(alguém se lembra do Pereira da repartição? É ele!)
– Está muito cheio, doutor? – Pergunta-me a lasciva empregada de balcão, que, até hoje, não me deu abébias, "ou comia-me e mais qualquer coisa?" parece perguntar-me, surpreendendo-me.
Olhámos para a chávena de café, está quase a transbordar. Os nossos quatro olhos – três, virei a saber depois – encontram-se uns centímetros acima do café, ela sorri e eu retribuo.
– Ainda cabia mais qualquer coisa... – digo, tentando apresentar uma expressão facial sorridente e dúbia que pudesse corresponder ao pensamento entre aspas que acabam de ler e que eu acho que ela estava a ter.
A pastelaria está quase deserta, tirando umas doze ou quatorze pessoas sentadas e outras sete ou oito em pé, isto, claro, se formos generosos e tivermos a malha pouco apertada quanto à definição de pessoas. Ela ignora olimpicamente pedidos e chamadas de atenção e mantém-me no centro das suas atenções. Eu estou excitadamente nervoso ou nervosamente excitado, nem sei, mas estou a gostar. Ela encolhe o sorriso, mas não se afasta, põe ar de menina travessa e pergunta:
– Acha, doutor? – carregando sensualmente no doutor. – Conseguia e... – ronrona – comia?
"Se conseguia?! Se conseguia?!", eu já vou a duzentos à hora, pronto para me estampar ao mínimo deslize. Hesito na resposta, ela deixa crescer o meio sorriso ante a minha evidente atrapalhação, a expressão facial sorridente e dúbia já era. Devo acrescentar, sem jurar, que ouvi um "me" no fim do ronronado "comia" mas por essa altura, após a pausa que antecedeu o miado, já pouco ouvia, confesso, provavelmente terei imaginado, ela não me disse "comia-me?", ainda que a expressão do Oliveira que se colou a mim me fizesse crer exactamente o contrário, ele ouviu, conseguirá ainda em choque dizer-me umas horas depois, mas também não acreditou.
Respiro fundo, faço que estudo o tampo do balcão e torno a respirar, parece-me que se não me capacitar que o tenho de fazer o meu corpo não o faz por mim. Inspiro. Expiro. Inspiro.
– Quando é bom, cabe sempre mais qualquer coisa – respondo por fim, ignorando a última pergunta. Inspiro. Expiro. – Como se costuma dizer, quem come por gosto...
– Não é corre, doutor?
– Mas quem come com gosto também não se cansa, não acha?
– Lá isso é verdade – ela abre o sorriso. Eu mexo o café e entorno para o pires, mas faço-me despercebido, como se fosse de propósito. Ela continua: – E gostava de... – baixa e torna a levantar os olhos, encontrando-os com os meus. – Quero dizer, gostava... O doutor gosta de comer?
Decido dar um passo em frente, que se lixe, não sou doutor.
– Gostava – faço uma pausa para sublinhar o gostava e concluo como se estivesse seguro do que estou a dizer: – Gostava, gostava muito de... comer – o "a" é que não tive coragem de incluir, não saiu ainda que eu não pensasse noutra coisa. – Quero dizer, gosto, gosto muito de comer.
A frase soou-me mal, muito rasteira, ou melhor, o acrescento soou-me mal, mal metido, muito evidente, sem graça e temi o pior. Ela enigmatizou o sorriso e o olhar e atendeu displicentemente aquele a quem já se tem chamado Borrego, mas que não entra nesta história.
Bebi o café.
Ela não me olhou.
Tirei as moedas do bolso e coloquei uma de 50 cêntimos em cima do balcão. Olhei para dentro da chávena, confirmando que bebera tudo e, na certeza, de que a responsabilidade do insucesso era minha, preparava-me para sair.
– Já vai, doutor? – perguntou com uma ponta de tristeza. – Afinal, não come nada?
"Mau" penso, tentando esfriar o entusiasmo, quando a esmola é muita o pobre desconfia ou, pelo menos, devia desconfiar.
– O que eu queria – fixo-me nos seus olhos, – não posso comer agora! – com ponto de exclamação e tudo. Agora agarra, vamos lá ver se te desenrascas desta, venho aqui há dois anos e hoje, de repente, passas do oito para o oito mil sem justificação, nem preparação prévia. Eu sei que sou giro, mas isto é demais.
Ela abre o sorriso que se estende a toda a face, não!, a todo o corpo.
– É? – Agarra na minha chávena e pires. – E o que é que o doutor queria comer que não pode comer agora?
– Ah!...
E, felizmente, o Oliveira e o Borrego em coro, como duas meninas, começaram a tossir, a agitar-se, quase a desfalecer e ela com uma careta safou-me:
– É melhor ajudar os seus amigos, doutor, que eles não me parecem nada bem – piscou o olho direito e murmurou: – Amanhã à mesma hora e não se esqueça de me dar a resposta!
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