastar, e ordenou a Isabel, que lhe servisse uma água com gás fresca e o levasse para o sofá.
– Isabel, sirva uma água fresca com gás ao senhor Floriano – disse, como se o narrador ainda não vos tivesse dito nada. – Sirva-o no sofá.
Perdiz deu mais uma canelada em Big de passagem e dirigiu-se ao sofá, sem reclamar.
– Levantem-se! – intimou a Patroa, sem levantar a voz, dirigindo-se ao trio, que continuava espojado por camadas como um mil-folhas.
Miss Kitty e Rodrigues, ouvindo a voz autoritária da Patroa, suspenderam imediatamente a escaramuça. Kitty largou as orelhas do porteiro e, com um sorriso tímido, recebeu o acolhedor braço de Nelson que a ajudou a erguer-se, o que fez sem levantar os olhos. Rodrigues fixou Big em jeito de ameaça e, em silêncio, largou o outro e pôs-se de pé, com uma agilidade que o tamanho e o peso não faziam adivinhar. Postou-se ao lado do irmão, desamarrotando o sobretudo, cheio de vontade de o tirar e cheirar-lhe as costas.
Big falou, esbracejou e levantou-se a custo e com cara de mau, que achou que lhe ficava bem.
D. Micas aproveitou o hiato provocado pela pantomima de Big e cravou o olhar em Toni DJ, que entretanto avançara para “Kiss” do artista que então, parece que agora outra vez, era conhecido por Prince.
Toni sentiu o olhar mortífero da Patroa, sorriu como se estivesse a chupar limões ou a acariciar urtigas e calou a música, toda a música, e, aborrecido, retirou os dois cd’s dos leitores incorporados na mesa de mistura, arrumou-os e procurou música nova para tocar.
Micas sorriu, o silêncio soube-lhe bem, tal como a encarneirada prontidão dos presentes para lhe obedecer. Fez sinal ao porteiro para ir para a porta e a Kitty para esperar e fixou-se em Big:
– É a primeira vez?
Ele olhou-a nos olhos, sentiu uma comichão purulenta na face e desviou o olhar.
– A primeira vez? – repetiu Big, constrangido. – A primeira vez, que quê?
Micas envolveu Big pelos ombros com o braço direito e puxou-o para si.
Fernando e Caramelo aproximaram-se.
– Ele veio connosco, D. Micas – informou Fernando.
– Como se isso fosse uma boa notícia – zombou a Patroa.
vintesseis
Caramelo olhou para Fernando e perguntou, enquanto os dois viam Big ser levado por D. Micas:
– E agora?
Fernando encolheu os ombros, passou a mão pela cara e resmungou:
– Sei lá… Não estou a perceber nada disto.
– Deve ser da hora – sugeriu Caramelo, olhando para o relógio e encolhendo os ombros. – A esta hora, isto ainda não é bem uma casa de putas.
Fernando que lhe virara as costas para se encostar ao balcão, deixou descair os dois dedos que erguera para pedir duas minis a Cosme, deixou cair o cotovelo no balcão e virou a cabeça para o outro.
– Então, a esta hora isto é exactamente o quê?
Caramelo aproximou-se do balcão, tornou a encolher os ombros em resposta ao outro e quis saber:
– Estás a pedir para mim?
– Fernando, são duas minis? – perguntou Cosme, que se aproximara.
O cliente assentiu com a cabeça, esperou que o empregado colocasse as cervejas no balcão, estendeu uma nota de cinco euros para pagar e perguntou:
– Ouve lá, Cosme, mas que raio se está a passar aqui hoje?
– Parece que estamos num episódio da Quinta Dimensão – acrescentou Caramelo.
Cosme riu e cantarolou o tema do genérico da série.
– Da primeira, do Rod Sterling – reconheceu Cosme. – Da original!
Fernando deixou os outros dois rirem, agarrou na garrafa e apalpou a sala: Floriano já estava no seu sofá, agarrado a um copo de água com gás; Kitty dava a volta ao balcão para entrar para a copa; Isabel voltava em passos rápidos para trás do balcão, como se não pudesse sair de lá; Rodrigues, o porteiro, de cara fechada como o sobretudo, encostara-se ao umbral da porta da rua, olhando ora para fora, ora para dentro, sempre com a mesma cara de caso; o dono do outro sobretudo encostara-se à entrada do balcão e de mão no copo de Sumol, olhava fixamente para Luísa; esta mantinha-se soberanamente no mesmo lugar, controlando tudo; Toni DJ, de copo de imperial na mão, abanava-se indolentemente ao som de “Grace Kelly”, de Mika, como se fizesse um favor a alguém, escolhera-o pelas parecenças com Freddy Mercury, a música lembrava-lhe Bycicle Race ou, principalmente, Bohemian Rhapsody, ainda que não tivesse nada a ver, mas o timbre e o falsete de um e de outro tinham; o resto da sala, putas, clientes e curiosos agiam com uma normalidade desarmante, espantou-se Fernando, como se nada se tivesse passado.
– Mas, afinal, Cosme – retomou Fernando, quando o riso e a música da Quinta Dimensão se desvaneceram –, o que é que se passa aqui hoje? Parece que está tudo dormente…
Não vou dizer que Cosme encolheu os ombros que esta é imagem estafada por aqui. Em meia dúzia de linhas, já se encolheram ombros para uma semana inteira, mas, na realidade, foi o que o empregado fez, com a agravante de ter tirado e mostrado a língua a Fernando, num gesto indelicado que pretendia demonstrar a indiferença do outro perante aquele que não acompanhara o coro de “tananinas tanananas” que Cosme e Caramelo cantaram com a devoção de um Salmo.
Caramelo já não viu a língua espetada de Cosme, pois, quando se virou, por acaso, para a sala, no fim dos “tananinas tanananas” bateu com os olhos em Isabel, que também o olhou, e estugou o passo para chegar ao balcão. Caramelo sorriu, no que não foi correspondido, e reparou pela primeira vez no corpo bem torneado da recatada empregada de balcão que – ele ainda não sabia – nunca mostrava os dentes aos clientes. Gostou do avental cor-de-laranja forte atado à cintura e que lhe chegava aos pés e da larga t-shirt preta, que lhe escondia o tronco bem proporcionado e os seios perfeitos. Adorou a passada decidida da mulher e a dança contida, amarrada, do avental sob as suas pernas e esperou que ela passasse, para apreciar a forma sensual como o avental fechava e se abria atrás enquanto ela andava, permitindo-lhe adivinhar, nas passadas mais largas, o contorno das nádegas firmes e arrebitadas de Isabel. Caramelo esqueceu a anterior experiência na casa e suspirou apaixonado.
um dois e um sete
Big sentia-se uma marioneta seguindo debaixo do braço da Patroa, quando esta os dirigiu ao local de onde saíra e onde ainda estava Luísa.
– É a primeira vez? – tornou a perguntar a Patroa.
– Que venho aqui? – arriscou Big, olhando em volta.
– Sim – a Patroa riu. – O que é que havia de ser?
Big corou.
– Não – informou.
– Já cá tinhas vindo? – duvidou a Patroa.
Big não gostava do tratamento por tu, mas gostou do olhar de Luísa.
– Luísa, arranja uma bebida ao senhor – disse a Patroa. – Sê boa anfitriã.
– Estava a beber whisky, não era? – quis confirmar Luísa.
Big assentiu com a cabeça, mas recusou:
– Mas não quero mais, obrigado.
– Então?
– Não quero beber nada – informou Big, soltando-se sorrateiramente do braço da Patroa.
– A Kitty? – perguntou Luísa.
– Que vá jantar – ordenou secamente a Patroa. – Eu já falo com ela.
“All Good Things (Must Come to an End)”, Nelly Furtado, com Chris Martin.
– Ela não teve culpa de nada – disse Big, enquanto via Luísa dirigir-se a Kitty.
– Não? – A Patroa virou-se de frente para ele. – Então?
– Não, a culpa foi minha – Big encarou a Patroa. – Acho que me entusiasmei mas, ao mesmo tempo…
– Não querias ir – atalhou a mulher.
– Pois… – ele suspirou ruidosamente, mas não desviou o olhar, cerrou os lábios e juntou as sobrancelhas, num trejeito de resignação envergonhada. – A senhora é que é a dona do… do estabelecimento, não é?
– Sou – o olhar meio perdido de Big fez cócegas na Patroa, que não conseguiu evitar um sorriso.
– A Miss Kitty não teve culpa – recomeçou Big. – Ela estava a trabalhar, eu é que dei ideia de uma coisa, mas depois encolhi-me… Desculpe.
– Nunca foste com uma menina? – adocicou a Patroa.
– Não – confessou Big. – Nem queria, mas…
– Depois de conheceres a Kitty, balançaste, confessa!
Big baixou e ergueu a cabeça três vezes, concordando.
A Patroa soltou uma gargalhada:
– Vocês são todos iguais! Todos iguais!
