O PRIMEIRO POST (escrito tanto tempo depois)
Já sei.
Já?
Já. Está decidido.
Então?
Vou escrever um diário.
Um diário?! Um diário de quê?
Da minha vida.
Da tua vida?
Sim, estás a rir-te porquê?
Da tua vida?!
Sim, da minha vida! Podes parar?! Qual é a graça?
Não é nenhuma...
Então, cala-te!
Mas, é por isso mesmo que me estou a rir: a tua vida não tem graça nenhuma!
Invento!
Ah! Só se for...
O diário da minha vida depois do divórcio...
Do divórcio?!
Sim e...
Do divórcio?!
Sim, já te disse que é a minha vida depois do divórcio...
De quem?!
De quem, o quê?
O divórcio! A tua vida depois do divórcio de quem?!
Meu, de quem é que havia de ser?
Ah!... Claro, teu. Do teu divórcio!
Sim, se é a minha vida, é o meu divórcio.
O teu divórcio!
Sim, o meu divórcio! Que parte é que não percebeste?
Vais-te casar?
Não, porquê?
Então, onde é que arranjas um divórcio?
É a fingir, é um diário inventado, é o meu diário, mas eu sou outro.
Vais escrever um diário de outro gajo?
Não! Vou inventar um gajo e escrever-lhe o diário...
Depois dele se divorciar?
Sim.
Porquê?
Porquê o quê?
Porque é que se divorciaram?
Quem?
O gajo e a mulher!
Quem?!
Tu, ou melhor, o gajo do teu diário!
Ah!
Divorciou-se porquê?
Divorciou-se?
Bolas! O diário não é depois do gajo se ter divorciado?
É.
Então, tens de ter uma razão para os gajos se divorciarem!
Pois tenho.
Qual foi? Qual foi a razão?
Sei lá, ainda não comecei a escrever!
E o que é isto?
É o princípio.
De quê?
Do blog.
Qual blog?
O diário...
Do gajo que se divorciou?
Sim.
Então já começaste! O gajo divorciou-se porquê?
És chato! Sei lá, ainda não cheguei a essa parte.
Mas o diário não começa depois dele se divorciar?
Começa.
Quer dizer que o tipo já está divorciado.
Sim...
Então, tens de saber! Isso é antes do início! Isso é prévio ao próprio diário!
É, mas como sou eu que escrevo, eu é que sei.
Sabes?
Sei, mas isso ainda não.
E isto? Isto é exactamente o quê?
Uma preparação.
De quê?
Dos leitores.
Quais leitores?
Do blog.
Isto é um blog?
É.
E eu?
Tu?! Tu o quê?
Quem é que eu sou?
Sei lá! Estás-me a ajudar a preparar os leitores.
Para quê?
Para o que se vai seguir.
Precisam de preparação, é?
É.
É assim tão mau?
É um bocadinho, isto é um exemplo, estás a ver?
Se lerem isto conseguem ler o resto?
Sim, basicamente é essa a ideia.
E eu?
Tu o quê?
Quando é que recebo?
Recebes?!
Sim, por prepará-los!
Quando começar a dar qualquer coisa...
Isto?
Sim.
Então, vou andando que aqui não me safo!
Já vais?
Já, a minha vida não é isto...
Ah...
Olha! Mas de qualquer maneira: Boa sorte, que bem precisas.
Obrigado. Lês?
Achas?! Isto!?
É original.
O quê?
Nunca ninguém começou um blog assim.
E achas que foi porquê?
O quê?
Que ninguém começou um blog assim!
Nunca ninguém se lembrou?
É capaz, ninguém no seu perfeito juízo se lembraria...
Estás a chamar-me maluco?!
Eu?!
Sim, estavas a dizer que ninguém no seu perfeito juízo...
Claro! Desde quando é que se começa um blog assim?!
Desde hoje!
Está bem, por mim... desde que não me identifiques!
Não queres?!
Nem pensar.
Mas és o autor!
Autor?! Autor de quê?
Do blog, ora essa.
E tu?
Eu sou o narrador.
Qual narrador?
Do blog, de alguns posts.
E eu sou o autor?
Sim, és.
Não pode ser.
Pode e és, meu amigo.
Eu não sou teu amigo!
És o meu criador...
Mas isso não quer dizer que seja teu amigo! Sou o autor deste blog?
Está pior! És, não sabias?
Não! Não disseste que eu só estava a preparar os leitores?
Narrei, mas quem realmente escreveu foste tu.
Estou a ver... fui eu...
Foste. Continuas a não querer ser identificado?
Claro! Agora ainda menos. Vamos é começar isto, para eu me ir embora. Tu és o narrador, não é?
Sou, queres mudar?
Mudar?! Mudar o quê?
De narrador ou passares tu a ser o narrador...
Nem pensar! Eu vou-me já embora!
Não escreves?
É preciso?! Não és capaz de narrar sozinho? Isto não é o teu diário?
Hum... É o meu diário, de facto.
E o teu divórcio.
Sim, és capaz de ter razão. Se calhar, posso narrar sozinho.
E era mais genuíno!
Pois era! Não havia cá interferências exteriores!
Nem mais! Nem autores, nem bodegas. Um narrador e pronto!
Estou a ver...
Posso ir?
Podes! Eu acho que me desenrasco!
Adeus.
Depois dizes qualquer coisa? Escreves qualquer coisa?
Não, não é preciso, tu desenrascas-te.
Mas tu és o autor, tens de cá vir de vez em quando!
Tu és um bom narrador, narra à vontade!
Se tu o dizes!
Eu?! Eu não digo nada!
Não?
Não!
Ai é?! Eu também já não narro!
Não?
Não! "Pósto" só isto e pronto!
Então, posta, para veres os nomes que te chamam!
Vão-me chamar nomes?
Se alguém ler até ao fim e der-se ao trabalho, o que não acredito, só podem injuriar-te, ofender-te, qualificar a tua mãe...
Que se lixe, eu também não tenho mãe!
Não?
Não, eu sou só um narrador.
E os narradores não têm mãe?
Alguns podem ter, eu não.
Então, posta "p'raí"!
Só este.
Por mim...
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